Entre mexicas e conquistadores

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A invasão e conquista de Tenochtitlán, cidade-estado mexica (asteca), é um dos maiores eventos do Ocidente. Os conquistadores espanhóis lá chegaram em 1519, liderados por Hernán Cortés. Entre alianças, negociações e batalhas, de lá não saíram.

Tenochtitlán era a capital da Tríplice Aliança, o chamado Império Asteca – Tetzcuco e Tlacopan eram as outras duas altepeme, plural de altepetl, palavra em náuatle que caracteriza essas cidades-estado, cada qual governada por um tlatoani. O tlatoani da capital (Huey Tlatoani), como Montezuma II, era o líder da aliança, por isso costuma ser chamado de imperador.

Náuatle, por sinal, era a língua do povo náuatle (naua), o grupo indígena da região. O primeiro filho de Cortés com Marina (La Malinche), sua intérprete, concubina e protagonista neste cenário todo, é um dos primeiros mestizos (metade espanhol, metade ameríndio) da história do México.

Tenochtitlán foi construída sobre um lago natural (Lago de Texcoco) que hoje não existe mais, o que confere ao território um aspecto mágico, uma das tantas belezas intrínsecas a esse contexto histórico. O Texcoco foi drenado para conter enchentes depois de as represas terem sido destruídas (mas nunca reconstruídas) durante o cerco de Cortés.

Hoje, a antiga Tenochtitlán é o centro histórico da Cidade do México – sem lago. A Tríplice Aliança existia desde 1428 e acabou (pois passou para domínio espanhol) em agosto de 1521, portanto há exatos 500 anos.

Aqueles que hoje chamamos de astecas (nome retroativo) são famosos por alguns fatores. Entre eles, sua cultura militar e a beleza de suas cidades – por exemplo, por conta de sua arquitetura e de seu grau de limpeza, que fazia qualquer megalópole europeia parecer um lixão. O aqueduto de Chapultepec, feito de terracota, fornecia água fresca para a população se banhar.

A cultura dos mexicas pré-colombianos também é conhecida pela organização de uma população imensa para os padrões da época: em suas feiras se reuniam dezenas de milhares de pessoas, movendo a prosperidade local. Por fim, havia os rituais de sacrifício, um dos pontos de conflito com os espanhóis da época (e não só espanhóis; e não só da época).

Por diversos motivos, a Tríplice Aliança pereceu em seu ápice. Isso rega a imaginação com questões do tipo “e se…”.

Para uma civilização e um evento tão expressivos, existe um número surpreendentemente baixo de produções modernas interessadas em nos contar alguma versão dessa longa história, repleta de conflitos das mais variadas ordens.

Até que a TV Azteca, em conjunto com duas outras produtoras, criou a série Hernán (2019), a maior produção já rodada na América Latina. A segunda temporada já foi confirmada.

Como o nome indica, a obra se concentra em Cortés. Muito além dele, no entanto, sete dos oito episódios têm algum outro personagem como pivô, começando pela própria Marina.

Também são extraordinários os episódios de Xicotencatl II – líder militar de Tlaxcala, que se uniu aos espanhóis na luta contra Tenochtitlán – e de Bernal Díaz del Castillo – que relataria a epopeia décadas depois na História Verdadera de La conquista de la Nueva España (há questionamentos).

Hernán dispõe de ao menos três grandes méritos: a ambientação, que nos permite ver Tenochtitlán com uma qualidade inédita; a caracterização corajosa, que lida de forma adulta com conflitos muito difíceis de simplificar; e o linguístico – este merece grande destaque.

Isso porque espanhóis falam castelhano; náuatles falam náuatle e maias falam maia. Isso exige o intermédio de um tradutor (às vezes, dois), o que confere um realismo devidamente catártico às cenas. Em outras palavras, nada de ver romanos, chineses e vikings falando inglês com sotaque britânico na Grécia.

Não tenho dúvidas de que conhecedores mais letrados que este editor encontrarão problemas históricos na narrativa. Também não tenho dúvidas de que a obra em si sobrevive às possíveis (prováveis, obrigatórias) distorções em seu recorte.

Hernán é um trabalho belíssimo sobre um dos eventos mais delicados, violentos e caóticos do Ocidente – por isso mesmo, um evento tão humano.

Hipertexto: sacrifícios astecas

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Quando pensamos nos astecas, um dos povos mais instigantes a pisar nessa terra, é normal lembrar dos terríveis sacrifícios realizados aos deuses, por meio dos quais uma imensa gama de azarados, de prisioneiros a crianças, perdia a vida para que criaturas (ou criadores) celestes ganhassem uns agrados. No entanto, há muito mais sobre os astecas do que rituais sanguinolentos.

No entanto – de novo –, é justamente sobre rituais escabrosos que queremos discorrer. Entre militaria e religião, contextualizemos a brincadeira da imagem acima.

Na ilustração, o que se vê é a representação de uma atividade do Tlacaxipehualiztli, um festival que antecedia a estação de chuva, dedicado ao deus Xipe Totec – mais sobre ele em breve, porque vale a pena. Reparem que o sujeito à esquerda da imagem, qual o da direita, carrega um escudo e uma espada. O rapaz à direita, porém, é um guerreiro jaguar, isto é, pertence à elite militar asteca – o que naquela sociedade significava ter vencido na vida. O da esquerda, provavelmente prisioneiro de guerra.

E aí as coisas começam a ficar mais pesadas. A espada de madeira que o jaguar carrega – macuahuitl – contém lâminas de obsidiana, vidro vulcânico utilizado em diversos ornamentos da cultura mesoamericana. A espada que o prisioneiro carrega? Bom, as pontas apresentam penas. Se você já está se imaginando na situação do infeliz, vale se atentar que ele também está amarrado no tornozelo. (Nesta imagem, parte do relato de Diego Durán, a diferença é clara.)

Para piorar – e isso não é nem de longe a pior parte –, a ocasião costumava ser assistida por multidões. Para piorar de fato, em alguns sacrifícios o prisioneiro era atacado por um grupo inteiro de guerreiros, tanto jaguares como águias. Segundo Jacques Soustelle, geralmente os sacrificados – não só os do Tlacaxipehualiztli – encaravam de cabeça erguida seus fins iminentes, sem fugir ou chorar, o que não era bem visto no que tange às crenças do pós-vida.

Por fim, Xipe Totec. Se o Tlacaxipehualiztli era essa mistura de UFC, Lollapalooza e Jogos Mortais, o homenageado é um dos deuses mais queridos da Enclave. Para os astecas, Xipe Totec dispunha de responsabilidades diretas na agricultura, vegetação e mudança de estações; com ourives, prateiros e até doentes. Era representado por uma pele por sobre outra, ou seja, vestindo uma derme alheia.

Claro que, para honrá-lo, ainda durante o festival, algumas vítimas tinham sua pele esfolada para ser trajada por outro alguém. Mas sem problemas, pois o coração era arrancado antes de qualquer outra coisa.

Nessa imagem, o contexto é outro. Já a dor…