Morgana Rech: Screen

Coluna de ombudsman extraída da edição de maio de 2020 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Um mês depois de levantar o acampamento no consultório, seguir à risca as normas de isolamento social, várias sessões on-line, RelevO e eu estamos entrando numa espécie de alta, mesmo que esse termo seja muito discutível na psicanálise.

Nosso problema não é financeiro, principalmente agora que o paciente-jornal tem até investido mais em nossa relação, me oferecendo obras maravilhosas em .jpg por e-mail, “capturando” o meu momento clínico para além dele. É maravilhoso como o narcisismo se engrandece na análise – não no sentido inflamado, que esconde um machucado terrível e maltratado por baixo –, mas esse narcisismo que, lá pelas tantas, pode ver o analista de igual para igual como pessoa, que entende o inexprimível do terapeuta, dá algo que ele precisa, mesmo sem que lhe tenha dito o que era.

Bem, nosso problema também não é falta de tempo, muito embora o RelevO esteja trabalhando dobrado para dar conta de manter as edições vivas e respirando nessa fase quarentênica, o que é muito compreensível. Tampouco podemos dizer que nosso problema é de lonjuras, porque agora estamos todos bem perto, vivendo nesse universo pandêmico simultaneamente com e sem fronteiras.

Talvez nem tenhamos um problema, na verdade. Freud mesmo dizia que existem análises termináveis e análises intermináveis. O RelevO é tão criativo e elabora tão bem seus conflitos, edição após edição, que ele quase anda mais rápido do que eu consigo compreender. Quem caminha perto assim da arte costuma se deslocar mais entre o desejo e a necessidade, inclusive o de ouvir e ser ouvido. Artistas têm mais cacife para fazer várias análises curtas ao longo da vida; estão sempre se reconhecendo em cada obra.

Freud, por exemplo, um dos artistas menos compreendidos do século passado[1], foi seu próprio analista durante muitos anos.

Remendou sua própria análise na sua própria criação e na sua própria vida, e assim criou o método que está em transformação até hoje, principalmente agora, transferidos que estamos para o screen. Vejo o RelevO pelo screen e mal posso acreditar que a pulsão de vida se infiltra tão bem num jornal de literatura, em plena pandemia mundial, e que torna sua criatividade soberana justo num momento em que quase nada circula neste mundo com tão pouco movimento.

 

[1] Digo isso com base nos meus estudos sobre a relação de Freud com a arte, mas ele nunca se denominou artista e raramente é visto assim pela comunidade científica.

Cezar Tridapalli: Muros e demolições

Coluna de ombudsman extraída da edição de maio de 2019 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


O RelevO de abril está afiado. Depois de minha apresentação em janeiro e minhas críticas duras em fevereiro e março, apontadas pelos leitores – uns gostando, outros não –, creio ser o momento de pensar o jornal com uma lente diversa. O jornal não me comprou, até porque, sabemos bem, dinheiro não é o forte da publicação e o choro a esse respeito tem cadeira cativa a cada número.

O que me move hoje é pensar um tema que – desde que recomecei a ler o jornal todos os meses, e texto a texto – tenho percebido como importante para os leitores. Das últimas edições (e eleições) de 2018 até esse abril de 2019, sempre há alguém falando sobre a postura política e ideológica do jornal, cobrando ou avalizando o modo como o RelevO se comporta.

Assumir um lado do espectro político, seja esquerda ou direita, liberal ou conservador, capitalista ou comunista, é fácil, é simples. Elegem-se temas e textos, que elegem também o público: uma das alas da relação dualista cai fora, a outra abraça a ideia. É assim que se cria mais um instrumento para o júbilo dos amigos e a fúria ou a indiferença dos inimigos. Em um país marcado por uma polaridade tão flagrante, cujo diálogo foi cortado, não entendo que pular para um dos lados do muro e ficar nele seja desejável para um jornal de literatura. Portanto, minhas críticas anteriores falavam mais era da falta de jeito de selecionar os textos e de arremessá-los nas páginas. Que um jornal de arte e literatura não deva querer ser enfeite, isso é muito bom, mas também não pode ser um aglomerado qualquer e se rotular como artístico “porque arte é isso mesmo, essa coisa muito lôka”. Ser louco e ser artista/jornalista que usa a eventual potência da loucura são coisas diferentes.

