Sobre a deprimência de tantos anúncios

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Bring us the day they switch off the machines

‘Cos men in yellow jackets, putting adverts inside my dreams

An automated song and the whole world gone

Fallen under the spell of the

Distance between us when we communicate

Quem dera.

Se você pensar cuidadosamente, criteriosamente, reconhecerá poucas verdadeiras motivações do ser humano antes de qualquer ação concreta. Para se mexer, um indivíduo muito provavelmente busca (1) conquistar alguém, (2) impedir o sono de um sem-teto ou (3) inserir um anúncio em algum lugar. Quase todo o desenvolvimento do planeta na Idade Contemporânea pode ser explicado a partir dessas três fontes de motivação.

  • Se ou quando o ser humano morar em Marte, será para impedir mendigos de dormir de graça lá. [Ou para inserir anúncios.]

Aqueles com pouco mais ou pouco menos de 30 anos tendem a se lembrar da internet com nostalgia. Usávamos essa ferramenta para nos distrair do mundo real, enquanto hoje precisamos do mundo real para escapar da internet. Nesse aspecto, as limitações ajudavam: o fato de você estar obrigatoriamente fechado em algum espaço – isto é, sem internet móvel – configurava uma mudança clara de estado. Ou você estava conectado (e preso a algum espaço físico para, afinal, conseguir estar conectado) ou estava desconectado e, portanto, na vala comum daquilo que chamamos de vida real.

E então esses dois universos começaram a se misturar, para a alegria do nerdão ex-hippie de jeans e gola rolê preta.

Como já é sabido, nascemos tarde demais para explorar o planeta e cedo demais para explorar a galáxia. A única janela mágica de exploração a que tivemos acesso foi a virtualidade, a internet como uma passagem lúdica de vivenciar o outro (lugar, personalidade, comportamento) e vislumbrar o desconhecido. Acreditávamos – filosófica ou intuitivamente – que criaríamos [ou estávamos criando] novas estruturas. Enquanto isso, no contrafluxo, as velhas estruturas de mídia acordaram, aprenderam e tomaram conta do nosso espaço mágico.

Ademais, envelhecemos e, pasmem, gente ainda mais velha passou a ocupar (mas, principalmente, estragar) nossos espaços. Hoje, já somos os intrusos de novos espaços, estragando-os para nativos mais jovens que nós.

Ah, sim, os anúncios.

Arthur T. Merrick, 1917. Fonte.

Sem grandes soluções para o velho problema da rentabilização – e uma vez ocupada a terra de ninguém, quando não havia estruturas para combater pirataria e/ou fazer valer qualquer copywright –, a internet se encheu de anúncios.

Hoje, abrir qualquer página nova na internet sem um bloqueador de anúncios é uma tarefa estressante. Um pop-up, uma caixa de cadastro (nosso site também tem!), um anúncio rolando para cima, um banner embaixo. Vídeo, autoplay, mais pop-up. E os aplicativos em geral não são tão diferentes.

Talvez não haja exemplo mais simbólico desse senso de derrota que o da Netflix. Estamos falando de um sucesso da virada digital que desestabilizou até hoje toda a sua indústria. Um ícone de sua era e a vanguarda entre seus concorrentes. A imaterialidade em pleno funcionamento (mesmo que a empresa tenha começado com DVDs). A companhia que arrotou por anos sua superioridade por não depender de anúncios.

E a Netflix adotou os anúncios. Ou seja, copiou o que há de mais tradicional e menos imaginativo na televisão mais arcaica. E, obviamente, deu certo. Obviamente (de novo), seus concorrentes vão todos correr atrás. Então… é isso. Essa é a solução. Essa é a disrupção entrando na própria bunda. A grande ideia consiste em… anúncios. Eis a deprimência.

  • Modismos de mercado sempre impressionam, embora nunca surpreendam. Já reparou em novos cartões ou máquinas de pagamento atendendo por “rosinha” ou “laranjinha”? Caramba, de onde será que isso saiu?

O problema em questão é muito mais estético que ético, ao menos no que tange aos meus incômodos. Não me perturba a tentativa de me empurrarem um produto ou serviço (e se deveria fazê-lo, mas meu cérebro já definhou na configuração mercadológica da sociedade, é outra discussão). Há propagandas e propagandas; anúncios e anúncios. Já me emocionei com propagandas: de imediato me lembro de uma da Mastercard (!) que envolve Pelé e álbum de figurinhas. É (ou pode ser) uma arte — não adentraremos essa discussão, porque, mais que inútil (nada contra), não é divertida.

  • Nota inserida após a publicação: infelizmente, só assistimos a isso aqui depois de dispararmos o texto. A sensação de refrescância (mesmo diante de uma propaganda de banco) deriva da tentativa genuína de pensar e executar algo realmente criativo, não “meme-da-semana” criativo. Óbvio que estamos falando de uma produção, mas esse é um problema de quem controla o orçamento. Enquanto espectador e possível cliente, é um acerto claro. Tardiamente, também nos lembramos deste ótimo exemplo aqui. Quando forma e conteúdo se conectam com um propósito claro, magia acontece — em qualquer contexto.

E não há nada novo em expor produtos. Tomemos como exemplo a “Anunciação” (~1564) de Ticiano. De acordo com [Sir] John Hegarty, ali já temos uma notória publicidade indireta: o vaso de vidro no canto inferior direito da tela – discreto, sutil, desnecessário – indica aos rivais romanos e florentinos que o vidro veneziano era o melhor entre os produtos.

Outro caso: “Um Bar em Folies-Bergère”, de Édouard Manet (1882), com as garrafas da cerveja Bass (também referenciada por Picasso). Puta product placement, mêo.

“Un bar aux Folies-Bergère”, Édouard Manet, 1882.

Inclusive, a suposta pureza de intenções é uma das balelas mais superestimadas na história de qualquer arte. Se alguém produziu beleza porque se encantou com o por do sol ou porque vendeu sua visão ao dono de uma franquia da Cacau Show, o Universo é indiferente.

É sabido o quanto Dostoiévski escreveu essencialmente por dinheiro, isto é, por precisar dele (até passamos por isso em nosso texto sobre apostas). Crime e Castigo não seria necessariamente um romance melhor em outras condições – é até mais fácil argumentar o oposto. Toulouse-Lautrec foi contratado pelo Moulin Rouge (permuta!) para desenhar seus tão copiados cartazes, que se tornaram icônicos do mesmo jeito. Um dos mais belos discos de Tom Jobim foi encomendado pela Odebrecht. É menor por isso? Não. Tanto faz.

  • Apenas um grande artista é funcional o suficiente para não depender de motivações puras ou algo assim… O capricho absoluto é o desapego. No frigir dos ovos, o que fica é o que foi feito, e não sua motriz.

Enfim, os anúncios.

