Priscila Branco: Um pequeno tratado contra a morte do autor

Editorial extraído da edição de abril de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Como quem não quer nada, fiz um breve apelo ao editorial deste Jornal na minha coluna do mês passado: sugeri a inclusão de minibiografia das pessoas publicadas no RelevO. Volto ao tema agora, pois ele merece ser tratado com mais seriedade. Apesar de parecer um mero detalhe, essa escolha pode gerar diferentes impactos a curto e longo prazo, e é sobre isso que vamos debater hoje neste ombudsmandato (foi pra isso que me colocaram aqui, não é mesmo? Prepara a defesa aí, editor!).
Incluir o estado de onde a pessoa é e/ou vive, sua idade e seu contato (vejam que não estou pedindo para narrarmos grandes trajetórias dos escritores, mas apenas o básico, para termos pontos de rastreio ou dados e estatísticas) pode contribuir para gerar arquivo para futuras pesquisas e para uma reflexão sobre como fazer uma curadoria mais diversa e plural.

Há alguns anos, enquanto estudava antologias organizadas por mulheres nos anos 1970 e 80, encontrei uma poeta chamada Alsina Alves de Lima. Como nunca havia ouvido falar dela e me encantei com os seus poemas publicados em Palavra de mulher (antologia organizada por Maria de Lourdes Hortas, em 1979), fiquei obcecada em rastrear o seu livro, que foi citado na pequena biografia da antologia. Por meio dessa minibio, consegui adquirir outras coletâneas com alguns de seus poemas, uma organizada pelo Diretório Estadual de Estudantes do Rio Grande do Sul, estado de onde também era a autora. A partir daí, escrevi um artigo sobre Alsina. Se não fossem as informações compartilhadas nas biografias, jamais teria conseguido seguir as pistas da memória dessa escritora. Nunca encontrei o seu livro, mas tenho certeza de que ele está em algum lugar do Brasil, na biblioteca de alguém.

Esse é apenas o primeiro ponto, o de fornecer um arquivo circular, que lutará talvez por centenas de anos para sobreviver e preservar a memória de múltiplos escritores que passaram pelo jornal. A segunda razão é termos um mapa de diversidade regional dos autores publicados. Apesar de o RelevO ser um periódico sediado em Curitiba, no Paraná, ele não pretende ser uma publicação apenas dessa cidade. Ao contrário, já falamos aqui sobre a importância de a distribuição alcançar todas as regiões do Brasil, e como isso é incrível. Portanto, justamente quando observamos de forma explícita de onde vêm as pessoas que são publicadas, conseguimos avaliar numericamente se há desigualdades na curadoria e na quantidade de textos recebidos para serem analisados pelo editorial. Se há, ainda, uma maioria de trabalhos advindos do Paraná ou do Sudeste, por exemplo, talvez seja a hora de buscar uma curadoria mais ativa. Nem me refiro a fazer necessariamente convites a escritores, mas a abrir chamadas voltadas para regiões ou estados específicos que são menos contemplados por múltiplas razões. Enfim, são muitas as táticas que podem ser usadas para mudar tal cenário, mas para isso precisamos de dados para análise, inclusive para que os próprios leitores possam perceber as desigualdades e ter a possibilidade de diálogo sobre os problemas observados com o Jornal.

Sei que Barthes falou muito sobre a morte do autor, e fomos severamente influenciados por isso. Mas a literatura não é algo que flutua no mundo, ao contrário: ela tem raízes profundas na terra, e cada poema, conto ou crônica é feito por corpos vivíssimos no momento da escrita. Há muitos elementos que devem ser levados em consideração quando decidimos publicar um texto num periódico literário que hoje ocupa um lugar fundamental de difusão da literatura em nosso país. Por isso, acredito que uma breve biografia de cada pessoa publicada neste periódico contribuiria muito para uma história literária mais democrática.

“Duas coisas acabam com uma banda: não ter nenhum dinheiro ou ter muito dinheiro”

Editorial extraído da edição de abril de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Sabemos: pedir dinheiro é uma danação. Há quase 16 anos, a última semana do mês é um filme repetido na sede do RelevO, com o editor-também-responsável-pelo-financeiro espremendo planilhas e prospectando novos assinantes e anunciantes de modo mais insistente que o habitual. Acontece que, entre os dias 23 e 30, temos que pagar a Santíssima Trindade de um projeto cultural impresso: gráfica, Correios e aluguel.

