amanda vital: Ombudswoman 4: porque ficar nos bastidores faz parte

Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Sim, car_s leitor_s, é difícil. Já virou clichê afirmar que o nosso tão querido e mui belicoso meio literário tem muitas panelinhas, muitos gatekeepings, muita curadoria de caráter duvidoso, muita crítica literária “do bem” pra puxar sardinha de amig_s, muita rodinha fechada, muito clubismo e coletivo falsamente aberto, mas que não aceita toda a gente que eles dizem aceitar, muita não-democratização da literatura, muito paternalismo, muita picaretagem, muita exaltação do medíocre e do mediano, muito oportunismo — em seus diversos artifícios, não apenas o que todo mundo culpa, esse “surfar na onda da representatividade”, sendo que há camadas muito mais graves e, vamos ser sinceros?, mais concretamente plausíveis e verdadeiras — facilmente comprável. E é frustrante. Eu sei, eu sei. A dificuldade na divulgação é real, a tristeza pela recusa é totalmente compreensível, a falta de oportunidade que algumas pessoas encontram para apresentar seu trabalho por não terem um networking bacanérrimo é concreta. E a gente precisa falar sobre isso e sobre seus muitos pontos de fuga também.

Eu comecei a rascunhar esta coluna pensando em ficar apenas em uma mesma ideia: a de que nem sempre os holofotes são possíveis e está tudo certo em ver outras pessoas brilharem sem necessariamente você também estar lá. Que o meio literário tem que ter vozes, sim, mas também ouvidos. Leitor_s. Pessoas para prestigiar, vaiar, aplaudir, jogar tomates; ler, enfim, mas ler de verdade, não só falar que leu. Que a literatura não precisa ser feita só de uma praça com um monte de gente berrando versos em megafones e ninguém ouvindo ninguém. Que _s escritor_s não precisam aparecer o tempo todo, e que uma recusa não significa a verdade universal de que você escreve mal, mas que os espaços que temos a nosso alcance não são capazes de abranger tudo ao mesmo tempo agora. Que há suportes e suportes, e o suporte que publica X não vai publicar Y tão cedo (ao menos não com esse corpo editorial, não com essa curadoria — e é preciso percebê-la direitinho para não se frustrar com uma recusa depois). Que, se calhar, seu texto só não foi publicado porque não foi enviado no formato certo, no tempo certo, com a “concorrência” (?) certa, com o refinamento certo, com o cuidado certo com o texto. E que nem sempre o espaço onde cabe um, cabe o outro. E é verdade.

Mas terminei o rascunho com algo na cabeça: esse recado precisava ser, sobretudo, uma mensagem de afeto para aquel_s que se vão realmente abaixo com a rejeição. Que ficam genuinamente tristes, com aquela sensação pesada de derrota. Que não sentem inveja d_ coleguinha que está sendo premiad_ (como muita gente fica, e ess_s têm um caminho de desapego de egocentrismo um bocado longo para trilhar, mas que temos que estar aqui por el_s também), que não queriam estar em lugares onde outras pessoas estão. Que não saem por aí inventando plágios que não existem. Que nem passa pela cabeça patentear um estilo de escrita que nem é patenteável, porque é costurado por muitos outros discursos, muitas outras literaturas e que a gente, que lê, até as visualiza em seus textos (quem plagiou quem, então, mesmo?). Pessoas que só querem apresentar seu trabalho, mais nada. Que não se sentem gênios (não estou falando de donos da bola que saem sapateando embirradinhos porque suas obras-primas foram rejeitadas), só escrevem. Que sofrem por não ocuparem cargos importantes na literatura e sentem que por isso não são ninguém por aqui. Que qualquer mão estendida “por caridade” já é uma oportunidade brutalíssima e não enxergam maldade nisso. Esse é um abraço para vocês. Para _s que engavetam livros inteiros (e ótimos, às vezes) por falta de comunicação, de retorno, de leitor_s, de oportunidade. Esse é um abraço forte com um incentivo para continuarem tentando. Para descobrirem espaços onde se encaixem melhor do que aqueles onde dão com a cara na porta toda vez, por alguma leitura equivocada de que poderiam estar lá, mas que produzem coisas que acabam não se encaixando por puro choque de curadoria de estilo, mesmo, e mais nada. Para que tenham iniciativas bem-sucedidas para alavancarem as suas próprias oportunidades de serem escutados, as que não foram estendidas durante tanto tempo por motivos banais, por boicotagem, sei lá por quê. Para perceberem o que foi rejeitado por boicotagem ou porque a linha editorial era outra. Para continuarem escrevendo e continuarem lendo muito. Escrevendo um pouco de tudo. E lendo muito de tudo.