Telas favorecem anúncios, e hoje tudo é tela (o que aconteceu com os táteis, ágeis e intuitivos botões?). Temos telas nas ruas, nos ônibus, nos aviões, nos elevadores. Portanto, temos anúncios em todos esses espaços. Não existe AdBlock pessoal, ao menos por enquanto. Fechar-se em qualquer espaço público praticamente presume a companhia de alguma subcelebridade gritando sobre um fundo colorido. Fechar-se em seu próprio mundo, com fones de ouvido, também – ao menos enquanto você não paga. Eficaz ou não, trata-se de um desfecho deprimente.

  • E por que tudo é tela? Bom, vale lembrar da regra 3 do início do texto (e, claro, do fato de a tecnologia das telas ter avançado drasticamente em 20 anos – lembra como monitores e TVs eram tenebrosos, pesados e cansativos aos olhos? [Não somos luditas!] –, além de ter ficado muito mais barata). Aqui preferimos a explicação pelo viés da sociologia de boteco e, portanto, afirmamos, sem qualquer base, que se a tecnologia das telas avançou e se elas ficaram mais baratas é tão somente porque houve um esforço maior em fazê-lo justamente pelo fato de telas comportarem anúncios.

Um problema essencialmente estético. A distopia não é uma placa de néon, a oferta cansativa de produtos ou a solidão em meio às cores vivas de um arranha-céu reluzente. É tudo isso somado e deformado em seu grau mais pobre: o som constante do celular alheio num ambiente apertado; marcas dialogando entre si como adolescentes; o eterno fluxo de interrupções visuais; a confirmação de que o novo envelheceu mal e, na garupa dele, você também.

Baú: Charles Portis

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Depois do jantar entrei no saguão às escuras. Ainda era o “happy hour” e o lugar estava apinhado de moradores locais. Não vi socialite alguma. Tive dificuldade pra conseguir um dos banquinhos sem encosto no bar porque toda vez que algum deles vagava eu esperava um ou dois minutos deixando-o esfriar, pra que o carlo do corpo se dissipasse da almofada de plástico, mas aí outra pessoa se sentava. A multidão escasseou quando os preços ficaram mais caros e aí eu meio que tive o bar inteiro só pra mim. Vi um homem de pé na ponta do balcão escrevendo uma carta com um lápis. Ele estava rindo do seu próprio trabalho, um bandido solitário escrevendo insultos cruéis pro chefe da polícia.

Pedi uma caneca de cerveja e dispus minhas moedas sobre o balcão, em colunas divididas de acordo com o valor. Quando a cerveja chegou, mergulhei o dedo nela e umedeci cada uma das pontas do guardanapo de papel pra ancorá-lo, de modo que não subisse junto com a caneca toda vez e eu parecesse um pateta. Bebi do lado da caneca que uma pessoa canhota usaria, na crença de que menos bocas tinham estado desse lado. Essa também é a minha política com xícaras, qualquer recipiente com alça, mas geralmente é de se esperar que as xícaras sejam lavadas com mais esmero do que canecas de bar. Uma rápida chapinhada na água aqui e ali e essas belezinhas estão de volta na prateleira!

À minha frente do outro lado do balcão havia um espelho escuro e acima dele uma cabeça de veado com um cigarro na boca. Na área das mesas uma mulher tocava um órgão elétrico. Ninguém estava berrando pedidos pra ela. Eu era a única pessoa do lugar que aplaudia sua música — uma bravata de viajante. E depois de algum tempo eu também parei de aplaudir. Eu não tinha a menor personalidade. Se os outros fregueses de repente decidissem atacar a pobre mulher com garrafadas, com aquelas garrafas quadradas de gim, creio que eu teria me juntado a eles. Isso era uma coisa nova. Todos nós sabemos do aristocrata que entra em derrocada, mas ali estava algo que Jefferson não havia antevisto: um serviçal decadente.

Charles Portis, O Cão do Sul, 1979 (ed. Alfaguara, 2015, trad. Renato Marques).

James Clavell, Tai-Pan e a beleza do romance histórico

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Imagine o seguinte roteiro de vida:

  1. Lutar em uma guerra mundial, deslocado em outro continente.
  2. Ser ferido e capturado, então passar anos na prisão do inimigo em condições deploráveis.
  3. Sobreviver, mudar de país e consolidar-se como roteirista em Hollywood.
  4. Escrever filmes clássicos e aclamados da Era de Ouro americana.
  5. Obter sucesso também como diretor.
  6. Por fim, conquistar a literatura com romances épicos que, a despeito de suas mil páginas, tornam-se best-sellers mundiais.

Algumas pessoas realmente fizeram de tudo, e James Clavell é uma delas.

James Clavell (BBC).

Sobre viver e sobreviver

[por Deus, que jogo de palavras tenebroso de sarau de poesia adolescente – “escrevi um poema; que ler?”; não, lógico que não! eu pararia de ler aqui. mas não desistam do texto.]

Na última Enclave, do fim de novembro, mencionamos brevemente a alegria de ter encontrado Tai-Pan (1967), romance deste escritor/roteirista/diretor/veterano/prisioneiro de guerra. Britânico, Clavell nasceu na Austrália, uma vez que seu pai, que servia à Marinha Real, lá estava designado. Ainda bebê, James – apelido de infância, pois seu nome era, na verdade, Charles Edmund Dumaresq [Clavell] – retornou à Inglaterra com a família, tendo crescido em Portsmouth.

Recrutado pela Artilharia Real aos 19 anos (queria ser piloto na Força Aérea, mas sua visão não era perfeita para tal), já com a Segunda Guerra estourando, Clavell foi enviado a Singapura em dezembro de 1941 para enfrentar japoneses após o ataque a Pearl Harbor. O navio em que viajava naufragou, e sua tripulação foi resgatada por um barco holandês que rumava à Índia. A série de problemas mal havia começado.

Após desembarcarem no porto mais próximo possível, Clavell levou um tiro no rosto e vagou na selva por alguns dias. Foi resgatado por uma aldeia malaia, mas foi capturado pelos japoneses. Direcionado a uma prisão de guerra em Java, Indonésia – então ocupada pelo Japão –, depois foi transferido à Prisão de Changi, em Singapura.

  • Quem lembra de Merry Christmas, Mr. Lawrence, com David Bowie e Ryuichi Sakamoto? Trata-se da mesma prisão representada no filme. O longa-metragem foi baseado no relato de Laurens van der Post, preso lá – assim como James Clavell. Não sabemos se eles conviveram juntos, até porque Clavell passou mais tempo na prisão de Singapura. Mas é o suficiente para enfiarmos Bowie & Sakamoto em qualquer coisa. Nota sobre a nota: van der Post pode ter exagerado boa parte de seus relatos.

Lá permaneceu até o fim da Guerra. Sua joss ajudou e Clavell sobreviveu – algo estatisticamente muito improvável (1 em 15, aproximadamente), uma vez que a Prisão de Changi não era um complexo muito bacana, que dirá numa guerra mundial, que dirá nas mãos de seu inimigo.