De fato, ser contemporâneo de um jornal de papel e literatura é lidar com o fluxo instável da vida, já que nem sempre (ou quase nunca) a receita segue calendário fixo. Custos seguem independentemente de feriados, mas um ponto permanece em aberto: e o dia em que os recursos suficientes não aparecerem? O projeto RelevO continua dependendo de três pagamentos com data definida para permanecer em circulação. A operação não pausa. O impresso exige fechamento, produção e distribuição. E a pergunta subsequente não é nova, apenas costuma ser adiada: o que sustenta o projeto quando a entrada falha?

A série da Globoplay Andar na Pedra — A História do Raimundos, que, segundo a Globoplay, narra “A história da banda contada pelos próprios envolvidos, lembrando toda a carreira e escolhas pessoais ao longo de mais de 30 anos. Uma história de reconexão, vitória e aprendizado”, traz um interessante depoimento de um dos integrantes da equipe de produção: “duas coisas acabam com uma banda: não ter nenhum dinheiro ou ter muito dinheiro”.

Não precisamos nem dizer em qual categoria estamos da dicotomia, nem que aprendemos pouco em pouco mais de década e meia. Há tempos, o RelevO procura um investidor. Melhor, um mecenas, que entenda o modelo peculiar que aplicamos e aceite a lógica identitária do nosso impresso. Confessamos que gostaríamos de passar pelo problema de ter de lidar com as agruras do dinheiro excedente. E o que nos impede de ter dinheiro, além da ausência de sobrenome de herdeiro, de ter um produto fora das lógicas lucrativas atuais, de não conhecer mecenas algum ou do nosso espírito um tanto turrão?

Ainda sobre confessionários, sabemos que temos um potencial repelente fortíssimo: não vendemos espaços editoriais em troca de favores ou recompensas — uma prática recorrente no meio —, não aceitamos ingerência no conteúdo que publicamos, não captamos o ouro de tolo das bets e jogamos o jogo das redes sociais ao nosso modo, o que significa, por exemplo, não impulsionar conteúdo para fomentar bilionários insuportáveis nem produzir conteúdos caça-cliques que aumentam engajamento. Também não sensualizamos. Digamos que não nos ajudamos.

Por outro lado, garantimos ao leitor uma experiência livre de amarras e que representa o nosso espírito dentro das circunstâncias em que estamos inseridos: fazemos um jornal do jeito que queremos, conscientes do papel que os veículos têm como propulsores de carreiras. Por isso, sempre ficamos felizes quando surgem novos periódicos e tristes quando acabam, porque chega a ser até ingênuo olhar tal dinâmica por um viés da concorrência.

Um impresso reúne um grupo de pessoas que movimentam ideias. Se essas ideias param de circular, as pessoas continuam com suas ideias, mas com uma tendência à dispersão ou em um lugar que pode-vir-a-ser. Entendemos que manter um impresso é um exercício contínuo. Não apenas de recursos, mas de tempo, de prioridades e de insistência. Existe uma rotina que não aparece para quem lê: fechar edição, negociar prazos e dívidas, lidar com fornecedores, distribuir exemplares, acompanhar retornos. Tudo isso acontece enquanto a vida segue em paralelo.

Manter um impresso é também sustentar um espaço de encontro. Ainda que silencioso, ele conecta pessoas que talvez nunca se encontrem. Um texto publicado atravessa cidades, chega em mãos diferentes, provoca leituras distintas. Esse movimento, mesmo quando discreto, constrói alguma permanência. Por isso, quando um periódico deixa de existir, não se perde apenas um produto. Perde-se um ponto de contato, um lugar onde ideias encontravam forma e circulação. E quando ele permanece, mesmo com limitações, o que se sustenta não é só o papel impresso, e sim a possível continuidade de um pensamento coletivo apoiado por quem se incomoda com a tendência de as coisas simplesmente acabarem.

