Amanda Vital: Ombudswoman 7: como participar de eventos literários

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Olá! Somos a Panelinha Literária Inc., e agradecemos que tenha adquirido um de nossos produtos mais vendidos, a incrível skin de “Escritor Contemporâneo Padrãozinho”, esse último lançamento de grande sucesso entre os círculos literários. Aproveitamos para ofertar uma skin também disponível em versão NFT, bastando digitar o código “NuncaGanheiPrêmio” em nosso site para resgatá-la e ativá-la no metaverso.

Esta skin é composta por:

1. Um microfone com má sonoplastia predefinida, para ler seus poemas geniais (ainda que não eram, agora vão ser — geniais, surrealistas e subestimados!);

2. Cara de bunda (não modificável);

3. Três divórcios (de preferência com meses de distância entre cada um) e uma esposa-troféu (opcional);

4. Um widget chamado “Ego de Escritor Contemporâneo Padrãozinho”, que deve ser inserido pela extremidade final do intestino e inflado manualmente.

Sejam bem-vindos, portanto, ao manual de sua nova skin, que também coincide com o manual de como participar de eventos literários; afinal, o produto não terá efeito se seu primeiro teste não for em um evento.

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES ANTES DO USO DO PRODUTO:

1. Para ativar o produto, basta dizer “Foucault, Derrida, Deleuze!”, 3 (três) vezes, com um leve sotaque bêbado e/ou senil. Se ainda não sabe fazer o sotaque organicamente, não se preocupe, basta adquirir a skin “Escritor Contemporâneo Bêbado”. Gesticulações excessivas — com as mãos colidindo em pessoas que estejam portando uma taça de vinho tinto — garantem uma ativação mais rápida do produto.

2. Para mais êxito do produto (sobretudo de seu widget), confira se tem presentes, na sua estante, ao menos 5 (cinco) livros de autores bielorrussos ou de alguma nacionalidade considerada “exótica” para o Brasil. É obrigatório que sejam originais. Se não souber ler em língua estrangeira, pedimos que adquira os livros em sebos, para dar o tom de que estão gastos porque você os leu.

3. A bateria de sua skin vai durar mais se você curtiu, na última hora, ao menos 15 (quinze) poemas no Facebook sem ter lido um único verso, a segundos de sua postagem. Vale também 3 (três) corações em fotos de perfil de autoras mulheres (postadas há meses, para comprovar o stalking e o não-ligar para o trabalho literário delas, é natural).

4. Também para maiores êxitos, é necessário que não tenha recebido nenhum (zero) prêmio literário e tenha escrito ao menos 1 (um) texto passivo-agressivo dizendo que não estava amargurado nem magoado, mas estava, muito. Bônus se tiver dito mal dos vencedores — direta ou indiretamente, mas preferimos indiretamente, com uma “codificação” que só você acha que deu certo — e chorado em posição fetal ao abrir a lista de finalistas.

5. O mestrado em alguma área de Letras é obrigatório. A famosa “carteirada”, como “você sabe com quem está falando?” e humilhações a estagiários(as), sobretudo envolvendo machismo e paternalismo, é um fator preferencial para garantir o bom trabalho de seu novo produto.

6. Esta é uma das perguntas mais frequentes: sim, é preciso que tenha publicado ao menos 1 (um) livro com arte de capa mediana em edição de autor, após longos conflitos com o(a) editor(a) e com o(a) designer de sua editora anterior para que saísse de acordo com a sua concepção estética bastante refinada e superior. Nós acreditamos nisso. Nós acreditamos em você.

PASSO-A-PASSO:

1. DATA. Antes de ativar o produto, tenha em mente — e em seu calendário — o próximo evento literário para participar e, enfim, fazer a estreia de sua skin. Saraus menores e slams não contam, são proporcionalmente muito pequenos e corre-se o risco de uma expulsão. Estamos almejando eventos maiores, como coquetéis de academias literárias, lançamentos de autores relativamente conhecidos e eventos culturais em cidades a mais de 100 (cem) quilômetros de distância de sua residência (excluem-se moradores do eixo Rio-São Paulo).

