Editorial extraído da edição de setembro de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
Acho interessante que o RelevO estabeleça uma rotatividade breve do cargo de ombudsman. Quando fui convidada para ocupar esta função, me deu um misto de alegria e nervosismo, confesso pra vocês (gosto de expor minhas vulnerabilidades, tá? Alguns vão dizer que sou exibida). A alegria, porque sou leitora do periódico há alguns anos; e o nervosismo, porque ninguém te ensina muito bem o que significa ser uma ombudsman (ou ombudswoman, como quiserem). Cada um dos que estiveram nesse lugar nos muitos meses anteriores criou colunas de formas bem específicas, realizando mediações distintas entre leitor e jornal, e entregando para vocês apontamentos dos mais diversos tipos. Mas nenhum de nós tinha cartilha alguma a seguir. E que bom!
Então é ótimo que tenhamos um prazo de validade para estar aqui. Valoriza bem a criação dos textos meio ensaísticos meio jocosos meio cronísticos que tenho publicado nesta coluna. Estou sentimental e reflexiva assim pois esta é minha última passagem no RelevO como ombudsman, e na próxima edição vocês já terão um outro nome, que trará um olhar renovado (espero que não venha questionar as bios, porque aí já é demais).
Passado o momento dramático e pegando o gancho do editorial do mês passado, queria dizer que a ideia do RelevO de publicar, durante a Copa, uma edição especial que mescla literatura e futebol foi emocionante. À primeira vista, uma coisa pode parecer não ter nada a ver com a outra, mas é especial o momento em que conseguimos fazer essa conexão: um jogo de futebol nos coloca num tempo suspenso, em que o presente é o momento mais importante do mundo. Sentimos êxtase coletivo, como se fôssemos parte de algo maior, criamos narrativas, inventamos xingamentos. Não é assim também com a literatura?
Por mais que deteste a divisão dos territórios em países (o mundo deveria ser de todos os seres) e um nacionalismo exacerbado que acaba afastando os trabalhadores de uma possível aliança internacional, é maravilhoso torcer pelo Brasil, nosso país que sofreu tanto na mão de certos genocidas nos últimos tempos. Mesmo que a seleção não tenha favorecido essa torcida, é a união de nosso povo, de nossa terra, que faz tudo valer a pena. A literatura, misturada com o futebol, fortalece o lugar de trocas culturais e desfaz fronteiras.
Migrando do futebol para as artes visuais, para mim, é auspicioso que a minha última coluna se debruce sobre a edição de agosto, ilustrada pelo Marcos Beccari. Há uns dez anos, em um período totalmente diferente da minha vida, conheci suas obras aquareladas pela internet e fiquei encantada. Vocês provavelmente também se impressionaram com as artes presentes na edição passada. Uma coisa engraçada sobre a aquarela, muitos dizem, é que você precisa aceitar a falta de controle total que a água impõe quando se mistura à tinta e ao papel. E ter paciência. Marcos, por outro lado, nos apresenta uma técnica de aquarela muito controlada, como se fosse um domador do mar e do tempo.
A literatura me parece um pouco com isso: os pensamentos ficcionais e poéticos nos atropelam de forma desgovernada, como se nos empurrassem para a beira de um abismo. É preciso, em algum momento, respirar fundo para controlar o desastre iminente, caso contrário o que nos espera é uma queda ao ar livre (pensa o escritor). Jornais como o RelevO entram como balões no meio dessa história. A ventania está violenta, mas a corda está pronta. Cabe a nós, leitores, agarrá-la e subir. E rezar para que esse balão continue a voar (apesar de dar muitas cambalhotas e sair chacoalhando todo mundo por aí!).
Um beijo para todos vocês. E boas-vindas à nova ombudsman que chega mês que vem!

