David Bowie: caos e transcendência

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No set de The Man Who Fell to Earth (1976) — David James/Taschen.

É impossível não pensar em David Bowie: sensações após Moonage Daydream, um não documentário totalmente Bowiecêntrico.

Era noite de sexta-feira (16/09) quando cheguei ao Imax para assistir a Moonage Daydream (2022), documentário de Brett Morgen dedicado a David Bowie. Com descrição pretensiosa (“não é um documentário, mas uma odisseia, uma jornada etc.”), mentes cínicas poderiam torcer o nariz se diante deste mesmo nariz uma tela gigantesca não entregasse belas e raras cenas dos anos 1970 acompanhadas pelo remix de ‘Hallo Spaceboy‘ dos Pet Shop Boys em decibéis ensurdecedores.

A brincadeira era coisa séria.

Ao longo das pouco mais de duas horas seguintes, ouvimos, assistimos e acompanhamos Bowie – e tão somente ele. Sem talking heads (o recurso, não a banda… mas também sem a banda), sem informações, sem dados, sem capas, sem vendas, sem comitivas.

Não aprendemos absolutamente nada sobre qualquer disco, músico, gravação. Não escutamos qualquer anedota sobre um baixista de 1969, tampouco vemos algum vizinho octogenário descrever o pequeno David Jones. No máximo, descobrimos algo sobre o meio-irmão, Terry, e sobre a segunda esposa, Iman – sempre e tão somente a partir do próprio Bowie.

Ninguém fala, a não ser David Bowie (e alguns fãs, na década de 1970, à beira de um AVC por êxtase). Não se trata de um documentário informativo, malemal de um documentário. A execução conquistou o direito à pretensão: que odisseia fantástica; basta sentar-se e absorver.

Me obriguei a assistir outra vez, já na quarta-feira (21), lamentavelmente o penúltimo dia de exibição no Imax de Curitiba. Poderia reassistir outras tantas vezes com a mesma leveza. Dias depois, não consigo parar de ouvir a trilha sonora, relembrando cena por cena – outros amigos vivem a mesma situação.

Se a dimensão visual do filme oferecesse apenas uma tela preta, já valeria o ingresso. Algumas músicas de Bowie ganharam uma mixagem especial para o longa – outras simplesmente estão limpas e altas o suficiente –, e escutá-las no Imax foi uma experiência fantástica. É impressionante, no sentido mais puro e literal da palavra, como o áudio envolve e permite um contato renovado com o material.

  • Nunca havia realmente gostado de ‘The Jean Genie‘, ‘Aladdin Sane‘ e ‘Cracked Actor‘, por exemplo, na intensidade trazida por Moonage Daydream. Possibilitar essa revisão (e renovação) da experiência é encantador por si só.

Ademais, o trabalho de mixagem é primoroso ao trazer fluidez. Músicas diferentes, sons e falas se misturam em um só rio de imersão. A quem não assistiu no cinema, sugerimos com ênfase a experiência num sistema de som decente – nada de ver no notebook.

Por sua vez, as imagens intercalam entrevistas antigas, shows, clipes, filmes e bastidores de todos estes, além de nos mostrarem diversas referências abraçadas por Bowie ao longo da vida. Brett Morgen separou oito semanas para organizar o material que tinha em mãos; naturalmente, o processo levou dois anos – e um infarto. A família do músico inglês colaborou integralmente com o projeto.

Para um nerdalhaço em Bowieismo – que já tenha chegado ao nível de gravações descartadas e documentários perdidos –, talvez não haja tantos momentos inéditos, muito menos informações novas. O que absolutamente não é o ponto, tampouco a tentativa.

Primeiro, pagamos pelo recorte, isto é, a arte suprema é a colagem, não o papel colado. Segundo, pouco interessa quem trocou as cordas do baixo quebrado em 1981 ou se o artista almoçou bife com fritas antes de gravar um single na Tunísia. Informações estão disponíveis e catalogadas em décadas de material produzido sobre David Bowie: já há diversos livros e documentários cobrindo fatos, aspectos técnicos, curiosidades e a mera punhetagem.

O que Moonage Daydream oferece é uma leitura da cosmovisão de Bowie – e sua maturação – a partir da melhor experiência sensorial possível. Acompanhamos o artista, já calibrado pelo Budismo, trafegando pela Ásia (em especial as cenas noturnas, estonteantes); ouvimos esse indivíduo ao mesmo tempo tão exposto e impenetrável discorrer sem pressa sobre a vida. Testemunhamos suas referências e nos deliciamos com elas.

Então, choramos ou seguramos lágrimas (na chuva!) com o fim – de Bowie, do filme, da nossa própria existência. Ambicioso, experimental e conceitual sem abandonar o palatável, esse não documentário inclassificável é a cara de David Robert Jones.

Baú: Joaquim Ferreira dos Santos

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Uma das mais deliciosas conversas furadas de 1958 foi o boato de que a carne bovina consumida entre o Rio e Minas Gerais estava contaminada – não por bactérias assassinas como a da vaca louca, muito menos por algum vírus pré-aidético, pois definitivamente os tempos eram mais delicados. A carne dos açougues da época estaria contaminada por enormes porções de uma vacina de hormônios femininos. No panic, gritavam os mais liberais, mas qual!…

Generalizou-se entre os machos cariocas o medo horripilante, não de morrer como os que deglutiram hambúrgueres na Inglaterra nos anos 90, mas de que o até então pacato e viril cidadão, após ingerir um acém, um filé, subitamente adquirisse, ainda na mesa de refeição, alguma característica graciosa da identidade fêmea. Inspirado pelo fait-divers, o trio Paquito, Romeu Gentil e José Gomes compôs, com lançamento no final de 58 para a farra de 59, a marchinha Boi da cara preta, cantada por Jackson do Pandeiro e Almira:

“Coitado do Valdemar
Está dando o que falar
Comeu carne de boi falou fino
E deu pra se rebolar
Mas que azar.”

Já era sofisticado entre os bem-pensantes dizer que a música de carnaval estava em decadência. (…)

Joaquim Ferreira dos Santos, Feliz 1958 (Ed. Record, 1997).

Arte sem artista, imaginação praticada

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Essa é uma pintura de Edward Hopper no Rio de Janeiro, embora Hopper (provavelmente) nunca o tenha visitado, muito menos retratado. Para criá-la, precisei digitar uma frase e clicar em um botão.