  • Na entrevista à BBC que linkamos mais acima, fica evidente o desapego cósmico de Clavell no que tange à sua sobrevivência, atribuindo-a continuamente a mero karma (ou joss).
Aliados recém-liberados em Changi, 1945 (WikiCommons).

De volta à Inglaterra, James Clavell iniciaria a segunda parte de sua vida. Após se envolver (e se casar) com a atriz April Stride, ele se interessaria pelo cinema, área em que não daria certo por alguns anos. Sem conseguir produzir ou vender roteiros, mudou-se primeiro para Nova York, depois para Los Angeles. Enquanto isso, pagava as contas como carpinteiro.

Então Clavell conseguiu vender alguns roteiros. Embora nenhum tenha sido filmado, isso ao menos lhe permitia sair da etapa zero. A virada de chave viria com o roteiro de The Fly (1958), baseado no conto de ficção científica de George Langelaan. Robert L. Lippert, que comandava a produtora – Regal Pictures, subsidiária “lado B” da Fox –, apostara em Clavell justamente por conta de um roteiro não filmado que o britânico havia escrito.

  • The Fly: a mesma história que Cronenberg gravaria a seu modo em 1986, estrelando Jeff Goldblum.

The Fly, primeiro roteiro de James Clavell a sair do papel, foi um sucesso considerável de público. O trabalho renderia outras oportunidades com Lippert e Kurt Neumann, que havia dirigido The Fly. Pouco a pouco, Clavell começava a dirigir seus próprios filmes.

O início da década seguinte mudaria este britânico de patamar. Em 1960, durante uma greve de roteiristas, Clavell decidiria escrever suas memórias de prisioneiro de guerra. Estas foram publicadas em 1962 sob o título King Rat (Rato Rei no Brasil).

  • Clavell o fez em 12 semanas, basicamente obrigado pela mulher, que num primeiro momento o trancou no quarto até que ele começasse a escrever seu livro (ou supostamente por isso…). Previsivelmente, ela tinha razão.
  • Vale lembrar: 1962, o ano dos gênios. Coincidência???

King Rat vendeu bem, abriu portas e aparentemente despertou o gênio literário de Clavell. No ano seguinte, sua provável maior contribuição ao cinema: escreveria nada menos que The Great Escape (Fugindo do Inferno), dirigido por John Sturges e estrelado por Steve McQueen.

  • Por si só, viver não deve garantir a qualidade da escrita. Mas alguma alma honesta há de duvidar que ajuda?

Diante do acúmulo de sucessos, James Clavell parou para escrever. Realmente escrever. “O segundo romance separa os meninos dos homens”, dizia. Com o dinheiro de King Rat, ele sentou, pesquisou, viajou e compôs as 800 páginas que (finalmente) nos trazem à Enclave de hoje: Tai-Pan, publicado em 1966.

Tai-Pan, Tai-Pan, Tai-Pan!

Conforme explicamos na Enclave anterior, cheguei em Tai-Pan ao procurar romances que se passassem em Hong Kong. Me surpreendeu nunca ter ouvido falar em James Clavell até então, tendo em vista que seus livros – principalmente Xogun (1975) – foram verdadeiros fenômenos ocidentais.

Diante da proporcional baixa quantidade de conteúdos a respeito de sua obra na internet (críticas, vídeos, análises, punhetagem em geral), senti certo descompasso entre o sucesso passado e o reconhecimento presente. Isso costuma indicar que (1) o autor está em baixa por quaisquer motivos da nossa cultura mutável e frenética [normal e natural] – talvez até pelo cansaço do próprio sucesso – e, em algum momento, será redescoberto; ou (2) sua obra já chegou onde podia chegar e é isso mesmo, não haverá retorno triunfante.

Enfim, este nem é o ponto principal, embora tenha atiçado a curiosidade. O fato é que Tai-Pan, na opinião deste editor (portanto desta newsletter, portanto deste planeta), é um livraço, que já nos convenceu completamente a nos afundarmos em toda a Saga Asiática de Clavell, um notório apaixonado por esse continente (tal qual Trevanian).

No livro em questão, acompanhamos Dirk Struan, taipan da Casa Nobre em Hong Kong, 1841. Um taipan é um grande comerciante estrangeiro, líder de seu negócio na China ou em Hong Kong.

  • Relacionado: ‘The Taipan’, por W. Somerset Maugham, 1922.

Assim, também acompanhamos a colonização de Hong Kong, recém-entregue à Inglaterra após a Primeira Guerra do Ópio e o Tratado de Nanquim (hoje considerado pela China como um dos Tratados Desiguais, marcando o início de seu “século de humilhação”). Há um elemento náutico permeando toda a narrativa, inclusive com um belo trecho relacionado à adoção dos barcos a vapor. Assim, sentimos como é navegar em 1841: o cenário, a tensão, o nojo (imagina o cheiro…).

Diversa, verde, disruptiva: conheça a startup British East India Company (EIC) e seu ópio. Patna, India, aprox. 1850 (litografia).

Naquele ambiente, vivem ingleses oportunistas, chineses oportunistas, piratas, visionários otimistas, proselitistas cretinos, mafiosos locais, comerciantes genuínos. Ou seja, quem diria, uma sociedade – tão bem representada neste romance histórico.

O escocês Struan, macaco de pólvora com apenas sete anos na Batalha de Trafalgar, é por si só um protagonista fantástico. Essa mistura de CEO, comerciante, traficante de ópio e político resulta em um sujeito duro e resoluto, mas perspicaz o suficiente para abraçar costumes locais antes de qualquer outro inglês.

Tal configuração – um ocidental adotando costumes chineses a despeito do absoluto julgamento de seus pares – é um dos elementos mais envolventes do romance. Struan é apaixonado por uma chinesa, toma banho, usa roupas limpas e obriga sua tripulação a lavar as mãos (e a bunda…). Para seus conterrâneos, isso faz dele um diabo pagão. Entre os chineses é mais um bárbaro.

Seu maior concorrente é Tyler Brock, taipan da Brock & Sons. Ambos têm filhos, e o crescimento destes é um dos grandes enredos da trama. Casas, dinastias, sucessão, comércio e politicagem: a sensação é parecida com a de ler Duna, de Frank Herbert, lançado um ano antes. Sem minhocas gigantes…

Tai-Pan é apaixonante porque transborda capricho. Recriar toda uma sociedade num romance histórico é ainda mais difícil que inventar uma do zero. É preciso manter alicerces históricos e hábitos coerentes. Inclusive, entre vários outros problemas, por exemplo, a malária é um grande desafio daquela civilização.

Em sua saga, Clavell visivelmente se esforçou. Estilisticamente, não se trata de um Nabokov (e quantos Nabokov existem, não é mesmo?). Ainda assim, Tai-Pan conquista de imediato – na página 40 você já sabe que ficará até a 800ª –, impondo-se pela robustez de seu universo, tão detalhado quanto amarrado, e pela caracterização impecável.