Retomo agora a primeira afirmação que fiz, lá no primeiro parágrafo: o RelevO de abril está afiado. E não é para selecionar o público, não é para dividir seus leitores entre rivais e amigos, entre aqueles que concordam e aqueles que discordam. É porque o RelevO está sim fazendo política e está sendo ideológico. Como não sê-lo? Mesmo se publicasse receitas de bolo, com o país em frangalhos vexaminosos, seria ideológico, estaria tomando o partido da indiferença e da aceitação. Mas o RelevO não faz isso quando escolhe, por exemplo, publicar uma entrevista sobre histórias em quadrinho que pretendem recontar a História (“A rainha-cadáver do mundo ibérico”), ou um relato pessoal da escritora Natalia Borges Polesso (“Eu escritora, eu lésbica”. O poema da página 11, aliás, é dela?), ou ainda quando satiriza frases-feitas, a autoajuda melosa que em meio ao abandono da educação e da cultura anda tendo, cof, cof, caráter formativo (adorei o José Viral, 17, que teve a grande sacada da vida quando leu no Facebook “Não importa o que você decida, importa o que te faz feliz”), entre tantos outros exemplos e escolhas da edição de abril. Isso é ser afiado sem conversa fiada. É ser afiado quando se consegue espetar o gume em gregos e troianos, na carne que sentir a pontada. Ou alguém aí, filiado a gregos ou troianos, se acha livre de defeitos? Deixar-se cortar pode ser sábia decisão. Deixar a lâmina aguçada do texto abrir uns talhos em nosso mundo simbólico instituído é o que nos faz mudar. Só a fissura no concreto armado das nossas convicções pode nos demover, comover, mover. Só fazemos travessia, ou seja, só saímos de onde estamos se algo nos desequilibrar e nos obrigar a buscar equilíbrio em outros portos, até uma nova travessia. O próprio ato de andar pede de nós desequilíbrio para reequilibrarmo-nos.

De tempos para cá, também percebo a menção do jornal ao caos. Só no editorial de abril, o caos apareceu três vezes. Já falei nas edições anteriores do caos-bagunça, sem a proposição de uma nova ordem, o que é lamentável. Mas há um caos necessário, que revolve a ordem instituída – com a qual, desconfio, não estamos contentes – e pode (deve?) provocar divergência e diversão (falei mais longamente sobre a di-versão na edição de março). A demolição de uma ordem social pode se dar na marra, com a organização de grupos que cheguem quebrando tudo, ou podem se dar – mais lento, mas mais consistente – com a leitura, tendo a palavra uma grande capacidade de tornar as nossas barreiras mais permeáveis, mais porosas, recombinando sua matéria ou mesmo erodindo-a.

A figura do isentão é malvista. O isentão fecha os olhos, ou talvez os abaixe para ver melhor o umbigo. Mas a ideia de estar em cima do muro sempre me foi sedutora, acho a imagem bem rica. De cima do muro pode-se olhar para os dois lados e para as linhas do horizonte, descobrir a comédia humana em ação, assistir à miséria humana em ato. Porque quem está só em um dos lados não vê o outro, vê um muro e atira pedras sem saber direito em quem acerta.

Ficar em cima do muro – entendam, é uma imagem retórica, pois sabemos que descemos dele muitas vezes – é ter ponto de vista privilegiado, mesmo que sejamos alvos fáceis de pauladas e pedradas.

Enfim, lâmina afiada e caos resumem a cadeia significante que propus para a avaliação do RelevO de abril. A lâmina revolve, busca fazer do caos uma outra ordem possível e oculta. Pode machucar, mas desperta todo o mundo que não está anestesiado. E espero que não estejamos.

Ricardo Lísias: Até logo!

Coluna de ombudsman extraída da edição de maio de 2018 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Uma ou duas colunas antes dessa, defendi a impossibilidade de um professor de literatura afirmar que um aluno estaria “lendo” um texto literário erradamente. Como disse, cada um constrói um sentido conforme muitos fatores diferentes, alguns bastante pessoais. Todo mundo, por exemplo, acaba transportando sua história de vida para a interpretação de um poema. Aceitar uma leitura, mas não outra seria, dessa forma, dizer que experiências são mais ou menos válidas. Não é possível.

