Editorial extraído da edição de outubro de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
Não cansamos de lembrar de que há algo de economicamente irracional em manter, em 2026, um jornal de papel dedicado à literatura. O RelevO conhece essa constatação há 16 anos e, em vez de utilizá-la como argumento para encerrar as atividades, desenvolvemos o hábito de responder às dificuldades ampliando as possibilidades de prejuízo. Se publicar mensalmente um impresso gratuito já representa um desafio financeiro considerável, produzir um filme surgiu como uma consequência estranhamente natural. Não porque tivéssemos dinheiro sobrando, estrutura cinematográfica ou qualquer garantia de retorno, mas porque contar histórias sempre esteve no centro do que fazemos, mesmo quando elas resolvem escapar das páginas.
Em setembro, lançamos Colaboradores, nosso primeiro curta-metragem, uma comédia corporativa de 28 minutos sobre três colegas de RH tentando encerrar uma sexta-feira de trabalho. A primeira exibição reuniu entre 150 e 200 pessoas em uma noite curitibana de frio, chuva e 12°C, número bem superior às projeções pessimistas cultivadas pela equipe nos dias anteriores. Fazer uma comédia diante de uma plateia acrescenta à experiência um tipo particular de vulnerabilidade: qualquer problema de som compromete o ritmo, qualquer ruído atravessa uma piada e cada silêncio parece confirmar as piores suspeitas de quem está assistindo à própria obra cercado de desconhecidos. Houve risadas, porém, e aos poucos foi possível perceber que o público acompanhava os personagens e entrava na história.
É difícil chamar isso de sucesso sem recorrer ao vocabulário um tanto suspeito das retrospectivas institucionais. O filme funcionou, o evento teve público e ninguém precisou fugir pela porta dos fundos, o que nos parece uma medida razoável de êxito. Financeiramente, a história é menos entusiasmante. Colaboradores custou dinheiro para ser produzido, continua custando para ser exibido e provavelmente não oferecerá retorno financeiro no curto prazo, a menos que algum executivo da HBO esteja lendo este editorial com o cartão corporativo à mão. Nesse aspecto, o cinema apenas se incorporou a uma realidade internamente conhecida: o próprio RelevO custa mais do que consegue produzir em receita e depende de um equilíbrio mensal no qual pequenas oscilações são suficientes para transformar tranquilidade relativa em preocupação concreta.
É neste ponto que um jornal independente deixa de ser apenas um jornal. Ao redor das páginas impressas existe uma pequena cadeia formada por escritores, artistas, jornalistas, fotógrafos, diagramadores, músicos, cineastas, bares, cafés, livrarias, leitores e pessoas dispostas a trabalhar, colaborar ou simplesmente aparecer. Uma publicação como o RelevO não movimenta grandes cifras, mas movimenta gente, constituindo uma forma de economia cultural. O dinheiro é indispensável — romantizar sua ausência seria uma irresponsabilidade —, porém o resultado de um projeto dessa natureza não pode ser medido exclusivamente pelo que permanece no caixa ao final do mês.
Depois da estreia, Colaboradores seguirá para outras sessões, e uma delas coincidirá com o lançamento oficial de um café do RelevO, porque em algum momento nos pareceu perfeitamente razoável que um jornal de literatura também tivesse seu próprio café. A aparente dispersão talvez revele, na verdade, um método de sobrevivência: o jornal leva ao filme, o filme reúne pessoas, as pessoas ocupam um espaço, o espaço permite outra parceria e uma iniciativa ajuda a sustentar ou provocar a seguinte. Nem todas dão certo, algumas certamente dão prejuízo e outras existem apenas porque alguém decidiu realizá-las antes de perguntar se eram economicamente sensatas.
A cultura independente costuma funcionar dentro dessa contradição. Precisa de planejamento, dinheiro e profissionalização, mas também depende de certa disposição para começar coisas cuja recompensa não está assegurada. Depois de 16 anos, seguimos essencialmente aquilo que éramos no início: um jornal de papel dedicado à literatura. O que mudou foi a compreensão de que as páginas podem funcionar menos como fronteiras do que como ponto de partida. Se existe alguma engrenagem possível para continuar fazendo cultura a partir de um impresso mensal, é porque sempre aparece uma maneira nova de dar errado.
Uma boa leitura a todos.
