Morgana Rech: Elaborando o fim

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Cinco coisas que pude elaborar durante esse período de ombudsman no RelevO:

 

  1. Tudo pode ser virtualizado. Em cada frase que dirigimos a alguém, um espaço vazio permanece entre como uma caixinha de potencialidades imaginativas. Minha relação com o jornal não tem absolutamente nada de concreta. É virtual na minha liberdade imaginativa; assim como na nuvem de onde falei durante esses cinco meses; assim como nos contatos com quem comigo divide essas páginas, neste oásis mundano que é a arte.
  2. Ser analista de jornal é por pouco tempo. Primeiro, porque ele sabe mais do que eu. Segundo, porque cinco meses é mais do que suficiente para instalar uma relação suficientemente boa entre o jornal e suas estranhezas. Freud atendia seus pacientes-pessoas por pouco mais do que isso, às vezes menos. Não foi analista de jornal, mas de grandes obras de arte, trabalhos que lhe construíram como fundador de alguma coisa.
  3. Existem várias formas de matar um leão por dia, seja transformando-o num tigre preguiçoso, ou deixando-o no silêncio, ou ainda reduzindo a sua presença à significância de uma joaninha.
  4. Continuo sem entender por que é mesmo que eu deveria criticar o jornal. Ninguém entende isso mesmo.
  5. Jornais: especialistas em resistir ao tratamento com as suas múltiplas capacidades de se deslocar e se condensar em imagens, como as de Magritte, que só servem para desviar a atenção do analista.

 

Dizem que, depois da última sessão, o paciente sonha com tudo o que aconteceu durante o percurso. Sua capacidade de sonhar já não será a mesma, dali em diante. São ferramentas e fios novos para tecer, dia e noite e do dia para a noite. Como o RelevO já faz um tecidão pelo Brasil com seu impresso há todos esses anos, só me resta esperar que ele siga contaminando todo mundo, por onde quer que passe, com a sua arte de renovar as nossas esperanças. 

Tempo esgotado.

Cezar Tridapalli: Despedida

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2019 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Acho curiosa a ênfase que o RelevO dá a suas entradas e saídas financeiras, como se fosse um órgão público financiado com dinheiro público. Esse rigor assíduo das lamentações me faz suspeitar que o jornal quer manter e ampliar a base de assinantes despertando piedades, convocando o altruísmo de quem fala “nossa, coitados, não recebem nada pra fazer isso”. Gostemos ou não, o jornal está dentro da mais lisa e límpida lógica capitalista: vai ter assinante enquanto tiver gente disposta a pagar uns dinheiros para receber uma experiência de leitura impressa. Se, somando e subtraindo as contas mensais de cada um, a experiência valer esses dinheiros, o jornal terá assinantes.

Pode ser nobre abrir as contas e mostrar pudor ao dizer que a equipe cogita receber pelo trabalho. Na prática, não há qualquer necessidade disso. O assinante paga pelo conteúdo do jornal, o anunciante paga para aparecer com um destaque que julgue compatível com o investimento. O que o jornal faz com o dinheiro de assinatura e anúncio não deveria ter nenhum interesse, tal informação no máximo alimenta a fofoca e o imaginário. Qualquer gasto do eventual lucro somente diz respeito a quem o gasta, não a quem paga, pois quem paga, paga pelo jornal e não para saber se a equipe vive mal ou bem. Quer um conteúdo significativo, quer que sua marca apareça decentemente. Ninguém pode chegar falando “ôrra, galera tá ficando rica às minhas custas”, “dia desses vi o editor tomando cerveja artesanal de 14 real”. Resumindo: leitor assinante paga para receber e ler, anunciante paga para aparecer. Equipe do RelevO: faz um jornal que cause desejo e demanda, e envia corretamente. O que liga leitor, anunciante e editor é o jornal, o papel em sua forma e conteúdo. Não de onde assinantes e anunciantes tiram seu dinheiro e nem para onde esse dinheiro vai quando entra na conta da equipe. Não precisa gastar editoriais inteiros para angariar compaixão.