E um pedido: que leiam tudo com carinho. Sem ranço de suportes porque não te publicaram. Leiam o RelevO com carinho: mês passado, teve um texto muito bom sobre a picaretagem da pseudociência e o perigo anticiência que tem sido a astrologia atualmente (que bom que finalmente estão falando sobre isso em literatura, tem gente que tá danando a saúde física e mental pra caramba por causa disso), do Bolívar Escobar, a quem parabenizo a escrita bastante acessível, dada a certa complexidade que o tema pede; um conto ótimo da Mônica Silva, “O eucalipto”, fazendo todo um ciclo da glória, da beleza e da utilidade de um eucalipto, passando pela tragédia de uma derrubada oportunista, até o papel querendo ser árvore novamente (esse resumo não alcança o que a escrita da Mônica atingiu, um conto muito bem escrito, com trabalho e com ternura); alguns poemas do Tesla, livro excelente do Alexandre Guarnieri pela Patuá (com uma poesia genial e inventiva que ele tem feito, misturando a forma do poema e a mancha gráfica ao conteúdo, desafiando o papel, discutindo com outros autores e outras literaturas, sempre com centelhas de futurismo, de Revolução Industrial; é um livraço, de fato, e a colagem que acompanha a seleção é uma das que estão presentes no livro também); a RelevO Drinks, minicrônicas que renderam muita risada gostosa, essa tiração de sarro de bebidinhas gourmetizadas que a gente adora (a tiração de sarro, não as bebidinhas); um ótimo trecho do livro de Jonathan Crary, nos lembrando da necessidade de reflexão sobre como o ultracapitalismo e o perigo do excesso da reprodutibilidade de tudo (não só arte) afeta nossa qualidade de vida e nossa percepção calma e atenta sobre o mundo; dialogando — ainda que indiretamente (e não-intencionalmente) — com o poema de Finuala Downling (creio que seja do arquivo Escamandro), que tece um looping e aponta o que, de verdade, permanece, no fim de tudo: a arte, o sensível, a Polonaise; o poema de Valentina Chakr faz um efeito cascata com looping também do final para o começo, com um paralelismo entre lhamas e a pressão estética que sofremos no cotidiano — quando na vida leríamos um poema fazendo um comparativo como esse?; o Yuri Araújo teve um texto bacana sobre os vários tipos de amores e desamores, bem leve e despretensioso, leitura bem gostosa para o final de um suplemento literário. Queria que o trecho do poema de Carmen Bruna, da contracapa, fosse com um recorte um bocadinho maior — vejo potência e beleza ali, mas o recorte não alcançou. Acho que em poesia, no geral, ficou um gostinho de “quero mais”.

E ao$ piore$ picareta$ da literatura (lembram quando falei dos casos graves?), aqueles de quem quase ninguém fala por medo, os ricaços que compram amigos no meio literário, que compram validação literária (e às vezes até aval de crítica), fazem mecenato com suas heranças e rendas duvidosas para eventos e antologias, e são aplaudidos efusivamente por “generosidade aos pobrezinhos” só por quererem comprar um lugar no céu, e continuam a escrever de modo mediano para medíocre, com uma literatura totalmente defasada da realidade e sem trabalho algum, mas que é aplaudida efusivamente por quem quer um tequinho de vocês: tô de olho nos senhores. Vocês é que deveriam estar na mira, não a moçada do que chamam “panfletário”, não os autores engajados, não os poetas de poesia descritiva hibridizada com prosa… enfim.

Sejamos céticos e sejamos afetuosos. Sempre. E quem não quiser um, tem o outro.

Música para ouvir no trabalho

Editorial extraído da edição de abril de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


De maneira quase iconoclasta, o editorial do Jornal RelevO de abril não falará de dinheiro, nem reclamará da falta de dinheiro, apesar de, apesar de. De fato, o Jornal RelevO gosta de música. Muito. Mais do que literatura? Talvez. Ao longo da nossa trajetória, certamente nos envolvemos mais em coberturas de shows do que estivemos em festivais literários, e realmente gastamos mais do que ganhamos, solapando o mais básico dos conselhos econômicos. Ao menos, nos mantemos longe das apostas e não acumulamos bens dignos de serem confiscados.

Temos alguma experiência com festivais não literários: cobrimos o Dekmantel 2017, o DGTL 2018, o Dekmantel 2018, a TribalTech 2018 e a Gop Tun 2022. Em todos, produzimos relatos nas páginas centrais – as de maior destaque do periódico. Todos os envolvidos com o RelevO já escreveram sobre música em outras frentes; e aguardamos, ansiosos, por escritores e escritoras que nos digam: “Topam uma pauta sobre o festival de tamborim invertido de Sertão de Camanducaia?”. Acreditamos que escrever sobre a música calha de juntar duas boas formas de expressão e divertimento.

Nossa newsletter de generalidades, a Enclave, também se aventura regularmente a falar de música, de Debussy a Skank – banda que, nesta edição impressa, surge com uma cobertura de quatro páginas. É provável que, a cada dois meses, seu editor se sinta obrigado a tecer comentários sobre algum lenço que serviu de inspiração para determinado clássico do Tom Jobim, ou qual fruta David Bowie comeu no terceiro dia da mixagem de Low [nenhuma].

Nossas centrais também trataram de música muitas vezes, como na edição de fevereiro de 2021, com o Acústicos RelevO: grandes encontros para ideias medianas ou o contrário (recentemente resgatada no nosso Substack). De “Alanis Lorenzetti” a “Noel Rosa por Noel Gallagher”, nos orgulha especialmente o trecho “DJ Marlboro apresenta ‘Águas de maço’”. Também nos deixou muito felizes o projeto Excursão: Aparefrita do Norte para gente sem norte, da edição de março de 2021, o que talvez até comprove nossa tendência à repetição (outra vez saturada com C_D_Sky, nosso DJ de eutanásia das centrais de outubro de 2019). O Jornal RelevO evita bares com voz & violão – inclusive já publicamos o Mapa da Violância nas centrais de novembro de 2019.