[Xogun, de 1152 páginas] não é um livro longo, porque meu ponto é: [o livro] é chato? E a resposta é: absolutamente não. Tem algo que te faça continuar a virar a página? E as pessoas me dizem que, quando pegam o livro, se assustam com o tamanho – “eu nunca vou terminar isso, meu Deus!”. E eu falo: “ok, por favor, tudo que te peço como contador de história é – por favor – me dê 15 minutos de sua atenção plena. Se eu não te persuadir em 15 minutos, então falhei”. (Fonte)

Seguimos entusiasmados com James Clavell. Já nos estendemos e permanecemos, agora com Casa Nobre (1981), narrativa que se desenvolve em 1963. Que boa joss.

Baú: Alleta Sullivan

Extraído da edição 121 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.


Contexto: “Em novembro de 1942, durante a batalha de Guadalcanal, que se estendeu por três dias nas ilhas Salomão, o USS Juneau foi atingido por dois torpedos japoneses e afundou. Morreram 687 homens, entre eles os cinco irmãos Sullivan, que se alistaram dez meses antes, todos ao mesmo tempo, acreditando que, juntos, serviriam melhor ao país. Dois meses depois de seu falecimento, tendo ouvido rumores preocupantes sobre eles, sua mãe, Alleta Sullivan, enviou ao Departamento Pessoal da Marinha uma carta comovente, solicitando informação. Logo recebeu resposta, mas não do Departamento, e sim do presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt. A tragédia dos Sullivan levou à criação da Política do Sobrevivente Único, segundo a qual as Forças Armadas americanas dispensam do serviço os irmãos de um soldado morto em combate”.

Prezados senhores:

Escrevo-lhes porque parece que meus cinco filhos morreram em combate no mês de novembro. Uma conhecida minha recebeu uma carta do filho, contando que ele ouviu dizer que meus cinco filhos tinham morrido.

A notícia se espalhou pela cidade, e estou preocupada. Meus cinco filhos se alistaram juntos um ano atrás, em 3 de janeiro de 1942. Estão no cruzador USS Juneau. A última vez que eu soube deles foi em 8 de novembro. Quer dizer, a carta era datada de 8 de novembro, Marinha americana.

Eles se chamam George T., Francis Henry, Joseph E., Madison A. e Albert L. Por favor, digam-me a verdade. No dia 12 de fevereiro, devo batizar o USS Tawasa, em Portland, Oregon. Mesmo que tenha acontecido alguma coisa com meus cinco filhos, vou batizar o navio, porque essa é a vontade deles. Sinto muito incomodá-los, mas estou muito preocupada e preciso saber a verdade. Por favor, digam-me. Foi duro dar cinco filhos para a Marinha de uma só vez, mas estou orgulhosa de meus meninos por eles poderem servir e ajudar a proteger o país. George e Francis serviram durante quatro anos no USS Hovey, que tive o prazer de visitar em 1937.

Estou muito feliz, porque a Marinha me concedeu a honra de batizar o USS Tawasa. Meu marido e minha filha vão a Portland comigo.

Atenciosamente,

De Alleta Sullivan para a Marinha Americana, 1943 (Cartas Extraordinárias. Org.: Shaun Usher. Trad.: Hildegard Fest, Companhias das Letras, 2013).

Sobre comprar, acumular e abandonar livros

Extraído da edição 120 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.


(via Stable Diffusion)

Mantemos relações bastantes distintas com livros.

Alguns conservam grandes acervos de itens lidos e/ou não lidos. Outros compram apenas o que leem, então repassam. Alguns preferem a praticidade e a versatilidade da leitura digital. Outros – os mais cafonas em um mundo já dominado pela breguice – compram livros apenas para decoração. Essas estratégias não são autoexcludentes, muito menos definitivas para toda uma vida.

Da mesma forma, a leitura em si é um ato cuja ordem proporciona múltiplas decisões. Isto é, alguns mantêm listas fechadas para os próximos 76 anos; outros são mais espontâneos; alguns caçam por métodos próprios, outros confiam em recomendações de confiança.

Por fim, outra grande variável no que tange à leitura é o abandono dos livros. Podemos demonstrar graus muito variados de resistência, a depender da nossa expectativa, do desprazer e do orgulho envolvido1.

Com isso em mente, vamos partir de três perguntas:

  • Qual é a sua lógica para comprar livros? (Aliás, físicos ou digitais?)
  • Você tem uma ordem de leitura predefinida? (O que te faz furar a fila?)
  • Quão persistente você é diante de um livro que não te agrada? (O que te leva a abandonar um livro?)

Nesta Enclave, tentaremos dissertar sobre alguns métodos e lógicas pessoais, apenas pela diversão do relato. Para tanto, contamos com o auxílio de dois grandes colaboradores do RelevO: Marceli M. (Burocrata Carimbos) e Bolívar Escobar (Cartas do Bolívar). Escolhemos esses dois indivíduos porque, além de leitores experientes e indivíduos atentos ao mercado editorial, porque… porque… bom, porque a essa altura eles são nossos únicos amigos…

Sobre (anti)bibliotecas

Aqui, vamos partir de um trecho de Nassim Taleb, em referência a Umberto Eco, n’A Lógica do Cisne Negro (2007):

O escritor Umberto Eco pertence àquela classe restrita de acadêmicos que são enciclopédicos, perceptivos e nada entediantes. Ele é dono de uma vasta biblioteca pessoal (que contém cerca de 30 mil livros) e divide os visitantes em duas categorias: os que reagem com: “Uau! Signore professore dottore Eco, que biblioteca o senhor tem! Quantos desses livros o senhor já leu?”, e os outros — uma minoria muito pequena — que entendem que uma biblioteca particular não é um apêndice para elevar o próprio ego, e sim uma ferramenta de pesquisa. Livros lidos são muito menos valiosos que os não lidos. A biblioteca deve conter tanto das coisas que você não sabe quanto seus recursos financeiros, taxas hipotecárias e o atualmente restrito mercado de imóveis lhe permitam colocar nela. Você acumulará mais conhecimento e mais livros à medida que for envelhecendo, e o número crescente de livros não lidos nas prateleiras olhará para você ameaçadoramente. Na verdade, quanto mais você souber, maiores serão as pilhas de livros não lidos. Vamos chamar essa coleção de livros não lidos de antibiblioteca.

Usamos o trecho em questão como ponto de partida porque obedecemos (isto é, este editor, especificamente, obedece) a uma lógica semelhante. Afinal, não consigo atender à ideia de comprar apenas o que tenho certeza de que lerei – ou ao menos no curto e médio prazos.