2. APARÊNCIA. Separe suas roupas mais pseudocult possíveis. Chapéus, sobretudos pretos e castanhos (bônus se o local for quente), mocassins, bolsas a tiracolo — mas em couro legítimo. Corte seu cabelo em franjinha, se for mulher. Óculos escuros, sempre, mesmo à noite. O objetivo é parecer o mais inacessível possível, evitando que plebeus (também chamados “leitores comuns, que não escrevem, só leem, mesmo”) se aproximem de você, frustrando a estreia do produto.

3. MATERIAL. É obrigatório trazer consigo ao menos 3 (três) livros autorais publicados, todos em sua mala de couro (ver tópico 2). Antologias também contam como livros, desde que tenha sua seção marcada com marcador de páginas. Leve seus poemas mais conceituais ou sua prosa poética incompreensível — textos que ninguém entende a não ser você, para poder usufruir da característica de “subestimado” de seu produto.

4. MATERIAL NÃO-FÍSICO. Na bagagem mental, é imprescindível trazer referências e citações — sobretudo citações — com você. Mas nada de literatura ou estudos de cultura. Deixe para trás o Pound, o Benjamin, o Barthes. Psicanálise e teatro é o que está na moda agora entre os literatos, ainda que poetas e estudiosos de poesia. Estamos pensando em Artaud, Lacan, Freud. Não precisa ter lido nenhum deles, não se preocupe.

5. TRANSPORTE. Alguns eventos maiores proporcionam transporte para o local do evento. Aceite sempre, mesmo que isso tire a vaga de alguém que não tenha dinheiro para ir até lá. Pobres? Fora. O transporte é o começo do networking, e isso é mais importante do que qualquer outra circunstância empática. Chegue algumas horas antes, ninguém tem paciência para atrasadinhos. Foda-se se você precisa tomar 3 (três) ônibus para chegar ali. Acorde às 4 (quatro) horas da manhã.

6. NETWORKING. Dizíamos que o transporte é o começo do networking —e é. Faça uma busca detalhada dos participantes do evento antes do dia, para saber a feição e o currículo de cada um. Procure sempre os editores (mas não nos independentes, esses fracassados; queremos de editora média-alta para cima) e os professores universitários, esses podem colocar estagiários para fazer pesquisas sobre seu trabalho literário (e creditar como se fossem deles, claro). Também pode arriscar um caso amoroso com alguma escritora jovem nesse trajeto. O próximo ponto tem uma informação crucial para isso.

7. VINHO. Deixe para trás toda a sua medicação de hipertireoidismo: eventos exigem que você fique bêbado (se esse passo for muito complicado, a skin “Escritor Contemporâneo Bêbado” é a ideal para você) para flertar — também chamado “assediar”, mas não gostamos dessa palavra — com as escritoras jovens e as estudantes universitárias que apareçam por lá. E para poder suportar aquele poeta chato mais velho que fica colando no seu pé toda vez.

8. LEITURAS MISTERIOSAS. Ensaie as suas leituras para o mais dramático possível. A partir do momento em que você pisa nesses eventos, você se transforma em um diseur de poesia. Atue, preferencialmente sem saber atuar. Não precisa decorar o texto; na verdade, as mãos trêmulas segurando o livro ou o papel, ainda após os ensaios, são um fator preferencial.

9. AFTER PARTY. Essa parte é mais importante do que o evento em si. Aqui você encontra o networking mais pesado de todos. É a parte que você consegue o WhatsApp daquele cara famoso que vai divulgar o seu livro. Daquela novinha com daddy issues que romantiza bastante a sua existência boêmia. Você é o diabinho no ombro direito.

10. A DESPEDIDA. Você agora está totalmente sem saco para os abraços e beijinhos de senhoras de meia idade, mas recomponha-se. É preciso ser mais simpático do que quando você chegou. Sorria sem culpa de não ter feito nada. A culpa é da skin.

