Priscila Branco: A maior treta literária do século

Coluna de ombudsman extraída da edição de dezembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Quando fui convidada para ser a nova ombudsman, a torcida inteira do Flamengo me perguntou o que diabos é essa palavra tão esquisita e por que virei um homem. Taí, realmente no Brasil não temos tal tradição interessante: mediar a interação do leitor com os temas publicados e encher o saco do editor. Obviamente, o cargo nem tem uma versão vocabular para mulheres. Brincamos que somos uma “ombudswoman”, mas ninguém usa realmente o termo. Só para registro (ou crítica passivo-agressiva), apenas cinco mulheres já ocuparam este lugar aqui no Relevo (contando comigo), entre 18 pessoas no total.

Estou muito honrada e feliz em contribuir com este Jornal, que acompanho e admiro há alguns bons anos: já fui anunciante, escritora publicada e sempre leitora. Juro que ninguém me ameaçou ou subornou para babar ovo assim, mas, gente, completar 200 edições não é para qualquer um! Começando a comentar sobre o número de dezembro, é realmente necessário que o editorial reafirme a importância do jornal impresso no Brasil. Com o avanço da internet e da Inteligência Artificial (nada contra, inclusive uso o ChatGPT para diagnosticar neuroses hipocondríacas), parece que a experiência silenciosa, lenta e corporal do texto num suporte físico tem se perdido ainda mais. Sem contar a última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024), que apontou uma diminuição drástica do número de leitores em nosso país. Acredito que toda iniciativa literária, pequena que seja, pode contribuir para melhorar esse quadro (alô, revistas e coletivos independentes!).

Mas nem só de elogios vive um ombudsmandato, não é mesmo? Uma leitora me mandou secretamente uma mensagem reclamando que o Relevo é muito pidão e que vive implorando esmola para existir. Não sei se vou conseguir cumprir minha obrigação em defesa dos leitores, porque achei a crítica descabida. Ora, como fazer um jornal impresso independente de literatura circular pelo Brasil, a um preço acessível, sem ser pela contribuição de quem o lê? E sabemos que a competição está alta: é tigrinho, bizarrices da Shopee, ETs de pelúcia e qualquer item aleatório de Stranger Things. O que você, leitor, sugere então que o RelevO faça? Venda pack de pé?

O Jornal também está recebendo muitas reclamações em relação às palavras utilizadas nas matérias ou textos literários. Sim, alguns vocábulos, apesar de estarem apenas em linhas corridas ou versos e não serem nenhuma bala perdida atingindo uma pessoa inocente nem notícia do crescimento numérico de agressões contra mulheres no país, estão incomodando a família tradicional brasileira ou o leitor mais recatado.

Rubervam, por exemplo, na edição passada criticou os poemas de Vitor Campos Lino, publicados na edição de novembro, devido a um “palavrório desordenado” (palavras dele). Beatriz Cagliari, em recente carta, apontou o “excesso de vulgaridade”. E ainda teve pedido de corte de recebimento do jornal em ponto de distribuição! Por outro lado, Millena, na última edição, sugeriu uma competição de xingamentos literários. Não sei se vocês conhecem um poeta chamado Ferreira Gullar e seu famoso “Poema sujo”. Sugiro que leiam o início e comentem o que acharam do uso das palavras escolhidas.

Nessa discussão toda sobre palavrões e partes específicas do corpo que são consideradas não gratas de aparecerem num jornal literário, prestei muita atenção à falta de reclamações em relação ao conteúdo do poema “Michelle”, de Rodrigo Madeira. É um poema muito violento, que mostra uma realidade dura dos moradores de rua de Curitiba e da luta de classes. Afinal, falar palavrão ofende, mas uma pessoa sucumbir à loucura e à pobreza e ser assassinada é aceitável pela sociedade. Reflitamos.
Por fim, vocês devem ter percebido que não tem treta nenhuma. O título foi só um chamariz mesmo, porque sei que vocês adoram uma fofoca. Beijo, e até a próxima!

A simplicidade é o selo da verdade?

Editorial extraído da edição de janeiro de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Janeiro é o mês zero com passado. O que é uma retrospectiva senão uma vaidade em forma de narrativa cronológica? Entre os marcos temporais e o vislumbre de alguns dias de descanso, olhamos para os últimos meses vividos como quem chacoalha um globo de neve, em uma busca por organizar o caos do vivido para que ele pareça coerente, contínuo, até mesmo digno de ser contado. E, afinal, estamos vivos: algo bem mais amplo do que um prêmio de consolação.

