Editorial extraído da edição de julho de 2025 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
Depois de mais de quatro anos mantendo o preço firme — desde janeiro de 2021, para sermos exatos —, chegou o instante mais adiado do que gol anulado depois de 5 minutos de consulta ao VAR: o valor das assinaturas do RelevO vai subir. Nada que comprometa o orçamento de quem ainda guarda moedas em caixas de fósforo.
Durante todo esse tempo, o valor ficou em R$ 70 por ano, menos de R$ 6 por edição, o preço de um café em pé. A partir de julho, o novo valor será R$ 80 ao ano. Um aumento de 14%, contra uma inflação estimada em 30% desde então. E sejamos justos: o setor de papelaria, ah!, esse já dobrou os preços com mais desenvoltura do que serviço de teleatendimento cobrando fatura atrasada. A caixa com 500 envelopes kraft, por exemplo, que custava R$ 60, hoje custa R$ 120. E nem vem com selo. A verdade é que seguimos como um dos impressos mais acessíveis deste país de rincões e autores que pedem resenhas para amigos.
Sabemos que falar de aumento é quase tão antipático quanto pedir fiado na padaria. Mas preferimos ser francos, e não é por nobreza. Se dependesse de nós, estaríamos agora tomando um clericot numa varanda fiscal das Ilhas Cayman, contudo, somos um impresso e buscamos sobreviver com literatura impressa, um exercício diário de equilíbrio entre negociações com a gráfica, assinantes que entram, assinantes que cancelam e a captação de recursos.
O nosso jornal pesa 66 gramas. É pouco, mas carrega o peso de quem acredita que ainda dá pra fazer imprensa literária com os pés no chão e a cabeça nas estantes, sem jogar o jogo do clubinho fechado. Sem sobrenome, sem patrocínio estrangeiro, sem fundo de investimento em hipóteses. O que oferecemos é um nome-de-jornal, papel, tinta, caracteres e uma fé torta de que tem gente, como você, que também acredita e nos assina.
O RelevO é barato. Não por modéstia. Barato porque é feito por quem prefere o valor ao preço. E porque os nossos assinantes são o que os bancos chamariam de “público-alvo”, mas que nós chamamos com mais gratidão de mecenas anônimos, apoiadores fiéis, corajosos leitores do mês que vem.
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Daqui a menos de seis meses, em dezembro, chegaremos à edição 200. Duzentas edições atravessadas mês a mês, dobradas à mão, seladas com cuidado, distribuídas por rotas reais e afetivas. São quase 15 anos insistindo na contramão do algoritmo, apostando que ainda vale a pena imprimir ideias, costurar vozes, revisitar gêneros literários, colar etiquetas e contar histórias. Não é só um número que se aproxima: é a soma de madrugadas editoriais, crises existenciais em cima da lauda e envelopes kraft que resistem bravamente à umidade e ao tempo.
De fato, cada nova edição é uma pequena teimosia contra a desistência. Se chegamos até aqui, foi porque leitores seguiram conosco. E assim permanecemos no risco do próximo mês. Porque, como dizia o Quintana, somos feitos daquilo que parece guardado sem motivo — como folha seca em livro antigo, ou jornal literário dobrado num envelope pardo que chega todo mês, mesmo quando ninguém sabe bem como. Assine o RelevO, um agregado de silêncios e persistência — ou tudo aquilo que o mundo tenta descartar.
Uma boa leitura a todos.