Inclusive, isso tende a trazer problemas, uma vez que podemos entender o ato de comprar livros como estressante a partir de dois (ou três) vieses:

  1. Financeiro: bom, comprar – livros ou qualquer outra coisa – custa dinheiro. Se seu dinheiro é finito, como acreditamos que seja, é preciso fazer escolhas.
  2. Espacial: livros demandam capacidade de armazenamento e, a partir do momento que você não a tem, qualquer aquisição se torna estressante. Se seu espaço também é finito, como também acreditamos que seja, é preciso fazer mais escolhas.
  3. Metafísico (bônus!): se você compra um livro e não o lê, sua consciência pode arder ao cruzar o olhar com uma lombada nunca aberta, um plástico nunca removido, e assim por diante. Pode haver um rebote dos outros dois problemas: se não li, por que diabos gastei dinheiro e espaço?

Minha lógica de compra e acúmulo de livros é mais ou menos a seguinte: ajo ao mesmo tempo como um olheiro e diretor de clube de futebol, se livros fossem jogadores, se o tamanho do elenco não fosse um problema e, por fim, se jogadores não envelhecessem nem fossem únicos (isto é, se houvesse toda uma tiragem de Haalands no mundo e tanto o clube Eu como o clube Você pudéssemos ter um ou vários Haalands e Mbappés no elenco).

Essa explicação certamente não ajuda muito, a não ser uma óptica bastante específica e talvez deturpada de funcionamento de mundo. Mas o ponto é – não, pera lá, os pontos são:

  1. Expandir constantemente a lista de “livros de interesse”, isto é, aqueles que pretendo [acredito que vou] ler algum dia.
  2. Monitorar preços (listas em Amazon, Estante Virtual e sebos específicos, basicamente).
  3. Comprar diante de preços abaixo da média ou oportunidades raras (edições antigas que, se esgotarem, já era, ou ao menos vão encarecer a ponto de inviabilizar).
  4. Furar a fila diante de grandes descobertas ou urgências de interesse (“isso eu preciso ler agora”).

Em suma, se em algum momento sei (ou acredito com alguma convicção) que vou ler X, mas neste momento X se encontra em um ótimo preço (ou parece realmente próximo de esgotar, afinal a quantidade de Haalands, mesmo maior que no futebol, ainda é finita), compro sem dó. Nem que leve anos para eu abri-lo – já passei da fase de dor na consciência. Aqui não tem metafísica alguma.

  • Um exemplo recente: comprei Heat 2, de Michael Mann e Meg Gardiner, continuação do filme que tanto adoro. Quando vou ler? Sei lá, mas o preço em algum momento diminuiu e sei que eventualmente vou ler.
  • Sob a mesma lógica, não hesitei nem por um segundo quando encontrei, ano passado, NA LIXEIRA DA GARAGEM, a coleção COMPLETA (50 volumes!), capa dura, de Imortais da Literatura Universal da Abril Cultural. Precisei reorganizar a estante, mas não tenho dúvidas de que valeu a pena. Se até o momento li 10% deles, pouco importa. A assimetria é muito favorável – trata-se de clássicos, afinal, então tenho o efeito Lindy a meu favor –, principalmente levando em conta o custo zero.
No lixo! No lixo!!!

Vejamos as constatações de nossos amigos:

Qual é a sua lógica para comprar livros? (Aliás, físicos ou digitais?)

Marceli: Em geral, vou pela autoria (quero ler alguém e aí procuro a obra que seja mais representativa) e, em alguns casos, pela editora (por exemplo, confio na linha editorial da Todavia porque costumo gostar de tudo que leio deles, aí compro mesmo que desconheça o autor); mas também acontece de seguir indicações de amigos (normalmente, as situações em que furo a fila, a depender de quão efusiva seja a recomendação ou de quanto eu confie na pessoa). É comum também ler o livro baixado no Kindle e mesmo assim querer ter a cópia física e comprá-la depois (também posso comprar um livro principalmente porque ele é bonito, ou tem uma capa bonita).

Bolívar: Acho importante diferenciar as motivações para comprar e para ler. O que mais me motiva a ler um livro é quando pessoas de grupos diferentes de amigos me recomendam o mesmo título. É quase um sistema: se um livro marca três pontos, então é porque preciso ler. Já para comprar, acho que a principal motivação é conhecer o(a) autor(a) e querer fortalecer a iniciativa. Ocasiões especialíssimas são os livros desses dois universos se encontrando.

(via Stable Diffusion)

Listas, ordem, progressão linear

Assim, adentramos em outro tópico: como organizar a ordem de leitura? Do lado de cá, essa lógica é bem mais variável, uma vez que está sempre sujeita a descobertas acidentais. É como jazz, exceto por não envolver técnica ou talento. Em cima de um tema, vario conforme acidentes do dia a dia (ter lido, escutado ou assistido alguma coisa que despertou interesse em outro assunto), então viro a chave completamente, num processo helicoidal que eventualmente volta ao ponto de onde partiu.

Isso acontece organicamente. Um exemplo real: entre idas e vindas, Hong Kong é por si só um tema de interesse. Procurei narrativas que se passam lá, vasculhei e comprei – gradativamente, não ao mesmo tempo – tantos livros relacionados. Li alguns, abandonei outros, não abri os demais. Recentemente, me interessei de novo pelo tema e comecei Tai-Pan (1967), de James Clavell (por sinal, fantástico). Daqui a pouco, naturalmente, por cansaço ou pelo despertar/relembrar de algum outro tópico, o interesse retorna para “Guerra Fria”, “detetives dos anos 1940”, “ficção científica”, “Brasil colonial” etc., e assim a roda vai girando.

Nesse aspecto, nossa lógica e a de nossos amigos parece convergir:

Você tem uma ordem de leitura predefinida? (O que te faz furar a fila?)

Marceli: Tenho sempre uma pilha de livros que pretendo ler, mas não tenho muito sistema com eles – pode acontecer de ele ficar ali na estante por anos e pegá-lo aleatoriamente pra ler (ou, menos aleatoriamente e mais por uma vibe inexplicável, tipo sentir que chegou a hora de ler tal coisa). Mas se tem um lançamento legal ou se eu comprei algo, é comum furar a fila e mesmo pausar algo que eu esteja lendo pra passar o outro na frente. Acho que, nos últimos anos, engajar num livro e não ter vontade de olhar o celular é tão raro que, quando acontece, eu me emociono muito e quero aproveitar a onda. E também rola de eu começar a ler algum autor e empolgar e emendar dois ou três outros livros dele.

Bolívar: A vida acadêmica faz a gente se embrenhar em leituras muito mais por obrigação do que por liberdade de escolha. Tenho uma lista ancestral de livros no GoodReads que gostaria de ler algum dia, mas que nunca volto pra consultar. No geral, o que acontece é receber alguma recomendação e já, sem pensar muito, começar a leitura. Tenho alguns autores de interesse também cujos livros vou deixando no radar para começar quando sobrar tempo. Ou quando a vergonha na cara atingir níveis muito altos. Em resumo, é um sistema bastante volátil, aleatório e pouco previsível.

Largar ou não?