Pode ser cinismo meu, uma coisa muito “gestão empresarial e pragmática” para um jornal que é, veja bem, de literatura, que lida com subjetividades, mas desde o início imaginei que uma das minhas funções fosse estabelecer contrapontos. Exercício de ombudsman lida o tempo todo com a questão do duplo, a gente se desdobra para construir outras lógicas e trazer à tona um olhar novo que, como tal, pretende colocar na cabeça de leitores e editores sempre um “é mesmo!”. Muitas vezes falhamos miseravelmente (que clichê gostoso), mas a gente tenta, é nossa linha do horizonte, a utopia que faz o ombudsman caminhar: provocar um “é mesmo!”. Ou pelo menos testar convicções.

 

**

 

Quando fui convidado pelo editor-chefe deste RelevO, foi-me proposto trabalhar de três a nove edições. Encerro minha participação na quinta. Pode parecer pouco, mas achei sufi ciente. Além de questões pessoais (sempre importante ser ombudsman de si mesmo), percebi que deixei o meu recado, fiz a minha avaliação dos pontos que julguei mais importantes. O periódico tem esse formato de compilação de textos e isso não vai mudar. É diferente de um veículo diário de imprensa com seus vários cadernos e notícias aos montes, que a todo o momento está sujeito a escorregar numa tomada de posição, subestimar alguma pauta fundamental, ser francamente tendencioso em relação a temas que mereceriam ter dois ou mais lados contemplados. Nesses casos, cabe perfeitamente a figura de um ombudsman que fique um ou dois anos. No caso do RelevO, desde que achem mesmo importante manter essa figura – que não seja mero fetiche jornalístico –, temporadas curtas são a meu ver o melhor caminho. Depois de entender o mecanismo de funcionamento do jornal, de apontar pontos fortes e fracos, de perceber que alguns padrões não vão mudar, o que resta?

Tirar o time de campo e dar a vez a outros olhares.

A curta experiência não deixou de ser intrigante para perceber o quanto esse verbo, “perceber”, entra na rede de representações que as pessoas têm dentro de si, recombina o que está lá dentro e gera reações muito diferentes. Leitores me acharam cruel, outros me criticaram por ter puxado o freio nas edições seguintes. Ombudsman não é – ao menos não necessariamente – a figura que chega “para falar mal”. É alguém que compõe o conjunto de olhares sobre uma publicação e que, como qualquer leitor, pode escrever elogiando ou descendo a lenha. A vantagem é que a gente ganha um espaço maior e tem certeza de que será publicado.

Enfim, agradeço o convite e o espaço que ganhei durante cinco meses. Aprendi mais do que ensinei, em que pese a retórica meio demagógica dessa afirmação.

Gisele Barão

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2018 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Somente em Ponta Grossa (PR), onde moro e trabalho como jornalista e professora de Comunicação, há ao menos quatro clubes de leitura. Todo mês, essas pessoas leem um novo livro, reúnem-se e conversam sobre ele. Para uma cidade com aproximadamente 340 mil habitantes, sempre achei um bom número. Mas ao receber o convite para assumir a função de ombudsman do RelevO, de repente me pareceu pouco. Por que não há clubes de leitura de jornais literários? 

Imagine um grupo que promova reuniões para ler o RelevO ou outro impresso da área e dar pitaco sobre a qualidade da produção. Digo isso também por interesse próprio. É que qualquer leitura fica melhor quando compartilhada com alguém. A vantagem do ombudsman é ter acesso às cartas que os leitores enviam ao jornal; eles são o nosso clube. Melhoram nossa leitura das coisas quando revelam outro ponto de vista, mesmo que não conversem entre si. 