Empolgado, fiz Hopper ir a Tóquio e recriar seu ‘Nighthawks’ lá. Por fim, ele precisou reproduzir a obra em uma estação espacial.

 

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Aí a coisa começou a ficar séria. Subitamente, me senti movido por aquela inquietação primal diante da infinidade de escolhas. Havia um universo de possibilidades à minha frente, à minha disposição. Bastava eu brincar.

E se Canaletto pintasse Hong Kong? E se também pintasse o Rio de Janeiro?

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E se Francisco de Goya retratasse uma casa de ópio?

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A partir daí, misturei diversos temas que já passaram por este enclave (“E, aliás, que seria de mim, que seria de nós, se não fossem três ou quatro ideias fixas?!”, Nelson Rodrigues).

Obriguei Umberto Boccioni a retratar uma partida de futebol; e Pieter Jansz Saenredam, o Maracanã. Fiz os astecas derrotarem os conquistadores espanhóis com um auxílio cyberpunk; depois, fiz Picasso estar lá para imortalizar o momento. Então, vi a gloriosa Tenochtitlán ser invadida pelas criaturas alienígenas de Guerra dos Mundos.

Eu poderia passar horas nisso sem piscar. Caravaggio recriando Blade Runner; Syd Mead desenhando um Honda Civic 2000; Arnold Böcklin retratando o ritual de Eyes Wide Shut; a Xangai futurista de Hieronymus Bosch; Pieter Bruegel pintando a colonização de Marte.

Bruegel e a colonização de Marte <beta.dreamstudio.ai>

A partir do DreamStudio, como outras ferramentas já fazem (DALL-E 2, a mais famosa delas), eu estava concretizando sonhos, devaneios, fantasias e demais ocupações lúdicas da mente – sem dispor de nenhuma técnica para tal. A inteligência artificial, nesse estado tão desenvolvido quanto acessível (de graça), já é capaz de produzir arte sem o artista. Que troca fabulosa!

Claro, podemos estender uma discussão semântica para o conceito de “artista”: serão os programadores? Seremos nós, meros usuários? Porém, não vamos estender essa discussão (não hoje). Afinal, diante de ferramentas como o DreamStudio, a própria função [artista] se torna dessacralizada – sem abandonar a beleza da criação [arte] em si.

E aí, quem sabe, isso nos trará algum tipo de crise existencial (não será a primeira; não será a única). Quem sabe banalizaremos qualquer elemento belo gerado sem nenhum esforço. Quem sabe isso não será problema, diante da breguice em escala industrial. Vale lembrar que estamos em um planeta cheio de bonecos funko pop – e que eles custam caro.

Enquanto isso não acontece, vale deliciar-se com a novidade de terceirizar a execução da própria imaginação. Em algum momento, é inevitável que a mesma brincadeira não se aplique à música, se é que isso já não existe.

Isto é, em uma mera página do navegador – carregando uma infraestrutura inimaginável há 20 anos –, que eu possa solicitar e gerar um álbum colaborativo entre Tom Jobim e David Bowie com um clique, pedir a música X com o arranjo de Y ou consiga produzir faixas drum & bass do Geraldo Vandré.

O texto é uma mídia mais acessível: o gerador de pós-modernismo, por exemplo, data de 1996 (!). Da mesma forma – mas com um funcionamento mais complexo –, hoje alguns chatbots até conseguem sustentar uma conversa (às vezes, às vezes).

Quem sabe um dia, com ainda mais processamento, dados etc., eu não consiga gerar um longa-metragem (“O Homem que Copiava by Stanley Kubrick”), e até lá a noção de artista, autoria e atribuição já tenha se diluído de tal forma a nos aperfeiçoarmos nos verdadeiros desafios imutáveis da sociedade, como inserir anúncios na Lua e impedir os sem-teto de dormir confortavelmente.

Já vivemos num mundo onde a Magalu quer ser sua melhor amiga e um rapper virtual assina um contrato, depois é demitido por negligência racial (FNMeka: seu TikTok, cujo apelo me foge, já tem 10 milhões de seguidores). A inteligência artificial também já pode corrigir sotaques – atenção às aspas, mesmo sem aspas – para call centers e identificar você, seus amigos, sua família em fotografias pessoais.

Por ora, a Enclave segue apaixonada por qualquer ferramenta que lhe proporcione inserir o ‘Caminhante sobre o mar de névoa’ em Júpiter.

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Baú: Elias Thomé Saliba

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Bem mais recentemente, nas áreas conexas da neurociência cognitiva e alavancadas por sofisticados sistemas de informática, inúmeras pesquisas vêm mostrando que o humor é um mecanismo de enfrentamento psicológico, um estratagema que o cérebro humano usa para a resolução de conflitos: nem sempre este conflito aparece na forma de uma piada, pelo contrário, ele é inerente à vida humana na sua totalidade. Neste sentido, como veremos mais adiante ao analisarmos as teorias do humor, as inúmeras pesquisas da neurociência parecem corroborar a noção de incongruência – uma das teorias humorísticas mais utilizadas por todos os analistas, apesar da sua notável imprecisão. Elas sustentam que o humor revela a enorme complexidade do cérebro humano: se o cérebro fosse um governo, não seria uma ditadura, uma monarquia ou mesmo uma democracia – seria mais semelhante a uma anarquia: partes conectadas a outras partes que, por sua vez, são conectadas a outras e que, em nenhum lugar no sistema, existe uma autoridade central que decide o que dizer ou fazer. Essa situação gera alguns benefícios, como nos permitir resolver problemas e, até mesmo, raciocinar sobre várias coisas. Mas, em alguns momentos, isto provoca conflitos como, por exemplo, quando tentamos lidar com duas ou mais ideias inconsistentes ao mesmo tempo. Quando isso ocorre, o cérebro conhece apenas uma resposta: o riso. Noutras palavras, o cérebro lida bem com ideias que são conflitantes e usa estas situações para alcançar pensamentos e soluções mais complexas. Esse processo pode ser prazeroso, gerando o humor.
Elias Thomé Saliba, História cultural do humor: balanço provisório e perspectivas de pesquisas (Revista de História, USP, 2017)

WALL-E: poesia visual

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Há 14 anos, em junho de 2008, a animação WALL-E estreava nos cinemas. Fui conferir a contragosto, afinal não me interessava muito por animações e, principalmente, vivia o apogeu da insolência adolescente. Aos 16 anos, somos todos intragáveis.

