Priscila Branco: 13ª utilidade para o RelevO: um jornal também pode ser um balão

Editorial extraído da edição de setembro de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Acho interessante que o RelevO estabeleça uma rotatividade breve do cargo de ombudsman. Quando fui convidada para ocupar esta função, me deu um misto de alegria e nervosismo, confesso pra vocês (gosto de expor minhas vulnerabilidades, tá? Alguns vão dizer que sou exibida). A alegria, porque sou leitora do periódico há alguns anos; e o nervosismo, porque ninguém te ensina muito bem o que significa ser uma ombudsman (ou ombudswoman, como quiserem). Cada um dos que estiveram nesse lugar nos muitos meses anteriores criou colunas de formas bem específicas, realizando mediações distintas entre leitor e jornal, e entregando para vocês apontamentos dos mais diversos tipos. Mas nenhum de nós tinha cartilha alguma a seguir. E que bom!

Então é ótimo que tenhamos um prazo de validade para estar aqui. Valoriza bem a criação dos textos meio ensaísticos meio jocosos meio cronísticos que tenho publicado nesta coluna. Estou sentimental e reflexiva assim pois esta é minha última passagem no RelevO como ombudsman, e na próxima edição vocês já terão um outro nome, que trará um olhar renovado (espero que não venha questionar as bios, porque aí já é demais).

Passado o momento dramático e pegando o gancho do editorial do mês passado, queria dizer que a ideia do RelevO de publicar, durante a Copa, uma edição especial que mescla literatura e futebol foi emocionante. À primeira vista, uma coisa pode parecer não ter nada a ver com a outra, mas é especial o momento em que conseguimos fazer essa conexão: um jogo de futebol nos coloca num tempo suspenso, em que o presente é o momento mais importante do mundo. Sentimos êxtase coletivo, como se fôssemos parte de algo maior, criamos narrativas, inventamos xingamentos. Não é assim também com a literatura?

Por mais que deteste a divisão dos territórios em países (o mundo deveria ser de todos os seres) e um nacionalismo exacerbado que acaba afastando os trabalhadores de uma possível aliança internacional, é maravilhoso torcer pelo Brasil, nosso país que sofreu tanto na mão de certos genocidas nos últimos tempos. Mesmo que a seleção não tenha favorecido essa torcida, é a união de nosso povo, de nossa terra, que faz tudo valer a pena. A literatura, misturada com o futebol, fortalece o lugar de trocas culturais e desfaz fronteiras.

Migrando do futebol para as artes visuais, para mim, é auspicioso que a minha última coluna se debruce sobre a edição de agosto, ilustrada pelo Marcos Beccari. Há uns dez anos, em um período totalmente diferente da minha vida, conheci suas obras aquareladas pela internet e fiquei encantada. Vocês provavelmente também se impressionaram com as artes presentes na edição passada. Uma coisa engraçada sobre a aquarela, muitos dizem, é que você precisa aceitar a falta de controle total que a água impõe quando se mistura à tinta e ao papel. E ter paciência. Marcos, por outro lado, nos apresenta uma técnica de aquarela muito controlada, como se fosse um domador do mar e do tempo.

A literatura me parece um pouco com isso: os pensamentos ficcionais e poéticos nos atropelam de forma desgovernada, como se nos empurrassem para a beira de um abismo. É preciso, em algum momento, respirar fundo para controlar o desastre iminente, caso contrário o que nos espera é uma queda ao ar livre (pensa o escritor). Jornais como o RelevO entram como balões no meio dessa história. A ventania está violenta, mas a corda está pronta. Cabe a nós, leitores, agarrá-la e subir. E rezar para que esse balão continue a voar (apesar de dar muitas cambalhotas e sair chacoalhando todo mundo por aí!).
Um beijo para todos vocês. E boas-vindas à nova ombudsman que chega mês que vem!

16 anos: continuar também é chegar

Editorial extraído da edição de agosto de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Em 2 de setembro de 2010, o RelevO começou a circular. Fomos até a gráfica da Tribuna do Paraná, em Curitiba, buscar mil exemplares de um jornal de oito páginas, impresso em preto e branco porque era o que cabia no orçamento. Havia erros, improviso, certa ingenuidade e uma ideia bastante simples: fazer aquela edição existir para, no mês seguinte, tentar fazer outra.

Dezesseis anos depois, talvez seja curioso admitir que o princípio continua praticamente o mesmo. Mudaram as proporções. O jornal cresceu, chegou a outros lugares, reuniu colaboradores, leitores, assinantes, amigos e pessoas que aparecem durante algum tempo e depois seguem seus rumos. Somos uma espécie de armazém no caminho. Houve edições especiais, projetos que deram certo, outros que deram muito prejuízo, períodos de algum conforto e meses em que colocar o jornal na rua pareceu uma tarefa desproporcionalmente difícil.