Na minha opinião, pode-se corrigir apenas a redação de um aluno. Muitas vezes ele não consegue se expressar com clareza. Com algum esforço – em alguns casos com muito esforço –, o professor pode sugerir novas maneiras de escrever, sanar vícios e oferecer estruturas argumentativas mais eficazes. 

Não tenho dúvidas disso. No entanto, acabei achando meu texto incompleto. Recebi algumas mensagens com perguntas. Uma delas me deixou bastante pensativo: e se um aluno, durante uma determinada interpretação, aparecer com uma interpretação racista? O professor terá ou não legitimidade para contestá-lo?

Acredito que sim. É perfeitamente razoável a discussão sobre o uso de textos discriminatórios em sala de aula de um autor como Monteiro Lobato. Entendo os grupos que acreditam que textos dessa natureza não deveriam ser usados. Eu não os usaria em uma aula do Ensino Fundamental, por exemplo. De uma forma ou de outra, se um professor optar por levar aos estudantes um texto racista, parece claro que o assunto deve ser a priori discutido.

Mas não era disso que eu estava falando. Um aluno talvez revele sentimentos racistas ao interpretar um poema. Nesse caso, o professor pode e deve intervir, no sentido óbvio de garantir a preponderância dos direitos humanos diante de quaisquer outras questões. Aqui a construção do conhecimento se dá sempre a partir do universo prévio de cada um dos alunos. Sem dúvida, para muitos leitores desse texto já deve ter aparecido o nome de Paulo Freire.

É isso. As ideias do nosso maior intelectual não se aplicam apenas à alfabetização. Todo o processo escolar, nos seus mais diferentes graus, precisa partir do universo do próprio estudante. Dele em diante, com certeza pode haver não apenas a formação de leitores aptos a expressar seus próprios sentidos, mas para construir um mundo mais próximo do que preconiza a Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Esse é meu último texto como ombudsman. Agradeço a leitura de todos. Foi divertido e instrutivo. Quanto ao ataque histérico do secretário do cardeal Ratzinger na página ao lado, acho que vou deixar passar. Segundo ele, as coisas vão começar a dar errado para mim. Aguardo ansioso esse dia. O coroinha está mal informado, mas me deixou com medo: buuuuuuuuuuuuu.

Gutemberg Medeiros: Boris Schnaiderman, jornalista

Coluna de ombudsman extraída da edição de maio de 2017 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Algumas editoras lembram o centenário da Revolução Russa com lançamentos de obras literárias e de cunho histórico. Mas há outro centenário a lembrar em relação à cultura russa no Brasil, o de nascimento de Boris Schnaiderman, em 17 de maio de 1917. Nascido em Úman, mas criado na cidade portuária de Odessa, dedicou 74 anos à tradução e divulgação da literatura e cultura russas no Brasil.

A lista de autores que Boris trouxe até nós é extensa. Como Isaac Bábel, Aleksander Blok, Ivan Bunin, Fiódor Dostoiévski, Ilia Ehrenburg, Máximo Górki, Daniil Kharms, Vladimir Maiakóvski, Ossip Mandelstam, Iuri Oliecha, Leon Tolstói, Anton Tchékhov, entre tantos outros. Além de serem expoentes da rica tradição da literatura em língua russa, foram traduzidos por este que é uma das mais originais personalidades da cultura brasileira.

O que pouco se fala sobre Boris é a sua trajetória de jornalista cultural. São mais de 300 artigos publicados na imprensa desde 1956. Ele inicia no antigo suplemento literário de O Estado de São Paulo editado por Décio de Almeida Prado e Antonio Cândido. Foi-lhe oferecido espaço intitulado “Letras Russas”, em paralelo à coluna “Letras Germânicas” de seu amigo e um dos principais críticos de teatro, o berlinense Anatol Rosenfeld.

Formou gerações de leitores, não exclusivamente sobre literatura russa. O seu ensaísmo chega ao tom de diálogo dos mais abertos. Por vezes, vislumbra aspectos da sua memória, desde que relevantes para o fluxo de entendimento. Ele lembra que logo depois que assumiu a coluna no Estadão, fez confidência a Décio. Sentia-se muito mal como comunista em colaborar em um dos principais jornais da direita. O editor sorriu e pediu para olhar para a redação. Assim como em toda a grande imprensa, a maioria dos jornalistas era de esquerda. Logo, tinham de sobreviver de uma forma ou de outra naquele ofício e buscar espaços para veicular algo na contracorrente do jornal.