Havia ganhado ingresso porque participava de um projeto (na antiga Gazetinha, suplemento infantojuvenil da Gazeta do Povo) no qual estávamos aprendendo – e escrevendo – sobre cinema. Assim, compareci à sessão do filme dirigido por Andrew Stanton, com roteiro de Stanton e Jim Reardon.

Rabugento e com as expectativas baixas, eu não poderia ter me surpreendido mais. WALL-E é uma produção encantadora, capaz de desmontar qualquer guarda alta. Porém, eu nunca havia revisitado essa obra da Pixar enquanto adulto, e só o fiz, sem qualquer motivo específico, na última semana.

Pois bem, com grande satisfação (e certo alívio), renovei minha apreciação – novamente cético, novamente cínico, pois apenas um lunático é capaz de confiar nas impressões de sua versão de 16 anos.

A sequência inicial de WALL-E é famosa, não por acaso. Não há qualquer diálogo por 22 minutos. Nesse tempo, conhecemos Wall-E, um robô senciente compactador de lixo. Solitário em uma Terra abandonada – e repleta de seu material de trabalho –, ele mantém hábitos, objetos e gostos humanos no ano 2805. E uma barata.

Wall-E até dispõe de contemplação estética, assistindo a filmes (e reproduzindo seus movimentos) por meio de fitas coletadas em seu ofício. O enredo se desenvolve a partir da chegada de EVA, outro robô – muito mais moderno e funcional – enviado pela nave habitada pelos seres humanos para procurar algum resquício de vida no planeta. Androides sonham com paixões elétricas?

Diante do silêncio, portanto, a narrativa avança pelos movimentos dos personagens e pelo primor de caracterização. De cara, WALL-E se apresenta como uma mistura de 2001: Uma Odisseia no Espaço com Charles Chaplin e/ou Buster Keaton (inspirações explícitas dos produtores).

Os movimentos, roteirizados e executados com maestria, preterem o uso de palavras, o que confere certa universalidade – e atemporalidade – ao longa-metragem. Por sua vez, a caracterização não seria um problema para a Pixar, estúdio devidamente capacitado para criar fofuras das mais diversas formas.

Assim, logo nos apegamos a Wall-E e permanecemos instigados por aquele contexto pós-apocalíptico. Quando os dois protagonistas encontram os seres humanos de 2805 (spoilers?) na nave Axiom, estes são… talvez irreconhecíveis não seja a melhor palavra. Mas engordaram a ponto de perder os movimentos – locomovem-se em cadeiras flutuantes – e não conseguem resolver problema algum por conta própria. Estão sempre conectados.

É claro que o filme carrega uma mensagem (e que a Enclave odeia mensagens), mas vamos lá. Primeiro, a obra se sustenta por si só, uma vez que o drama do apaixonado Wall-E é suficientemente estimulante.

Segundo, dentro da mensagem explicitamente ecológica – que, né… digamos que tenha um ponto –, há outra sutileza singela. Despreocupado em moralizar e ensinar de forma tão direta, WALL-E não retrata os seres humanos como perversos, mesquinhos, monstros indomáveis. O longa sequer se preocupa em detalhar a trajetória da Terra até o estado apresentado.

Isso porque a animação representa o ser humano não como porco, mas apenas… distraído. À medida que se afasta da dependência da tecnologia, que enfrenta os próprios problemas com diligência e procura atentar-se aos dilemas que o afetam, o indivíduo desperta.

Um filme lindíssimo – elegante, comovente e bem-humorado –, que certamente exigiu um enorme conhecimento de humanidade para nos entregar um amável robô compactador de lixo apaixonado por um iPad voador.

Baú: Lama Padma Samten

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O exame cuidadoso do sofrimento revela que ele é, na verdade, um desconforto mental, cuja base, na maior parte das vezes, não tem sequer origem física ou mesmo concreta, mas é constituída das voláteis substâncias da imaginação e da delusão. É esse sofrimento, tomado em sua acepção de desconforto mental mais geral e abrangente, que é enfocado pelo Buda Sakiamuni como um dos pontos centrais de seu ensinamento.

Logo após sua iluminação, com olhos cheios de compaixão, o Buda fitou os variados seres em cada reino de existência e, compreendendo a dor do mundo, enunciou a primeira Nobre Verdade, a da existência do sofrimento e impossibilidade da harmonia – mantida a perspectiva humana de harmonia como satisfação completa dos desejos, apegos e necessidades.

O sofrimento é a sombra do ser. Havendo um ser, há sofrimento. Havendo um ser, há o mundo, e o sofrimento é inevitável. Pode-se ver três faces no sofrimento: impossibilidade de harmonia, impermanência e busca de salvação.

A impossibilidade de harmonia é exemplificada por uma história.

Na vida anterior à de sua iluminação, o Buda estava certa vez imerso em profunda meditação na encosta de uma montanha, quando ouviu um rufar de asas. Tratava-se de uma pequena pomba em voo vacilante. Ela pousou junto ao Buda e suplicou: “Abençoado Senhor! Estou sendo perseguida por um enorme abutre e, por mais que me esforce, não consigo escapar. Minhas forças já vacilam, e em breve por certo sucumbirei. Proteja-me, suplico-lhe!”. Nem bem havia a pomba concluído seu apelo desesperado e se ouviu um rufar de asas mais pesado. Pousando próximo, um gigantesco abutre dirigiu-se ao Buda: “Abençoado Senhor! Dê-me essa pomba. Não é justo que a proteja. Na minha condição de abutre, estou perseguindo-a desde o início do dia. Ela é o justo retorno por meu esforço. Já estou exausto e, se alguma raposa encontra-me assim tão fraco, por certo estarei perdido, e também meus filhos, que, abandonados, perecerão”. Conta a lenda que o Buda, com o coração de bodisatva cheio de compaixão, alimentou o abutre com sua própria carne, dando sua vida.

Conta-se também que, na vida seguinte, o príncipe Sidarta, quando menino, viu um verme ser estraçalhado por dois passarinhos que o disputavam e reconheceu a justeza da atitude dos pássaros em busca do alimento, bem como a inevitabilidade do terror e morte do verme. Naquele instante Sidarta compreendeu que a harmonia não pertence a esse mundo. Se passarinhos comportam-se dessa forma, o que dizer dos demais seres?

Como seria possível harmonizar os diferentes seres e interesses? Não estavam corretos a pomba, o abutre, o verme e os dois pássaros? Se todos estão corretos, como poderia haver harmonia?