“Nele [Mapa da Violência], expomos os estabelecimentos com maior perigo de ocorrência de voz & violão de sua cidade – qualquer cidade, pois a voz & violão é imanente, pervasiva e destrutiva. Nosso intuito é claro: queremos que o cidadão digno se proteja. Não queremos que você seja convidado para um aniversário do seu amigo que é, na verdade, uma apresentação de voz & violão do seu amigo – a 10 reais de entrada! Fuja dos tocadores de violão. Não seja amigo de tocadores de violão. Não consuma voz & violão.” (RELEVO, novembro de 2019, páginas centrais).

“SOBRE O BUSLOOP

Família, silêncio, paz e harmonia com a natureza: nada disso faz o menor sentido para o BusLoop, que se projeta para o desgraçamento mental mais violento da sociedade desde as Cruzadas. Visando à completa deterioração do corpo, da cabeça e da alma, a excursão promete uma viagem só de ida para os pesadelos individuais com os melhores beats e synths e drops de qualquer imaginação impulsionada por enteógenos” (RELEVO, março de 2021, páginas centrais).

“Ninguém precisava de um DJ de eutanásia até eu soltar uma virada cabulosa nos segundos derradeiros de Alessandra Pierini Domingues, vítima de uma raríssima doença crônica degenerativa. Foi sinistro. E não só porque a avó dela, aos prantos, berrava ‘por que isso tá acontecendo, pelo amor de Deus?!’. Foi realmente sinistro. Na moralzinha. A véia ficou ali urrando qualquer coisa abafada pelas minhas caixas Pure Groove.” (RELEVO, setembro de 2019, páginas centrais).

Diferentemente da curadoria de textos, que busca estabelecer critérios de diversidade de estilos e de autores – senão teríamos um jornal inteiro de trocadilhos como “Pato Fu Fighters” e “Yamancu Bosta” –, nossa cobertura musical é aleatoriamente consistente: apenas seguimos alguns instintos primitivos de diversão e som torando. Não somos muito diferentes da estudante de Jornalismo que idolatra Harry Styles.

Uma boa leitura a todos.

Nuno Rau: O sexo é mais importante que a poesia (e que a prosa) (ou: Vicente de Carvalho não era um normal.)

Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2022 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Não, prezad_s leitor_s do RelevO. Apesar de abril ser o mais cruel dos meses, criando lilases da terra morta, misturando memória e desejo, ao menos segundo o poeta que, a despeito de ser um conservador, mexeu na água parada da poesia de seu tempo (em qualquer tempo nunca está de todo parada, nunca de todo fazendo onda, ainda que a marola seja muita), este ombudsman ficou apenas preocupado com o editorial de março, que nos relembra o aumento exponencial da conta de luz, o preço da gasolina, os custos postais de envio, tudo isso que torna uma equação complexa o simples fechamento do balancete mensal do jornal, pelo equilíbrio cada vez mais difícil das colunas “créditos” e “débitos”.

Vida de editor é um calvário em vida — excetuando-se, talvez, os daquelas mega-editoras como a Record, a Companhia das Letras, a Penalux e a Patuá (vamos sonhar, Wilson, Tonho e Edu!) —, e só a paixão pela atividade, somada a certa dose de falta de juízo, justifica que uma pessoa dispenda horas que poderia empregar em atividades muito mais lucrativas apenas pra fazer chegar a leitor_s que sequer conhece pessoalmente, na maioria dos casos, um recorte da produção contemporânea de poesia, literatura, tradução etc. Mergulhado em preocupação com o equilíbrio financeiro do Jornal, pensei em formular um título de algum modo sensacionalista para, quem sabe, trazer mais assinantes, e animar alguns daqueles que, combalidos pelos embates da vida (e principalmente impactados pela mesma espiral inflacionária em que o atual desgoverno tem nos mergulhado com cada vez mais traços de sadismo), estejam pensando, dentre as despesas a eliminar, justamente nesse veículo de cultura. Se conseguir, com isso, manter um assinante, já me sinto justificado.

A lembrança do abril de Eliot, no entanto, tem muito mais a ver com nosso presente: The Waste Land foi quase inteiramente escrito sob a influência da pandemia global que abalou o mundo quando mal acabava a Primeira Grande Guerra: a gripe espanhola. Eliot e Vivien Haigh-Wood, sua esposa na época, contraíram o vírus em dezembro de 1918. A guerra havia terminado um mês antes, e o vírus espalhou-se pelo mundo, impulsionado pela movimentação de tropas, com primeiro e maior impacto nos países que participaram do conflito. Contam que Eliot escreveu grande parte do poema durante sua recuperação, e não deve ser fortuita a sobreposição de imagens do Inferno de Dante à paisagem urbana de Londres. Fato é que vamos, agora em 2022, pela casa de 660 mil mortes pela COVID-19 só no Brasil, às voltas com uma guerra movida por interesses de duas potências imperialistas e seus afãs de expansão, com potencial de se tornar um conflito mundial, e com o neoliberalismo fazendo estragos cada vez maiores em nossas consciências, entre outros desastres mais ou menos anunciados. No campo das relações pessoais, somos expostos a todo tipo de preconceito e retrocesso, esbarrando com canalhas que estavam com suas partes podres escondidas em armários lacrados nos últimos anos, e resolveram expô-las com inacreditável orgulho.