Dependendo das suas condições e características como autor, talvez ninguém se importe mesmo com a sua produção literária. Talvez as cartas dos leitores sejam negativas sobre ela. Mas você não para de escrever, não é? Porque, em certa medida, existe sim um clube, e é isso que vale. Há quem aguarde uma publicação apenas para não gostar dos textos ou simplesmente para não se importar. E tá tudo bem. A gente gosta mesmo é de ter uma pré-seleção, uma indicação sobre o que deve ser lido. Com tanta gente escrevendo neste mundo, para onde podemos olhar com mais atenção?

Escrevo resenhas de livros há três anos para outro impresso, e confesso que poucas vezes busquei conhecer um autor estreante. Talvez os leitores tenham medo de arriscar. Há tantas obras clássicas na fila que nos falta tempo (ou uma gestão mais inteligente do tempo). Mas uma dúvida me provoca: em que ponto da vida a gente deixa de querer conhecer novos escritores? E por quê? Estou animada para percorrer esse breve caminho ao encontro de autores que, em grande parte, não conheço. E orgulhosa por ter o RelevO como guia.

Gutemberg Medeiros: Nelson Rodrigues em Som e Fúria

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2017 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


A mais longeva crítica teatral no Brasil, Barbara Heliodora, desde 1957 em jornais diários, não hesitava em comparar Nelson a Shakespeare. “Apenas pelo fato de serem dois homens de suas épocas, que absorveram os universos que os rodeavam e tiveram não só uma capacidade excepcional para criar as personagens que habitariam suas obras. Ambos tinham talento especial para o teatro, vendo o mundo em termos de ação, pois só quem pensa assim escreve bom teatro”, enfatizava.

A amizade entre eles nasceu quando o dramaturgo soube que Barbara era filha do “Marcos do Fluminense”. “Meu pai foi tricampeão pelo time e goleiro da seleção campeã sul-americana de 1919. O Nelson volta e meia falava nele. Nós nos encontrávamos no teatro ou no Maracanã, sempre com papos tranquilos e simpáticos”.

Barbara acreditava que parece “um engano a busca do clima das chamadas peças míticas, nas quais Nelson não chega a estabelecer uma dramaturgia realmente eficiente” e o melhor está em Vestido de noiva e O beijo no asfalto. Já seu maior tino estaria nas peças cariocas, nas quais, “pela primeira vez, transpõe para o palco, em termos teatrais, o linguajar do Rio de Janeiro, criando, com seu ouvido de repórter, ações dramáticas que lembram o ‘aqui e agora’ de A vida como ela é…, alterando definitivamente o teatro brasileiro”. 

Por outro lado, Nelson era grande frasista. Barbara contava uma que ouviu pessoalmente dele, sentada ao seu lado no intervalo de um jogo no Maracanã – naturalmente, ambos torcendo pelo Fluminense: “Tenho a impressão de que em outra encarnação eu já pastei; porque olho para esse verde e me dá uma tranquilidade…” ou “Se carrocinha apanha cachorro, por que não apanha crítico?”. O humor e as frases jorravam em seu cotidiano.

Lembrar Nelson Rodrigues hoje parece ser fundamental, especialmente ao ver como a grande imprensa reprocessa os acontecimentos. O dramaturgo era nietzschiano ao defender que não existem fatos, mas a interpretação dos mesmos.

Nelson provavelmente elaborou os dois momentos mais intensos de metajornalismo no Brasil nas peças Boca de ouro (1960) e O beijo no asfalto (1961). Após a estreia desta última peça, declarou: todos estamos afetados por esta peça e ninguém que a veja poderá sentir-se alheio a ela, pois nos envolve a todos. Eu creio firmemente que vivemos numa floresta de papel impresso: somos modelados, condicionados pela imprensa. Em O beijo no asfalto é dramatizado e tratado como se fosse uma personagem da peça. Cria-se então uma mútua dependência: os leitores tornam-se vítimas do que leem nos jornais e estes tornam-se vítimas dos caprichos, das atitudes e reações de seus leitores.