Na edição de março, a ombudsman Priscila Branco questionou a ausência de bios nos textos publicados pelo RelevO. De fato, por uma escolha editorial antiga, não publicamos bios, inclusive desestimulamos os autores a enviá-las. No nosso sistema de blind review, o Conselho Editorial lê os materiais enviados sem o conhecimento do nome à frente do texto. Nunca tivemos uma preocupação com representatividade geográfica por entender que o texto precisa se sustentar, a partir dos nossos critérios, independentemente da origem do autor. Sabemos que tal raciocínio tem seus pontos cegos, já que, por exemplo, consideramos gênero, tentando, assim, equiparar a publicação de homens e mulheres. A ombudsman retorna à discussão na coluna de abril enquanto debatemos internamente a questão.

Assim, entre apelos de auxílio em nossa subsistência e questões editoriais que podem modificar comportamentos repetidos e talvez cansados de nosso modus operandi, seguimos no tabuleiro: fechar mais uma edição, sustentar um gesto. Uma boa leitura a todos.

Priscila Branco: Chacoalhando a bússola do Brasil

Editorial extraído da edição de março de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Sabe a História da Literatura Brasileira? Aquela que costuma ser canonizada e considerada o único caminho possível de leitura de nosso país? Pois é, essa mesma. Ela é apenas uma entre múltiplas histórias, mas ocupa a maior parte dos compêndios literários usados em escolas e universidades. Nasce de um lugar específico (o Sudeste) e carrega traços masculinos, brancos e heterossexuais.

Enquanto isso, à margem desse centro inventado por quem detém algum tipo de poder, sempre houve movimentos e pessoas criando outras narrativas, resistindo ao senso comum e ao próprio fluxo do capitalismo. Nos anos 1970 e 1980, quando pensamos na literatura produzida no período, lembramos da Geração Mimeógrafo, uma galera que escrevia principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nada contra esses poetas, viu? Sou fã de carteirinha de Ana Cristina Cesar e acho a antologia 26 poetas hoje, organizada pela Heloisa Teixeira em 1976, interessantíssima. Porém, pouco se fala sobre o movimento editorial e cultural Edições Pirata, que abalou o circuito independente do país no final dos anos 1970 e início dos 1980, partindo de Pernambuco. Com o desejo de publicar de forma independente, sobretudo autores do Nordeste, a Pirata colocou no mundo por volta de 300 livros, por meio de vaquinhas (e a gente achando que o financiamento coletivo foi inventado pela internet) e lançamentos coletivos (já sabemos de onde a Flip tirou algumas ideias).

Outros exemplos são a antologia Palavra de mulher, organizada por Maria de Lourdes Hortas, em 1979, com 45 poetas mulheres do país todo, principalmente nordestinas, ou o movimento Poetas na Praça, que reunia, no final dos anos 1970, muitos poetas em torno da Praça da Piedade, em Salvador. Além desses, existem muitos movimentos, coletivos e organizações literárias que vão criando múltiplas Histórias da Literatura Brasileira.

Ainda hoje é fundamental que escrevamos outras histórias. E é impressionante o fato de o RelevO ter distribuição em todas as regiões do país, sendo um jornal independente, e alcançar quase todos os estados brasileiros, quando pensamos na profunda desigualdade de oportunidades que existe entre o Norte e o Sudeste. Sim, os Correios têm, indubitavelmente, atrapalhado e atrasado a chegada do jornal a muitos leitores, como temos visto em algumas cartas e reclamações. Enquanto escrevo este texto, meu jornal físico de fevereiro ainda não chegou aqui em casa; fiz a leitura pela versão digital. Mas, afinal, por que a pressa? Não estamos falando de um jornal pronto para o consumo de notícias, e sim de circulação de literatura viva, de oportunidade para autores contemporâneos, de construção de memória, de independência política e de afeto entre escritores, editores e leitores. O tempo da literatura e da leitura não deve ser o mesmo do capital!

É emocionante ler os relatos sobre pontos de distribuição de todo o país. Por exemplo, na edição de janeiro, tivemos a carta do Nostalgia Sebo e Livraria, de Rondônia, ou leitores encontrando o jornal em bibliotecas públicas e livrarias de forma gratuita. Também é bonito demais quando descobrimos novos autores ao acompanhar a curadoria de textos de cada edição. Falando nisso, fica como sugestão pro editor: que tal incluir uma minibio de cada autor publicado, com algumas informações básicas? Estado ou cidade de origem, ano de nascimento, rede social. Vamos facilitar a vida dos pesquisadores futuros, editorial? Essa sugestão não trata apenas de um detalhe, mas de rastros fundamentais para a construção de arquivo (como comentei na coluna da edição passada).

