Priscila Branco: Outras formas de se fazer crítica literária

Editorial extraído da edição de agosto de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Como vocês já devem ter percebido (e fico alegre com as cartas que dizem gostar desta coluna!), sou fã de carteirinha do jornal, apesar de tensionar e sugerir algumas mudanças no âmbito editorial ao longo dos últimos meses. Tento pegar o RelevO nas mãos (ou no celular, quando os correios resolvem nos sacanear) e lê-lo de duas formas: como se fosse a primeira vez, então com um distanciamento do cargo que ocupo; e como uma leitora experiente que acompanha o periódico há muitos anos.

Nessa prática do olhar, pincelei alguns apontamentos, entre eles a inclusão das bios dos autores (pequena polêmica que ainda reverbera nas cartas da edição de julho) e a falta de crônicas num impresso, o que lamento muito, pois acho que o gênero tem bastante a contribuir com um jornal literário que circula pelo país todo. Como eu já disse anteriormente, tem gente que acha que a crônica morreu, mas eu encontro com ela todo dia na fila do pão.

Mesmo o editorial de julho apontando que uma das graças de receber o RelevO é não saber muito bem o que esperar (ou algo assim, tá, não me responsabilizo pela minha memória interpretativa de textos que leio), eu vou agora insistir em mais uma falta de que tratei brevemente em colunas anteriores, mas que vale a pena ser retomada: não me refiro a crônicas desta vez, mas à crítica ou à pesquisa literária.

Pensando o título desta coluna, quando digo “outras formas”, já quero implicar que não estou falando daquela crítica acadêmica, chata (por favor, não se sintam ofendidos, eu também tenho um pé na academia e na crítica tradicional, e ela tem seu valor em diversos momentos) e que dificilmente alcançará muitos leitores. Me refiro à crítica que tem surgido nos últimos tempos: a que circula em revistas digitais independentes, como O Odisseu; a que está em podcasts por meio de entrevistas e conversas, como é o caso do Lume Literatura e do LiteraturaBr; a que surge em canais do YouTube, TikTok (millenials, não me xinguem) e em newsletters. Mas o que as plataformas têm a ver com o conteúdo da crítica? Têm tudo a ver. Quando dessacralizamos e democratizamos a pesquisa, a leitura e a crítica literária, novas formas de se pensar os livros, a ficção, a poesia, a autoria e o meio literário surgem e conseguem terreno fértil para trazer questionamentos e modos de se interpretar a literatura a que não teríamos acesso previamente, se levarmos em conta apenas colunas de grandes jornais ou artigos acadêmicos sobre livros de importante circulação.

Estou falando aqui de novas formas de mediação de leitura. Afinal, para que serve a crítica literária? Às vezes pode parecer que algumas têm o objetivo de bajular escritores ou de potencializar o ego do próprio crítico, mas não! Uma das principais razões de ser da produção de uma crítica, seja ela uma entrevista, uma resenha, um ensaio, um prefácio etc., deveria ser realizar uma ponte, uma conversa, entre o texto literário e o leitor. É como se eu pegasse na mão de quem está lendo e falasse: “olha, esse poema aqui mastiga nosso medo da morte. Depois, em vez de engolir, ele cospe no chão; alguns anos mais tarde, naquele exato ponto da cuspida, nasceu uma erva daninha com penduricalhos de estrelas”. Bruscamente, o leitor que estava de mãos dadas comigo me dá um supetão: “pois sabe aquela cuspida do poema? Eu fiz questão de pisar em cima e jogar terra até o chão ficar sequinho. Anos depois, sabe o que aconteceu? Construíram uma casa no exato lugar onde você viu nascer a tal da erva daninha”.

Por isso, toda crítica é impossível, porque nunca absoluta. E seu papel é apenas estabelecer uma conversa de dúvidas com quem está lendo. Acho que seria incrível um jornal como o RelevO estabelecer um lugar (ou um não-lugar) de formas criativas de crítica literária. Trazer para o jogo da circulação do impresso também esse diálogo entre as pessoas.

Sei que temos um espaço de páginas reduzido, e hoje apenas as colunas do editorial e do ombudsman da vez são fixas. Mas jogo aí a semente da erva daninha para pensarmos sobre a possibilidade de termos um espaço fixo de crítica literária. Acho que seria mais uma forma de alimentar as brigas e intrigas deste jornal.