O beijo no asfalto mereceria ser lida com atenção por todos os que querem tecer uma leitura crítica do que os cerca. Literalmente, mostra como os fatos são reprocessados conforme a conveniência do veículo em que são expostos.

A histórica montagem se deu em 1961, com o grupo de Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Mário Lago e grande elenco no Teatro Municipal, na Cinelândia carioca. Era comum no teatro rodrigueano o jornalismo ser representado por profissionais de ética, no mínimo, discutível. Em O beijo no asfalto, o dramaturgo parte de um fato: um homem comum cumpre o último desejo de um atropelado que, às portas da morte, pede um beijo na boca.

Um repórter de polícia faz matérias forjando um caso escandaloso de homossexualidade. Para dar veracidade à peça, Nelson faz com que esse jornalista, personagem chave do espetáculo – praticamente seu protagonista –, receba o nome verdadeiro do maior repórter dessa editoria no poderoso jornal Última Hora: Amado Ribeiro. Samuel Wainer, o dono do periódico na vida real – o mesmo no qual Nelson era sucesso há dez anos com sua coluna “A vida como ela é…” – também é mencionado em cena. E o próprio jornal é apresentado, na visão do escritor, como aquele que induz a chamada “opinião pública”, a mesma que execra aquele que beijou na boca, levando-o a uma morte trágica.

Luiz Fernando Mercadante – que atuou por grandes veículos como Jornal do Brasil e a revista Realidade – lembra que na estreia do espetáculo em questão, mais da metade da plateia era formada por jornalistas do Rio de Janeiro e de outros estados. “Corria o boato de que Nelson escrevia uma peça contra nós e a classe compareceu em peso”. Após o pano final, não teve o aplauso esperado. Os jornalistas saíram em silêncio e, no dia seguinte, alegaram que o autor retratava a redação de Última Hora e que todos os outros eram éticos no cotidiano. Mercadante viu a felicidade estampada no rosto de Amado Ribeiro durante a temporada. “Ele era pior do que na peça”, lembrava o jornalista. Mas, fora o Amado e Wainer, todos viraram a cara para Nelson, o que o fez sair do jornal.

A última coisa que o autor de O beijo no asfalto – e de outras 16 peças, além de romances e contos – deseja fazer é um retrato realista e agradável da vida urbana: o realismo, dizia ele, é uma “quase canalhice”. A fusão de memorialismo, reflexão, notícia e ficção em seu trabalho lembra a tradição satírica da imprensa russa da segunda metade do século 19, com debates políticos, morais e metafísicos em linguagem semicifrada para escapar à censura.

Nelson morreu afirmando que o grande autor de sua vida foi Dostoievski, tudo estava lá. E certamente se valeu de O duplo e Crime e castigo, entre outros, ao recusar o realismo e a ausência de tensão trágica, ao contrário da maioria. Ele nunca explicou em detalhes sua visão de Dostoievski, mas legou uma ou outra observação, como “a grande ficção nada tem a ver com o bom gosto” e “Dostoievski é o meu único professor de drama”. Não à toa, Nietzsche foi atento leitor do russo, a partir do qual elaborou a sua concepção de Super-Homem.

Para melhor ler os tempos que correm, falta-nos alguém como Nelson no Jornalismo. Para melhor traduzir esses trás dos fatos, tão plenos de som e fúria.

Silvio Demétrio: Nada é sagrado, tudo pode ser dito

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2016 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Espero estar à altura. Ser ombudsman não é uma tarefa fácil. Ainda mais com a velocidade que a tecnologia hoje imprime ao tempo vivido. Criei-me em meio a uma geração de fronteira que impunha a imagem de um universo no qual o jornalismo estava ligado organicamente à celulose. Difícil é desapegar-se do papel. É que quando se fala em jornalismo impresso fica como metáfora a ideia de uma marca que se deixa. Uma “impressão” que se causa. Tudo isso numa paisagem cujo protagonista é o leitor. O jornalismo como algo que assinala as subjetividades: quimera que só se materializa quando ele é monstruosamente literário. Daí esse reencontro com o mundo do jornal ainda impresso como resistência quando recebo o convite de Ben-Hur Demeneck para sucedê-lo como ombudsman aqui no RelevO. Invisto-me então dos poderes do machado viking que me foi passado. 