Em termos de jornalismo cultural, Boris é um exemplo dos mais bem acabados da transição que ocorreu desde os anos de 1950. Como historiografou Russel Jacoby, professor da Universidade da Califórnia, em Os últimos intelectuais (Edusp, 1990), o intelectual que pensava questões emergentes da sociedade na crítica literária ou ensaio sociológico falava ao público o mais amplo possível a partir do jornal diário. Gradativamente, esse segmento migrou para as universidades e fala para determinado leitor iniciado em sua área de pesquisa.

Ele fez a transição para a universidade, ao fundar o Curso de Russo, na USP, em 1960, contribuindo de forma decisiva para a profissionalização da atividade de tradutor no Brasil. Manteve a qualidade de colaborar com jornais e revistas, mesmo com periodicidade variável, mantendo um texto dos mais inclusivos para todo o perfil de leitor, bastasse ser interessado em literatura e cultura russas. Este não foi o primeiro curso do gênero do país de terceiro grau, mas foi o único que sobreviveu à ditadura civil-militar instaurada em 1964. Sob o comando de Boris e com o apoio de colegas e alunos – entre eles Antonio Cândido, Paulo Emilio Salles Gomes, Sérgio Buarque de Holanda e Florestan Fernandes – manteve essa trincheira livre de pensamento e prática cotidianas.

Para o leitor ter noção da rica produção jornalística de Boris, há duas coletâneas de textos. A primeira, em catálogo pela Editora Perspectiva intitulada Projeções Rússia/Brasil/Itália (1978), traz textos publicados em jornais e revistas das décadas de 1960 e 1970. Um dos destaques é a revelação de que o poeta Alexander Púchkin foi tradutor para o russo de uma lira do árcade Tomás Antonio Gonzaga a partir de uma edição francesa.

Turbilhão e semente: ensaios sobre Dostoiévski e Bakhtin (1983, esgotado) é um todo coeso de textos jornalísticos publicados, entre outros, no “Caderno de Sábado”, suplemento semanal de cultura do extinto Jornal da Tarde (do mesmo grupo do Estadão). Livro pioneiro onde se descortina o gradativo descobrimento do pensador russo Mikhail Bakhtin – hoje presente em pesquisas muito além dos campos da linguística e literatura –, cujo introdutor no Brasil foi o próprio Boris. Mais uma vez, em cada texto ele introduz o leitor não especializado ao universo de reflexões de Bakhtin, revelando a sua riqueza e pertinência.

Na construção de uma memória coletiva, igualmente função do bom jornalismo, uma das obras em que Boris melhor soube abordar importantes passagens de sua vida está em seu volume de ensaios Tradução: ato desmedido (Perspectiva, 2011), onde narra como se deu o envolvimento com a língua russa em situações diferentes ao de tradutor. Como todos, nem sempre tem dimensão exata do que viveu. Isso se torna evidente quando narra os meses em que foi “secretário” do correspondente da Agência Telegráfica da URSS (Tass), Iúri Kalúguin, entre 1945 e 1947.

Ao ler a descrição, como jornalista, não pude concordar que Boris fosse apenas secretário e fui eliminar essa dúvida. Ele manteve a versão reiteradamente. Então, pedi para descrever seu cotidiano. Boris chegava à casa do russo e lia jornais, revistas e escolhia as notícias que poderiam interessar aos leitores da Tass. Feita essa triagem, lia em russo o que estava em português para Kalúguin. O jornalista escrevia a matéria e Boris revisava os dados. Eventualmente, o “secretário” somava ao texto aspectos que estivessem em pressuposição ao leitor brasileiro, mas não ao russo. Após a definição de quais sugestões de Boris seriam aceitas, providenciava-se o texto final ainda com uma última leitura deste. Expliquei a Boris que ele exerceu funções específicas de um jornalista: pré-pauta, pauta, redação, pré-edição e edição. Ele me olhou espantado e reconheceu o seu engano.