Manter uma (1) publicação (2) impressa (3) dedicada à literatura em circulação durante 16 anos não é exatamente uma história de sucesso no sentido em que aprendemos a reconhecer o sucesso. Não houve uma linha ascendente. Alguns “dramas”, inclusive, são repetidos. Talvez seja justamente a ausência de uma história de sucesso que um aniversário como este obrigue a perceber.

Às vezes, olhamos para o RelevO e pensamos no que ainda falta. Aumentar a distribuição. Conseguir mais assinantes. Encontrar parceiros que compreendam o projeto sem querer transformá-lo em outra coisa. Pagar melhor quem trabalha conosco. Fazer com que o jornal tenha um pouco mais de tranquilidade para existir. Há sempre um próximo degrau e, quando chegamos a ele, descobrimos outro. Mas 16 anos também permitem olhar na direção contrária.

São quase 200 vezes em que alguém fechou um arquivo, uma gráfica imprimiu algumas milhares de folhas, malotes foram montados e um jornal voltou a circular em cafés, livrarias, bibliotecas, universidades, casas e caixas de correio. Parece pouco quando visto de perto. Visto em conjunto, talvez seja o bastante.

Nesse percurso, o RelevO também começou a perceber que não precisava permanecer exatamente dentro das fronteiras que imaginamos para ele em 2010. A literatura continua sendo nossa desculpa, o papel continua sendo nosso objeto preferido e o jornal permanece no centro de tudo. Mas, de algum modo, começamos a abrir algumas portas.

Uma delas nos levou ao cinema. No primeiro semestre, fizemos Colaboradores. Mais importante que anunciar datas, sessões ou qualquer outra notícia sobre o filme é registrar o que ele representa neste momento: a possibilidade de o RelevO experimentar outra linguagem sem precisar abandonar aquilo que é. Fazer um filme trouxe uma sensação estranhamente parecida com a de fazer aquele primeiro jornal. Não sabíamos exatamente o tamanho daquilo em que estávamos nos metendo. Houve aprendizado, dúvida, ansiedade, trabalho demais para gerar alguns minutos de tela e a participação de muita gente para transformar uma ideia em algo concreto. “A gente trabalha o ano inteiro / por um momento de sonho / pra fazer a fantasia (…)”.

Talvez por isso Colaboradores tenha se tornado importante para nós, independentemente do caminho que o filme venha a percorrer. Ele abriu uma possibilidade. Depois de tanto tempo publicando textos de outras pessoas, experimentamos construir uma obra coletivamente em outra linguagem. Há uma dificuldade particular em fazer projetos independentes durarem. A comemoração quase nunca chega sozinha. Ela costuma trazer junto uma planilha, uma conta, uma incerteza, alguma coisa atrasada e a pergunta inevitável sobre como continuar. Talvez por isso os 16 anos do RelevO não nos condicionem a uma celebração grandiosa.

Em 2010, queríamos imprimir novamente no mês seguinte.

Em 2026, continuamos querendo.

Mas agora queremos também descobrir até onde um jornal pode chegar sem deixar de ser um jornal. Um filme talvez não seja parte dessa resposta. Outros projetos poderão ser novas formas de errarmos. Algumas experiências funcionarão, outras provavelmente não. Faz parte.

De tempos em tempos, voltamos a uma frase de Walt Whitman: “Quer dizer que eu me contradigo? Pois bem, então me contradigo. Eu sou vasto, eu abrigo multidões”. Um jornal também pode carregar suas contradições.

Seguiremos com os nossos erros. No mês seguinte, tentaremos de novo.

Uma boa leitura a todos.

Priscila Branco: Outras formas de se fazer crítica literária

Editorial extraído da edição de agosto de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Como vocês já devem ter percebido (e fico alegre com as cartas que dizem gostar desta coluna!), sou fã de carteirinha do jornal, apesar de tensionar e sugerir algumas mudanças no âmbito editorial ao longo dos últimos meses. Tento pegar o RelevO nas mãos (ou no celular, quando os correios resolvem nos sacanear) e lê-lo de duas formas: como se fosse a primeira vez, então com um distanciamento do cargo que ocupo; e como uma leitora experiente que acompanha o periódico há muitos anos.