Também não acredito nem no jornalismo e tampouco em qualquer literatura como haute culture. Daí o título que roubei de um livro de Raoul Vaneigen, figurinha carimbada do meio de 68 – “Nada é sagrado, tudo pode ser dito”. A reverência é a miséria da escravidão estética. Por pura coincidência e sincronicidade conheci a publicação alguns dias antes do convite. Um aluno meu da UEL havia chegado de Curitiba e me passou o exemplar. Não discuto com sinais dos deuses do chumbo e da celulose. Por natureza, todo aquele que escreve é um ser obsessivo (não é meu esse insight não, tunguei do Ricardo Piglia, o melhor dos escritores argentinos vivos). E não existe obsessão sem redundância e acaso. Porque redundância e acaso fecham a equação das coincidências – as flores do mal (conhecidas como oximoros) que povoam a “floresta de sinais” dessa zorra toda que fede a enxofre e poluição que se chama vertigem de estar vivo. É tudo meio gratuito mesmo. As coisas vão acontecendo e quando você se dá conta aqueles discos que você ainda considera novos já completaram mais de vinte anos. Para mim esse mandato dura ad nauseum, ou seja, até que vocês se enjoem de mim. Vai ser uma longa e estranha viagem. 

A primeira impressão que tive foi analógica. Tal como num disco de vinil, percorri o RelevO com olhos nos dedos, assim como numa agulha de um toca-discos se instalavam ouvidos. O inaudível atrito das pontas dos dedos sobre os sulcos da celulose do papel chegando ao oco que separa os ouvidos como caixa de ressonância. Quando amplificado esse som em imagens acústicas (valha-me São Saussure), o resultado me sabe ao bom e velho rock’n’roll. Não qualquer um, mas algo de cepa psicodesbundética. Uma longa jam session. Aquele santo graal que sempre se procura numa primeira página: “10 dicas para que seu cabelo continue uma bosta”. É isso. Nenhum outro jornal publicaria isso em sua capa hoje e sempre. Uma ruptura com a sentença bidimensional de Euclides para incorporar à página uma topografia, essa ciência do amor ao irregular. O legado de todo RelevO é a paisagem. O detalhe. A singularidade.

Manchete: a notícia morreu. Só existem os acontecimentos. Sem hora e local definidos. Sem a priori. Tempo de irrupção. Erupção. Lava. Lavra. Palavra. Porque um jornal também pode ser dionisíaco. Sugerir ao invés de nomear. Isso para não suprimir três quartos da pensão “O Prazer do Poema”. Porque o deus dos hebdomadários, diários, gazetas e pasquins também é Hermes, o deus mensageiro. Da aurora e do acaso. O deus da curvatura do tempo que se fecha sobre si ao longo de um dia. A luz do sol é curva. Oblíqua. Porque um texto sempre esconde na exata medida que também revela. Acima de tudo deve restar algo informe, uma “parte maldita” de tudo o que se escreve, o implícito, sublime feitiço de toda enunciação. O que se quer dizer? Um sujeito indeterminado. Hecceidade. Subjetivação sem sujeito. Irrupção do desejo como acontecimento e disparo do sentido sob a superfície fantasmática da linguagem.

Alguém com uma arma apontada para o leitor na capa. A última edição do RelevO (maio 2016). Estamos todos com as mãos ao alto. Aliás, já parou o leitor para pensar o quão é polida essa forma de interpelação dos assaltos que se cometem em língua portuguesa? “Mãos ao alto”. O que cansa no jornalismo convencional é que ele é potável. Falta ruído. Distorção. Faltam entranhas. É o império da rotina. Contra isso tudo só pode vencer a invenção. Sub-versão dos fatos pela maneira de dizer. 