Lama Padma Samten, A Joia dos Desejos, 2001 (ed. Peirópolis).

Lágrimas na chuva

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Vangelis Papathanassiou morreu aos 79 anos, vítima de insuficiência cardíaca (movida, aparentemente, por Covid-19; “aparentemente” porque, até o momento, nada foi esclarecido por completo).

Sua popularidade mais estrondosa pode ter vindo com Carruagens de Fogo (1981), aquela melodia incrustada de tal forma na cultura popular que não se desassocia mais das próprias paródias, mas o catálogo de Vangelis oferece diversas outras camadas.

A começar pelo que fez antes mesmos de suas incursões pelas grandes trilhas sonoras. Já escrevemos sobre 666 (1973), o sensacional disco da Aphrodite’s Child, banda grega que reuniu Vangelis e o popularíssimo Demis Roussos. Ali, o grupo tocou o terror com um rock esotérico viril incapaz de envelhecer.

Porém, Vangelis jamais ficou conhecido por qualquer “rock viril”. Ao contrário: sua imagem ficou bem mais ligada ao new age, à calmaria constante. Essa versatilidade – a caixa de ferramentas inesgotável, do rock progressivo ao acompanhamento de meditação – o preparou para produções tão reconhecidamente cósmicas a partir de seus sintetizadores.

E cosmicidade é o que não falta na trilha sonora de Blade Runner (1982), um álbum extraordinário por si só – e componente indissociável do filme, outra obra-prima. Sem Vangelis, Blade Runner não é Blade Runner. Nessa obra, o grego “f*d* o tecido do tempo” engendrando uma nova estética de futuro.

  • Discorrer sobre Blade Runner é chover (ou chorar) no molhado, portanto apenas acrescentamos que a trilha sonora foi complementada em 2007, com dois discos adicionais (o lançamento original tem apenas 57 minutos, expressivamente menos que o composto para o filme).
  • Volta e meia essas faixas bônus aparecem no YouTube, mas nem sempre de maneira organizada. Por algum motivo, a edição é rara na internet. Por ora – enquanto não derrubam –, encontramos algo próximo a isso (2009, lançamento privado) aqui.
  • Há diversos bootlegs com lançamentos não oficiais. O mais interessante para iluminar cantos esquecidos do filme é a Esper Edition.

De todo modo, Vangelis não só usa, mas também gasta, estende, expande seus sintetizadores. O resultado é um pináculo, um dos melhores discos de música eletrônica de todos os tempos. A verve da cidade futurista hiperpopulosa está ali; o quarto escuro e solitário também – a belíssima ‘Memories of Green‘ já havia sido lançada em See You Later (1980).

See You Later, por sinal, talvez seja a melhor maneira de encapsular Vangelis em 40 minutos. O disco – um tanto esquecido – é experimental, porém melódico; eletrônico, porém orgânico. ‘Multi-track suggestion‘ demonstra essa abordagem emergente entre o pós-punk e o disco. Colaboram Jon Anderson (do Yes), Peter Marsh e Cherry Vanilla.

Por sua vez, The Friends of Mr. Cairo (1981), agora também assinado com Jon (“Jon & Vangelis”), é divertido pela megalomania oitentista. Já havíamos comentado, no texto sobre 666, como a música-título “contém uma riqueza intertextual tão grande que será tema de alguma Enclave futura”.

Pois bem, a longa faixa (12 minutos) navega pelo livro/filme Maltese Falcon/Relíquia Macabra, como um pastiche do cinema americano dos anos 1940, incluindo imitações de Humphrey Bogart e Jimmy Stewart.

  • Aqui, o clipe. Aqui, a versão completa. Mr. Cairo é, naturalmente, personagem do livro de Dashiell Hammett, interpretado no filme pelo marcante Peter Lorre.
  • O álbum ainda contém ‘State of independence‘, que viria a estourar no ano seguinte, com Donna Summer (produzida por Quincy Jones).

Na outra ponta, temos a trilha sonora L’Apocalypse des animaux (1973), de quando ele ainda estava na Aphrodite’s Child. Gravado em 1970, esse curto disco – que acompanhava uma série documental francesa e não contempla tudo que Vangelis compôs para a produção – tem como fio condutor a leveza sublime. Basta ouvir ‘Le singe bleu‘ para flutuar nessa sutileza.

  • Mencionamos cosmicidade: não à toa, Carl Sagan utilizaria ‘Création du monde‘ justamente na sua série Cosmos (1980), anos depois.

Se existe um além, Vangelis não fará uma estreia, mas um reconhecimento. Se existe um ser maior, este ser lhe perguntará: “como cara***s você já expressava tudo isso aqui com um teclado?”. Que nosso grego favorito descanse em paz.

Nossos cinco favoritos:

Baú: Trevanian

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Nikolai tocou com os dedos o supercílio quebrado. — Não foram os seus guardas, senhor. A maioria dos ferimentos é o resultado do interrogatório ao qual me submeteram os americanos.

— A maioria deles? E os outros?

Nikolai abaixou os olhos na direção do chão e pigarreou. Sua voz estava áspera e fraca e naquele momento precisava ser fluente e persuasivo. Prometeu a si mesmo que não permitiria, nunca mais, que a sua voz fraquejasse por falta de exercícios. — Sim, a maioria. O resto… Devo confessar-lhe que cometi algumas auto-agressões. Desesperado, bati com a cabeça de encontro à parede. Foi uma atitude tola e vergonhosa, mas sem nada para me ocupar a mente… — deixou que a voz definhasse e manteve os olhos baixos.

O Sr. Hirata estava perturbado só de pensar nas repercussões de um caso de loucura e suicídio quando já estava no final de sua carreira, especialmente agora que só lhe faltavam alguns anos para a aposentadoria. Prometeu fazer o que estivesse ao seu alcance e saiu da cela tumultuado e agitado diante do pior tormento para um funcionário público civil: a necessidade de tomar uma decisão por sua conta.

Trevanian, Shibumi, 1979 (ed. Círculo do Livro, 1984).

Shibumi!

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Shibumi (1979), de Trevanian (Rod Whitaker), é um livro esquisito. Não necessariamente pela forma atípica ou por um conteúdo extravagante, mas existe algo inerentemente curioso nesse romance de espionagem.