Nessa prática do olhar, pincelei alguns apontamentos, entre eles a inclusão das bios dos autores (pequena polêmica que ainda reverbera nas cartas da edição de julho) e a falta de crônicas num impresso, o que lamento muito, pois acho que o gênero tem bastante a contribuir com um jornal literário que circula pelo país todo. Como eu já disse anteriormente, tem gente que acha que a crônica morreu, mas eu encontro com ela todo dia na fila do pão.

Mesmo o editorial de julho apontando que uma das graças de receber o RelevO é não saber muito bem o que esperar (ou algo assim, tá, não me responsabilizo pela minha memória interpretativa de textos que leio), eu vou agora insistir em mais uma falta de que tratei brevemente em colunas anteriores, mas que vale a pena ser retomada: não me refiro a crônicas desta vez, mas à crítica ou à pesquisa literária.

Pensando o título desta coluna, quando digo “outras formas”, já quero implicar que não estou falando daquela crítica acadêmica, chata (por favor, não se sintam ofendidos, eu também tenho um pé na academia e na crítica tradicional, e ela tem seu valor em diversos momentos) e que dificilmente alcançará muitos leitores. Me refiro à crítica que tem surgido nos últimos tempos: a que circula em revistas digitais independentes, como O Odisseu; a que está em podcasts por meio de entrevistas e conversas, como é o caso do Lume Literatura e do LiteraturaBr; a que surge em canais do YouTube, TikTok (millenials, não me xinguem) e em newsletters. Mas o que as plataformas têm a ver com o conteúdo da crítica? Têm tudo a ver. Quando dessacralizamos e democratizamos a pesquisa, a leitura e a crítica literária, novas formas de se pensar os livros, a ficção, a poesia, a autoria e o meio literário surgem e conseguem terreno fértil para trazer questionamentos e modos de se interpretar a literatura a que não teríamos acesso previamente, se levarmos em conta apenas colunas de grandes jornais ou artigos acadêmicos sobre livros de importante circulação.

Estou falando aqui de novas formas de mediação de leitura. Afinal, para que serve a crítica literária? Às vezes pode parecer que algumas têm o objetivo de bajular escritores ou de potencializar o ego do próprio crítico, mas não! Uma das principais razões de ser da produção de uma crítica, seja ela uma entrevista, uma resenha, um ensaio, um prefácio etc., deveria ser realizar uma ponte, uma conversa, entre o texto literário e o leitor. É como se eu pegasse na mão de quem está lendo e falasse: “olha, esse poema aqui mastiga nosso medo da morte. Depois, em vez de engolir, ele cospe no chão; alguns anos mais tarde, naquele exato ponto da cuspida, nasceu uma erva daninha com penduricalhos de estrelas”. Bruscamente, o leitor que estava de mãos dadas comigo me dá um supetão: “pois sabe aquela cuspida do poema? Eu fiz questão de pisar em cima e jogar terra até o chão ficar sequinho. Anos depois, sabe o que aconteceu? Construíram uma casa no exato lugar onde você viu nascer a tal da erva daninha”.

Por isso, toda crítica é impossível, porque nunca absoluta. E seu papel é apenas estabelecer uma conversa de dúvidas com quem está lendo. Acho que seria incrível um jornal como o RelevO estabelecer um lugar (ou um não-lugar) de formas criativas de crítica literária. Trazer para o jogo da circulação do impresso também esse diálogo entre as pessoas.

Sei que temos um espaço de páginas reduzido, e hoje apenas as colunas do editorial e do ombudsman da vez são fixas. Mas jogo aí a semente da erva daninha para pensarmos sobre a possibilidade de termos um espaço fixo de crítica literária. Acho que seria mais uma forma de alimentar as brigas e intrigas deste jornal.

Logística para românticos

Editorial extraído da edição de agosto de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


A Copa terminou. A FLIP também. E, de certa forma, um período de muita intensidade encontrou o seu apito final. Durante alguns meses, vivemos um projeto que fugiu completamente da rotina do jornal. A nossa edição da Copa teve 48 páginas, 6 mil exemplares, novos patrocinadores, lançamento em Curitiba, circulação em festivais e uma tentativa sincera de mostrar que o futebol também pode ser matéria-prima para literatura, memória e humor.

O curioso é que as grandes aventuras editoriais nunca acabam exatamente quando o exemplar chega às mãos do leitor. Elas continuam aparecendo na planilha financeira. A edição especial praticamente se pagou. Impressão, produção, colaboradores, distribuição, logística. Quase tudo. O “quase”, como costuma acontecer, atendeu pelo nome de Correios.