Em verdade, não é viking. Meu machado é de Assis. Assim como São Francisco, despir-se de tudo o que é desnecessário. A mais preciosa das preposições de Italo Calvino, a leveza. Porque o mais difícil de se alcançar com a palavra é a simplicidade. Uma virtude estoica. Não o pouco. O raso. O apenas. Mas sim a potência do silêncio como luz que revela um mundo em cada palavra cavada na página. 

É assim que agradeço pela chance de colaborar com esse grande barato que é o RelevO. Espaço para ecos que vêm de uma multiplicidade de outras grandes festas: nosso saudoso Nicolau, assim como o Joaquim; Grimpa e Revista Coyote; Revista Medusa; a Musa Paradisíaca; isso para ficar no quintal de casa.  Por cima do muro dá para ver o eco dos ecos de outros tempos: o jornal O Beijo, Bondinho e o Flor do Mal (do mestre Luiz Carlos Maciel), e por que não, até o San Francisco Oracle, o supremo jornal psicodélico de todos os tempos, editado por Allen Cohen. 

Tal qual César às margens do Rubycon, “alea jacta est”. O que também pode ser entendido como “se segura malandro, pra fazer a cabeça tem hora”. Chegou a hora e a vez do RelevO crescer. Para o alto e para baixo. Ao redor e dentro da cachola de qualquer um que se permita embaralhar com suas páginas. Como dizia Torquato Neto “o barato é ocupar o espaço e depois poetar conforme for”. Que seja então. Ainda. (sempre quis terminar um texto com parênteses, assim, explicando um final em fermata, em suspenção, para deixar no ar alguma promessa que só conto qual é na próxima edição – e eu só poderia hifenizar dentro de parênteses aqui, porque qualquer outro editor já teria me escorraçado – é por essas e outras que o RelevO é singular). 

RelevO 5 anos: The best of ombudsman

Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2014 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Critérios de seleção: nenhum

 

Osny Tavares: março de 2014

É um tempo interessante para ser jovem. Tudo parece aberto à refundação e cada pequeno setor da vida abriga um comitê repleto de delegados a discutir até as cláusulas pétreas da vida. O que era automático, uma imposição da cultura sobre a qual não se refletia, torna-se um ato político. De mastigar um bife a torcer pela seleção brasileira na Copa, o indivíduo é desafiado pelos significados sociais de seus atos. O que é ótimo, pois parece um caminho necessário à lucidez.

Penso que a literatura, e principalmente do tipo que fazemos aqui, tenha um papel importante em estabelecer um conhecimento mútuo entre os atores. Por dois motivos: primeiro, o imediatismo do periódico mensal dedicado ao texto curto permite uma reflexão quente, mas já com certo arrefecimento de ânimos. Por vezes, a contagem de dez segundos é insuficiente para recuperar a ponderação. Em um mês, entretanto, é possível contar até 2,6 milhões.

Não defendo, claro, que o jornal se torne refém de uma pauta de acontecimentos imediatos e se preocupe em caricaturar o real em pseudoliteratura. Mas é inegável que os fenômenos que presenciamos atualmente representarão parte significativa de nossa identidade de época.


Lourenço Pinto: julho de 2014

Não há literatura sem leitores, assim como não há idolatria a David Luiz sem sérios problemas gerais de interpretação. Os textos, enfim, também melhoraram muito, sustentados por uma base maior de colaboradores, interessados e curiosos. O que começou como mezzo belo projeto, mezzo belíssimo pretexto para o editor enviar e receber poesia de belas mulheres, já se transformou em mezzo belo projeto, mezzo belíssimo pretexto para o editor enviar e receber poesia de belas mulheres, porém com maior qualidade no texto e, suponho, das mulheres (carece de fonte).