POSSÍVEIS SEQUELAS APÓS O USO:

1. Uma intimação por assédio sexual (severa). 2. Um linchamento no Facebook (média). 3. Pedidos ignorados de divulgação e promoção de sua obra devido a insistência e chatice pós-bebedeira dos indivíduos que assim prometeram (branda). Faça uso de skins apenas sob indicação. Mas se não quiser, não precisa.

Naturalidades e artifícios

Editorial extraído da edição de julho de 2023 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Prompt: Escrever sobre a importância dos leitores que divulgam presencialmente o Jornal, distribuem seus exemplares, presenteiam com assinaturas e nos marcam nas redes sociais, ampliando, assim, a nossa malha de contatos e de circulação.

Resultado: Um mundo de risadas e negócios florescentes: No universo dos clientes divulgadores, o exagero é a moeda corrente e a diversão é o objetivo final. Eles transformam o mundano em uma comédia desenfreada, inspirando outros a seguir seu exemplo. Enquanto empresas colhem os benefícios da divulgação entusiasmada, todos nós desfrutamos de risadas e momentos de leveza em um mundo que muitas vezes é excessivamente sério.

Prompt. Contar aos leitores sobre os nossos planos de aprender a programar (não fazer programa) para compreender melhor as possibilidades de expansão do mundo digital, além de, finalmente, ter uma presença nas redes sociais mais coerente com o potencial todo envolvido.

Resultado: A Importância da Programação de Tecnologia para Escritores: aprender programação de tecnologia pode trazer uma série de benefícios para escritores, ampliando suas habilidades e oportunidades no mundo literário. Além de oferecer uma compreensão mais profunda sobre o funcionamento dos dispositivos e sistemas digitais, a programação pode melhorar a produtividade, permitir a criação de projetos interativos e abrir portas para novas formas de contar histórias

Prompt: Combinar uma citação do Conde de Lautréamont [“Belo como o encontro fortuito entre uma máquina de costura e um guarda-chuva em uma mesa de dissecação”] com outra de André Breton [“O homem que não consegue visualizar um cavalo galopando sobre um tomate é um idiota”]; inserir uma camada do filme A vida de Brian.

Passamos, de fato, do meio do ano. Aqui estamos e permanecemos, entre a planilha e o delírio, movendo um jornal de papel que nada mais faz do que investir nas ligações diferentes de palavras e imagens. Orgânico ou sintético, quem sabe tudo não seja estímulo e resposta.

Uma boa leitura a todos.

Nuno Rau: O fim do fim da história, a morte da morte do autor (ou: o poeta que virou suco.)

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2022 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


O pós-modernismo surgiu assim como uma espécie de apocalipse incontornável que se abateu sobre o mundo a reboque do neoliberalismo selvagem, e decorado não raras vezes por colunas e frontões escaneados de templos gregos da Antiguidade convertidos ao rés da banalidade absoluta de historicismos desvairados. Numa espécie de ópera-bufa desvairada e formalista, profissionais da arquitetura saíram decalcando esses frontões e colunas dóricas ou jônicas em fachadas de todo tipo de construção – escolas, bancos, estações, residências, shopping-centers etc. Quando todos pensávamos que não havia mais por onde piorar esse desastre, surgiu a fachada padrão das lojas Havan, acrescidas ainda com a cereja do bolo da degeneração estética terceiro-mundista: réplicas da estátua da liberdade em lugar de destaque de sua implantação (do mesmo modo não adiantou Francis Fukuyama preconizar o fim da História, porque as Torres Gêmeas foram ao chão, a Ucrânia segue em guerra por uma disputa entre duas potências imperialistas, e tudo o mais que aconteceu entre esses dois eventos).