Empolgados com a dimensão do projeto, decidimos enviar malotes para bibliotecas, consulados, embaixadas, instituições culturais, jornalistas, parceiros e leitores espalhados pelo Brasil e por outros países. Parecia importante que um jornal literário brasileiro sobre futebol circulasse pelo mundo durante uma Copa do Mundo. E continua parecendo.

Só descobrimos, um pouco tarde, ou foi mais um déjà-vu, que fazer um jornal viajar custa quase tanto quanto fazê-lo existir. Não nos arrependemos de absolutamente nada. Ao contrário. Foi uma das experiências editoriais mais ambiciosas destes quase 16 anos de RelevO. Descobrimos novos leitores, aproximamos colaboradores, ampliamos a rede de distribuição e confirmamos uma suspeita antiga: existe espaço para um jornal que trate futebol e literatura sem pedir licença a nenhum dos dois.

Existe, porém, um efeito colateral curioso. Sempre que realizamos um projeto maior, o mês seguinte costuma ser silencioso. É como se parte da comunidade imaginasse, legitimamente, que, depois de uma campanha intensa, o jornal estivesse respirando aliviado. Na prática, acontece o oposto. O dinheiro arrecadado tem destino certo, enquanto a edição seguinte continua chegando com as mesmas contas, os mesmos compromissos e, se possível, um pouco mais de ambição.

O RelevO continua existindo graças a uma engenharia delicada feita de assinaturas, anúncios, apoios, parceiros, colaboradores, leitores e uma confiança talvez excessiva de que ainda vale a pena colocar papel na rua. Cada nova edição depende menos de grandes feitos extraordinários e muito mais da persistência cotidiana de quem decide permanecer por perto. Mês após mês, alguém decide assinar, renovar, presentear outra pessoa, sugerir o jornal para uma biblioteca ou simplesmente comentar sobre ele numa conversa qualquer. É uma publicação que cresce menos por campanhas e mais por uma sucessão silenciosa de gestos individuais. Para circular, dependemos de uma quantidade surpreendente de pessoas que acreditam que algumas páginas impressas ainda merecem atravessar estradas, cidades e fronteiras antes de chegar às mãos de um leitor.

E aqui estamos, tentando fazer mais um mês acontecer, ou seja, uma edição por vez.

Uma boa leitura a todos.

Priscila Branco: Reflexões sobre uma escrita humana

Editorial extraído da edição de julho de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Estamos vivendo talvez um ponto de virada de chave para a humanidade (como é catastrófico e clichê falar dessa forma tão especista) no que tange à produção artística e literária, e mais especificamente no que se refere à autoria. Para o ser humano, enquanto a produção científica, intelectual e cultural for dominada por nós, tudo bem. Ao mesmo tempo, assassinamos e colocamos animais em cativeiro, torturamos, usamos os bichos para nos servir. Mas muitos dizem que é a Inteligência Artificial o maior problema dos últimos tempos, não nossa atuação destrutiva no mundo e na natureza e nossa completa falta de empatia e piedade pelas outras espécies.

Começo dessa forma um tanto polêmica, colocando o dedo no nosso narcisismo exacerbado e no nosso egocentrismo bizarro, para tentar deslocar um pouco a discussão sobre a Inteligência Artificial para nossa responsabilidade social e de seres que habitam o universo com muitos outros seres. Dito isso tudo, por que ainda defender textos literários completamente autorais, por que defender um jornal impresso, por que lutar pela literatura enquanto expressão humana?

Entendendo que não faço aqui uma defesa da humanidade versus o mal profundo das Inteligências Artificiais que irão nos dominar e acabar com a sociedade, venho falar sobre nossas experiências vividas e inventadas, a beleza de aprender com os animais e poetizar, a possibilidade de sentir o cheiro do jornal e aprender, com o outro, um pouco sobre sua forma de escrever e fazer a experiência circular.

Partindo do ponto de que todo texto literário é feito de escolhas de palavras, temáticas, cortes e sentidos, buscamos sempre na leitura um ponto de vista muito singular. Afinal, Clarice Lispector escreveu sobre uma barata e Kafka também. Mas como essas baratas são diferentes! E como jamais seriam as mesmas baratas se esses autores tivessem escolhido o apoio de uma Inteligência Artificial para escrever seus livros. Não faço o julgamento se esses livros seriam melhores ou piores, mas certamente não teriam sido escritos da mesma forma.