A começar por seu autor. “Mas quem diabos é ‘Tre-va-nian’? ‘Tre-va-ni-an‘?” foi minha reação ao deparar de algum modo – não lembro qual – com a recomendação de Shibumi pela internet. Quem confiaria em um escritor de um nome só?

Rod Whitaker (1931-2005), a despeito de uma carreira acadêmica regular nos Estados Unidos, não só vendeu, mas também vendeu bastante assinando como Trevanian, um pseudônimo/heterônimo/alterego misterioso que só viria a ser desvendado alguns anos antes da morte da pessoa física.

Whitaker publicou seu primeiro romance – já sob o heterônimo Trevanian, uma homenagem ao historiador G. M. Trevelyan (1876-1962) – em 1972. The Eiger Sanction (Escalada Mortal) logo viria a ser adaptado (e estrelado) por Clint Eastwood, em 1975, para desaprovação do escritor, incomodado com a miopia interpretativa de quem não identificou os tons satíricos da obra.

  • Escalada Mortal acompanha um professor de arte-alpinista-assassino-mercenário (não dá para desconfiar de imediato? Professor de arte não completa uma volta no Parque Barigui, oras).

Mas é aí que as coisas começam a ficar mais interessantes. Porque, considerando o que lemos em Shibumi – e Escalada Mortal (ed. Landscape, 2007) já foi devidamente comprado para a biblioteca Enclave –, Trevanian produz muito mais que apenas paródia.

Afinal, Shibumi é sim um livro esquisito. Também é um baita romance. A narrativa acompanha Nicholaï Hel, nascido de uma aristocrata russa com um alemão e crescido em uma Xangai ocupada pelos japoneses – sem conhecer o pai, praticamente sem a mãe –, depois no próprio Japão (Heru), por fim no Japão ocupado por americanos, após o fim da Segunda Guerra.

Apaixonadamente multicultural e com um explícito viés antiamericano, o universo de Shibumi se estende ao País Basco, onde mora Hel (e onde morou Whitaker), agora um assassino aposentado, embora ainda temido. Também se passa em Londres e em Washington, de onde a CIA alinha suas operações com a Matriz, uma corporação gigantesca e sem rosto controlando o planeta a partir do petróleo e de suas calculadas motivações políticas.

Já em seus cinquenta anos, Hel mora num castelo sem energia elétrica, explora cavernas, joga Go, pratica jardinagem japonesa, é capaz de matar qualquer um com qualquer instrumento (“a fucking pencil…”) e conseguiria entregar prazer a qualquer mulher por uma eternidade. Hel fala quase dez línguas e desenvolveu um senso de proximidade com o qual detecta não só aproximações físicas, mas seu aspecto anímico.

Um James Bond cavaleiro do zodíaco. Hel é o homem, uma máquina, uma besta enjaulada com ódio – apenas à procura de viver com shibumi, uma perfeição espontânea. E, claro, algo o fará voltar ao jogo.

Se os elementos são nitidamente exagerados, para não dizer escrachados, acontece que Trevanian consegue trafegar entre a paródia pornográfica de 007 (um dos personagens se chama D.I.L.D.O!) e o romance de desenvolvimento lento, disposto de enorme caracterização, com maestria – a maestria de quem domina a técnica e se vê forçado a brincar.

Ademais, o livro antecipa diversos tópicos em voga hoje, como inteligência artificial, ecologia, interferências de política externa e a ubiquidade de instituições dúbias. Trevanian aproveita para espalhar seu veneno em vários (vários!) tópicos, da CIA à pop art, todos com a rabugentice fundamentada de que gostamos. Há um senso de humor preciso.

Com a imagem do herói silencioso multicultural de origem misteriosa lutando contra organizações onipresentes, Shibumi inspirou a divertidíssima franquia John Wick – no primeiro filme, até vemos um personagem segurando o livro. Inclusive, Chad Stahelski, o diretor, adaptará o romance para o cinema em algum momento.

Como esta é uma newsletter, grosso modo, de adaptações e intertextualidade, pensemos em alguns pontos aqui.

  • Pela natureza longeva da narrativa, que abrange muitas décadas, será uma tarefa difícil.
  • O antiamericanismo em Shibumi, obra de um americano que adora o Japão, certamente será diluído.
  • Torço para manterem a pluralidade linguística – do russo ao basco –, agora que esse povo finalmente descobriu as legendas.

John Wick, por ora, sobrevive bem à superexposição (já são três filmes, rumo ao quarto), provando que filmes de ações não precisam ser estúpidos. Ou melhor, que podem até ser simplistas, desde que a ação em si seja vistosa, coreografada, bonita.

Afinal, ninguém se importa com explosões sequenciais e cortes indecifráveis, mas é possível aproximar uma luta armada de um balé – e incrementá-la com luzes, trajes e objetos cativantes. John Wick sabe fazer isso (como o primeiro Kingsman também fez).

Mais do que isso – e é aqui que a franquia realmente captura parte do apelo de Shibumi (como o primeiro Kingsman também capturou) –, essas narrativas temperam nossas vidas entediantes com um “e se?” lúdico, constante na infância, mas adormecido na rotina amorfa da vida.

“E se esse vendedor fosse um espião procurando informações?”; “e se essa porta trancada levasse a um porão da máfia?”; “e se esse prédio fosse um centro de comunicação de uma agência secreta?”; “e se esse corredor…”. O universo pelo qual transita o interminável Keanu Reeves carrega todo o ethos do romance – quem o ler logo identificará.

Por fim, ecos de Shibumi atravessam mídias: no videogame, a saga de Metal Gear parece ensopada de Trevanian, ao passo que desbravadores de Mass Effect reconhecerão Thane Krios como um Nicholai Hel alienígena.

Excelente para um livro esquisito: quem duvidaria de um escritor de um nome só?

Baú: Anthony Bourdain

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Meu primeiro indício de que comida era algo mais que uma substância para se enfiar na boca quando batia fome – como que enchendo o tanque do carro – veio no final do quarto ano primário. Foi durante as férias em que viajamos para a Europa a bordo do Queen Mary e aconteceu no salão refeitório da classe econômica. Há uma foto dessa viagem: minha mão de óculos escuros à la Jackie O., meu irmão caçula e eu terrivelmente chiques para o cruzeiro, alvoroçadíssimos com nossa primeira visita à terra natal dos ancestrais de meu pai, a França.Foi a sopa.

Estava fria.

