Editorial extraído da edição de outubro de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
Há quem diga que um impresso é como um filho. E pode ser que seja. Um impresso nasce pequeno, exige cuidado constante e, aos poucos, aprende a andar sozinho pelas ruas, pelas mãos de quem o lê. Vai deixando os comportamentos infantis para trás, amadurecendo e ganhando o mundo. Não estamos mais no controle de cada passo. Mas, assim como na vida — agora que o Jornal atingiu 15 anos e o editor, 40—, criar também significa perder. E precisamos falar um pouco disso que vamos deixando pelo caminho.
Neste baile em direção à maioridade, o RelevO trouxe alegrias intensas e inesperadas, mas também arrancou noites de sono, roubou horas de silêncio e ocupou espaços que poderiam ter sido partilhados de outra forma. É possível que o Jornal tenha afastado quem trabalha nele do convívio de pessoas que mereciam mais presença. Não sabemos se a recíproca seria verdadeira. O calendário editorial é implacável: um relógio de pulso fincado na rotina, que marca o tempo em edições. Em nossa parede, vemos os contornos do número 198. Em dezembro, chegaremos à edição 200.
Cada número entregue é também uma espécie de luto. É o texto que não coube, a ideia de humor que não vingou, a pressa que deixou cicatrizes e imprimiu imperfeições claras. Imprimir é também registrar erros, fixar no papel as marcas da urgência. É aceitar que, junto daquilo que se sonhou, fica também o que não deu tempo, o que não se pôde, o que se perdeu. E as perdas não param aí. Quantas férias evaporaram diante de uma edição que precisava nascer? Quantos domingos se dissolveram em revisões intermináveis? Quantas conversas foram interrompidas pelo fechamento que não espera? Um jornal dá, mas também tira. Ele cobra um preço invisível: o descanso, a espontaneidade, a leveza dos dias que poderiam ser livres. Com o tempo, aprendemos a nomear esses pequenos traumas — não como queixas, mas como cicatrizes de uma continuidade que insiste em existir.
No campo das finanças, a história não é diferente: sustentar um impresso independente é viver na corda bamba entre o sonho e a sobrevivência. O preço do papel, a oscilação dos apoios, a matemática que nunca fecha — tudo isso se grava no corpo, como tombos da infância que seguimos carregando. Mas negar o cansaço não elimina o outro lado: a vitalidade. Um impresso é, paradoxalmente, uma fonte de energia contínua. Cresce como os filhos crescem — entre dramas e conquistas, entre quedas e reerguimentos. Cada perda abre uma brecha para novos caminhos, cada falha ensina um modo novo de fazer. É no desgaste, muitas vezes, que surgem as melhores edições: aquelas em que fomos obrigados a inventar, a improvisar, a confiar na urgência como parte do método. A edição de outubro, especialmente com as partes íntimas apontadas pro céu, é um exemplo disso. Sempre achamos que, mais do que amor, paixão ou propósito, o que realmente move o mundo é entusiasmo — essa substância rara, feita da mistura de teimosia e luminosidade.
O RelevO completa 15 anos e segue lutando para não fechar no vermelho em sua vida ordinária. Em 2025, a balança tem oscilado mais pra lá do que pra cá: seis meses no vermelho, três no azul. Já não somos os mesmos do início, embora, sempre sem dinheiro, tenhamos a vantagem semelhante da feiúra: como nunca fomos bonitos, não sabemos o que é perder a beleza. A ingenuidade deu lugar à consciência de que o prejuízo, assim como o ganho, faz parte da nossa identidade. A dificuldade molda caráter, impede a acomodação, nos mantém atentos. E, no fim, permanece o privilégio: ver este filho seguir seu próprio rumo, deixando rastros de literatura, humor e rebeldia.
Entusiasmo não é ingenuidade. É, antes, a convicção calorosa de que cada página impressa é um jeito nosso de existir. É aceitar que não mudamos nada, mas podemos interferir em alguma parte, em algum instante. E isso já basta. Como canta BNegão, “a gente faz uma microparte para que uma microcoisa no mundo mude”.
Uma boa leitura a todos.