Portanto, quando escolhemos um jornal impresso de literatura como o RelevO, estamos em busca de duas coisas principalmente: primeiro, o gesto de ter nas mãos um objeto que passa por muitas outras mãos até chegar em nós; segundo, escolhas humanas desde a produção textual dos autores com suas pequenas pausas e palavras específicas até a curadoria e a edição, também humana, feita pelo editor. Escolhas falhas, belas, às vezes cansadas, às vezes animadas, mas que, no final das contas, vão conversar e muito com nossas também falhas e solidões enquanto seres que habitam esse mundo e tentam sobreviver por meio da linguagem.

Uma Inteligência Artificial pode ser rápida, perfeita e eficaz. Dessa forma, deve aumentar o lucro de muitas empresas, inclusive do meio editorial brasileiro. Agora um release é feito na velocidade da luz, um post de divulgação para o Instagram sai em segundos. Não estou fazendo juízo dessas escolhas. Mas, quando abro um jornal literário, quero ler textos de pessoas de carne e osso, aprender com seus erros e suas confusões. Por isso acho também estranho jornalistas que decidem pegar sua opinião e jogar na IA, como no caso da discussão que foi aberta na Folha de S. Paulo. O texto ensaístico e jornalístico também não é feito de escolhas de frases, de expressões? Não é por isso que escolho ler aquela pessoa ou aquela outra? Qual o sentido de ler uma opinião de uma máquina no jornal? Se for assim, não é mais fácil eu mesma perguntar ao ChatGPT?

Imaginem o RelevO organizado por uma IA. Jamais teríamos esse humor sacana, as opiniões duvidosas do editor, alguns textos meio chatos que às vezes aparecem, outros fantásticos. Esse é outro motivo de defender as bios aqui no jornal, já que algumas pessoas seguem questionando (e é ótimo discordar): estamos falando de pessoas reais e vivas escrevendo os textos. E ainda que eu acredite que precisamos aprender (e muito) com as demais espécies, a literatura talvez seja o que há de melhor do ser humano no mundo.

Na última edição, conhecemos um pouco da trajetória de Sérgio Luiz Zanella, pai do Daniel Zanella, o editor deste jornal. E como foi bonita essa homenagem! Saber de sua vida, de sua contribuição, e entender que o RelevO não existiria sem ele, porque abriu o caminho jornalístico, de alguma forma, para o filho. Esse texto tão emocionante escrito de um filho para um pai jamais poderia ter sido escrito por outra pessoa, por outro ser, por outra máquina. Cada pequena escolha de palavras, de cenas, de memória só é possível de ser feita por quem viveu esse amor. E por quem ficou, após a morte, para honrar esse pai.

Formas de convencimento e de frustração

Editorial extraído da edição de julho de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Depois de um tempo, o assinante do RelevO acaba descobrindo um segredo. Demora um pouco, mas acontece: não gostamos de confirmar expectativas. Dia desses, Edson Aran, jornalista, escritor e um dos principais editores de revistas do país, alegou que uma publicação precisa entregar ao leitor não só aquilo que ele espera encontrar, mas também o que ele jamais esperava encontrar. Parece simples. Não é.

Certamente, quem assina um jornal de literatura espera bons textos, autores interessantes, algum humor, talvez uma provocação. Isso é o combinado. Contudo, se uma edição apenas confirma as expectativas, ela termina de ser lida no instante em que é fechada, como se fosse aquele hábito de tomar o mesmo drink no mesmo estabelecimento há anos — o que não é de todo ruim.

Esse talvez seja o maior privilégio do papel. Diferentemente das plataformas digitais, que trabalham para devolver ao leitor versões cada vez mais rasas de seus próprios interesses, um jornal pode colocar lado a lado um clássico e um estreante, um poema e um ensaio, uma crônica e uma piada de gosto discutível. Não porque um algoritmo concluiu que aquilo combina, mas porque um editor resolveu apostar na convivência entre eles, ou até mesmo (involuntariamente talvez) selecionou uma série de textos que, impressos, parecem contar uma narrativa conjunta.

Há outra vantagem, talvez menos confortável. Um jornal não precisa funcionar como um espelho. A literatura não precisa sempre concordar conosco. Às vezes irrita, às vezes desafia, às vezes faz o leitor pensar: “quem foi o irresponsável que resolveu publicar isso?”. Esperamos que, em algumas ocasiões, a resposta seja: nós. Vivemos um tempo em que quase tudo foi organizado para reduzir atritos. As plataformas aprendem nossos gostos, escondem o que provavelmente rejeitaríamos e alimentam a agradável sensação de que estamos certos sobre tudo. É um serviço eficiente… e entediante.