Whisner Fraga: dezembro de 2014

A questão que se levanta e que deve ter assustado todos os resenhistas de jornais literários é: até que ponto o crítico pode escrever o que bem entende de uma obra? Até que ponto o escritor pode se melindrar com uma resenha negativa? Bom, responder estas perguntas, quando ficam no âmbito pessoal, é fácil. Cada um faz o que quer quando o assunto se restringe a questões de frivolidade. O complicado fica para quando o autor decide levar a questão à justiça.

O escritor pode processar um resenhista que escreveu uma crítica depreciativa, mesmo que feita com argumentos razoáveis, dentro de parâmetros e pressupostos praticamente científicos? A resposta é sim. Existe advogado é para isso mesmo. E o juiz, como se portaria diante de uma demanda desse naipe? Como não tenho conhecimento de caso semelhante que tenha sido julgado em qualquer instância, não posso defender nenhum tipo de questionamento, a não ser que me causa muito estranhamento que um ficcionista ou poeta se posicione desta maneira.

Como, todavia, se trata de um caso fictício e como o jornal RelevO jamais passou por situação semelhante, venho publicamente me desculpar por esse texto completamente desconexo e inútil e pedir a todos os leitores e contribuintes deste conceituado periódico, que não deixem a literatura nunca chegar a este nível e que rechacem com veemência qualquer tentativa de ridicularizar uma arte que já deu ao mundo presentes como “Grande Sertão: veredas” e “Dom Casmurro”.


Carla Dias: junho de 2015

Compartilhar discos, filmes e livros com os amigos, não somente por meio de indicação ou empréstimo, mas também os presenteando com esses itens, faz parte da minha realidade desde que comecei a trabalhar.

Sim, faz tempo.

Independente do meio ou da linguagem, compartilhar gosto pode ser ação catedrática. Durante o processo, aprendemos que o que nos agrada pode ou não agradar ao outro. Ainda assim, é um processo que nos oferece a chance de conhecermos algo novo, como doador ou receptor do conhecimento.

A cada edição do RelevO, conheço alguém novo capaz de me fascinar, o que sempre é um prazer. Dessa forma, tenho dialogado com universos díspares e interessantes. É pessoal a tarefa de passar adiante aquilo que verdadeiramente nos toca e julgamos merecedor de um amigo conhecer. Em uma época em que falar mal é praticamente rotina, passar um gosto adiante pode trazer frescor ao espírito de muitos.

Carla Dias: Mais prazer, por favor

Coluna de ombudsman extraída da edição de junho de 2015 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Compartilhar discos, filmes e livros com os amigos, não somente por meio de indicação ou empréstimo, mas também os presenteando com esses itens, faz parte da minha realidade desde que comecei a trabalhar. 

Sim, faz tempo. 

Independente do meio ou da linguagem, compartilhar gosto pode ser ação catedrática. Durante o processo, aprendemos que o que nos agrada pode ou não agradar ao outro. Ainda assim, é um processo que nos oferece a chance de conhecermos algo novo, como doador ou receptor do conhecimento.

A cada edição do RelevO, conheço alguém novo capaz de me fascinar, o que sempre é um prazer. Dessa forma, tenho dialogado com universos díspares e interessantes. É pessoal a tarefa de passar adiante aquilo que verdadeiramente nos toca e julgamos merecedor de um amigo conhecer. Em uma época em que falar mal é praticamente rotina, passar um gosto adiante pode trazer frescor ao espírito de muitos.

A ilustração de capa de maio estava uma lindeza. Obrigada ao Daniel Imaeda por isso, quem deu cara à coleção de excelente material. Durante a jornada da edição passada, Adriana Sydor me inspirou a me apaixonar pela sua casa que ainda será, mas que também já é. Em “Sonhos de arquitetar”, Sydor nos mostra sua casa interior em busca do espaço externo, espalhando-se por código postal equivalente aos devaneios da autora. “O que não for janela, bem pode ser vidro, o que não for porta, transparência.” Belo texto para a sala de estar de qualquer espírito inclinado ao aconchego.