Termino este texto convocando você, leitor, a espalhar ainda mais o RelevO por aí: fale dele em rodas de amigos, compartilhe as publicações no seu Instagram, dê o jornal para alguém legal. Fazer as iniciativas literárias independentes circularem pelo país depende um pouco de todos nós, ainda mais quando pensamos em formas de ler e escrever coletivas e muito, muito humanas.

Contra os catalisadores de consensos

Editorial extraído da edição de março de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Um jornal de papel não se esgota no processo de edição → impressão → distribuição. A partir de sua materialidade, cria-se um campo de forças ao seu redor — o que repetimos, quase à exaustão, como justificativa para nunca cogitarmos a via digital como solução para as intempéries financeiras e existenciais. Somos, em grande medida, aquilo que construímos com os leitores que nos folheiam, que nos encontram por mais de 400 espaços culturais espalhados pelo Brasil (e, agora, timidamente na Argentina, no Uruguai e na Colômbia).

Do papel às mãos, somos o resultado um tanto intangível das conversas emergentes depois da leitura, das discordâncias acumuladas nas cartas publicadas, das afinidades inesperadas que aparecem ao fim de uma leitura do texto de um autor desconhecido. No RelevO, a relação com quem lê não é um apêndice simpático do projeto editorial, e sim parte estrutural daquilo que decidimos publicar, do modo como escolhemos publicar e do ritmo que sustentamos ao longo do tempo.

Falar em comunidade não é recorrer a uma palavra desgastada para dar verniz afetivo a um produto cultural — algo, aliás, que qualquer rebranding poderia promover para nos lustrar. Temos uma rede concreta de leitores que acompanham o Jornal com atenção, que criticam quando necessário, que indicam textos, que escrevem mensagens extensas, que fazem observações minuciosas sobre uma vírgula fora do lugar ou um conceito mal resolvido. O RelevO tem ombudsman e, se você acompanhou a treta do uso de IA em uma coluna recente da Folha de S. Paulo, saiba que isso só foi possível porque o periódico tem uma representante dos leitores por lá (desde 1989). Por aqui, temos desde 2014, ou seja, são 12 anos com alguém de fora da redação colocando as nossas edições sob escrutínio.

Ter uma ombudsman significa, antes de tudo, que não somos catalisadores de consenso. Atualmente, mais que antes, observamos uma busca das marcas por acomodar o próprio público em um conceito confortável, quase um convite para sentar-se no sofá de modo passivo. Convenhamos que, se você compra uma garrafinha d’água, talvez não esteja procurando uma experiência intensa. Mas a lógica de produtos culturais não deveria ser a repetição de agradabilidades.

Há algo de profundamente triste na ânsia por concordância, como se a harmonia compulsória fosse um anestésico social aplicado para impedir o atrito criativo, o desconforto, a fricção que pode gerar ideias incômodas. Os catalisadores de consensos operam como engenheiros da neutralização, transformando conflitos em acordos mornos, convertendo divergências em frases redondas e aceitáveis, dissolvendo a complexidade em slogans palatáveis. É a construção de uma geração de cabeças de internet. Contra eles, precisamos afirmar a dignidade do dissenso, a coragem de sustentar uma opinião que não cabe em enquete, que não se curva à média. Porque onde todos concordam rápido demais, algo foi deixado de lado, e talvez seja justamente esse ruído abafado que carregava a única possibilidade real de diferenciação.

Existe, nesse processo, uma tensão inevitável entre acolhimento e incômodo. O Jornal pode ser espaço não só de identificação, mas também de ruído. Pode confortar e, ao mesmo tempo, deslocar. Não aspiramos à neutralidade complacente nem à unanimidade fácil. Quando reduzida a terreno de concordâncias previsíveis, a literatura perde potência, vigor, torna-se uma cama abaulada. Preferimos o risco do desacordo à segurança da aprovação automática.

Essa relação nos importa porque, como afirmamos antes, a literatura não circula sozinha. Um jornal literário não existe apenas pela soma dos textos que publica, mas pela qualidade da leitura que provoca. Sem leitura ativa, sem conversa, sem o mínimo de tensão e continuidade, o papel vira apenas objeto, garrafinha d’água. O texto precisa atravessar o leitor, gerar resposta, provocar conversa, ainda que para discordar frontalmente.