O RelevO prefere correr o risco contrário. Em vez de servir apenas como um viés de confirmação impresso, tenta produzir pequenas diferenças e associações. Não por espírito de contradição, mas porque a literatura raramente cresce em terreno perfeitamente adubado pelas certezas. Um texto que desagrada também pode ampliar repertório. Um autor de quem você discorda pode escrever uma frase que ficará na sua cabeça por semanas. E uma edição da qual você gostou só 78.4% (numa métrica totalmente quantificável, portanto infalível, afinal essa é a correlação do mundo, não?) talvez tenha feito mais por você que aquela da qual gostou 100% (★★★★★ na avaliação do app).

É nesse espaço de liberdade que o RelevO existe. Cada edição tenta honrar aquilo que o leitor veio buscar, mas reserva algumas páginas para fazê-lo encontrar o que ainda não sabia que queria ler. E, de vez em quando, aquilo que ele tinha absoluta convicção de que não queria ler. Se você já percebeu isso, está tudo certo. Descobriu o nosso segredo. O restante do trabalho consiste em escondê-lo novamente no mês seguinte.

Uma boa leitura a todos.

Priscila Branco: Por uma poética do deslocamento

Editorial extraído da edição de junho de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Editar e organizar a edição de um jornal de literatura pode, à primeira vista, parecer uma tarefa fácil, mas na verdade é complicada e hercúlea por diversas razões. Não entrarei em uma defesa da classe trabalhadora editorial nesse momento (apesar de achar que, sim, devemos nos unir internacionalmente e tomar o poder sempre que pudermos, nem que seja por meio de práticas independentes), mas é preciso dizer que, seja intencional ou inconscientemente, sempre me deparo com uma linha curatorial coerente e interessante no RelevO.

A edição de maio já me surpreende com as ilustrações, que, de certa forma, adiantam a história das escolhas do mês: por meio de deslocamentos do óbvio, o artista Rodrigues muda o foco do nosso olhar para as coisas que costumam estar em segundo plano. Essa tática nos permite observar as miudezas que estão mais invisibilizadas em uma paisagem, dando também poder à própria imagem que nos retorna a observação: o fóssil gigantesco em destaque na capa, o felino maior do que a linha do trem, uma cratera imensa que poderia ser um minúsculo buraco.

Essa escolha poética de representar a movimentação e a sacudida do olhar segue nos textos. Com ironia e bom humor, Diogo Santiago (que, agora com as minibios, sei que se deslocou de meu país Pernambuco para a França) critica a linguagem chata e enfadonha da academia e dos cultos. A linguagem também tende a ser secundarizada, quando pensamos uma pesquisa ou um tratado filosófico. Aqui, ela é tratada como pilar principal.

Kelem Tavares também nos desloca da pressa para a calmaria, com a metáfora do café, que conversa com todos os brasileiros. Além de ser o símbolo da energia e do trabalho duro, ele tem o seu lado B: o do ritual, da pausa e da observação. Não só isso, é o contato com o outro que gera esse deslocar-se, nos trazendo uma reflexão sobre a importância da alteridade no dia a dia (ou não, pode ser só um café instagramável).

Os poemas de Max Sacramento Martins brincam com os movimentos do natural ao humano, do divino ao mundano. Ao deslocar, com erotismo, os ritmos poéticos para lugares de prazer, dessacraliza a poesia e nos reconecta com a natureza e sua pulsão vital, sempre tensionada com a finitude.

Sem falar nas traduções que, por si só, já são a própria representação de um deslocamento. Um tradutor é um segundo autor de um texto. Um autor um pouco capenga e irritado às vezes; em outras, até mais genial que a própria autoria original. Falar em tradução é já falar de um outro lugar de criação, de um deslocar-se entre países e entre centenas de anos. Um tradutor é o guardião de passados e um motorista um pouco desgovernado.

O RelevO começou a edição passada com chave de ouro, quando o editorial trouxe para o debate a descentralização logística e o desejo de alcançar novos leitores em outras paisagens. Isso já fala sobre uma poética, mais do que isso, sobre uma política do deslocamento. Como leitora e admiradora do jornal (e agora como uma pequena farpa no pé do editor), é com alegria que vejo a postura editorial se expandir para comportamentos atitudinais no mundo, extrapolando as páginas do impresso. São escolhas sobre o modo de circulação e de abertura de portas em nosso país.

Para deslocar-se, seja para o bem ou para o mal, é preciso movimento e coragem, duas características que o RelevO tem de sobra (dessa vez foram só elogios, viu, editorial? Mas vejamos as cenas dos próximos capítulos!).

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Observação: não estou na Xuxa, mas gostaria de mandar um beijo para Constância Lima Duarte, assinante deste Jornal. Constância, sou sua fã! Você é uma das pesquisadoras mais incríveis de nosso país. Beijo!

