Impresso 2222

Editorial extraído da edição de maio de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


A única razão de ser do tempo é evitar que tudo aconteça de uma vez, teria dito Albert Einstein. Se você está lendo isso é porque viu esta citação no site O Pensador ou, de algum modo, temos uma conexão. Não a de fibra ótica, mas alguma outra — sobretudo a que passa por interesses culturais e literários, talvez uma certa inquietação que sobrevive à bateria fraca, ou algum tipo de deslocamento de certa lógica hegemônica de comunicação. Você está lendo a edição 192 do nosso periódico. Faltam somente 2.031 para chegarmos à mítica edição 2222. Não sabemos bem até onde essa estrada de Gilberto Gil vai dar. Se mantivermos o ritmo mensal, chegaremos lá daqui a mais ou menos um século. Devaneios. Como diria Aldir Blanc, em ‘Resposta ao Tempo’, nós precisamos beber um pouco para ter argumento.

Mas enquanto a longevidade segue uma incógnita, a certeza é que estamos vivos agora — circulando, imprimindo (não oprimindo) e continuando. Não por teimosia ou fetiche vintage, e sim porque o impresso funciona para nós. É direto, não depende de servidor, não pede atualização, não sugere um assistente de IA e nunca nos interrompe com uma notificação de que “você pode gostar disso aqui”. O RelevO não sabe o que você quer, tampouco publica exatamente o que você quer. E isso, acredite, é uma bênção.

A internet, por outro lado, parece atravessar a crise existencial de uma meia-idade precoce, repleta de discussões sobre a morte de seu formato. De fato, nos últimos tempos, tem ganhado força a teoria conhecida como “Internet Morta”. A ideia, disseminada em um fórum por uma peculiar conta chamada Illuminati Pirate, é que a rede, antes (por supuesto) cheia de trocas reais entre pessoas, hoje está tomada por robôs — os famosos bots — que curtem, comentam, compartilham e até criam conteúdo sozinhos. Em diversos textos, já repercutimos o estranhamento que nos causam as interações de empresas fazendo humor (publi) com outras empresas, enquanto verificamos a vertigem natural do ciclo dos memes, que, saídos de um nicho, são repetidos à exaustão até serem devidamente enterrados pela inserção na publicidade intrusiva. A cadeia alimentar do meme.

Segundo essa teoria, a maior parte do que vemos online não é feita por humanos, mas por sistemas automatizados e inteligência artificial. O resultado? Um ambiente digital cada vez mais aguado, onde as interações autênticas dão lugar a repetições mecânicas, e nossos hábitos, gostos e opiniões passam a ser moldados por algoritmos que nem sabemos direito como funcionam. É como se vivêssemos permanentemente dentro de um episódio ruim de Black Mirror.

Vivemos, portanto, num looping de mesmice inflada por IAs treinadas para copiar outras IAs treinadas, que copiam textos de ninguém, com um coeficiente negativo de originalidade e surpresa. A promessa de um espaço de troca virou um cemitério de opiniões empilhadas. E ainda dizem que foi a imprensa quem morreu.

Pois bem: o RelevO segue impresso. E isso não é resistência romântica — é escolha editorial. O papel não vaza dados, não coleta cookies (nem sabe pra que eles servem) e não te “traquêia” no Mercado Livre depois de uma pesquisa sobre a sua lombar. A cada edição, oferecemos não uma timeline, mas uma curadoria. Não há rolagem infinita, só começo, meio e fim. Uma edição pensada para ser lida com calma — ou com raiva, se preferir —, mas lida. Um jornal que não te pede cliques nem te recompensa com dopamina digital. Ao contrário da lógica do feed, que te suga até o cansaço como um parasita, somos feitos para interromper fluxos, não para alimentá-los.

Não temos pressa, e isso é uma escolha. Em vez de sermos mais uma aba aberta no seu navegador mental, queremos ser o intervalo. Um suspiro editorial entre uma notificação e outra. Um convite a se demorar pela via da página como quem vira uma esquina inesperada e descobre uma cafeteria nova. Garantimos: aqui, cada texto passou por olhos humanos. Não estamos competindo por segundos da sua atenção. Impresso não é segunda tela, embora possa ser refletido na tela a partir de postagens, comentários, likes. Não somos contra a cultura digital, e sim contra oligopólios que querem que sejamos apenas consumidores derretidos na montanha-russa de produtos vagos e serviços duvidosos.

Mais do que nunca, leitores nos encontram por uma razão simples: estafa. De estar online, de não saber onde termina o conteúdo e começa a propaganda, de consumir e esquecer. E por isso nosso clube de assinaturas é regular, constante — ou, no padrão doente do mercado, estagnado. No fundo, apenas temos um ritmo menos histérico. Talvez nunca cheguemos à edição 2222. Mas a jornada, para nós, já é um acontecimento. E seguimos circulando. Porque o mundo pode ser algorítmico, mas você pode a qualquer momento nos amassar como um origami e não aceitar ser reduzido a um mero receptor de ideias gastas.
Uma boa leitura a todos.