De personagens da Warner, passando pela frequente incoerência do animal-humano, Bolívar Escobar fala sobre uma curiosidade coletiva: quem come quem? Por quê? Como chegamos a isso? “Um abraço é um ato solipsista não importa em quais deuses você não acredite” se debruça na cadeia alimentar, questionamentos e nas declarações de cientistas, assim como no devaneio sobre a função deles, claro. “Os cientistas só devem estudar aquilo que faz parte do universo. O que não faz deve ser estudado pelos artistas e pelos malucos.”

Sou apreciadora dos oráculos. Posso até me relacionar com os tais ligeiramente com o pé no imaginário, mas tenho sincero respeito por eles. Em “Dizem que os orientais”, Julia Raiz fala sobre a forma como os orientais embrulhavam os livros sagrados – dos oráculos aos obscuros – em tecidos ricos. Então, ela menciona como uma tribo africana lida com seus mortos. Dos oráculos aos rituais, passando por uma reflexão profunda inspirada por um corte na mão, ela chega ao que lhe inquieta: a morte de um ente querido. Um texto delicado, com quê de desamparo. “Bom, dizem que os orientais embrulham tais livros em tecido rico como a seda ou o veludo ou com outros tecidos ricos dos quais não conheço o nome.”

Quem nunca tentou explicar a saudade, prepare- se, porque isso um dia vai acontecer. Alguns dos que já tentaram, acabaram por criar primorosos poemas, como o “para falantes doutras línguas”, de Ricardo Escudeiro: “atadura que não estanca nada/ essa foto na palma/ há espaços ainda/ em tempo de serem jamais/ uma derradeira vez habitados”.

Ainda sobre desnudar-se em poesia, “Ode à mulher que não goza”, de Sissa Stecanella, expõe verdades sobre mulheres que se submetem ao falseado prazer como se estivessem a se esbaldar no verdadeiro: “Ode à mulher que não goza/ Que toda orgulhosa se diz importante/ Deita-se na cama, faz cara de freira, se finge de morta/ Abre as pernas, gemidos alheios,/ Dá-se por contente, com seu amante precoce”. Minhas caras – e meus caros –, como dizem por aí, a vida é muito, mas muito curta para gastarmos a dita no faz de conta. Sendo assim, por favor, gozem na maior veracidade. Caso não dê certo, não perca a vida, mude de parceiro. 

Não tenho qualquer talento para colorir. Pense em alguém incapaz de combinar cores decentemente, ou em uma indecência com certo grau de coerência. Eu mesma. E se era o _ m do mundo quando criança, a versão adulta só piorou a falta de talento. Então, para que insistir? Ainda assim, fiquei tentada a encarar o “RelevO de Colorir para Adultos”. Definitivamente, colorir não é comigo. Alguém coloriu e se sentiu mais feliz?

Maio trouxe uma edição muito interessante do periódico, daquelas que inspiram mergulhos mais profundos e há humor envolvido. Pacha Urbano trouxe aos nossos leitores as tirinhas de “As Fantásticas Traumáticas Aventuras do Filho do Freud”, revigorando aquela máxima de que o humor tem o poder de explicitar seriedade com a maior graça e entendimento. Quem não conhece essa vertente do trabalho do Pacha Urbano, sugiro uma pesquisa. É material bom e que vale o tempo do leitor.

Não há como comentar tudo o que apreciei na edição passada. Sendo assim, finalizo com as palavras de Gigi Godoi em “velha queda”, que tocou em assunto que me pega sempre de jeito, a paixão por determinadas palavras, que às vezes me leva a ter de evitá-las para que os textos não soem como reprise: “tenho velha queda por certas palavras/ elas preenchem o buraco da minha expectativa…”.