Um dia vem o fim comum

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“Um dia vem o fim comum a todos os mortais”, Sófocles (497-406 a.C.) em Electra.

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“O homem morre tantas vezes, quantas vezes perde os seus”, Siro (séc. I a.C.), em Sentenças.

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“Estamos condenados à morte nós e nossas obras”, Horácio (65-8 a.C.), em Arte Poética.

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“Como são loucos os mortais!”, William Shakespeare (1564-1616), em Sonho de uma Noite de Verão.

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“O que chamais morrer é acabar de morrer, e o que chamais nascer é começar a morrer, e o que chamais viver é morrer vivendo”, Quevedo (1606-1684), em Os Sonhos.

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“Morre-se apenas uma vez, e é por tanto tempo!”, Molière (1622-1673), em O Despeito Amoroso.

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“Não tenhas medo. Morrer / Não custa nada, é viver. / Custa menos que se pensa. / Morre o corpo, a alma abre asa / E vai: é mudar de casa.”, António Nobre (1867-1900), em Despedidas.

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“A consciência da morte é inevitável, constante, a cada segundo. Não é se conformar. É aceitar: ela vai vir. Ninguém é eterno. Portanto [mãos para cima], espera um pouquinho, espera mesmo, viu?”, Fernanda Montenegro (1929).

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“Te batizar de novo. / Te nomear num trançado de teias / E ao invés de Morte / Te chamar / Insana / Fulva / Feixe de flautas / Calha / Candeia / Palma, por que não? / Te recriar nuns arco-íris / Da alma, nuns possíveis / Construir teu nome / E cantar teus nomes perecíveis / Palha / Corça / Nula / Praia / Por que não?”, Hilda Hilst (1930-2004), em Da morte. Odes mínimas.

“Eu sou muito queijeiro”, Sérgio Luiz Zanella (1957-2026).

Priscila Branco: Sobre crônicas, impressos e lero-lero

Editorial extraído da edição de maio de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Há alguns anos, um certo senhor (cujo nome não lembro) afirmou por aí que a crônica respirava mal no Brasil, e que estávamos à beira de seu leito de morte. Lembro bem de minha reação de surpresa, pois acompanhava muitas cronistas, por exemplo Ana Elisa Ribeiro, que publicava na revista Pessoa, e Maíra Ferreira, que postava em algumas plataformas online. Hoje, há uma explosão de crônicas enviadas por newsletters e publicadas em revistas independentes digitais. Eu mesma recebia semanalmente diversas crônicas quando era editora e curadora da revista Toró, e muitas eram excelentes e foram publicadas nas edições do periódico.

Não sei qual parâmetro de análise que aquele senhor usou para chegar à conclusão de que a crônica brasileira estava chegando ao fim, mas eu tendo a concluir o contrário: a crônica está vivíssima. Atualmente, é produzida por muitas mulheres também (historicamente foi um gênero atribuído à produção masculina) e ocupa um lugar fundamental na produção literária de nosso país.

Lendo as cartas de abril do RelevO, fiquei pensando em como o impresso afeta profundamente as pessoas, já que é um gerador de experiências: nos proporciona pausa, reflexão, nos oferece o cheiro do papel, nos irrita quando atrasa, precisa que viremos a página devagar para acompanharmos a leitura. É um organismo vivo. A crônica também exige momentos de presença para ser produzida. Precisamos tirar os olhos do celular para captar as histórias do mundo, da cidade, os pequenos acontecimentos diários que podem se tornam matéria cronista (ou poética, pois a poesia é irmã siamesa da crônica).

Dito isso, por que quase não temos crônicas publicadas no RelevO? É um gênero que combina muito com o impresso, e acredito que somaria positivamente às edições se o jornal priorizasse a publicação desse gênero (tantas vezes considerado uma literatura “menor”, o que eu acho uma grande de uma baboseira). Sugiro que os leitores-escritores que estão lendo este ombudsmandato encham a caixa de e-mail do editor com crônicas, perturbem a vida do jornal pelas redes sociais. Quanto ao jornal, sugiro que abra algum tipo de chamamento para crônicas, para que venha para análise um volume maior desse gênero e, consequentemente, apareçam textos interessantes para publicação.

Sugerir é muito mais fácil do que colocar a mão na massa, editar o jornal e fazer a curadoria dos textos, sabemos. Como ombudsman, uma das minhas tarefas é tensionar as faltas que observo no RelevO. Além da crônica, acredito que seria interessante termos mais lero-lero, digo, crítica literária por aqui. Afinal, outra coisa que adoram dizer é que a crítica morreu, mas o que mais tem no mundo é gente que adora falar mal dos outros. Que tal explorar esse lado humaníssimo do nosso meio literário?

