Editorial extraído da edição de junho de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
O RelevO sempre habitou as margens. As margens do contemporâneo, do mercado editorial, da lógica empresarial, do tempo cronometrado, as margens da linguagem — onde o experimental, o insuspeito, o inacabado e o humorístico encontram abrigo. Não é por acaso que muitos dos textos que publicamos se recusam ao centro estabelecido e somos uma das principais casas para autores nunca-dantes-publicados. Em meio a envelopes encharcados, mensagens cobrando devolutivas, elogios desajeitados, críticas criativas (“seleção de escrotérios”, alguém já disse sobre os critérios do que escolhemos publicar), seguimos tentando entender o que é fazer um jornal literário impresso no Brasil em 2025. Com seus encantos, tropeços e descompassos.
Manter um projeto independente de literatura é viver nas bordas do viável. Não temos estrutura robusta, nem departamentos autônomos. Cada função, da curadoria à entrega, da edição à contabilidade, é feita com pouco RH. Assim, cada falha se transforma, inevitavelmente, em culpa, em revisão, em mais uma camada de cansaço [depois de 15 anos e aproximadamente 6 mil assinantes, entre aqueles que chegaram, ficaram e saíram, chegamos no Reclame Aqui, com pedido de estorno e reclamação do nosso uso da crase]. Mas seguimos, porque entendemos que esse tipo de lombada também apresenta um tipo de presença: o relevo (com minúscula e com maiúscula) do que fazemos. O atrito com uma pequena margem de leitores, os ruídos de comunicação, os desafios logísticos — tudo isso compõe a matéria real de um projeto artesanal. Há algo de profundamente humano em não operar com perfeição.
Manter um jornal de literatura em circulação exige mais do que escrever, editar ou diagramar. Exige disposição para sustentar relações — com a equipe, com os textos, com os colaboradores, com os assinantes, com o próprio tempo. A publicação não termina no fechamento da edição, mas se prolonga nos envelopes enviados, nas mensagens trocadas, nas cobranças que nos fazem olhar para dentro e ajustar o passo. Se tropeçamos, é porque estamos caminhando.
Por isso, mais do que entregar um produto, buscamos entregar um gesto. Um jornal que chega pelo correio, mesmo com suas margens às vezes amassadas, é também um convite: a desacelerar, a ler com atenção, a habitar o espaço entre linhas e silêncios. É um lembrete de que ainda é possível construir algo fora do algoritmo, da fluidez absoluta, do ruído constante. E se, por vezes, falhamos na crase, no prazo ou na costura das páginas, pedimos: permaneça. As margens, afinal, são as beiras de onde se avista o que o centro esqueceu. Nas margens se escrevem os comentários mais sinceros, os bilhetes esquecidos, os ensaios de algo novo.
É por isso que insistimos em existir fisicamente. Porque o jornal, em papel, fora do algoritmo, é também um atestado de presença. Uma maneira de dizer: estamos aqui. Em nossa imperfeição de tinta, ainda acreditamos em laços que se constroem com demora, com papel, com paciência. Nas margens se escrevem os comentários que escapam do texto principal. Onde nascem as perguntas que ainda não têm resposta. E por tudo isso, a quem nos lê, a quem nos escreve, a quem nos cobra ou nos defende: nosso obrigado. Por circular conosco à margem. Por entender que, em um tempo de sobreposição de ruídos, a existência de um jornal como o RelevO é, acima de tudo, um ato de confiança.
Uma boa leitura a todos.
