Priscila Branco: Reflexões sobre uma escrita humana

Editorial extraído da edição de julho de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Estamos vivendo talvez um ponto de virada de chave para a humanidade (como é catastrófico e clichê falar dessa forma tão especista) no que tange à produção artística e literária, e mais especificamente no que se refere à autoria. Para o ser humano, enquanto a produção científica, intelectual e cultural for dominada por nós, tudo bem. Ao mesmo tempo, assassinamos e colocamos animais em cativeiro, torturamos, usamos os bichos para nos servir. Mas muitos dizem que é a Inteligência Artificial o maior problema dos últimos tempos, não nossa atuação destrutiva no mundo e na natureza e nossa completa falta de empatia e piedade pelas outras espécies.

Começo dessa forma um tanto polêmica, colocando o dedo no nosso narcisismo exacerbado e no nosso egocentrismo bizarro, para tentar deslocar um pouco a discussão sobre a Inteligência Artificial para nossa responsabilidade social e de seres que habitam o universo com muitos outros seres. Dito isso tudo, por que ainda defender textos literários completamente autorais, por que defender um jornal impresso, por que lutar pela literatura enquanto expressão humana?

Entendendo que não faço aqui uma defesa da humanidade versus o mal profundo das Inteligências Artificiais que irão nos dominar e acabar com a sociedade, venho falar sobre nossas experiências vividas e inventadas, a beleza de aprender com os animais e poetizar, a possibilidade de sentir o cheiro do jornal e aprender, com o outro, um pouco sobre sua forma de escrever e fazer a experiência circular.

Partindo do ponto de que todo texto literário é feito de escolhas de palavras, temáticas, cortes e sentidos, buscamos sempre na leitura um ponto de vista muito singular. Afinal, Clarice Lispector escreveu sobre uma barata e Kafka também. Mas como essas baratas são diferentes! E como jamais seriam as mesmas baratas se esses autores tivessem escolhido o apoio de uma Inteligência Artificial para escrever seus livros. Não faço o julgamento se esses livros seriam melhores ou piores, mas certamente não teriam sido escritos da mesma forma.

Portanto, quando escolhemos um jornal impresso de literatura como o RelevO, estamos em busca de duas coisas principalmente: primeiro, o gesto de ter nas mãos um objeto que passa por muitas outras mãos até chegar em nós; segundo, escolhas humanas desde a produção textual dos autores com suas pequenas pausas e palavras específicas até a curadoria e a edição, também humana, feita pelo editor. Escolhas falhas, belas, às vezes cansadas, às vezes animadas, mas que, no final das contas, vão conversar e muito com nossas também falhas e solidões enquanto seres que habitam esse mundo e tentam sobreviver por meio da linguagem.

Uma Inteligência Artificial pode ser rápida, perfeita e eficaz. Dessa forma, deve aumentar o lucro de muitas empresas, inclusive do meio editorial brasileiro. Agora um release é feito na velocidade da luz, um post de divulgação para o Instagram sai em segundos. Não estou fazendo juízo dessas escolhas. Mas, quando abro um jornal literário, quero ler textos de pessoas de carne e osso, aprender com seus erros e suas confusões. Por isso acho também estranho jornalistas que decidem pegar sua opinião e jogar na IA, como no caso da discussão que foi aberta na Folha de S. Paulo. O texto ensaístico e jornalístico também não é feito de escolhas de frases, de expressões? Não é por isso que escolho ler aquela pessoa ou aquela outra? Qual o sentido de ler uma opinião de uma máquina no jornal? Se for assim, não é mais fácil eu mesma perguntar ao ChatGPT?

Imaginem o RelevO organizado por uma IA. Jamais teríamos esse humor sacana, as opiniões duvidosas do editor, alguns textos meio chatos que às vezes aparecem, outros fantásticos. Esse é outro motivo de defender as bios aqui no jornal, já que algumas pessoas seguem questionando (e é ótimo discordar): estamos falando de pessoas reais e vivas escrevendo os textos. E ainda que eu acredite que precisamos aprender (e muito) com as demais espécies, a literatura talvez seja o que há de melhor do ser humano no mundo.

Na última edição, conhecemos um pouco da trajetória de Sérgio Luiz Zanella, pai do Daniel Zanella, o editor deste jornal. E como foi bonita essa homenagem! Saber de sua vida, de sua contribuição, e entender que o RelevO não existiria sem ele, porque abriu o caminho jornalístico, de alguma forma, para o filho. Esse texto tão emocionante escrito de um filho para um pai jamais poderia ter sido escrito por outra pessoa, por outro ser, por outra máquina. Cada pequena escolha de palavras, de cenas, de memória só é possível de ser feita por quem viveu esse amor. E por quem ficou, após a morte, para honrar esse pai.