Uma descoberta e tanto para um menino curioso cuja experiência em sopas até aquele momento ia de creme de tomate Campbell’s a canja de galinha. Eu já havia comido em restaurantes, claro, mas essa foi a primeira comida em que realmente prestei atenção. Foi a primeira comida de que gostei e, mais importante, de que me lembro de ter gostado. Perguntei ao nosso paciente garçom britânico o que vinha a ser aquele líquido deliciosamente fresco e saboroso.

“Vichyssoise”, foi a resposta, palavra que até hoje – mesmo agora, uma veterana cansada de guerra de tantos cardápios, preparada mais de mil vezes por mim – ainda guarda um tom de magia. Lembro-me de tudo sobre essa experiência: a forma como nosso garçom tirou-a de uma terrina de prata com a concha, o frescor das cebolinhas verdes francesas que ele colocou por cima para guarnecer, o gosto cremoso e forte do alho-poró com batata, o choque agradável, a surpresa de saboreá-la fria.

Não me lembro de muita coisa mais a respeito da travessia do Atlântico. Assisti a Boeing Boeing com Jerry Lewis e Tony Curtis no cinema do navio e a um filme com Bardot. O velho transatlântico tremeu, roncou e vibrou que foi um horror a viagem inteira – cracas no casco era a explicação oficial – e de Nova York a Cherbourg foi como cavalgar um cortador de grama gigante. Meu irmão e eu não demorados a nos sentir entediados e passamos grande parte do tempo no “salão jovem”, ouvindo “House of the Rising Sun” na vitrola eletrônica ou vendo a água se mexer para lá e para cá feito um vagalhão contido entre quatro paredes na piscina de água salgada do convés inferior.

Mas aquela sopa fria nunca mais me deixou. Ela ressoou, me acordou, me deixou consciente da língua e, de alguma forma, me preparou para os acontecimentos futuros.

Anthony Bourdain, Cozinha Confidencial, 2000 (Companhia de Mesa, 2016).

Adaptando o beco escuro

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O americano William Lindsay Gresham publicou O Beco das Ilusões Perdidas em 1946, aos 37 anos. Seu romance de estreia lhe rendeu algum dinheiro – e uma adaptação para o cinema (O Beco das Almas Perdidas) logo no ano seguinte.

A década de 1950 seria um tanto mais volátil. Casado com a poeta Joy Davidman, Gresham a trairia diversas vezes, algumas delas até sóbrio. A gota d’água, quando se envolveu com a prima da esposa, acolhida pelo casal enquanto Joy estava na Inglaterra para visitar ninguém menos que C. S. Lewis, com quem trocava correspondências.

Ela voltaria a Nova York para dar um basta no constrangimento, e, em um cenário ainda mais embaraçoso, os três morariam juntos por um tempo. Então, Joy retornaria em definitivo à Inglaterra – agora com os dois filhos do casal –, e Gresham se casaria com Renée, isto é, a prima dela. Este seria seu quarto e último casamento.

Por sua vez, na Inglaterra, Joy se casaria com C. S. Lewis em 1956, o que parece ter sido uma grande evolução (e um grande alívio) para sua vida. Infelizmente, ela morreria de câncer poucos anos depois, em 1960.

Lewis adotaria seus dois filhos, o que Gresham constatou quando foi visitá-los, após a morte da ex-mulher. Também escreveria A Grief Observed, publicado sob o pseudônimo N.W. Clerk.

Em 1962, depois de descobrir um câncer na língua, um Gresham já sóbrio e bem menos problemático se hospedou em um hotel em Manhattan e se matou com uma overdose de remédios, aos 53 anos.

  • Às vezes acredito que, se tenho algum talento, não é literário, mas um talento puro de sobrevivência. Sobrevivi a três casamentos quebrados, perda dos meus filhos, guerra, tuberculose, marxismo, alcoolismo, neurose e anos de escrita freelance. Sou apenas malvado e teimoso demais para matar, creio eu.[1]

Interessado por espiritualismo (não necessariamente Espiritismo), ilusões, charlatanismo e psicologia social, Gresham trabalhou todos esses temas – mais o alcoolismo – n’O Beco das Ilusões Perdidas, recentemente adaptado para o cinema outra vez, agora pelas mãos de Guillermo del Toro. Hoje, o filme está disponível no Star+.

O Beco do Pesadelo (2021), pois, é um belíssimo filme. Situada no final dos anos 1930 e início dos anos 1940, a narrativa acompanha Stan Carlisle (Bradley Cooper), um jovem esperto com tendências à picaretagem que tenta voar perto demais do Sol ao se envolver com a psiquiatra Lilith Ritter (Cate Blanchett). Eis uma história noir de desgraçamento, território bem conhecido por Gresham.

Curioso, decidi ler O Beco das Ilusões Perdidas (publicado no Brasil pela editora Planeta, 2021) assim que saí do cinema, depois de assistir a Beco do Pesadelo. Ou melhor, no dia seguinte, após confirmar que o filme havia ganhado espaço na minha mente.

Comparando as duas obras – isto é, considerando suas diferentes mídias, mas não a noção tão tola quanto ingênua de “fidelidade” –, fica claro como del Toro potencializou seu texto-fonte para criar beleza.

Nighmare Alley, o filme, é um primor audiovisual (que, no momento, concorre ao Oscar de Melhor Fotografia). Quem recebe esse mérito é o dinamarquês Dan Laustsen, com quem del Toro já havia trabalhado nA Forma da Água (2017).

Sua homenagem à estética noir é explícita, porém a obra vai além do pastiche seguro para trabalhar suas cenas com um encanto estonteante. Há muita chuva, muitas luzes e, principalmente, muita escuridão. A união entre esses elementos, pincelada com carinho em cada frame, potencializa a narrativa.

Nighmare Alley, o livro, é cativante, mas limitado. Outrora chocante, seu impacto já perde força, apesar de a temática permanecer atual, tendo em vista a atemporalidade do charlatanismo (que existirá enquanto o ser humano pisar na Terra).

Obviamente, não podemos exigir que um livro seja um primor audiovisual. Entretanto, podemos sempre debater seu devido nível e compará-lo com sua contraparte de outra mídia. Nesse caso, há uma discrepância entre o romance e o longa-metragem, e o mérito fica com os responsáveis pelo segundo.

Isso porque, em que pese o apelo (e a autenticidade) da narrativa de Gresham, ela é um tanto unidimensional. Seus personagens, caricatos e/ou pouco surpreendentes, perdem espaço em um desenvolvimento cuja previsibilidade não é o maior problema. Voltaremos a esse ponto.