Boris partiu no ano passado, aos 99 anos. Mas o seu acervo está aí e pode gerar várias coletâneas de seus textos jornalísticos, a exemplo do que ocorre há anos com a produção de Anatol Rosenfeld. Enquanto isso, as suas traduções estão em catálogo pela Editora 34, que há pouco relançou O processo do tenente Ieláguin de Ivan Bunin e promete relançar a prosa Inveja, de Iuri Oliesha, uma das principais da literatura russa e publicada originalmente em 1927.

Ben-Hur Demeneck: Arte do efêmero

Coluna de ombudsman extraída da edição de maio de 2016 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


O ombudsman recorre ao método de Bertolt Brecht para derrubar a “quarta parede” deste jornal literário diante do público. Para facilitar a demolição dos discursos, o representante dos leitores traz consigo um machado típico dos ancestrais vikings desse cargo escandinavo.

Convidados a se manifestar, os editores saem da sua condição de personagens para explicar como criam seu jogo de cena. MÉTODO: encadeamento de falas do núcleo editorial, obtidas a partir de um questionário comum e de entrevistas exclusivas. ELENCO: Daniel Zanella (DZ): o editor-chefe; Ricardo Pozzo (RP): o editor; Marceli Mengarda (MM): a diagramadora; e Mateus Ribeirete (MR): o revisor do jornal e editor da newsletter Enclave.

 

  1. Jogral autoral 

Primeira cena: o elenco olha para a plateia e responde ao subtexto: quais foram os autores que lhes tiraram a paz diante da literatura? Preparação dos atores: sessão de grito primal. Sequência das falas (que podem ser intercaladas): MR: Jorge Luis Borges, Douglas Adams, Valencio Xavier; DZ: Rubem Braga, Júlio Verne, Paulo César Pinheiro; MM: José Saramago, Fiódor Dostoievski; RP: Raduan Nassar, George Orwell; MM e RP, em uníssono: Guimaraes Rosa.

 

  1. O menestrel 

“Não gosto do ideal de jornalismo cultural como haute culture, seriedade de fraque, literatura de doutorzinho. Não deve existir um totem que não mereça ser derrubado. Ninguém e ‘inzoável’, nada e sagrado – principalmente nos mesmos (…) O que jamais faremos: usar dinheiro público” (DZ). 

“[Nossa] transparência de método e de finanças veio a partir da constatação de que muita gente do meio cultural vive a se lamentar de condições subumanas, mas não abre suas contas. Gosto de saber do tamanho do fracasso dos outros também. Não são poucos os casos de reclamões culturais de vida mansa” (DZ).

 

  1. Teatro épico

“A postura amadora e desapegada do RelevO nos favorece a não ter rabo preso, e isso atrai um público fiel. Somos uma várzea organizada, e essa leveza agrada – principalmente no meio literário, cujo senso de humor é inferior ao de uma endoscopia” (MR).

“Volta e meia entro em crise com esse chamado mundo literário, levado por alguns fatos como o de perceber que a literatura não tem importância alguma no correr cotidiano do mundo – a não ser para os que foram ou serão seduzidos por ela” (RP).

“A coisa menos ‘desperdiciosa’ da minha vida, até agora, foi a literatura e o que ela me trouxe. Concordo muito com o Leminski, quando ele diz que a poesia e um inutensílio. Acho que a literatura, no geral, é isso aí – um inutensílio” (MM).

“O escritor e um ser carente e o fracasso e sua moeda. O que fazemos, nos, do circuito cultural, e perfumar o fracasso. Isso deve incomodar aqueles de vida mais matemática, por assim dizer” (DZ).

 

  1. Fábula líquida 

“O mundo atual é cada vez mais superficial. E não se deve culpar as pessoas por isso, [pois] o sistema biológico não foi feito para essa avalanche de informações e imagens a qual estamos sendo submetidos – o que pode levar as pessoas a terem comportamentos contraditórios ao seu discurso” (RP).

“É legal o quanto recebemos de retorno dos leitores, mesmo (e talvez principalmente) o negativo. E bom saber que alguém se importa [com o nosso trabalho], a ponto de entrar em contato (…). Porém, sinto que o diálogo entre a newsletter e o jornal poderia ser melhor aproveitado” (MR).

“O que interessa para o RelevO e veicular trabalhos bons e relevantes [esteticamente] (…). Até me surpreendi de não ter tido mais feedback horrorizado de capas alegadamente chocantes. A exemplo da edição de dezembro de 2015, que não ficou nem no ISSUU de tanta imagem de vagina [estampada] na capa (…). No fundo, acho que temos pouco a perder. Então, dá para arriscar mesmo” (MM).

