Editorial extraído da edição de maio de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
Há alguns anos, um certo senhor (cujo nome não lembro) afirmou por aí que a crônica respirava mal no Brasil, e que estávamos à beira de seu leito de morte. Lembro bem de minha reação de surpresa, pois acompanhava muitas cronistas, por exemplo Ana Elisa Ribeiro, que publicava na revista Pessoa, e Maíra Ferreira, que postava em algumas plataformas online. Hoje, há uma explosão de crônicas enviadas por newsletters e publicadas em revistas independentes digitais. Eu mesma recebia semanalmente diversas crônicas quando era editora e curadora da revista Toró, e muitas eram excelentes e foram publicadas nas edições do periódico.
Não sei qual parâmetro de análise que aquele senhor usou para chegar à conclusão de que a crônica brasileira estava chegando ao fim, mas eu tendo a concluir o contrário: a crônica está vivíssima. Atualmente, é produzida por muitas mulheres também (historicamente foi um gênero atribuído à produção masculina) e ocupa um lugar fundamental na produção literária de nosso país.
Lendo as cartas de abril do RelevO, fiquei pensando em como o impresso afeta profundamente as pessoas, já que é um gerador de experiências: nos proporciona pausa, reflexão, nos oferece o cheiro do papel, nos irrita quando atrasa, precisa que viremos a página devagar para acompanharmos a leitura. É um organismo vivo. A crônica também exige momentos de presença para ser produzida. Precisamos tirar os olhos do celular para captar as histórias do mundo, da cidade, os pequenos acontecimentos diários que podem se tornam matéria cronista (ou poética, pois a poesia é irmã siamesa da crônica).
Dito isso, por que quase não temos crônicas publicadas no RelevO? É um gênero que combina muito com o impresso, e acredito que somaria positivamente às edições se o jornal priorizasse a publicação desse gênero (tantas vezes considerado uma literatura “menor”, o que eu acho uma grande de uma baboseira). Sugiro que os leitores-escritores que estão lendo este ombudsmandato encham a caixa de e-mail do editor com crônicas, perturbem a vida do jornal pelas redes sociais. Quanto ao jornal, sugiro que abra algum tipo de chamamento para crônicas, para que venha para análise um volume maior desse gênero e, consequentemente, apareçam textos interessantes para publicação.
Sugerir é muito mais fácil do que colocar a mão na massa, editar o jornal e fazer a curadoria dos textos, sabemos. Como ombudsman, uma das minhas tarefas é tensionar as faltas que observo no RelevO. Além da crônica, acredito que seria interessante termos mais lero-lero, digo, crítica literária por aqui. Afinal, outra coisa que adoram dizer é que a crítica morreu, mas o que mais tem no mundo é gente que adora falar mal dos outros. Que tal explorar esse lado humaníssimo do nosso meio literário?