Impossível aqui não abrir outro breve parêntesis. Como é bem sabido, Marx escreveu na abertura de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, de 1852: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira como tragédia, a segunda como farsa”. O que dizer quando comparamos os acontecimentos do Brasil atual com o fato de que, em plena gripe espanhola, os países não divulgavam notícias sobre a doença, como, por exemplo, fez o presidente norte americano Woodrow Wilson (1856-1924), ao censurar a imprensa para que as mortes não fossem noticiadas. As fake news também grassavam, ainda que não tivessem este nome: como a Espanha não estava envolvida diretamente na Primeira Grande Guerra, as notícias sobre a doença vinham de lá, e, por tal motivo, a gripe ficou conhecida como “espanhola”. Qualquer semelhança com o presente não é mera coincidência.

Mas voltando ao que nos interessa mais, como toda obra que não mergulha na banalidade, o poema eliotiano não é uma coisa só, não é apenas uma notícia cifrada sobre pandemia e guerra: ele descreve e encarna a grande crise da cultura ocidental dos inícios do século, teorizada depois por Adorno, entre outros, crise que arrisco dizer que ainda nos afeta, nesse momento tardo-moderno, pós-moderno para alguns. Trazendo para mais perto de nós, essa crise só foi de fato integrada ao pensamento de Mário de Andrade mais de quinze anos depois (The Waste Land é de 1922), a partir de 1938, na longa crise pessoal desencadeada pelo fim da experiência do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, órgão que ele capitaneou ao longo de três intensos anos, uma história que precisaria ser mais bem conhecida por todos, porque nos faz compreender muito do que nos caracteriza e nos afeta hoje como país. Essa aventura, somada ao fato de que Mário considerava que toda arte possui um significado coletivo, e que devemos nos precaver contra todo formalismo e individualismo, também explica, em parte, a desilusão dele com os rumos do modernismo, desilusão que é, de muitos modos, a tônica de Drummond em Claro Enigma, publicado em 1951, e provavelmente seja o fundo obscuro que move os poemas do Livro de Sonetos (1949), de Jorge de Lima, e alguns outros.

Nesse contexto — e a história necessita que a olhemos com viés sempre crítico —, a alegre crença no progresso do Concretismo em seus primeiros anos soa como uma inocência sem par, a despeito do que seu ímpeto nos trouxe de bom. Meu argumento aqui é de que vamos em meio à mesma crise, o aprofundamento das estratégias do capitalismo para permear todos os âmbitos de nossas vidas e converter tudo em moeda, crise que cada geração encara de modo diferente. Não sei para vocês, mas é o que vejo quando leio os poemas de Maria Cristina Martins, Maria Clara Viana, o poema-pedrada de Gary Snyder traduzido por Morgana Feijão, ou ainda os exercícios de suprarrealismo de Paul Éluard, traduzidos por Henrique Nascimento. Em tempos bem diferentes, parece que um vetor comum os atravessa como motor, como ignição da escrita. O mesmo nos contos de Rodrigo Neves, Fernanda Mellvee, Dan Porto, ou os textos não assinados (Rinha de Especialistas, uma delícia, e a “notícia” sobre o primeiro disco nacional fumável). Destoa um pouco o nosso bom e velho Vicente de Carvalho, que por uma questão de rigidez geracional não conseguiu ouvir a Balada do Louco, com os Mutantes. Teria lhe feito bem, certamente. Cabem menções à coluna Enclave, que me fez sentir nos anos 1970 ouvindo um álbum dos 2000 (confesso que não conhecia o Nicola Conte, e que achei o som dele bastante careta), e à história de “Anoiteceu”, canção de Francis Hime e Vinícius de Moraes (esses não serão nunca caretas).

Talvez caiba aqui voltar à questão: o que é escrever poesia (e conto, e romance, e ensaio) nesse começo de terceira década do século 21? Para o que olhamos? De que modo olhamos? O que podemos arrancar das convulsões do tempo presente? Estamos indo em rumos acertados? Existem rumos acertados? Quando leio os textos do RelevO (assim como os da revista em que sou coeditor) sempre me atravessam, e nunca pacificamente, tais perguntas. Do mesmo modo quando escrevo um poema.

Para finalizar, não custa lembrar aos mais distraídos e aos inocentes do Leblon (cf. CDA): o mundo ainda não deu certo, e vamos imersos em muitos dos mesmos problemas dos séculos 18, 19, 20, fora os que a criatividade humana conseguiu produzir depois. Alguma dúvida? Basta entrar num grupo de WhatsApp bolsonarista, ler algum texto produzido pela Empiricus Research ou escutar qualquer pronunciamento do Paulo Guedes como ministro. Depois dessas longas digressões, volto ao título: sexo e poesia, embora não sejam incompossíveis, não são esferas que possam ser comparadas deste modo rasteiro, a não ser pelo fato de que sexo ruim e poesia idem causam, depois, a mesma sensação desagradável, e que um bom poema pode ser comparável ao sexo no prazer que causa (sem maiores detalhes). Não se pode, assim, estabelecer uma escala entre os dois campos, nem por metáfora.

Osny Tavares: Um olho na estrutura, outro na dialética

Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2021 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Jornal pressupõe jornalismo? Inicio essa coluna com um beliscão num tema recorrente entre a comunidade do RelevO. Cito resposta do editor a uma correspondência publicada na edição anterior: “Geralmente, nós publicamos textos com caráter menos jornalístico. O foco é a seleção e publicação de novos autores e autoras contemporâneas”. 

