Priscila Branco: Por uma poética do deslocamento

Editorial extraído da edição de junho de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Editar e organizar a edição de um jornal de literatura pode, à primeira vista, parecer uma tarefa fácil, mas na verdade é complicada e hercúlea por diversas razões. Não entrarei em uma defesa da classe trabalhadora editorial nesse momento (apesar de achar que, sim, devemos nos unir internacionalmente e tomar o poder sempre que pudermos, nem que seja por meio de práticas independentes), mas é preciso dizer que, seja intencional ou inconscientemente, sempre me deparo com uma linha curatorial coerente e interessante no RelevO.

A edição de maio já me surpreende com as ilustrações, que, de certa forma, adiantam a história das escolhas do mês: por meio de deslocamentos do óbvio, o artista Rodrigues muda o foco do nosso olhar para as coisas que costumam estar em segundo plano. Essa tática nos permite observar as miudezas que estão mais invisibilizadas em uma paisagem, dando também poder à própria imagem que nos retorna a observação: o fóssil gigantesco em destaque na capa, o felino maior do que a linha do trem, uma cratera imensa que poderia ser um minúsculo buraco.

Essa escolha poética de representar a movimentação e a sacudida do olhar segue nos textos. Com ironia e bom humor, Diogo Santiago (que, agora com as minibios, sei que se deslocou de meu país Pernambuco para a França) critica a linguagem chata e enfadonha da academia e dos cultos. A linguagem também tende a ser secundarizada, quando pensamos uma pesquisa ou um tratado filosófico. Aqui, ela é tratada como pilar principal.

Kelem Tavares também nos desloca da pressa para a calmaria, com a metáfora do café, que conversa com todos os brasileiros. Além de ser o símbolo da energia e do trabalho duro, ele tem o seu lado B: o do ritual, da pausa e da observação. Não só isso, é o contato com o outro que gera esse deslocar-se, nos trazendo uma reflexão sobre a importância da alteridade no dia a dia (ou não, pode ser só um café instagramável).

Os poemas de Max Sacramento Martins brincam com os movimentos do natural ao humano, do divino ao mundano. Ao deslocar, com erotismo, os ritmos poéticos para lugares de prazer, dessacraliza a poesia e nos reconecta com a natureza e sua pulsão vital, sempre tensionada com a finitude.

Sem falar nas traduções que, por si só, já são a própria representação de um deslocamento. Um tradutor é um segundo autor de um texto. Um autor um pouco capenga e irritado às vezes; em outras, até mais genial que a própria autoria original. Falar em tradução é já falar de um outro lugar de criação, de um deslocar-se entre países e entre centenas de anos. Um tradutor é o guardião de passados e um motorista um pouco desgovernado.

O RelevO começou a edição passada com chave de ouro, quando o editorial trouxe para o debate a descentralização logística e o desejo de alcançar novos leitores em outras paisagens. Isso já fala sobre uma poética, mais do que isso, sobre uma política do deslocamento. Como leitora e admiradora do jornal (e agora como uma pequena farpa no pé do editor), é com alegria que vejo a postura editorial se expandir para comportamentos atitudinais no mundo, extrapolando as páginas do impresso. São escolhas sobre o modo de circulação e de abertura de portas em nosso país.

Para deslocar-se, seja para o bem ou para o mal, é preciso movimento e coragem, duas características que o RelevO tem de sobra (dessa vez foram só elogios, viu, editorial? Mas vejamos as cenas dos próximos capítulos!).

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Observação: não estou na Xuxa, mas gostaria de mandar um beijo para Constância Lima Duarte, assinante deste Jornal. Constância, sou sua fã! Você é uma das pesquisadoras mais incríveis de nosso país. Beijo!