No fim, essa circulação constante sustenta um projeto que nasce a cada 30 dias. O que publicamos ganha sentido quando sai da página e entra na experiência cotidiana de quem lê. Um impresso só permanece importante para seu entorno quando aceita o conflito como parte do diálogo e entende que a leitura é menos um ato de concordância e mais um gesto de envolvimento.

Uma boa leitura a todos.

Priscila Branco: Um jornal para o futuro

Editorial extraído da edição de fevereiro de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Impossível começar esta coluna sem comentar as interessantíssimas colagens de Bobby Baq, que ornaram a capa e as páginas da edição de janeiro. Ao mesclar partes do corpo humano com animais, pedras ou plantas, o artista nos convida a olhar a natureza e o ser humano como uma coisa só, reflexão muito importante em tempos de aquecimento global, barbárie capitalista e desastres climáticos. A literatura e a arte podem não conseguir salvar o mundo do cataclisma ou de um iminente apocalipse zumbi, mas certamente conseguem nos incitar a ter responsabilidades individuais e coletivas perante a situação mundial. Os bichos, as flores e as rochas, em suas colagens, também participam do beijo, da meditação e do trabalho, elementos da vida em sociedade. Nesse sentido, a natureza se insere no que chamamos de racionalidade ou construção meramente humana, mesmo que arrogantemente achemos que não.

Aproveitando a deixa desse olhar crítico para o mundo ao nosso redor, a curadoria do RelevO reuniu alguns textos que pensam a criação da memória em suas múltiplas formas, temática importante para a literatura oral e escrita. No conto “Entusiasmo”, de Bruno Greggio, termo que etimologicamente significa a existência de um deus dentro de si, uma entidade estranha (ora considerada um parasita, ora uma divindade) se apossa do corpo humano e vai, aos poucos, eliminando os rastros da História. No outro conto, “Sossego da vovó”, uma tal de Sra. Minerva (eu ia reclamar do uso do pseudônimo; depois fiquei pensando que seria hipócrita, porque eu mesma já publiquei usando uma identidade inventada) apresenta a ideia de memória como uma decisão. E o poema de Hélio Ferreira, “rio guarauninha”, nos provoca a pensar a transformação de um rio que nos atravessa desde a infância, quando começamos a reconhecer os arredores, registrar e memoriar.

A memória é um tema fundamental da literatura porque, no fundo, fala sobre a experiência vivida ao mesmo tempo em que fala sobre uma vida inventada, gerando uma confusão muito doida em quem decide escutar essas histórias. Lembrar é já narrar. Isso quer dizer que não existem fatos? De forma alguma, senão cairíamos numa relatividade pós-moderna sem sentido, numa anti-história. Mas a interpretação desses fatos, ou o que se decide lembrar e guardar, é fruto de escolhas.

Seguindo o fio da meada sobre memória, e saindo dos textos para o real, achei intrigante a pergunta de um leitor ao editor do RelevO no Instagram: “após o término da leitura, qual o melhor destino para um jornal?”. Poderíamos listar diversas possibilidades: forrar o chão para um cachorrinho fazer suas necessidades, amassar em forma de bola para fazer embaixadinhas ou até mesmo queimar para defumar a casa contra espíritos agourentos. Fico com outra saída, mais política e pungente: gerar arquivo.

Um jornal como o RelevO, para além de comunicar, dar visibilidade e abrir espaços para variadas vozes, faz parte da construção de uma memória coletiva. Como já diria Derrida, em seu livro Mal de arquivo, existe uma pulsão de morte tentando fazer com que as memórias se dissipem (ou como já diria eu mesma interpretando Derrida, tá? Pode ser que não tenha sido bem assim que o homem quis dizer). Quando você, querido leitor, decide guardar e preservar o jornal, está contribuindo para a memória de nosso país, que sabemos ter sofrido sucessivos apagões ao longo da história. Imagina só, daqui a centenas de anos, alguém pode encontrar uma edição do RelevO nos escombros da sua casa, inundada pelo aumento do nível do mar. Um robô, chamado Lulu, amassará o jornal e o engolirá, inspirado pela Semana de Arte Moderna de 1922. Infelizmente, a ideia dele não é deglutir a memória, mas picotar o papel com as lâminas da sua garganta. Uma pena, mas acho que precisamos tentar, não é mesmo?