Se a costura do jornal são os contos e poesias, os textos de análise são os patches que lhe dão o colorido. Retomando a já saudosa tradição dos suplementos de crítica dos grandes jornais, temos encontrado aqui interessantes comentadores da cultura. Março nos trouxe uma crônica sobre o bicheiro Castor de Andrade (Enclave) e uma resenha sobre coletâneas de Nelson Rodrigues (Laércio Becker) – decerto, duas oposições que tensionam o carioquismo. De forma similar, Elton Mesquita fala sobre as trocas simbólicas entre Brasil e Portugal, ou a falta delas. 

Assim, o periódico se revela sartreanamente vesgo: um olho aponta para a estrutura; o outro, para a dialética. Dessa junção, constrói sua atualidade. Embora não seja propósito dessa publicação, a formação de repertório é condição fundamental para a comunicação cultural. Seja na crítica, seja na produção ficcional, a referência é a matéria-prima do sentido textual. 

A escrita pressupõe leitura, que pressupõe tempo passado. A pauta do RelevO faz visitas sociais à estante dos lançamentos, mas se conforta na sessão dos clássicos. Experimenta o novo tangenciado no perene. 

Como registro de seu tempo, esse jornal tem o desafio de ser contemporâneo sem sucumbir à pauta novidadeira. Para isso, tem optado por acompanhar menos a agenda de lançamentos das editoras comerciais. Essa escolha o distingue das resenhas que predominam na internet, onde as breaking news da literatura ressoam com mais intensidade. 

Emitir juízos antecipados é caminho fácil para o constrangimento. Todo jornalista cultural já deve ter repassado mentalmente suas apostas e se perguntado onde está tudo aquilo agora. Contudo, a segurança do cânone não pode enrijecer precocemente a musculatura analítica dessa plataforma.

Morgana Rech: O vídeo é o nosso senhor e o sabão não faltará

Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Desde a semana passada, retirei o meu corpo do consultório para ingressar no isolamento social e nas sessões on-line. A relação transferencial entre RelevO e eu se virtualizou. Nunca imaginei que meu espaço físico, o ar que respiro, a mão que cumprimenta ou segura o jornal, se tornaria tamanha ameaça para o outro. Centenas de colegas fazem o mesmo e saem com suas trouxas de trabalho embaixo do braço: o lenço de chorar, o relógio que dá as horas de início e fim, a agenda, os cadernos, as Obras Completas, nossos objetos de estar lá. Alguns levam para casa seus RelevO´s impressos, presença forte em nossas salas de espera.

Levamos um pontapé na bunda dado por uma civilização de litros e mais litros de álcool que agora nos exige a desocupação das ruas e a ocupação de espaços internos. É um vírus, ok, mas eu não o vejo; o que vejo são garrafas de desinfetantes e roupas de astronauta. Duas promessas de liberdade, quem diria. Estamos rendidos, limpos e toda a nossa teoria de trabalho está temporariamente sob custódia, assim como está o rumo dos jornais independentes de literatura. Nos identificamos neste ponto.

Freud não falou nada sobre Skype, muito menos sobre Corona. Falou, isso sim, de como a miséria humana e o adoecimento narcísico pediriam uma atualização da técnica de analisar. Ele não disse que faríamos isso tão abruptamente, e que teríamos que lidar com nossa própria vulnerabilidade, que surge com a saudade do nosso local de trabalho e dos objetos familiares à manutenção de nossos lugares. Bem, os poetas também sempre disseram que a miséria humana e o adoecimento narcísico pediriam uma atualização da linguagem. A bem da verdade, na ficção o atual já existia.

O analista sempre trabalha com a ideia de que uma tela o separa do paciente. A diferença é que ela, agora, não é uma metáfora. É real e por tempo indeterminado, af! O atendimento on-line, como estamos fazendo aqui, deixou de ser exceção e se tornou regra, e quando a exceção vira regra, a teoria começa a girar em torno dela, rudimentar e única: ficar em casa. Talvez Freud tenha se visto numa situação parecida quando viu aqueles pacientes traumatizados pela guerra, tanto é que mudou sua tática. O mundo, agora, voltou a ficar tão monotemático, mas tão monotemático, que já apareceram até os agentes de vigilância nos dizendo o que podemos e o que não podemos fazer do nosso mundo interno durante o isolamento. Dizem, alguns, que não podemos romantizar a quarentena. Bem, se entendermos isso no sentido romântico mesmo do termo, romantizar a quarentena me parece uma atitude bem interessante até mesmo para manter a psicanálise — e a literatura — em pé, já que romantizar equivale à ação do pensamento de recusar tanto a razão pura como a magia pura. Ficar entre elas: espaço analítico por excelência. Possível chance de ficar imune à cegueira. Romantizar a quarentena e refazer contratos sociais me parecem ações que vivem na mesma ilha, se não quisermos que ela seja sonífera. O RelevO está liberado para romantizar o que bem entender, mesmo porque, no mundo da ficção (o atual, rs), as coisas podem até andar mais a nosso favor do que antes. Enquanto estou revisando minhas técnicas e condições de trabalho, o jornal literário tem, pois sempre teve, uma das funções mais importantes para o cenário de trincheira em que estamos. Tento encorajá-lo nisso, do mesmo modo que ele me encorajará a remontar o meu setting. Vínhamos bem, afinal de contas, com aquela história do RelevO se despersonalizar e assumir a sua dupla identidade, naquele rompante falocêntrico de ser um jornal automobilístico. Eu diria que, por um lado, podemos nos aliviar juntos desse fardo, unidos no desamparo favorável à criação. Por outro lado, o “ricaço” que, dizia o RelevO, faz falta para injetar um ânimo na publicação pode, quem sabe, ser reencontrado ou refeito no coração da coletividade.