 

  1. Papel do jornal

“Ainda acredito no impresso como um organizador do cotidiano. Em meio a uma enxurrada de informações, excitações, vaidades e desejos por atenção, o impresso pode ser este espaço de concentração, de comunicação mais dirigida, de diálogo” (DZ).

“E preciso encorajar e incentivar mais mulheres a escrever (de preferência, sem dizer que são loucas), porque a diferença quantitativa e clara e, talvez, deva-se ao fato de que as mulheres nunca tenham tido muito espaço para isso” (MM).

“[Você acredita que o impresso continuará por muito tempo um eixo, um centralizador da movimentação cultural nesse mundo em que há tanta dispersão virtual?] Sim. Principalmente quando O EDITOR RESOLVER A MERDA DO ISSN! CARALHO, ZANELLA.” (MR).

 

  1. Olhando nos olhos 

O narrador expõe as respostas do núcleo editorial diante de um questionário feito sobre transparência. O recurso havia sido proposto, em 2007, pela Universidade de Maryland através de seu International Center for Media and the Public Agenda (ICMPA).

Cabe aos leitores se posicionar diante do autorretrato pintado pelos editores, que relacionaram de forma unanime o RelevO a três dos cinco procedimentos identificados a “Accountability”: (a) Correção de erros: existe disposição para reconhecer e retificar os erros cometidos; (b) Politica editorial: os leitores conseguem reconhecer quais são os valores que orientam o trabalho dos editores; e (c) Interatividade: os leitores têm canais para expressar seus comentários e críticas.

O quarto tópico – transparência publicitária – recebeu a maior parte dos votos (“o jornal expõe eventuais conflitos de interesses”), enquanto que a questão relativa a propriedade ficou próxima da marcação zero entre os editores (“os leitores sabem quem são os ‘donos’ do jornal”). Nesse momento, o apresentador discursa a plateia sobre a materialidade do mundo: segundo o estudo de Maryland (“Openness & Accountability”), apenas 11 dos 25 canais globais pesquisados publicavam ou transmitiam correções de matérias de maneira clara, e somente sete mantinham ombudsman. Uma realidade cruel e anunciada: “quando o assunto e transparência, até a BBC pode tomar umas aulinhas com o RelevO brasileiro”.

 

  1. Desfecho

Literatura, transparência e humor. Em sua última colaboração como ombudsman, o narrador afirma que é com essas três palavras que resume o jornal RelevO. Para ser mais claro, ele disserta: (a) literatura como cultura – antes mesmo de ser pensada como arte; (b) transparência como a exposição das escolhas editoriais em estética e “gestão”; e (c) humor – ora autoderrisório, ora ferramenta de liberdade de expressão.

O locutor convida ao palco seu substituto, o jornalista Silvio Demétrio. Elogia o “formalismo psicodélico e esquizoanalítico” de Demétrio e lhe entrega em mãos o machado viking dos ancestrais ombudsman. Embora tal cargo e objeto não estejam relacionados na Escandinávia, rendem uma metáfora para quem precisa invocar o poder dos leitores antes de partir ao meio as couraças da imprensa. O novo personagem recebe o amuleto e logo o tropicaliza, ao metralhar um discurso sobre Xangô na obra de Jorge Mautner. Cai o pano.

Carla Dias: Espalhando palavras e poesia

Coluna de ombudsman extraída da edição de maio de 2015 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Em uma época permeada por urgências, atenção faz significativa diferença. As redes sociais são vedetes dessas urgências. Tudo é rápido e contínuo para abastecer o espectador, desculpem-me, o internauta com todas as informações possíveis. Dá trabalho desviar das informações que não fazem mais do que nos levar a gastar tempo. Mas quem não gosta de preguiçar o pensamento, vez ou outra?

Recebemos uma mensagem de um leitor justamente sobre a falta de presença nas redes sociais. Porém, é preciso compreender que alimentar as redes sociais, a fim de atender à voracidade contemporânea, é trabalho que exige tempo que muitos de nós preferimos dedicar à criação, seja do poema, do conto, da crônica, da ilustração.