Não se se vocês também sentem que quase tudo que vem na esteira do que se convencionou chamar de pós-modernismo soa como uma espécie de vale-tudo, de diluição, repetição insossa; pra mim tem esse gosto, e não importa muito como a gente chame, se de pós-modernidade, tardo-modernidade, hiper-modernidade, ficando tudo pior quando a gente olha em torno e sente que o século XIX pode não ter acabado ainda, que podemos estar presos numa espécie de looping histórico em que fatos e estéticas se repetem numa espécie de série perversa, sensação que fica pior porque vem no bojo de discursos de elogio ao “novo” (parece até aquele partido que leva esse nome, que de novo nada tem, é a velha política das oligarquias numa embalagem edulcorada).

Na literatura esse fenômeno tem muitas faces, e quase todas passam por um completo desconhecimento da História e da tradição. Pois é, esta última palavra é particularmente problemática, mais ainda se for pensada sob a perspectiva do anjo benjaminiano, já que toda tradição está vinculada a um tempo que não passa de catástrofe, espécie de maldição que – não se enganem – atinge também a nós, que problematizamos tudo, das relações à comida, passando pelas definições de poesia e literatura, e talvez tenhamos nos perdido num labirinto de problematizações de tal modo capilarizado que não possibilita a reunião de tudo numa grande frente de real renovação dos modos de vida. Fosse diferente, é provável que não estivéssemos engolfados numa onda reacionária e no aperfeiçoamento constante do receituário do sistema para captura de nossos melhores esforços por uma financeirização e uma mercantilização selvagens. Onde a reação para esse estado de coisas? O que pode literatura, o que pode a poesia contra toda essa depauperação de nossas esperanças?

De digressão em digressão saí, como de costume, do assunto principal: as muitas faces de uma certa diluição na produção literária, e sua possível explicação pelo desconhecimento do que já foi feito. Nos últimos dias um meme circulou bastante pelas redes sociais, e ele, em sua aparente despretensão, explica muita coisa. A cena é a seguinte: um homem vestindo um uniforme militar está de mãos para o alto, rendido pelo que aparenta ser uma patrulha do exército inimigo, que aponta fuzis para o desafortunado. Então ele grita “Não disparem, sou poeta!”, e alguém da patrulha responde: “Prove!”. A resposta é mais ou menos um retrato de parte da produção que circula nas redes: “Não disparem sou poeta!” A questão se funda no que pode fazer de um poema um poema. O século XX, no processo mais do que necessário de questionamento de regras esvaziadas, foi pródigo em declarações bombásticas que, se tomadas integralmente a sério, levam ao polo oposto, um vale-tudo sem margens. Exemplo disso é a declaração de Mário de Andrade (uma figura que acho ainda precisa de mais estudo para que sua luta pela cultura seja compreendida) sobre a natureza do conto: “Conto é tudo o que o autor chamar de conto”. A liberdade que essa declaração pressupõe permite muita produção interessante, que por critérios clássicos seria recusada, mas toda liberdade pressupõe, do mesmo modo, o bom uso, a não incursão no que chamei de vale-tudo, e isso, penso, está numa entrelinha não dita – mas pensada – por Mário. Voltando ao meme: o que ele mostra é aquilo que tem sido chamado, em muitas postagens pelas redes afora, de “empilhamento”: o verso acaba sem razão aparente, sem nada que explique a versura, e segue na linha seguinte para realizar a mesma façanha do sem-sentido. Ou seja, todo o desenvolvimento de técnicas, das quais o enjambement é apenas um exemplo, parece desconhecido, ou é desconhecido mesmo, e aí toda a aventura de escrita das gerações anteriores fica relegada ao desprezo, a uma zona de sombra, tendo como resultado que cada vez temos menos ferramentas de leitura e interpretação do que é escrito.

Existe, no entanto, um outro polo na produção de hoje, que é a de poetas que conhecem muito sobre versificação, métrica, ritmo, todas as questões técnicas do verso, enfim, mas cuja produção parece não ter se descolado do século XIX. Se colocarmos os poemas de “Claro Enigma”, de Drummond, (ou do “Livro de Sonetos”, de Jorge de Lima, ou de “Siciliana” de Murilo Mendes”, entre outros exemplos), ao lado desta parte da produção contemporânea, esses poemas novos soam a naftalina, são como aquelas construções em que se apõem frontões e colunas gregas, sem agregar significado algum. Nesse momento o tempo se embaralha, e penso em Drummond, Jorge e Murilo como “jovens há mais tempo”, torcendo para jogar nesse time, rezando pra que as musas me protejam da água diluída do empilhamento, e da técnica vazia de poemas pomposos e engalanados que não dizem nada.