Autofricção

Editorial extraído da edição de fevereiro de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Temos pensado cada vez mais no conceito de fricção de conteúdo.

Não é preciso grande sofisticação intelectual para perceber que as plataformas digitais são desenhadas para reduzir ao máximo qualquer esforço do usuário. O consumo se torna automático, contínuo e difícil de interromper. Essa fluidez não é neutra. Ao eliminar pausas, escolhas e obstáculos, as redes sociais — principalmente — deslocam o leitor de uma posição ativa para uma condição de resposta quase reflexa. O que se perde nesse processo não é apenas atenção, mas a possibilidade de decisão consciente e de descoberta não mediada.

Ao priorizar recompensas rápidas e repetitivas, as redes sociais empurram o usuário para a gratificação imediata e para conteúdos previsíveis, confortáveis e ajustados a preferências já mapeadas. A agência individual é substituída por sugestões constantes em uma roda de hamster de conteúdo capaz de enlouquecer até o mais lúcido dos mortais. O esforço deixa de ser parte da experiência e, com ele, desaparece também uma dimensão fundamental da leitura: a de confronto, desacordo e risco. E o que isso tem a ver com o RelevO?

Pois bem, a experiência do impresso surge como um contraponto deliberado a essa lógica. A escolha pelo analógico, pela leitura sem notificações, pela curadoria humana e pelo tempo mais lento recoloca a fricção como parte do processo. Não se trata de criar dificuldades artificiais, como se praticássemos uma espécie de autofricção, nem de defender um purismo estéril no sentido de que passamos incólumes pelo trânsito da vida — até porque temos anúncios também —, mas de recusar a ideia de que a experiência precisa ser lisa, eficiente e imediatamente agradável. Também não buscamos produzir edições neutras, higienizadas ou pensadas para cumprir uma função pedagógica genérica, ainda que saibamos que leitores jovens, muitas vezes fora do radar das boas intenções adultas, acabam encontrando o jornal por conta própria.

Essa fricção editorial, no entanto, não se confunde com barreira de acesso. Se o conteúdo exige tempo, escolha e disposição, a circulação precisa ir no sentido oposto. Desde a primeira edição, em setembro de 2010, a distribuição é uma preocupação central do nosso projeto. Atualmente, chegamos, sem custo para os pontos culturais, em mais de 350 locais.

À primeira vista, enviar jornais gratuitamente para pontos de leitura pode parecer contraditório em relação ao modelo de assinaturas. Na prática, ocorre o inverso. São justamente os assinantes que viabilizam que o RelevO chegue a cidades distantes dos grandes centros, circule em livrarias independentes, cafés e sebos, e seja encontrado por leitores que talvez não o buscassem ativamente. Um jornal que se pretende vivo precisa se descentralizar, isto é, existir tanto na leitura individual como na experiência coletiva, no encontro fortuito e na recomendação informal.

Hoje, essa rede começa a ultrapassar fronteiras. A partir de fevereiro, o Jornal passa a circular também em dois pontos internacionais, ambos localizados em regiões de fronteira com o Brasil. Não se trata de expansão como fetiche — é o que o editor jura —, mas de coerência com a ideia de acesso. Se o conteúdo resiste à lógica da fluidez fácil, a circulação precisa resistir à concentração. O RelevO exige que o leitor pare, folheie, escolha, atravesse páginas, goste e rejeite textos. Não há algoritmo decidindo o que vem a seguir nem promessa de conforto contínuo. Essa fricção não busca afastar leitores nem comprometer a sustentabilidade do projeto. Partimos do entendimento de que ler é uma experiência que envolve provocação, contradição e alguma resistência à passividade imposta pelo ambiente digital.

Em um mundo desenhado para reduzir o atrito e preservar a anestesia, o RelevO pode, de fato, causar incômodo. Já perdemos assinantes por conta de um estilo menos polido e menos conciliador. Ainda assim, partimos do pressuposto de que existam leitores interessados em uma experiência que se organiza não só para agradar, mas também para tensionar, gerar algum tipo de impacto. Buscamos leitores dispostos a aceitar a dificuldade inerente de existir, ler e pensar. Leitores convictos de que esse esforço vale a pena.

Uma boa leitura a todos.

