Rafael Maieiro: Mangrar

Coluna de ombudsman extraída da edição de setembro de 2024 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos ombudsman, clique aqui.


Sobre editoriais, leitores e espaços em branco — sobretudo, uma menagem

Fui ao Dicionário analógico da Língua Portuguesa (Lexikon, 2010), de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, instrumento cult indispensável para candidatos ao Camões. Minha intenção? Encontrar um palavrório que servisse de título para o deleite dos nobilíssimos não leitores deste espaço.

Aliás, minto: agora temos uma leitora, Vanessa Fagundes. Ela enviou uma mensagem só para mim. Aplausos, vaias… e o silêncio de um tarja preta. Todo feliz, resumo as
exigências da assinante: menos autorreferência, mudanças na ergonomia do impresso (menos espaços em branco e ilustrações, mais textos) e a fusão (ou algo assim) entre esta coluna e o editorial.

Concordo com o primeiro e o último ponto. Aqui talvez seja o espaço mais egoico do jornal e, por isso, deva rodar pela água abaixo, rs. Será que peço demissão? Acho que não, rs. Prefiro ser demitido! Faço piquete, hein.

Agora, sobre o ponto dois, o projeto gráfico do jornal, discordo completamente da leitora. Diz Mário Quintana no Porta giratória (Globo, 2007): “Escreveria essa palavra bem no meio da página, com espaço em branco para todos os lados, como um campo aberto aos devaneios do leitor.” Precisamos arejar o papel, Vanessa. Nesse sentido, exerço a pelegagem. Defendo o patrão, opa, o editor.

Por último, peço um brinde ao cartunista Jaguar — confesso que ainda bebo! —, e deixo um poema (ele vai ficar puto da vida, acho) dedicado a Fausto Wolff. O Lobo foi tomar um porre com Jesus Cristo no dia 5 de setembro de 2008 e nunca mais voltou.

*

p/ Fausto Wolff e ZH

não enlouquecer e nem lucrar com a loucura dos outros
dosou o Lobo aos que vivem à beira do abismo
aos poetas que rasgam a blusa
apontam para o mamilo esquerdo

[…] segura o cano do revólver, sente o frio do aço, o mamilo arrepia, a mão do verdugo
treme, tremula:

— Atira aqui, seu merda! — declama o poeta.

a vida só nos reconhece na fusão mais vulgar do ato fundamental da coragem com a
sanidade
que só será nomeado
como ato
como flor cortante em formato de alameda
se vencermos o abismo compulsório

ela quer a vida quer exercer a sua vontade de implodir este tempo já cansado

&

espiralar numa velocidade alucinante até num átimo
criar o ser quando momentaneamente desesperado
olhe para um arco um abraço uma ponte

e elas respondam