Paul Valéry conta a seguinte história, que costuma ser muito repetida por aí: certo dia o pintor Degas comentou com Mallarmé, seu amigo, que tinha boas ideias, mas que não conseguia fazer bons poemas. Mallarmé, teria respondido que poemas não se faziam com ideias, mas com palavras. Penso que se Mallarmé soubesse como sua frase seria deturpada décadas afora, teria apenas silenciado diante de Degas. O que Mallarmé quis dizer, por óbvio, é que para escrever poemas é preciso que ideias, boas ideias, sejam materializadas em palavras, e que, para isso, é preciso dominar um código específico, diferente daquele dominado por Degas, e muito bem, para a pintura. É deste domínio que falo, domínio que foi muito afetado pela má incorporação dos avanços das vanguardas históricas – mas isso é outro papo. Uma coisa deve estar soando estranha a vocês: o último número do RelevO trouxe apenas um poema de autora brasileira, o interessante “Talhar na nódoa um precipício”, de Ana Maria Vasconcelos, e estou aqui me estendendo sobre o que seja e o que não seja poesia….

Houve uma compensação, por certo, que foram os dois conjuntos de traduções publicados – os de Adam Zagajewski, Vasil Stus e Serhyi Zhandan, traduzidos por Piotr Kilanowski, e os de Laura Gilpin, traduzidos por Hélio Parente –, além da estreia do acervo da revista Escamandro, trazendo nessa estreia um texto de Guilherme Gontijo Flores sobre Adília Lopes, acompanhado de alguns poemas (há também o flash em três versos de Helena Kolody na contracapa). Esses três conjuntos, bem como o poema de Ana Maria Vasconcelos, provam que a tese de Mallarmé é muito mais ampla do que a redução de um poema ao jogo de palavras. A mesma coisa pode ser dita a respeito da prosa, e o conto de Paulo Moura também comprova isso, mostrando o desenrolar do desespero de um dos personagens diante da constatação de que quase tudo num relacionamento é fluidez e movimento.

Pensando bem, acho que este ombudsman queria se queixar de só haver um poema de poeta brasileir_ contemporâne_ na edição de junho, por mais que se divirta com os textos de humor – “Profissões mais top do agora” e “Relevo Turismo” –, e curta a nostalgia das colunas Enclave e Brazilliance. Talvez um pouco mais de poesia e ficção, que ficou restrita aos contos de Paulo Moura e de Nathália Fernandes, se afinasse com a potência de RelevO, que, penso, é mais do que fundada nessa divulgação.

Osny Tavares: Achados na tradução

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2021 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Faz alguns anos que o RelevO encontrou um nicho interessante na tradução de obras e autores inéditos. A cada mês, o jornal traz uma boa coletânea de poemas, contos e outras peças, geralmente acompanhadas do original e de uma apresentação. Assim, acrescenta uma utilidade própria do veículo periódico: receber e divulgar uma literatura que, embora chancelada em outros DDIs, ainda não encontrou gancho para a publicação em livro pelo mercado editorial convencional. 

A edição de junho, por exemplo, publicou poemas do polonês Aleksander Wat, traduzidos por Piotr Kilanowski e apresentados por Fernanda Dante. A escolha chama a atenção para um interessante fenômeno de localização. É desnecessário situar a região de Curitiba em geral — e a cidade de Araucária, em particular — como centro de irradiação da cultura polonesa no Brasil, além de QG do Jornal.