Veja bem, eu acho bem coerente o posicionamento do leitor; é a realidade que vivemos. Porém, acredito que o RelevO é, primeiramente, um jornal literário, mensal, que você pode adquirir impresso ao se tornar assinante ou se tiver a sorte de frequentar um dos pontos de distribuição gratuita, além da opção da leitura online. Além do mais, foi lançada a newsletter semanal Enclave, que tenho certeza, deixará o leitor mais feliz com a presença do periódico nas redes sociais.

Sendo assim, se você é apreciador do produto, não se intimide: assuma seu apreço, assine a versão impressa, compartilhe o jornal e a newsletter nas redes sociais. Colabore para que mais pessoas tenham acesso a esse trabalho que é feito com o maior prazer pela equipe do jornal. Ajude-nos a fazer como o leitor que nos escreveu sugeriu: espalhe-o.

A edição de abril chegou com as ótimas ilustrações de Anderson Resende, criaturas que se embrenham pelas palavras alheias e pontuaram com questionamento o olhar do leitor. Adorei a capa.

Gosto muito de Daniel Mazza. “Os ossos” apenas endossa esse minha benquerença. Para mim, o autor reduz a todos aos ossos, aos quais creditamos o final de quem somos, mas mostrando que são eles que carregam nossa história. É antropológico e emocional: “A eloquência dos ossos, silenciosa/ Traz muito mais verdades do que provérbios/E salmos. Sábia é a voz dos ossos mudos”.

Após ler o texto “Her e As Ficções Homogêneas – ensaio em narrativa capitalista, gênero e cinema”, de Rubens Akira Kuana, tive de repensar não somente a minha impressão sobre o filme, mas aspectos da minha própria existência. Coerente, Kuana aborda a distância que alimentamos de nós mesmos a troco do que nem sempre sabemos nos será útil.

Em “Menos, por favor”, Marianna Moraes Faria cita muitas formas de sermos preconceituosos ao fazermos de conta que não: “Olha só esse cara, a mulher dele tem quase a idade da minha tia, parecem mãe e filho. Olha lá, que merda, vão casar. Ele só quer o dinheiro dela, lógico”. Trata-se da lógica dos intolerantes, que também se apresenta no “Agora que sou escritor”, de Mateus Ribeirete: “Quanto às dedicatórias, dos contos dos outros 15 participantes, escrevi “não li”. Sobre o conto de um Mateus Senna, escrevi “não li e não gostei”.

No trecho publicado do livro “Poesia Brasileira Contemporânea – Crítica e Política”, Renato Rezende aborda a crítica de poesia brasileira, baseando-se também em questões voltadas à resistência da linguagem, que saiu da clareza da sua definição para navegar em outras formas de arte, como a canção. A poesia na música. “É preciso, portanto, enfrentar a escuridão e as contradições do nosso tempo, identificar outras chaves de leitura e novas brechas e bordas para pensar a nossa poesia.”

Obviamente, esse passeio não incita o fim da poesia, mas pede por mais atenção. São para poucos os escassos espaços dedicados a tal linguagem, e quase sempre relegados aos poetas que movimentam o mercado. Aliás, é esse mercado que carece de ser ampliado; a poesia pode até não ter lugar definido no atual cenário literário, mas definitivamente continua a dar origem a grandes poetas e a gerar significativas e inspiradoras obras.

Prosa e poesia primorosas – e capazes de atiçar questionamento – estavam estampadas nas páginas do RelevO de abril. Foram tantas de uma e de outra que me encantaram, que tive trabalho para selecionar algumas para falar a respeito. Eu gosto de ter trabalho.

Porém, devo confessar que a presença marcante da poesia – ainda que lembrada na prosa –, pela qual tenho profundo apreço, e que me acompanha desde o primeiro questionamento, fez a edição passada entrar para o hall das mais queridas. Ouso dizer, meu caro Renato Rezende, que, talvez, não sejamos nós – leitores, escritores e críticos – os responsáveis por definir onde cabe a poesia. Ela mesma se apodera dos espaços. Sendo assim, investigá-la pode ser tão interessante quanto consumi-la, a alma entregue a esse compromisso.

Não poderia deixar de mencionar a parceria entre o blog Obscenidade Digital e o RelevO, divulgada na edição passada e estreando nesta, com texto de Gabriel Protski. A cada edição, um texto da equipe do coletivo curitibano. Que essa parceria nos renda ótimas leituras.