Abandonar um livro traz uma culpa moral, uma sensação de farsa. A presunção “o problema só pode ser eu” banhada na estranha sacralidade da palavra escrita ou da consagração do(a) autor(a). Além da dúvida: se abandonei um livro de 500 páginas na centésima delas, posso dizer que eu o li? Vaidade de vaidades!2

Pois livros devem ser abandonados sem dó. O famoso “cagar ou sair da moita”. Não vale se arrastar. Nunca. Isto é, a partir de uma tentativa honesta – e apenas o leitor, em sua prática, saberá discernir o que é uma tentativa honesta. Só no segundo semestre, abandonei A Identidade Bourne (Robert Ludlum); Kowloon Tong (Paul Theroux); Da Rússia, Com Amor (Ian Fleming); e O Alfaiate do Panamá (John le Carré). Somente o último trouxe algum peso na consciência, por gostar do autor e por não ter considerado o romance propriamente ruim, apenas desinteressante para mim, no momento, diante de outro problema seríssimo, e na verdade ponto nevrálgico do abandono de livros: nosso tempo é escasso.

A vida é muito curta para não gostar dos livros que se lê, uma vez que há um universo gigantesco (na prática, infinito) de opções que nos tragam prazer (nem que um prazer desconfortável, angustiante, mas que, enfim, valide a atividade da leitura). Simplesmente não vale a pena. (Inclusive, se eu não tivesse decidido largar sem dó alguns dos romances mencionados, não teria iniciado Tai-Pan a tempo de levá-lo para uma viagem de 18 dias, o que literalmente faria minha vida pior).

Tenho certeza de que li Stanley Kubrick defender o abandono veloz de livros que não cativaram o leitor. Acredito com alguma convicção que essa fala consta no Conversas com Kubrick (que não abandonei), de Michel Ciment, mas, ironicamente, não o tenho em mãos, porque este ficou na casa dos meus pais desde que saí de lá, há uns bons anos, a fim de poupar espaço.3

Curiosamente, nossa amiga Marceli Burocrata não concorda com essa lógica: “nunca desgosto a ponto de querer abandonar de vez; sempre dou chance até o final mesmo que seja para falar mal depois”. Marceli está errada. Não se deve dar chances até o final: é preciso falar mal do livro antes. Inclusive, em alguns casos, antes mesmo de abrir! Quem dera eu nunca tivesse lido [dois terços de] Da Rússia, Com Amor

Já Bolívar, que abandonou Graça Infinita, afirma que precisa “começar a abandonar mais livros para ver se algum padrão pode ser detectado”, portanto sua resposta não ajudou em nada. Brincadeira. Ambas as respostas foram mais complexas que o recorte sujo da mídia enclávica:

Quão persistente você é diante de um livro que não te agrada? (O que te leva a abandonar um livro?)

Marceli: Em geral, é quando outro livro fura a fila mesmo; mas procuro voltar e terminar, não gosto muito de deixar livro abandonado (e acho que tem a questão também de eu sempre pegar livros que me interessam pra ler, aí nunca desgosto a ponto de querer abandonar de vez, sempre dou chance até o final mesmo que seja para falar mal depois).

Bolívar: Não sinto como se eu tivesse um “gatilho” ou coisa do tipo que me faça desistir de livros. Quando acontece é por uma convergência de motivos. Por exemplo, comecei a ler Graça Infinita, o tijolão do D.F.W. em 2015 e está lá parado na página 200 até hoje. A sensação foi que eu estava começando uma leitura para a qual não estava preparado. A mesma coisa com O Pêndulo de Foucault, do Eco. Teve outros casos, mas não lembro agora. Preciso começar a abandonar mais livros para ver se algum padrão pode ser detectado.

Essas foram as nossas considerações sobre comprar, acumular e abandonar livros. Entre galhofas e modelos mentais possivelmente replicáveis, também queremos saber a sua opinião, principalmente se você for um metódica compulsivo, uma acumuladora caótica ou um absoluto desapegado.

Retornamos em dezembro!

(via Stable Diffusion)

 

 

Baú: Carlo M. Cipolla

Extraído da edição 120 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.


Não é surpresa que as pessoas vulneráveis […] não reconheçam o quanto pessoas estúpidas são perigosas. Essa falha é apenas uma expressão de sua vulnerabilidade. O fato realmente impressionante, entretanto, é que pessoas inteligentes e bandidos também costumam não reconhecer o poder de causar danos inerente à estupidez. É extremamente difícil explicar por que isso acontece, e é possível apenas observar que, quando confrontados com indivíduos estúpidos, pessoas inteligentes, assim como bandidos, costumam cometer o erro de se permitirem ter sentimentos de complacência e desdém, em vez de secretar quantidades adequadas de adrenalina e erguer defesas imediatamente.

Fica-se tentado a acreditar que um homem estúpido só vai causar mal a si mesmo, mas isso é confundir estupidez com vulnerabilidade. De vez em quando, alguém pode cair na tentação de se associar a um indivíduo estúpido para utilizá-lo em seus próprios esquemas. Tal manobra só pode ter efeitos desastrosos, porque a) ela se baseia em uma incompreensão absoluta da natureza essencial da estupidez e b) dá à pessoa estúpida um escopo aumentado para o exercício de seus dons. É possível ter esperanças de tirar proveito do estúpido, e, até certo ponto, é realmente possível fazer isso. Mas devido ao comportamento instável do estúpido, não se pode prever todas as suas ações e reações, e em pouco tempo a pessoa vai ser pulverizada pelos movimentos imprevisíveis do parceiro e estúpido.

Isso fica claramente resumido na Quarta Lei Fundamental, que afirma que:

“Pessoas não estúpidas sempre subestimam o poder de causar danos dos indivíduos estúpidos. Em particular, pessoas não estúpidas se esquecem constantemente de que em todo momento e lugar, e sob qualquer circunstância, lidar e/ou se associar com pessoas estúpidas resulta infalivelmente em um erro altamente custoso”.

Ao longo dos séculos e milênios, tanto na vida pública quanto na vida privada, inúmeros indivíduos deixaram de levar em conta a Quarta Lei Fundamental, e essa falha acarretou perdas incalculáveis para a humanidade.

Carlo M. Cipolla, As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, 1976 (Ed. Planeta, 2020).

João Gilberto era um vampiro sugador de almas?

Extraído da edição 119 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.


(via DALL-E)

— Então… Quer dizer que você quer se encontrar com João Gilberto?
— É.
— Pois tome cuidado — avisa Menescal.
— Por quê?
— João é perigoso. Tem alguma coisa de sombrio. Ele muda as pessoas com quem tem contato. Capaz de mudar você também.
— Como assim?
— De repente, é capaz de você se tornar um amaldiçoado para todo o sempre.

Faz anos que este humilde editor quer escrever sobre Ho-ba-la-lá – não a música, mas o livro do alemão Mark Fischer (não confundir com Mark Fisher, aquele). Por um motivo ou outro, isso nunca aconteceu, isto é, até agora, quando o universo me forneceu sinais suficientes para retomar o assunto.