Estamos de volta ao grau zero de leitura e de escrita. Lembraremos, fisiologicamente, da sua importância. Psicanalistas e artistas são, mais do que antes, colegas, como eram Freud e seus amigos gênios. Poetas, editores, ilustradores e quadrinistas: todos numa função mais ou menos analítica de oferecer ponte e alívio. Que o inconsciente saiba: na arte se continua vivendo. Que o jornal saiba: no seu espaço é onde contaremos essa história.

Cezar Tridapalli: Troquem minha assinatura para Palhaço Tico-Tico

Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2019 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Da edição de fevereiro para a de março deste RelevO, observei uma melhora sensível em dois aspectos: o da diagramação e o da qualidade da impressão do jornal. Dos latifúndios de espaço branco, feitos de terra improdutiva e opressiva, por mim referidos na edição passada, agora vejo uma distribuição mais racional, mais lógica. Os espaços em branco estão lá, mas de fato como respiro, um mindfulness no meio da densidade de muitos textos. Textos, espaço publicitário e espaço em branco agora parecem fazer parte da mesma festa, o que já dá, de cara, uma costura à edição. A qualidade de impressão dispensou a lupa que eu sugeri em fevereiro.

Entendo que a função do ombudsman não seja a do cliente chato que acredita ter o direito de ver o produto consumido tomando a todo o custo a forma de seus gostos pessoais. A editoria pode ler, incomodar-se, ignorar, promover ou não mudanças. E, pelo jeito, rir também do que o crítico convidado para lhe encher a paciência percebeu como defeitos, sejam eles objetivos ou subjetivos, passíveis de discussão. Se na edição passada critiquei o vale-tudo de textos e imagens aceitos pelo jornal (disse que se vale tudo a crítica não vale nada), agora fiquei um pouco “meme John Travolta” (olá, Mateus Senna!) com o editorial que assume reiteradamente que ao RelevO interessa rir. Embora rir e se divertir (o editorial também fala em diversão) tenham ligação íntima, não significam a mesma coisa. Di-versão tem função nobre, podemos dizer até subversiva – e a literatura é subversiva – porque está preocupada em cindir a versão monolítica, em quebrar a expectativa apresentando versões diferentes da esperada. Isso é fugir dos clichês. O clichê, a frase feita, o lugar comum, tudo isso apresenta a versão previsível que a diversão deve quebrar, di-vergir, sub-verter (fazer verter uma versão nova, portanto). Nesse sentido, dizer que “somos até um pouco caóticos”, como o editorial de março afirma, é ótima notícia, desde que se entenda o caos como uma outra ordem possível, que justamente diverge da ordem imperante. Isso é sim diversão. Outra coisa é juntar textos aleatórios e salpicá-los a esmo nas páginas, não propondo ordem alguma, como percebi na edição de fevereiro.

Mas “rir de tudo, rir de todos” já carrega outros sentidos. Graças às preposições, é diferente rir de alguém e rir para alguém ou rir com alguém. Rir para alguém e rir com alguém trazem um convite embutido no sorriso, tipo embarque com a gente nessa risada, no nosso desconcerto do mundo. Rir de alguém é escárnio presente nas piores comédias. Repito: se vale tudo, a crítica não vale nada. Da mesma forma, se é para rir de tudo, para que serve a crítica, por exemplo, de um ombudsman? Troquem minha assinatura para “Palhaço Tico-Tico”.

Como disse lá em cima, há críticas objetivas (o objeto RelevO estava mal impresso em fevereiro) e subjetivas (a disposição, sequência e critérios de seleção de textos). É de se prever, portanto, que haja leitores elogiando justamente o que critiquei (“Gostei principalmente das poesias ‘soltas’ ao longo do periódico”, diz Marcus Serra, que também diz que o jornal “cria uma identidade”). Se o Umberto Eco afirma, em Seis passeios pelos bosques da ficção, que o texto literário é uma máquina preguiçosa e é bom que seja assim, já que o leitor não recebe tudo escrito e interpretado – pois é obrigado a preencher lacunas com o seu universo pessoal –, talvez o RelevO aposte nisso, conscientemente ou não: vamos colocar uns retalhos e o leitor que venha com agulha e linha costurando seu modo de entender e dar unidade ao jornal. Há quem possa pensar que um jornal não precise de unidade, mas, ora, por que reunir tudo em um jornal então? Basta uma navegadinha pelo Google para descobrir toneladas de textos ensaísticos, poéticos, narrativos, de autores sem apresentação, já com publicidade e tudo.