Antes mesmo do célebre poeta bigodudo, a comunidade de imigrantes e descendentes da Polônia têm mantido e dissipado a cultura do país de origem. Basta citar o sucesso da poesia de Wisława Szymborska por aqui. Publicada pela primeira vez em 2011, com tradução da professora Regina Przybycien, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a vencedora do Nobel de Literatura em 1996 consolidou seu nome entre os leitores de versos daqui.

Universalizar é localizar. Que, cada vez mais, o RelevO tenha a felicidade de identificar e irradiar esse tipo de fenômeno. E que, a partir da Colônia Thomaz Coelho, Nossa Senhora de Czestochowa possa estender suas bênçãos sobre a saúde financeira e intelectual do jornal. 

Omdusman

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Trecho da última coluna de ombudsman do The New York Times, assinada pela jornalista Margareth Sullivan, em 16 de abril de 2016. O novo ombudsman do RelevO, que sucederá a escritora e psicanalista Morgana Rech, será anunciado em meados de julho. Seu mandato se iniciará na edição de agosto. Ao lado da Folha de S.Paulo e de O Povo, de Fortaleza, o RelevO é um dos três periódicos brasileiros a contar com o cargo, fundamental para a relação de crítica e de mediação com o leitorado da publicação.

 

Então, aqui estão algumas recomendações, que refletem minhas esperanças para esta grande empresa de notícias [NYT] e são baseadas no que ouvi dos leitores:

Mantenha controle editorial. Como as parcerias, especialmente com o Facebook, o gigante das mídias sociais, tornam-se quase impossíveis de resistir, o Times não deveria permitir que abordagens orientadas pelos negócios determinem o que os leitores podem ver. Ao lidar com o Facebook e com outras plataformas e parceiros em potencial, cujos negócios giram em torno de algoritmos, é fundamental que o jornal garanta que as notícias que os leitores veem sejam conduzidas pelo julgamento de editores preocupados com jornalismo, não com fórmulas voltadas para os negócios, as quais talvez apenas reforcem preconceitos. Essa é uma das grandes questões para o futuro imediato – e deve ser enfrentada.

Lembre-se de que a velocidade mata. Como o Times tenta obter o maior número possível de leitores digitais, é preciso ter em mente que a precisão e a justiça são fundamentais. Isso parece óbvio, mas no momento competitivo da publicação, nem sempre é fácil lembrar. Vá mais devagar, por uma questão de credibilidade.

Mantenha o clickbait à distância. Na pressão pelo tráfego digital, o Times agora publica artigos em que nunca teria tocado antes para manter-se parte de uma conversa que ocorre nas mídias sociais e é lida em smartphones. Isso não torna esses artigos inerentemente ruins, mas o truque é manter os próprios valores.

– Mantenha a responsabilidade e o jornalismo de vigilância em primeiro plano. O Times de Dean Baquet é aquele que enfatiza o trabalho de investigação. Essa deve ser sempre uma prioridade, e nada deve enfraquecê-la.

Não subestime a importância do editor e da checagem. Como o Times tenta controlar os custos e reduzir sua força de trabalho, esse trabalho não deveria sofrer. Pode parecer invisível, mas importa enormemente.

Lembre-se da missão de defender os oprimidos da sociedade. O Times pode ser elitista em alguns aspectos — apartamento de US$ 10 milhões, alguém? Cubra os ricos, sim, mas equilibre-os com profunda e permanente atenção aos que nada têm.

Proteja a credibilidade com os leitores acima de tudo. Aprofunde o relacionamento com eles e encontre novas maneiras de ouvir e abordar as preocupações dos leitores. (E, por favor, corrija as desigualdades no sistema de comentários — em breve.)

Cipriano Barata: O ombudsman é, antes de tudo, um chato

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2019 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Esta é a 51ª e derradeira coluna dominical que escrevo como ombudsman da Folha. Assumi em 5 de abril de 2007, e o meu mandato se encerrou anteontem. Embora o estatuto autorize a renovação por mais dois períodos, não houve acordo com a direção do jornal para a continuidade. A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação na internet das críticas diárias do ombudsman. A reivindicação me foi apresentada há meses. Não concordei. Diante do impasse, deixo o posto. Oitavo jornalista a ocupar a função, torno-me o segundo a não prosseguir por mais um ano. Todos foram convidados a ficar. Sou o primeiro a ter como exigência, para renovar, o retrocesso na transparência do seu trabalho.”