Estava em um aniversário (de um grande colaborador do Jornal, inclusive, e que justamente por isso terá sua identidade e credibilidade preservadas), quando me dei conta de que toda a roda, movida por um espírito de esquema de pirâmide (iniciada por mim; o mérito é meu), havia lido Ho-ba-la-lá, um livro esgotado e fora de circulação, portanto caríssimo (apenas quatro edições, preço mínimo R$ 230 na Estante Virtual) e [portanto de novo] obtido apenas por métodos não legais, porém gratuitos1. Ho-ba-la-lá certamente não foi uma bomba, ao menos não em Curitiba, então havia alguma relação de causa e efeito ali.

Pois bem, a premissa do livro é muito simples: Mark Fischer, um alemão, quer porque quer encontrar João Gilberto, o brasileiro, e ouvi-lo tocar ‘Ho-ba-la-lá’, a música. Apenas isso. Porém, qualquer cidadão deste país minimamente cônscio da mitologia nacional sabe que encontrar João nunca foi tarefa fácil ao longo da vida deste gênio. Fischer sabia disso.

Para que encontrar um homem que, evidentemente, não deseja ser encontrado? Para que fazer contato com quem não quer contato nenhum?

Razão nº 1: Porque João Gilberto é um enigma. Porque não está claro o que o instiga, ou se alguma coisa ainda o instiga em seu quarto de hotel — ou onde quer que ele more no momento. Porque circulam histórias estranhas a seu respeito, e não se sabe quais são verdadeiras e quais são estapafúrdias, fantasiosas, inventadas:

Dizem que toca violão o tempo todo, sempre as mesmas canções.

Dizem que conversa com gatos.

Dizem que fala com os mortos.

Dizem que uiva para a lua.

Dizem que, mesmo com os parentes, ele só se comunica por intermédio de bilhetes que lhe são passados por debaixo da porta.

Dizem que, em resumo, ele não se comunica.

Dizem que pratica uma religião estranha.

Dizem que odeia tanto as pessoas que não consegue suportá-las.

Dizem que ama tanto as pessoas que não consegue suportá-las.

Para abordar o problema, Fischer tomou a melhor solução criativa possível. Pois antes de mais nada, o gênero do livro, em sua essência, é um romance policial. Tem o formato, a estrutura, o cheiro. Estruturado em primeira pessoa, tem até um Watson, “que na verdade não se chama Watson coisa nenhuma, e aliás não é homem. Trata-se da minha fiel companheira Rachel, o cão rastreador mais rápido do mundo e a intérprete mais habilitada do Rio de Janeiro, porque, claro, não falo uma palavra de português. É uma judia líbano-brasileira com um diabo tatuado na panturrilha; pesa duas vezes mais que eu, prefere mulheres a homens e desde o primeiro instante eu soube: aí está meu Watson”.

Fischer, que leva a tarefa muito a sério (alemães…) sem se levar muito a sério (cariocas!), oferece-nos uma narrativa deliciosa, extraordinária, entrevistando figuras como João Donato, Miúcha, Marcos Valle, Roberto Menescal e outros indivíduos menos conhecidos, mas ainda mais marcantes. A conversa com o garçom Garrincha – já publicada na Enclave, tal qual o trecho que abre este texto – é surreal e sintetiza a complexidade de tentar decifrar o indecifrável:

Começo de imediato com meu interrogatório:

— Garrincha, por quanto tempo você foi o cozinheiro preferido de João [Gilberto]?

— Pouco mais de cinco anos, mais ou menos.

(…)

— E como era quando João ligava?

— Sempre a mesma coisa. Onze da noite, no Plataforma, o telefone tocava, e João dizia: “Boa noite, Garrincha”. E eu: “Boa noite, João”. Ele: “Como vai, Garrincha?”. “Tudo bem, João.” “E como vai sua esposa, Garrincha?” “Bem também, João.” “E as crianças, como estão?” “Todas bem, João.” “Adriana sarou?” “Sarou, sim. A gripe já passou.” “O que tem hoje no cardápio, Garrincha?” “Acabamos de receber peixe fresco, João. Um bacalhau maravilhoso, servido com legumes e arroz. É muito bom, acabei de experimentar, comi ainda agorinha.” “E o que mais tem, Garrincha?” “O de sempre, João: picanha, churrasco, costelinha, lombo de porco, costeleta de cordeiro, atum, perca, lagosta, peixe-espada.” “O peixe-espada está bom, Garrincha?” “Está excelente, João. Vou mandar grelhar e temperar com uma nova mistura que acabei de inventar. Você vai adorar.” “Vou querer o steak, Garrincha.” “Está bem, João.” Então, entre meia-noite e uma da manhã, o mesmo entregador levava quase sempre o mesmo prato para ele. Deixava o pedido no chão, diante da porta. E, no dia seguinte, a cena toda se repetia.

— Quanto tempo durava a conversa ao telefone?

— Uns quarenta minutos.

— E assim foi durante cinco anos?

— Assim foi durante cinco anos.

— Você nunca viu João pessoalmente?

— Não, nunca vi.

— O entregador chegou a ver ele?

— Só uma sombra, ou a mão que surgia de detrás da porta para, rapidinho, estender o dinheiro. Às vezes, ele já deixava um envelope com o dinheiro no chão.

— Mas isso é piração, Garrincha.

— Isso é João Gilberto, meu senhor.

(via DALL-E)

Portanto, há situações e personagens um tanto absurdas, e a leitura do autor é sempre apurada – como, de fato, a de um detetive noir. O trecho abaixo parece extraído de Raymond Chandler ou do Vício Inerente de Pynchon:

Watson veste uma blusa vermelha bem decotada e traz brincos enormes nas orelhas. Parece uma Mata Hari mais avantajada. Eu a trouxe comigo e sugeri o estilo sexy porque, depois de um minuto ao telefone com Otávio, logo vi que seu inglês não era suficiente para ser compreendido e que ele era o tipo de sujeito que, com homens, fala pouco, mas, diante de uma mulher, não para de falar.

E, caso a presença de Watson não bastasse, eu tinha trazido algo mais, uma arma secreta: o baseado que João Donato me dera e que eu, em razão do inesperado progresso das investigações, ainda não conseguira fumar. Ele seguia guardado no meu maço de cigarros — a salvo, sequinho e muito eficaz.

Independentemente da direção, Mark Fischer parece se deparar com uma conclusão comum: João Gilberto é uma espécie de vampiro, um ser de outra dimensão capaz de alterar a consciência (e a lucidez) daqueles que convivem com ele. Trata-se de um padrão: ninguém – quase ninguém – passa ileso, como alertaria Menescal.

O que traz um elemento extremamente doloroso, mas ainda mais complexo para Ho-ba-la-lá: Fischer se matou pouco antes do lançamento do livro.

Pois é.

Respostas que trazem perguntas, dúvidas que trazem indagações2. Sua morte é um paratexto assustador da obra, o que – numa leitura completamente irresponsável, favor não levar a sério – parece salientar a tese do autor. Assim como Fischer, numa tarefa hercúlea e impossível, queria entender João Gilberto, queria eu entender Mark Fischer. Agradecê-lo e abraçá-lo antes de mais nada.