A retrospectiva não nasce do passado, mas do presente que olha para trás e escolhe o que merece permanecer, como as marcas de lápis no caderno que sobrevivem à fricção da borracha. É uma busca entre o automático das datas e as expectativas dos novos rumos. Como pronunciava Dorothy Parker, “Quatro coisas sem as quais eu teria me sentido melhor: / Amor, curiosidade, sardas e dúvida”.

Uma retrospectiva, em certa medida, assemelha-se a uma edição mensal de um jornal impresso (quem diria…): não registra o que aconteceu, edita. Corta arestas, suaviza fracassos, sublinha vitórias e, sobretudo, constrói sentido onde antes havia apenas sobrevivência. Há nela um desejo profundo de legitimação: provar que o caminho fez sentido, que os desvios eram parte do trajeto, que as quedas foram o ensaio do salto seguinte.

De fato, para um jornal impresso de papel e de literatura, uma retrospectiva é o momento em que o projeto olha para si mesmo e reconhece o custo material de existir: o papel novamente encareceu; a gráfica também reajustou preços; todos os itens de papelaria aumentaram acima da inflação; o prejuízo que acumulamos silenciosamente em 9 de 12 edições de 2025, ali na página 2, nos relembra dos assuntos da cozinha enquanto o mundo acredita que o nosso futuro é nos tornarmos todos um grande data center de IA. Todo novo ciclo é uma curiosa esperança de sustentabilidade.

Ao mesmo tempo, a retrospectiva também revela paradoxos do presente: enquanto o nosso caixa aperta, a circulação se amplia. Atualmente, atingimos 380 pontos de distribuição no Brasil todo, voltando ao patamar de distribuição de janeiro de 2020, um mês antes da pandemia da Covid-19. O nosso número de assinantes caiu de 1.150 para 1.030, embora o ticket anual tenha subido com o nosso reajuste da assinatura, de R$ 70 para R$ 80.

Enquanto o papel pesa no orçamento, a presença digital se expande. De dezembro de 2024 para dezembro de 2025, a quantidade de seguidores do RelevO cresceu 30% (12.000 vs. 15.600 seguidores) — e sem impulsionar posts, decisão também motivada por saber que Mark Zuckerberg existe (calculamos que ele vá sobreviver à nossa resistência. Não estamos preso a um suporte, mas a um modo de existir no mundo, ainda mais agora que ter 1 milhão de seguidores e ser influencer não quer dizer nada: as plataformas querem mesmo é que consumamos anúncios.

O impresso segue como gesto físico, lento e deliberado; o digital, como extensão, diálogo e atravessamento. Olhar para o ano que passou é reconhecer que o prejuízo não anulou o impacto do nosso produto em nossa (tsc tsc) comunidade e que ampliar circulação e presença não é sinal de conforto, mas de insistência (“essa frase parece o chatGPT” — dilemas contemporâneos). Uma retrospectiva, nesse caso, não encerra um ciclo, uma vez que documenta a decisão de continuar.

A simplicidade é um selo da verdade: queremos circular, queremos que o Jornal saia do PDF, seja impresso (ou imprimido!) e chegue às mãos de leitores. Do assinante que nos apoia, do leitor que nos encontra na melhor cafeteria de sua cidade ou em uma das 200 livrarias do Brasil que recebem o RelevO todo mês. Falar de 2026, nesse registro, não é anunciar conquistas mirabolantes ou metas ruidosas, e sim – apenas – declarar um compromisso cíclico com o simples: queremos continuar.

Por fim, o que desejamos para 2026? Saúde financeira e uma boa dose de diversão. Não se trata de resistir ao tempo, nem de romantizar dificuldades, mas de trabalhar dentro dele, com os limites conhecidos. Se continuarmos aqui na retrospectiva do fim do ano que vem, será porque o modelo funcionou o suficiente para prosseguir — e isso, mais que qualquer discurso, será o dado mais importante do próximo ano. Queremos continuar fazendo um impresso de literatura que circule de forma consistente, chegue aos pontos certos e encontre leitores.

Uma boa leitura a todos!