Logística para românticos

Editorial extraído da edição de agosto de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


A Copa terminou. A FLIP também. E, de certa forma, um período de muita intensidade encontrou o seu apito final. Durante alguns meses, vivemos um projeto que fugiu completamente da rotina do jornal. A nossa edição da Copa teve 48 páginas, 6 mil exemplares, novos patrocinadores, lançamento em Curitiba, circulação em festivais e uma tentativa sincera de mostrar que o futebol também pode ser matéria-prima para literatura, memória e humor.

O curioso é que as grandes aventuras editoriais nunca acabam exatamente quando o exemplar chega às mãos do leitor. Elas continuam aparecendo na planilha financeira. A edição especial praticamente se pagou. Impressão, produção, colaboradores, distribuição, logística. Quase tudo. O “quase”, como costuma acontecer, atendeu pelo nome de Correios.

Empolgados com a dimensão do projeto, decidimos enviar malotes para bibliotecas, consulados, embaixadas, instituições culturais, jornalistas, parceiros e leitores espalhados pelo Brasil e por outros países. Parecia importante que um jornal literário brasileiro sobre futebol circulasse pelo mundo durante uma Copa do Mundo. E continua parecendo.

Só descobrimos, um pouco tarde, ou foi mais um déjà-vu, que fazer um jornal viajar custa quase tanto quanto fazê-lo existir. Não nos arrependemos de absolutamente nada. Ao contrário. Foi uma das experiências editoriais mais ambiciosas destes quase 16 anos de RelevO. Descobrimos novos leitores, aproximamos colaboradores, ampliamos a rede de distribuição e confirmamos uma suspeita antiga: existe espaço para um jornal que trate futebol e literatura sem pedir licença a nenhum dos dois.

Existe, porém, um efeito colateral curioso. Sempre que realizamos um projeto maior, o mês seguinte costuma ser silencioso. É como se parte da comunidade imaginasse, legitimamente, que, depois de uma campanha intensa, o jornal estivesse respirando aliviado. Na prática, acontece o oposto. O dinheiro arrecadado tem destino certo, enquanto a edição seguinte continua chegando com as mesmas contas, os mesmos compromissos e, se possível, um pouco mais de ambição.

O RelevO continua existindo graças a uma engenharia delicada feita de assinaturas, anúncios, apoios, parceiros, colaboradores, leitores e uma confiança talvez excessiva de que ainda vale a pena colocar papel na rua. Cada nova edição depende menos de grandes feitos extraordinários e muito mais da persistência cotidiana de quem decide permanecer por perto. Mês após mês, alguém decide assinar, renovar, presentear outra pessoa, sugerir o jornal para uma biblioteca ou simplesmente comentar sobre ele numa conversa qualquer. É uma publicação que cresce menos por campanhas e mais por uma sucessão silenciosa de gestos individuais. Para circular, dependemos de uma quantidade surpreendente de pessoas que acreditam que algumas páginas impressas ainda merecem atravessar estradas, cidades e fronteiras antes de chegar às mãos de um leitor.

E aqui estamos, tentando fazer mais um mês acontecer, ou seja, uma edição por vez.

Uma boa leitura a todos.