Uma proposta logística e editorial ou descentralizar ≠ fragmentar

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  1. Ampliação do acesso à leitura e à produção literária;
  2. Maior profusão de vozes, narrativas e repertórios;
  3. Fortalecimento de circuitos locais;
  4. Criação de novos leitores a partir da proximidade e identificação.

Tudo isso faz parte das ambições de um jornal impresso de literatura como o RelevO. Entendemos que existe uma geografia invisível que define o que circula, o que ganha corpo e o que é renegado à margem. No campo editorial, o jogo de forças costuma apontar para poucos polos, que concentram não apenas editoras, mas também livrarias, imprensa, crítica e legitimidade.

Enquanto periódico independente (e aqui dizemos de certas amarras, não de outras), estamos situados em um cenário que se apresentava antes de nós, com aspectos negativos históricos — não somos o país dos não-leitores, de acordo com o Retratos da Leitura (2024), por acaso. Nunca quisemos nos rebelar contra circuitos estabelecidos, inclusive, queremos circular por eles porque entendemos que todos temos ambições semelhantes: chegar em mais leitores e propor maior circulação de ideias. Mas entendemos que precisamos olhar e chegar em outras paragens.

E o que está ao nosso alcance? Descentralizar a logística. Quando um periódico como o RelevO se espalha por cidades médias, periferias e regiões pouco atendidas, estamos chegando a novos pontos de leitura. Queremos alterar a lógica de quem pode ler, escrever, publicar e ser reconhecido. A distribuição deixa de ser um fim logístico e passa a ser uma proposta editorial.

Acreditamos que essa escolha impacta diretamente o tipo de texto que recebemos. Um veículo que circula apenas em centros consolidados tende a dialogar com um repertório mais homogêneo de ideias e registros, mesmo que da abundância exista maior possibilidade de se peneirar a originalidade. Quando a circulação se expande, o Jornal passa a lidar com outras realidades, outros ritmos, outras urgências. A linguagem se desloca junto. O desconhecido deixa de ser uma abstração e passa a ter endereço, sotaque e contexto.

Existe também um efeito interessante que não pode ser ignorado. Ao ocupar novos territórios, um jornal de literatura pode criar demandas por circulação, estimular parcerias locais, integrar-se com ecossistemas culturais novos. Pequenas livrarias, cafés, centros culturais e coletivos podem integrar esse circuito. Mas talvez o ponto mais importante seja outro. A descentralização cria pertencimento. Quando alguém encontra um jornal de papel e de literatura em sua cidade, quebramos barreiras em relação à literatura, que, de algo distante ou reservado aos grandes centros, se torna próxima, cotidiana. E, em muitos casos, esse encontro é o início de uma trajetória como leitor ou mesmo como autor.

O desafio é econômico, de conseguirmos sustentar os envios regulares com o aporte da nossa comunidade. O segundo desafio, de ordem editorial, está em sustentar esse movimento sem cair na tentação de reproduzir os mesmos filtros de sempre, com textos que explicam a explicação, e não vamos nos estender muito nisso e em uma certa tendência da literatura contemporânea. Assim, a decisão de passar a publicar bios, inclusive, nasce desse movimento de descentralização. Em um cenário onde muitos autores ainda circulam sem mediação ou reconhecimento fora de seus territórios, a bio pode funcionar, em certa escala, como ponto de ancoragem. Se o RelevO vai chegar onde nunca chegou, talvez passemos a revelar pelas bios os nossos deslocamentos.

De fato, as bios podem ampliar a leitura, embora não deixaremos de publicar aqueles que usam pseudônimos e não querem revelar seus IPs. Toda escrita parte de um lugar. Ao explicitar esse lugar ou ignorá-lo, o Jornal não restringe o texto, ao contrário, abre novas camadas de interpretação. Para um projeto que busca ampliar circulação e diversificar vozes, assumir essas identidades é uma nova escolha editorial. Descentralizar, no fim, não é fragmentar.

Ao espalhar pontos de leitura, ampliar vozes e assumir origens, imaginamos que o Jornal não se disperse. Cada cidade, cada autor, cada leitor passa a integrar uma mesma trama, feita de contrastes, tensões e encontros. Não ignoramos o papel histórico e a potência dos grandes centros culturais, apenas reconhecemos uma relação entre a logística e a edição.

Uma boa leitura a todos.