Novamente, não se trata de um romance ruim, ainda mais se ele carrega algum valor 76 anos depois de sua publicação. Porém, creio que Gresham sequer discordaria de uma avaliação mais criteriosa de seu livro, que não se destaca por estilo, enredo ou caracterização.

  • Não tenho ilusões sobre mim como um ‘autor’ – sou um escritor de aluguel que aborda a escrita como um ofício tal qual a marcenaria. Dei muitas aulas sobre a escrita de contos; os alunos provavelmente aprenderam muito pouco, mas eu sempre aprendi muito, ouvindo a mim mesmo falar sobre como a ficção curta deve ser montada.[2]

À época, O Beco das Ilusões Perdidas foi reconhecido pela maneira como trabalhou o vocabulário daquele contexto nem rural nem urbano dos circos itinerantes. O prefácio de Nick Tosches, contido na edição da Planeta, contextualiza esses méritos (que podem se perder na tradução).

Se até o momento tratamos apenas das competências audiovisuais do filme de del Toro, também precisamos registrar – e gostaria de fazê-lo de forma mais elegante, em vez de dizer isso – como uma adaptação pode elevar os méritos e amenizar os aspectos mais fracos de um texto-fonte.

O Beco do Pesadelo faz isso por meio de cortes conscientes, que removem o subenredo de líder religioso do protagonista e não elucidam seu passado. Com menos, faz-se mais. O filme também consegue mostrar os truques de Stan para “ler mentes”, ou seja, sem precisar explicá-los (nas descrições meio técnicas, meio rocambolescas que compõem um ponto baixo do livro).

Depois da limpeza, enfim, o tempero: inserções simbólicas como a do bebê Enoque engrandecem a narrativa, amarrando-a.

Por último, mas não menos importante, Rooney Mara. Ou melhor, sua personagem, Molly, crucial para o enredo. No romance, testemunhamos uma mulher tão frágil quanto estúpida, limitada a suplícios e angústias infantilizados. O longa-metragem enobrece sua vulnerabilidade e, a partir disso, permite um envolvimento muito maior.

Já me estendi demais neste texto, pelo qual devo pedir perdão, não tendo mais tempo de abreviá-lo. Na pior das hipóteses, O Beco do Pesadelo é, literalmente, espetacular. Deve ser visto à noite, no escuro e, se possível, com som alto e tela extensa.

Baú: W. Somerset Maugham

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Êste livro baseia-se nas minhas experiências no Departamento do Serviço Secreto durante a guerra, mas foi modificado com o propósito de ficção. O fato em si constitui tema muito pobre como enrêdo. Geralmente começa por acaso, muito antes do início da história, arrasta-se inconseqüentemente e some-se, deixando traços indecisos sem nenhuma conclusão. Arma uma situação interessante e a deixa no ar para seguir uma direção diferente que nada tem a ver com a história; não se prende a nenhuma ideia de clímax, e desperdiça inconseqüentemente seus efeitos dramáticos. Existe uma escola de novelistas que considera isso como o modêlo perfeito de ficção. Se a vida é arbitrária e irregular a ficção deve sê-lo também, pois ela imita a vida. Na vida as coisas acontecem a êsmo, e assim devem acontecer numa história; elas não conduzem a um clímax – o que é um ultraje à probabilidade –, mas sucedem-se a êsmo. (…)

Escrevi tudo isso para fazer ver ao leitor que êste livro é de ficção, se bem que eu possivelmente não diga muito mais do que vários outros livros publicados sôbre o mesmo assunto nos últimos anos e que se propõem ser memórias legítimas.

O trabalho de um agente do Serviço Secreto é, de um modo geral, extremamente monótono. Grande parte dêle é absolutamente inútil. O material que oferece para histórias é fragmentário e sem interêsse agudo; o autor tem de torná-lo coerente, dramático e provável. (…)

W. Somerset Maugham, prefácio de O Agente Britânico (Ashenden), 1928 (ed. Livraria do Globo, 1946).

007 e o Gângster Ciumento

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Lana Turner, Johnny Stompanato e Cheryl Crane (1958)

Aqueles familiarizados com a quadrilogia de Los Angeles do escritor James Ellroy (1948) talvez conheçam o protagonista da nossa história de hoje – e não me refiro ao 007.

Vamos ao contexto: entre a segunda metade da década de 1980 e a primeira de 1990, Ellroy resgatou a literatura policial noir e escreveu quatro romances que se passam em Los Angeles, entre 1946 (Dália Negra) e 1958 (Jazz Branco).

Todos misturam pessoas e casos reais com personagens e resoluções fictícias; aquilo que pessoas normais chamam de ficção histórica; e teóricos pós-modernos, de alguma outra coisa.

  • No Brasil, os quatro foram publicados na Coleção Negra da Record, facilmente encontráveis em sebos. O editor se encontra no terceiro (e a-man-do). Acima de tudo, trata-se de obras com caracterização invejável: amamos acompanhar seus personagens extremamente falhos.
  • Terceiro, por sinal, adaptado no filmaço Los Angeles: Cidade Perdida (1997). No momento, disponível no Prime Video.
  • Quem já jogou L.A. Noire também conhece boa parte desse universo, considerando como o jogo se inspirou na literatura noir e, especificamente, no trabalho de Ellroy.

Pois bem, assim chegamos em Johnny Stompanato, um gângster com nome de caricatura. Stompanato serviu à Marinha Americana no Japão durante a Segunda Guerra, converteu-se ao Islamismo para se casar com uma turca, teve um filho com ela, abandonou ambos e rumou a Los Angeles em 1947. Então viveu, ou melhor, correu por um outro casamento, que durou três meses.

Stompanato se estabeleceria como proprietário de uma humilde loja de cerâmica e esculturas em madeira, mas, sabe-se lá como, manteria um vínculo com o poderoso gângster Mickey Cohen, ex-boxeador baixinho (1,65 m) crescido em meio à máfia judaica de Nova York e estabelecido em Chicago – mas já deslocado para Los Angeles.

A partir desse encontro, Stompanato faria algo mais dinâmico que administrar cerâmica, consolidando-se como braço direito, guarda-costas e matador de aluguel de Cohen, líder do crime local. Ambos são figuras frequentes na quadrilogia de James Ellroy, com grande participação no segundo, O Grande Deserto (1988).