Mário Magalhães, em 6 de abril de 2008.

 

Nunca tive uma vírgula das minhas colunas alteradas por quem quer que seja. Afinal de contas, eu não estava fazendo mais do que cumprir à risca o trabalho para o qual havia sido contratado. Em essência, todos nós sabíamos que ter um ombudsman sério e renitente agrega credibilidade ao jornal. E é justamente disso, credibilidade, que os jornais vivem.

Lira Neto, ex-ombudsman de O Povo, em A herança de Sísifo: Da arte de carregar pedras como ombudsman na imprensa, 2000.

 

O ombudsman é, antes de tudo, um chato

Ufa, ainda bem que o ombudsman Cezar Tridapalli sai! Cheguei a ensaiar uma resposta pra ele uma vez, mas não conclui. Espero que pessoalmente ele não seja chato como era como ombudsman! O título provisório era “ombudsman do ombudsman”, mas meu gato ficou doente e nunca mais retomei: “O sertanejo é antes de tudo um forte”, vaticinou Euclides da Cunha, enquanto Fernando Pessoa não quis ir tão longe e, mergulhado em seus eus, cravou que “o poeta é um fingidor, que finge tão bem, que finge ser dor a dor que deveras sente”.

Há algo que me atrai nesse tipo de frase vaticinante, paralisante (lacrante, dirão os da geração MMA/Tuíter), que encerra a questão e aponta logo a cova para onde deve ser mandado o glorioso morto. Parece simples — afinal, soltar uma frase assim é fácil —, mas para ela ganhar esse poder todo, capaz de encerrar uma discussão — ou iniciá-la —, de ser repetida todos os anos por professores de literatura ávidos pela hora do almoço que não chega, para ganhar esse peso todo é preciso algo mais. Faço ideia nenhuma do que seja. Já me aventurei várias vezes por essa senda, sempre sem sucesso. Tento aqui novamente: “O ombudsman é acima de tudo um chato.” Está aí, redonda e definitiva — ao menos em pretensão. Ao que acrescento: no caso de RelevO, o ombudsman, além de chato, é prolixo. Não entenda o leitor, a leitora, e o próprio ombudsman, aqui qualquer ranço pessoal com Cezar Tridapalli, mas fique à vontade para ver um pingo de inveja, despeito.

Pois, desde que descobri essa função — na época em que Folha de São Paulo tinha resquícios de Jornalismo e não era pura publicidade travestida de jornalismo de segunda —, achei que tinha a minha cara, e muito me esforcei para estar à altura do cargo no momento oportuno. Segui um par de anos assim, até que meus amigos mais próximos me avisaram (foi numa discussão sobre o Japão e sua cultura, quatro horas da manhã): “dalmoro, você está muito chato, ô, caralho!”.

Estando pronto para o cargo, mas sem nenhum convite para exercê-lo, comecei a cogitar que deveria abrir mão do duvidoso e garantir as amizades certeiras. Isso virou convicção (não a made in Curitiba, até porque abomino Power Point desde o Windows 3.11) quando o poeta Cassio Correa me apresentou seu projeto de “Ombudsman do mundo”. Achei a ideia fantástica, tudo o que sempre sonhei (como canta Pullovers), e vi que havia mesmo ficado para trás. Fui ser guache na vida — resignadamente banal, sem peso de óleo ou leveza de aquarela, sem me chamar Carlos, nem rimar como João.