Priscila Branco: A maior treta literária do século

Coluna de ombudsman extraída da edição de dezembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Quando fui convidada para ser a nova ombudsman, a torcida inteira do Flamengo me perguntou o que diabos é essa palavra tão esquisita e por que virei um homem. Taí, realmente no Brasil não temos tal tradição interessante: mediar a interação do leitor com os temas publicados e encher o saco do editor. Obviamente, o cargo nem tem uma versão vocabular para mulheres. Brincamos que somos uma “ombudswoman”, mas ninguém usa realmente o termo. Só para registro (ou crítica passivo-agressiva), apenas cinco mulheres já ocuparam este lugar aqui no Relevo (contando comigo), entre 18 pessoas no total.

Estou muito honrada e feliz em contribuir com este Jornal, que acompanho e admiro há alguns bons anos: já fui anunciante, escritora publicada e sempre leitora. Juro que ninguém me ameaçou ou subornou para babar ovo assim, mas, gente, completar 200 edições não é para qualquer um! Começando a comentar sobre o número de dezembro, é realmente necessário que o editorial reafirme a importância do jornal impresso no Brasil. Com o avanço da internet e da Inteligência Artificial (nada contra, inclusive uso o ChatGPT para diagnosticar neuroses hipocondríacas), parece que a experiência silenciosa, lenta e corporal do texto num suporte físico tem se perdido ainda mais. Sem contar a última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024), que apontou uma diminuição drástica do número de leitores em nosso país. Acredito que toda iniciativa literária, pequena que seja, pode contribuir para melhorar esse quadro (alô, revistas e coletivos independentes!).

Mas nem só de elogios vive um ombudsmandato, não é mesmo? Uma leitora me mandou secretamente uma mensagem reclamando que o Relevo é muito pidão e que vive implorando esmola para existir. Não sei se vou conseguir cumprir minha obrigação em defesa dos leitores, porque achei a crítica descabida. Ora, como fazer um jornal impresso independente de literatura circular pelo Brasil, a um preço acessível, sem ser pela contribuição de quem o lê? E sabemos que a competição está alta: é tigrinho, bizarrices da Shopee, ETs de pelúcia e qualquer item aleatório de Stranger Things. O que você, leitor, sugere então que o RelevO faça? Venda pack de pé?

O Jornal também está recebendo muitas reclamações em relação às palavras utilizadas nas matérias ou textos literários. Sim, alguns vocábulos, apesar de estarem apenas em linhas corridas ou versos e não serem nenhuma bala perdida atingindo uma pessoa inocente nem notícia do crescimento numérico de agressões contra mulheres no país, estão incomodando a família tradicional brasileira ou o leitor mais recatado.

Rubervam, por exemplo, na edição passada criticou os poemas de Vitor Campos Lino, publicados na edição de novembro, devido a um “palavrório desordenado” (palavras dele). Beatriz Cagliari, em recente carta, apontou o “excesso de vulgaridade”. E ainda teve pedido de corte de recebimento do jornal em ponto de distribuição! Por outro lado, Millena, na última edição, sugeriu uma competição de xingamentos literários. Não sei se vocês conhecem um poeta chamado Ferreira Gullar e seu famoso “Poema sujo”. Sugiro que leiam o início e comentem o que acharam do uso das palavras escolhidas.

Nessa discussão toda sobre palavrões e partes específicas do corpo que são consideradas não gratas de aparecerem num jornal literário, prestei muita atenção à falta de reclamações em relação ao conteúdo do poema “Michelle”, de Rodrigo Madeira. É um poema muito violento, que mostra uma realidade dura dos moradores de rua de Curitiba e da luta de classes. Afinal, falar palavrão ofende, mas uma pessoa sucumbir à loucura e à pobreza e ser assassinada é aceitável pela sociedade. Reflitamos.
Por fim, vocês devem ter percebido que não tem treta nenhuma. O título foi só um chamariz mesmo, porque sei que vocês adoram uma fofoca. Beijo, e até a próxima!

A simplicidade é o selo da verdade?

Editorial extraído da edição de janeiro de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Janeiro é o mês zero com passado. O que é uma retrospectiva senão uma vaidade em forma de narrativa cronológica? Entre os marcos temporais e o vislumbre de alguns dias de descanso, olhamos para os últimos meses vividos como quem chacoalha um globo de neve, em uma busca por organizar o caos do vivido para que ele pareça coerente, contínuo, até mesmo digno de ser contado. E, afinal, estamos vivos: algo bem mais amplo do que um prêmio de consolação.