Outra aposta do jornal é essa de não apresentar os escritores. Em épocas de despersonalização (eu havia falado da desterritorialização na edição passada, pois não sabemos de onde os leitores e autores falam), entendo a opção do jornal, mas levanto este questionamento. Talvez o jornal queira nos fazer pensar a partir do texto e só do texto, ou seja, do que o texto tem a me dizer, não importando se eu sei que o Pepetela é já escritor consagrado e o seu vizinho de página talvez não seja. Essa ausência de informação pode nos deixar mais livres para escolher os textos que nos tocam mais, desobrigando-nos de um respeito pela autoridade do nome. É decisão legítima, claro, mas então por que a seção “publique” do site pede para que o autor “informe sua cidade e alguma referência pessoal para que eventuais leitores o localizem”?

Quase a totalidade de cartas dos leitores é feita de elogios, muitos apaixonados. Fico feliz, mas como minha função é encontrar brechas, feridinhas para meter o dedo, destaco e amplifico duas cartas que apontam problemas: a primeira vem do Felipe Gomes, que, gentil, fala de um troca de letra em seu poema, publicado em fevereiro, e que gerou mudança de sentido. O original dizia: “No fundo / gosto / do que me faz mau” e acabou “corrigido” e publicado assim: “No fundo / gosto / do que me faz mal”. Certamente essa diferença modificou sensivelmente a continuidade semântica do poema (“Aquilo que machuca / endurece / meu pau”). Sem exagero, pode-se dizer que outro poema nasceu aí, à revelia das intenções do autor. A resposta a esse deslize (que, claro, acontece), culpando a “ortografia padrão reacionária”, é desprovida de sentido, ainda que quisesse fazer rir. A troca em nada tem a ver com ortografia padrão.

Outra carta, de Joaquim Bispo, reclama da falta de resposta do jornal aos autores que submetem trabalhos para avaliação. Autores mandam textos, não recebem retornos nem de que o texto chegou, ainda menos sobre o aceite ou não para publicação. A resposta do jornal, entre outras explicações: “Por questões de saúde, também não temos qualquer condição de acusar recebimento”. Ora, o próprio Gmail já sugere uma resposta padrão do tipo “ok, recebido”. A não ser que sejam milhões de textos enviados, acusar o recebimento de, vamos chutar, duzentos textos levaria menos de dez minutos. É um problema inclusive das grandes editoras, muitas delas recebem originais e nunca mais dizem nada. Outra possibilidade é ter um texto pronto para, no melhor modo “copia e cola”, avisar que o texto foi recebido e se não houver resposta em até, digamos, 60 dias, o texto está automaticamente descartado. Isso evitaria a espera de Telêmaco, que olha para o mar todos os dias aguardando o pai, Ulisses, voltar da guerra. 

Ricardo Lísias: A polícia da literatura e as polícias

Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2018 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Outro dia recebi um comentário feito no Twitter sobre uma das minhas últimas colunas para o RelevO. Para indicar constrangimento ou um certo desespero cafona, a pessoa reproduzia sem aspas algo que eu teria dito aqui. Embaixo colocava a imagem de uma mulher com o rosto em desespero, as mãos na cabeça e um cigarro entre os dedos e o cabelo, quase colocando fogo no loiro oxigenado. É uma estética dos anos 1980. O espanto se dá porque eu teria dito que o “cânone literário é só reflexo do poder da classe privilegiada”. As aspas agora são minhas e indicam o que o tuiteiro afirma que eu afirmei. 

Enfim, se colocada no contexto da coluna, minha afirmação não tem absolutamente nada demais. Ela apenas ecoa as discussões de uma crítica que vai de Walter Benjamin a Jacques Derrida, passa por Silviano Santiago e Roberto Schwarz, Richard Rorty e seja lá qual outro nome o leitor quiser. Trata-se de uma das principais discussões das últimas décadas não apenas na teoria literária como em todo o pensamento de ciências humanas. Eu afirmei uma banalidade.

Como se pode ver, a figura não tem noção de coisa alguma. Trata-se de um fenômeno muito comum no mundo contemporâneo: sem nenhum conhecimento, fulano vai a uma rede social, diz qualquer negócio e logo uma manada o segue, engrossando o caldo do besteirol. Meu exemplo é singelo e na verdade serve apenas para mostrar que comportamentos como o de espalhar que uma militante de direitos humanos tinha ligação com o Comando Vermelho e uma exposição de arte promove pedofilia estão muito mais próximos da gente do que às vezes parece. E do mesmo jeito, a figura que acha estar defendendo algum tipo de tradição que jamais existiu para além de sua empáfia está bem mais perto do fascismo, como dizem Umberto Eco e Timothy Snider, do que às vezes parece.

No início de março, estive em um debate de lançamento de uma revista sobre a ditadura militar brasileira. Conversamos eu, o MC Leonardo, responsável por grandes movimentos culturais em algumas comunidades cariocas, e Rick Goodwin, jornalista que participou da equipe que criou e fez o Pasquim, um dos nossos últimos espaços de resistência verdadeira à barbárie na imprensa. Dois dias depois, enquanto esperava a esposa em uma estação de trem, Goodwin foi espancado pela polícia carioca e perdeu dois dentes. Até agora ninguém sabe os motivos da agressão. 

O que dá força e motivação para a polícia fazer isso e coisas ainda piores, como as contínuas chacinas e o genocídio da população negra e pobre do Brasil, são os micropoliciamentos que as pessoas realizam por aí. É um clichê, eu sei, mas às vezes eles servem muito bem: primeiro, é a gente que tem que mudar.