Enfim, o ombudsman de RelevO. Recém comecei a acompanhar o jornal, de modo que não sei o quanto concordo com tri-ombudsman — me centro mesmo na forma. Hei de convir, antes de mais nada, que faz seu papel, e ataca o jornal sem concessões — diferentemente dos últimos da Folha que acompanhei, mais de meia década atrás, que exerciam a função de “ombudsman de defesa”, apontando as falhas dos leitores. Mas talvez devesse ceder um pouco e desenhar uma crítica um pouco menos em seus juízos de valor. Sim, há vários pontos que eu não “concordo”, por não coadunar com meu senso estético, às vezes em suas filigranas. Mas meu senso estético, se consegue se basear em certo repertório erudito e premissas racionalizáveis, não deixa de ser questão de gosto.

 

Da redação:

A partir de agosto, habemus novo ombudsman. É Robson Vilalba, artista gráfico, vencedor, em 2014, do Prêmio Vladimir Herzog pela série Pátria Armada Brasil. O material sobre o golpe militar de 1964 gerou a graphic novel Notas de um Tempo Silenciado, lançado pela BesouroBox em 2015.

Acreditamos que o cargo de ombudsman é de suma importância para o jornalismo literário que propomos. Buscamos transparência, humor, compromisso com o texto e tocar um periódico destituído de amarras senão aquelas que prometemos a cada assinante, de entregar mensalmente um jornal divertido e um tanto inconsequente.

Gisele Barão: Editar é uma forma de saber literário

Coluna de ombudsman extraída da edição de julho de 2018 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


O RelevO mostra que literatura é um assunto que nunca acaba. São inúmeras as possibilidades de produção e de estilo dentro do jornal, e a edição de junho apenas reforça isso. Escrever nunca é fácil; é um trabalho penoso para o qual dedicamos cada vez menos tempo. O ser humano que consegue escrever com certa regularidade já merece o nosso apreço. Enfiar a escrita no meio de todas as coisas que precisamos fazer para nos manter neste mundo é uma guerra. E tudo isso sob o mantra “ninguém se importa” ecoando a cada batida nas teclas. Pode ser desmotivante, mas pode ser um combustível também. 

A edição de junho do RelevO fica especialmente boa a partir do texto de André Cáceres e Bruna Meneguetti, “Parada 4 – Avenida Alcântara Machado”. Isso não quer dizer que o que vem antes não agrada. A carta de uma leitora, por exemplo, me prendeu muito mais do que alguns conteúdos seguintes. Temos também uma entrevista na medida certa sobre HQ e o miolo do jornal, sempre cativante. Mas, da página 17 em diante, os textos parecem convergir.

Em “Parada 4 – Avenida Alcântara Machado”, o tema me fisgou. Para mim, viagens de ônibus, assim como as salas de aula, são grandes laboratórios da humanidade. No restante do tempo estamos encenando. Contudo, nosso comportamento como aluno e como passageiro de um ônibus nos revela. O olhar de um professor sobre nós, ou do cobrador do ônibus — personagem central no texto em questão — raramente se equivocam. É bom falar um pouco sobre coisas reais.

Depois, “A língua, o asterisco e a natureza da sardinha”, de Arzírio Cardoso, vem com uma simplicidade… que eu imagino ser difícil de fazer. Uma das magias da literatura é a gente desconhecer por completo as condições em que o escritor produziu aquilo tudo. E, de qualquer forma, saiu. Está ali no papel, e nos parece simples. Nos encanta sem sabermos direito de onde vem. Isso é demais. 

Viro a página e Elstor Hanzen me comove novamente com a sacada sobre as relações possíveis entre o pensamento do filósofo alemão Friedrich Nietzsche e do compositor brasileiro Belchior. De novo, a experiência de coisas reais. É uma perspectiva inédita? Não. Ainda assim vale. Vale publicar no RelevO. Ler, discordar, depois concordar, encerrar sem saber se gostou ou não. Não importa, tudo é experiência. E aí encerramos com Diana Joucovski. Um texto forte num local bem escolhido do jornal. Editar também é uma forma de saber literário, não é? Tem metafísica nessa história de escrever, de publicar jornal de literatura. Mas tem muito da vida, o que, para Belchior, é muito pior. É disso que a gente gosta.