Editorial extraído da edição de agosto de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
No fim de junho, anunciamos o aumento no valor das assinaturas — de R$ 70 para R$ 80 na categoria básica — e, para surpresa da equipe, a resposta foi extremamente positiva. Recebemos apoio, carinho e novas assinaturas, além de renovações antecipadas e mensagens incentivadoras dos leitores. Esse reforço financeiro garantiu o primeiro superávit de 2025, que foi revertido na ampliação da distribuição do Jornal. A nova edição traz, na página 23, o Mapa de Distribuição atualizado: o RelevO agora chega a quase 300 pontos de distribuição. A proposta é ampliar o acesso e convidar mais pessoas a participar dessa estranha, porém insistente, experiência impressa, à beira de completar 15 anos em setembro.
Aliás, também por conta disso e daquilo, temos novidades diagramantes.
De fato, o ofício da diagramação se descreve, em linhas gerais, como a aplicação de conhecimentos tipográficos na disposição de elementos textuais, pictóricos e esquemáticos em um suporte, seja ele destinado ao impresso ou ao digital. Tal afazer varia um tanto, em espírito, conforme a natureza do material a ser diagramado. Para o RelevO, a diagramação é uma negociação entre a quantidade de texto para cada página e os demais elementos que precisam dialogar com ele: as ilustrações dos artistas convidados, os anúncios e o que mais for surgindo de surpresa. O desafio do diagramador é tentar deixar cada elemento “respirar”: organizar tudo que se destina ao retangulóide de 28 por 32 centímetros, respeitando as margens e os espaços em branco que geram o equilíbrio que tanto agrada aos leitores (dizem).
Não há muito segredo em relação a esse aspecto. As estrelas do show serão sempre os textos, em seu conteúdo, e as ilustrações. São poucos os elementos gráficos que os acompanham pelas páginas. Um ou outro fio separador, alguma criatividade na hora de criar numerações de capítulos ou subtítulo e pronto. Na página 2, com a ajuda do Flourish, trazemos também alguns gráficos. Há poucos ícones, usados para representar as seções fixas do periódico. A caneca de café quente representa o editorial, embora um copo de uísque seria mais fidedigno. O guarda-chuva protege o ombudsman das possíveis bolinhas de papel arremessadas pelos leitores. O conselho editorial ganhou um ícone também: um óculos, porque eles precisam ler coisas e isso cansa as vistas.
Por muito tempo, usamos a fonte Bembo para compor o corpo de texto. Essa era a fonte que conferia materialidade aos contos, poemas e ensaios enviados pelos autores. Uma bela fonte de estilo renascentista: serifada, com leve angulação para a esquerda em seu eixo compositivo, com algarismos oldstyle obedecendo às linhas de ascendentes e descendentes do restante dos outros caracteres. Seu desenho contemporâneo foi elaborado pela fundição britânica Monotype nos anos 1920, buscando como inspiração os traços do tipógrafo renascentista Aldo Manúcio, que desenhou várias letras para sua oficina de impressos localizada na Veneza do século 16.
A versão da Bembo empregada pelo Jornal tinha apenas quatro variações: regular, itálico, negrito e itálico-negrito. A partir da edição de agosto, a Bembo dá lugar à fonte Newsreader, desenvolvida em 2021 pela equipe da fundição parisiense Production Type e distribuída a partir dos critérios da iniciativa Open Font License (v.1.1). Isso significa que o RelevO é livre para usar seus estilos em composições impressas e digitais gratuitamente. A Newsreader tem 3 famílias de fontes, com 14 estilos cada uma. Isso nos dá uma considerável liberdade para explorar composições, combinando itálicos e regulares com diferentes pesos, engrandecendo a diversidade visual dos textos dos nossos autores.
Os títulos dos textos, por outro lado, não tem uma fonte definida porque estamos já há algumas edições fazendo experimentos. Cada novo volume elege um ou mais estilos para personalizar os títulos. Um pequeno disclaimer na página 2 traz os créditos para os tipógrafos escolhidos. Acreditamos que isso dá a cada edição um tempero próprio.
O Jornal ainda conta com uma fonte auxiliar, usada para legendas, cabeçalhos, nomes de autores e demais informações que acompanham os textos. Até o momento, a face tipográfica Avenir era a escolhida para o papel. Desenhada nos anos 1980 pelo famoso designer Adrian Frutiger, essa fonte é uma releitura da Futura, uma letra popular desde o início do século 20 e de autoria de Paul Renner. A Futura trazia formas geométricas para suas letras, respeitando um estilo minimalista no qual a economia dos traços simbolizava uma busca por uma suposta eficiência comunicacional — um espírito da “forma que deve seguir a função” que ditou muitas das decisões dos designers modernistas que optaram por eliminar serifas e modulações de traços presentes nas letras que estavam desenhando. A Avenir tentava respeitar essa tradição ao mesmo tempo, em que resgatava a organicidade das letras humanistas que a precederam.
Agora, o RelevO substitui a Avenir por uma família de fontes chamada Work Sans, projetada pelo tipógrafo australiano Wei Huang em 2020. Wei Huang acredita que desenhar letras é uma forma de meditação. A grande vantagem da Work Sans é que, ao mesmo tempo em que mantém as características das fontes grotescas (o aspecto geométrico e a baixa modulação dos traços), ela faz uso da tecnologia das fontes variáveis. A maioria dos softwares de composição de layout, hoje em dia, permite manipular fontes variáveis a partir de comandos numéricos. Ou seja, a Work Sans é configurada em valores que vão de 100 a 900, representando diferentes pesos. Isso permite que a utilizemos de formas bastantes diversas, tornando-a extremamente versátil. A Work Sans também é disponibilizada por meio da Open Font License.
Essa padronização tipográfica, quando aplicada nas páginas do RelevO, obedece a um grid de 12 colunas, que se adapta para receber textos em duas, três ou quatro colunas, dependendo da sua densidade ou tamanho. O importante, nessas horas, é tentar manter uma identidade entre as páginas, para não deixar o leitor perdido achando que um texto está com alguma parte faltando ou que seu jornal veio incompleto. Não eliminamos a possibilidade disso acontecer, claro, mas é importante que, em termos de diagramação, não restem tais ambiguidades.
O último elemento que compõe o projeto gráfico do Jornal são as pequenas gravuras que aparecem acompanhando os números das páginas, no cabeçalho, ou também, muitas vezes, ilustrando os textos das páginas centrais. Trata-se de imagens de jornais, livros e revistas que caíram no domínio público e estão disponíveis em bibliotecas digitais gratuitamente. Após um rápido tratamento, elas estão aptas a compor as mensagens secretas que estou tentando enviar aos meus colegas foragidos por meio das páginas deste impresso.
Ufa! Tudo gira ao redor de esqueletos.
Uma boa leitura a todos.