Gutemberg Medeiros: Corpo-a-corpo com a vida

Coluna de ombudsman extraída da edição de abril de 2017 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Em 1993, participei como ouvinte de congresso sobre os rumos do jornalismo cultural no Brasil e na Alemanha, no Instituto Goethe paulistano e com a presença de editores dos mais importantes jornais de ambos os países. Ainda na era pré-Internet, já se falava abertamente da crise no setor que resultou na presente exiguidade – para sermos econômicos ante quadro tão devastado. Entre os editores que entrevistei, estava um dos mais destacados e longevos em atividade na Alemanha, a frente do suplemento semanal do Frankfurter Allgemeine Zeitung. No mesmo posto, o escritor e pesquisador Siegfried Kracauer fez história e parte da sua preciosa produção jornalística pode ser lida em O ornamento da massa (Cosac Naify).

Após abordar as questões relativas ao congresso, perguntei o que estava sendo trabalhado – direta ou indiretamente – na Alemanha após a queda do muro de Berlim e a reunificação do país. Ele me dirigiu um olhar gélido e perguntou se algum escritor trabalharia com isso. Respondi que dialogar com os rumos de seu país era normal na literatura mundial e, especialmente, na literatura alemã. E enumerei nomes representativos, como Goethe, Novalis, Thomas Mann, Brecht e Peter Handke. O editor me cortou ao ouvir este último nome, declarando ser austríaco e não alemão. Despediu-se secamente. Além de tudo, era ligado a uma tradição ultrapassada da crítica, ao priorizar o local de nascimento e não a língua de expressão original.

Venho abordar este aspecto por sentir um tanto falta desse diálogo explícito ou implícito da literatura atual com o importante momento vivido por todos nós no Brasil, pelo menos desde 2013. Digo isto pensando especialmente na produção dos autores que colaboram com o RelevO.

Não estou dizendo para fazer proselitismo defendendo um lado ou outro da polaridade que nos assola. Nada disso. Mas considerando como a literatura é também um espaço possível para expressar o demasiadamente humano de nosso tempo e espaço, partindo de determinadas vozes do passado e se projetando ao futuro, para lembrar o pensador russo Mikhail Bakhtin.

Alguém que estava afinado com essa proposta – não, corrijo, mais do que isso, um ofício de vida – foi o escritor João Antônio. Ele chegou a cunhar uma expressão das mais ricas, o seu constante “corpo-a-corpo com a vida”. Em crônica intitulada “Eu mesmo” e publicada em 9 de marco de 1976 no extinto jornal diário Última Hora, escreveu: “Estou aqui, atrás da minha máquina, para um corpo-a-corpo com a vida, com vocês e com a cidade”. Logo adiante, no mesmo texto, “Se fosse para fazer pirueta mental e procurar brilharecos de fácil conquista, acho que não estaria aqui, agora, atrás da minha máquina”.

Algum incauto apressado poderia dizer que João Antônio falava isso por ser mais jornalista do que escritor, pois o mais importante nas artes – especialmente na literatura – seria a forma, o cinzelamento do texto ou coisa parecida. Apesar do que muitos pensam, nem os Formalistas Russos do começo do século – entre eles Chklovski, Jakobson e Tinianóv – chegaram a defender tal posicionamento. Inclusive, eles se comprometiam com a vida emergente pré e pós-1917, tendo entre seus principais parceiros de vida Eisenstein e Maiakovski, entre outros das vanguardas russas.

A literatura brasileira está repleta de escritores que praticaram esse corpo-a-corpo com a vida. A exemplo de Lima Barreto, sobre o qual falamos na coluna anterior. Talvez um dos momentos mais contundentes neste sentido seja o poema dedicado a Stalingrado, de Carlos Drummond de Andrade (A rosa do povo, 1945), ao cantar a resistência heroica ao cerco desta cidade pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Além da admiração do poeta a esta resistência, acompanhada pelos telegramas de Moscou (“A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais”, diz em um de seus versos), Drummond também ecoava sobre a resistência a outra ditadura não estampada na nossa imprensa, a de Getúlio Vargas, de moldes fascistas. Ninguém pode alegar em sã consciência que o poeta colocava a ética acima da estética.

Uma escritora das mais importantes entre nós é Hilda Hilst, cuja poesia completa acabou de ser lançada pela Companhia das Letras. Muitos a chamavam de esteta vazia, a viver numa torre de marfim. O tempo provou o contrário em sua vasta obra que compreende poesia, teatro, prosa poética e crônica jornalística, nas quais, direta ou indiretamente, discute as agruras de seu tempo.

Para ficar apenas no mais explícito, todo o seu teatro está pejado desse diálogo. Especialmente a peça “O Verdugo” (vencedor do Prêmio Anchieta de revelação no teatro paulista de 1968), que aborda discussões de fundo ético a partir das reflexões de um carrasco em plena ditadura civil-militar. Ou a série ”Poemas aos Homens de nosso tempo”, 1974). Em determinado momento, emergem os versos: “LÍDERES, o povo/ Não é paisagem/Nem mansa geografia/ Para a voragem/Do vosso olho./POVO. POLVO./UM DIA).

Por isso, peço aos criadores de RelevO que ousem mais em entrar nesse corpo-a-corpo com a vida. Pois quem tece palavras com os fios do tempo presente pode compor memória e tocar o essencial do humano. Como nos atualíssimos versos de Hilda Hilst.