A retrospectiva não nasce do passado, mas do presente que olha para trás e escolhe o que merece permanecer, como as marcas de lápis no caderno que sobrevivem à fricção da borracha. É uma busca entre o automático das datas e as expectativas dos novos rumos. Como pronunciava Dorothy Parker, “Quatro coisas sem as quais eu teria me sentido melhor: / Amor, curiosidade, sardas e dúvida”.

Uma retrospectiva, em certa medida, assemelha-se a uma edição mensal de um jornal impresso (quem diria…): não registra o que aconteceu, edita. Corta arestas, suaviza fracassos, sublinha vitórias e, sobretudo, constrói sentido onde antes havia apenas sobrevivência. Há nela um desejo profundo de legitimação: provar que o caminho fez sentido, que os desvios eram parte do trajeto, que as quedas foram o ensaio do salto seguinte.

De fato, para um jornal impresso de papel e de literatura, uma retrospectiva é o momento em que o projeto olha para si mesmo e reconhece o custo material de existir: o papel novamente encareceu; a gráfica também reajustou preços; todos os itens de papelaria aumentaram acima da inflação; o prejuízo que acumulamos silenciosamente em 9 de 12 edições de 2025, ali na página 2, nos relembra dos assuntos da cozinha enquanto o mundo acredita que o nosso futuro é nos tornarmos todos um grande data center de IA. Todo novo ciclo é uma curiosa esperança de sustentabilidade.

Ao mesmo tempo, a retrospectiva também revela paradoxos do presente: enquanto o nosso caixa aperta, a circulação se amplia. Atualmente, atingimos 380 pontos de distribuição no Brasil todo, voltando ao patamar de distribuição de janeiro de 2020, um mês antes da pandemia da Covid-19. O nosso número de assinantes caiu de 1.150 para 1.030, embora o ticket anual tenha subido com o nosso reajuste da assinatura, de R$ 70 para R$ 80.

Enquanto o papel pesa no orçamento, a presença digital se expande. De dezembro de 2024 para dezembro de 2025, a quantidade de seguidores do RelevO cresceu 30% (12.000 vs. 15.600 seguidores) — e sem impulsionar posts, decisão também motivada por saber que Mark Zuckerberg existe (calculamos que ele vá sobreviver à nossa resistência. Não estamos preso a um suporte, mas a um modo de existir no mundo, ainda mais agora que ter 1 milhão de seguidores e ser influencer não quer dizer nada: as plataformas querem mesmo é que consumamos anúncios.

O impresso segue como gesto físico, lento e deliberado; o digital, como extensão, diálogo e atravessamento. Olhar para o ano que passou é reconhecer que o prejuízo não anulou o impacto do nosso produto em nossa (tsc tsc) comunidade e que ampliar circulação e presença não é sinal de conforto, mas de insistência (“essa frase parece o chatGPT” — dilemas contemporâneos). Uma retrospectiva, nesse caso, não encerra um ciclo, uma vez que documenta a decisão de continuar.

A simplicidade é um selo da verdade: queremos circular, queremos que o Jornal saia do PDF, seja impresso (ou imprimido!) e chegue às mãos de leitores. Do assinante que nos apoia, do leitor que nos encontra na melhor cafeteria de sua cidade ou em uma das 200 livrarias do Brasil que recebem o RelevO todo mês. Falar de 2026, nesse registro, não é anunciar conquistas mirabolantes ou metas ruidosas, e sim – apenas – declarar um compromisso cíclico com o simples: queremos continuar.

Por fim, o que desejamos para 2026? Saúde financeira e uma boa dose de diversão. Não se trata de resistir ao tempo, nem de romantizar dificuldades, mas de trabalhar dentro dele, com os limites conhecidos. Se continuarmos aqui na retrospectiva do fim do ano que vem, será porque o modelo funcionou o suficiente para prosseguir — e isso, mais que qualquer discurso, será o dado mais importante do próximo ano. Queremos continuar fazendo um impresso de literatura que circule de forma consistente, chegue aos pontos certos e encontre leitores.

Uma boa leitura a todos!