A vida de Johnny Stompanato é cheia de histórias curiosas, bem como a sua morte, isto é, esfaqueado pela enteada de 14 anos, que defendia a própria mãe – ninguém menos que Lana Turner – dos ataques do mafioso.

E como um gângster truculento chegaria a namorar Lana Turner, grande estrela da Era de Ouro de Hollywood(land)? Um misto de sorte (azar), oportunidade e decadência da atriz, que, como podemos imaginar, viveu altos e baixos com o sujeito.

Até o momento, nada do que relatamos chega perto de um James Bond, não é mesmo? Pois bem, em 1957 (portanto, para fins cronológicos, anos antes do primeiro filme de 007), Lana Turner gravava Vítima de uma Paixão (Another Time, Another Place) com Sean Connery na Inglaterra.

Stompanato não gostou da ideia de ver sua namorada contracenando com um grandalhão (1,88 m) escocês, muito menos dos rumores de que eles teriam um affair, e fez aquilo que lhe parecia coerente: voou para a Inglaterra armado e ameaçou o ator dentro do set de filmagem, em Hertfordshire. Não sem antes ligar para Turner e ameaçá-la (e, obviamente, ouvir – e ignorar – apelos para que não causasse nada disso).

Acontece que, além de grandalhão (e escocês), Connery era faixa preta em karatê e tinha história como bodybuilder. Stompanato não teve chance: seu braço armado foi torcido pelo futuro James Bond, que, enquanto neutralizava o risco do tiro, desferiu-lhe um soco suficiente para acabar com a brincadeira ali mesmo. A partir daí, a história virou problema da Scotland Yard, que deportou um gângster humilhado.

  • O desempenho de Connery no embate foi tão supremo que o agente Milton Bolotti, estupefato, logo telefonou à Eon Productions e cravou: “temos o nosso protagonista para os romances de Ian Fleming”. Ok, essa parte a Enclave inventou 100%. Não repassar.

Johnny Stompanato seria assassinado logo no ano seguinte, mas Cheryl Crane – a filha de Turner – acabaria inocentada em um caso escandaloso e tremendamente documentado. Mickey Cohen arcou com os custos do funeral e divulgou cartas de amor trocadas entre Lana Turner e seu escudeiro, tentando melhorar a imagem do morto.

Baú: John le Carré

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Breve história de George Smiley

Quando desposou George Smiley, pouco antes do fim da guerra, Lady Ann Sercomb qualificou-o, ante os seus atônitos amigos de Mayfair, de comovedoramente vulgar. Ao abandoná-lo dois anos depois por um automobilista cubano, ela anunciou enigmaticamente que, se não o tivesse deixado então, jamais poderia tê-lo feito; e o visconde Sawley fez uma visita especial a seu clube para comentar que o gato botara as unhas de fora.

Esse comentário, que durante uma curta temporada foi tomado por um mot, só pôde ser entendido pelos que conheciam Smiley. Baixote, gorducho e de índole tranquila, ele parecia gastar muito dinheiro com roupas de mau gosto, que lhe pendiam em volta da figura atarracada como a pele de um sapo engelhado. Sawley, de fato, declarou no enlace que “Sercomb se uniu a uma rã-touro numa rajada de sudoeste”. E Smiley, sem saber dessa descrição, atravessara gingando a nave lateral da igreja em busca do beijo que o converteria em príncipe.

Era ele rico ou pobre, camponês ou clérigo? De onde ela o fora tirar? A incongruência da união era acentuada pela beleza indiscutível de Lady Ann, o mistério estimulado pela desproporção entre o homem e sua noiva. Mas a bisbilhotice tem de ver suas personagens em branco e preto, atraviá-las de pecado e motivos facilmente transmitidos na estenografia da conversação. E assim, Smiley, sem escola, sem pais, sem regimento nem ofício, sem riqueza nem pobreza, viajou sem rótulos no vagão do condutor do expresso social e logo se transformou em bagagem perdida, destinada, quando o divórcio chegou e foi embora, a permanecer sem dono na prateleira empoeirada das notícias do dia anterior.

John le Carré, O Morto ao Telefone, 1961 (ed. Círculo do Livro, ano desconhecido).

Passeio musical de Concorde

Extraído da edição 104 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Há alguns meses, na Enclave #98, fizemos uma digressão a respeito do lançamento de um quarto filme Matrix (que, por sinal – e coincidência –, estreia hoje). Tratamos de “globalização e uma ideia otimista de mundo digital” por meio do músico japonês Towa Tei, mais especificamente na música ‘Technova‘.

Pois bem, achamos ou fomos achados pela globalização otimista absoluta em forma de disco. Refiro-me ao álbum Jet Sounds (2000), do italiano Nicola Conte.

Nele, testemunhamos um europeu fazendo seu acid jazz com influências do mundo inteiro, inclusive – e principalmente – do Brasil. Esse eletrônico suave resgata os anos 1960 (daí a clara influência da bossa nova) e os embebeda em doses eletrônicas de negroni, rusty nail e bloody mary.

Podemos falar em gêneros musicais (acid jazz? Future jazz? Latin jazz? Lounge?), mas é muito mais efetivo tratar de sentimentos.

  • Jet Sounds é uma festa na piscina com gente bronzeada, coquetéis irrestritos, sem celulares e sem fila para qualquer banheiro.
  • Jet Sounds é um clube sofisticado ao qual você não teria acesso na vida real.
  • Jet Sounds é um passeio de Concorde: um sonho encerrado; uma máquina do futuro vivendo no passado. (E adivinha o destino do primeiro voo comercial do Concorde…)
  • Jet Sounds é uma relação tão confusa quanto prazerosa entre espaço e tempo (“chegue antes de partir“).

Próximo dos 30 anos, naturalmente carrego alguma saudade do início dos anos 2000 – até porque, convenhamos, chega de resgatar absolutamente qualquer coisa da década de 1990; está na hora de o passado virar a página.

Esse zeitgeist pré-11 de setembro (de que tratamos na edição 98 e que agora encapsulamos na produção de Nicola Conte) também tem seu apelo por servir como oposto ao sentimento de fronteiras fechadas, desconfiança incessante, polarização política e mal-estar tecnológico com que nos habituamos nos últimos anos, por motivos diversos.

Jet Sounds é a nossa descoberta tardia de 2021 e uma recomendação sólida para o próximo ano. Obrigado por acompanhar a Enclave: nos reencontramos em algumas semanas!