Ho-ba-la-lá é extraordinário, obra-prima mesmo, porque consegue contar uma história envolvente no melhor formato possível para desenvolvê-la. Mais do que isso, é extraordinário por ser muito, muito pessoal. Nada cativa mais que uma tarefa quixotesca, incapaz de ser justificada para além de uma coceira individual e (via de regra) ilógica. Não é preciso conhecer ou gostar de João Gilberto para ser puxado por esse vórtice.

Com todas as suas particularidades, o livro também é o caso típico de obra que não só não perde por partir de uma mente estrangeira, como provavelmente só poderia ter sido escrito por um estrangeiro. O olhar externo intrinsecamente permite rupturas e permissões inalcançáveis àqueles que vivem dentro do contexto retratado.

Se Mark Fischer encontrou João Gilberto?

Leia Ho-ba-la-lá.

Baú: James Cameron vs. H. R. Giger

Extraído da edição 119 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.


Contexto: “Considerando a reação extremamente positiva a seu incrível trabalho, premiado com o Oscar, no filme anterior, pouco surpreende a ‘decepção’ de H. R. Giger por não ter sido contatado quando teve início a produção de Aliens, o segundo episódio do que ainda é uma das franquias mais bem-sucedidas da história do cinema. O célebre artista suíço que concebeu o lindamente horrendo alienígena no final da década de 1970 expressou seu desagrado e, através de seu agente, Leslie Barany, escreveu ao diretor da sequência, James Cameron. Três meses depois, Cameron explicou sua decisão nesta carta fascinante e extraordinariamente honesta.”

Prezado sr. Barany:

Lamento que a intensa pressão para concluir “ALIENS” não me permitiu responder a carta de 3/11/86 que o senhor escreveu em nome de seu cliente, sr. H. R. Giger.

Nessa carta, o senhor menciona a “decepção inicial” do sr. Giger por não ter sido contatado a propósito de “ALIENS”, o que é muito compreensível, já que ele é o autor das criaturas e dos cenários. Ironicamente, foi a produção de “ALIEN”, com sua bizarra paisagem psicossexual do subconsciente criada pelo sr. Giger, que despertou meu interesse pelo projeto de uma sequência.

No entanto, tendo sido diretor de arte antes de me tornar diretor, achei que tinha de colocar minha marca no projeto. Só assim o projeto faria sentido àquela altura de minha carreira, quando eu já tinha algumas ideias e criações originais que podia levar adiante com idêntica recompensa financeira e com maior liberdade como autor.

Achei que criar uma sequência pode ser um exercício incômodo em termos de equilibrar impulsos criativos, a vontade de criar algo inteiramente novo e a necessidade de seguir o original. A marca visual do sr. Giger em “ALIEN” (e que muito contribuiu para o sucesso do filme) é tão forte e onipresente que tive medo de ser esmagado por ele e seu trabalho, se o incluíssemos numa produção da qual ele tinha mais direito de participar do que eu, de certo modo.

A 20th Century Fox gostou da história que apresentei e por isso me deu a oportunidade de criar o mundo que imaginei ao escrever. Aproveitei essa oportunidade e para a criação de efeitos especiais chamei desenhistas, escultores e técnicos com os quais eu já havia trabalhado, o que é muito natural, quando há necessidade de cumprir prazo e ater-se ao orçamento.

Outro fator de minha decisão foi o conflitante envolvimento do sr. Giger em “POLTERGEIST II”, que infelizmente não utilizou suas ideias tão bem como “ALIEN”.

Digo tudo isso para me explicar e me desculpar, com a esperança de que o sr. Giger considere a possibilidade de me perdoar por lhe abduzir seu “primogênito”. Se assim for, poderá surgir uma oportunidade de participarmos com respeito mútuo de um projeto inteiramente novo e original em que a única limitação seja sua esplêndida imaginação.

Sou, antes de tudo e sempre, fã de seu trabalho (uma litografia assinada do ovo alienígena encomendado por ocasião de “ALIEN” é um de meus bens mais preciosos).

Cordialmente,

James Cameron, 1987 (Cartas Extraordinárias. Org.: Shaun Usher. Trad.: Hildegard Fest, Companhias das Letras, 2013).

Tudo é sample – principalmente o sample

Extraído da edição 117 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.


Stable Diffusion.

Qual música toca no lobby da sua mente?

Na limitada e esvaziada cabeça deste editor, uma música – entre tantas outras – costuma ser especialmente acionada no estado padrão da cognição. Sem esforço, sem tentativa, sem direcionamento.

Muito provavelmente, fui apresentado a ela por meio do filme Lost Highway (Estrada Perdida, 1997), de David Lynch1. A quem já assistiu, ela toca naquela cena. A quem não assistiu, sugiro ir diretamente ao filme e ignorar o vídeo abaixo — que sequer é um notável spoiler, mas estraga o encantamento do primeiro contato. (Não ajuda que, neste momento, o filme não esteja disponível em nenhum serviço de streaming.)

De todo modo, a composição a que me refiro é ‘Something wicked this way comes’ (“algo sinistro vem nessa direção”), do inglês Barry Adamson (ouça melhor aqui ou no player mais abaixo). Já no título, trata-se de uma colagem de Macbeth, também usada por Ray Bradbury:

2nd Witch:

By the pricking of my thumbs,

Something wicked this way comes. [Knocking]

Open locks,

Whoever knocks!

[Enter Macbeth]

Macbeth:

How now, you secret, black, and midnight hags!

What is’t you do?

E neste mundo onde tudo é colagem (ou remix2), o “algo perverso” de Adamson é composto primordialmente de samples. Vamos a outra colagem, agora menos shakespeariana (eufemismo para “tiramos do ChatGPT”):

Um sample musical refere-se a um trecho de áudio retirado de uma gravação existente e incorporado em uma nova composição musical. Esses trechos podem ser retirados de qualquer fonte sonora, como músicas, discursos, filmes, sons ambientes e qualquer outra forma de registro de áudio. A prática de utilizar samples é bastante comum na produção musical contemporânea e tem sido uma parte essencial da cultura da música eletrônica, hip-hop, rap e outros gêneros.

A partir da técnica de sample, um trecho tão curto repetido, esticado ou dobrado se soma a outros trechos nada relacionados e, juntos, eles compõem a base de outro terreno. Ou, como resumiu Elvis Costello, “você pega os pedaços quebrados de outra emoção e faz um brinquedo novo”.

O exercício que faremos hoje poderia ser testado com uma infinidade de músicas. Poderia valer verdadeiras teses com discos como Endtroducing (DJ Shadow, 1996), Since I Left You (The Avalanches, 2000) ou Donuts (J Dilla, 2006), se é que essas teses já não existem. Enfim, há exemplos mais expressivos, que não apagam a beleza que dissecaremos aqui3.

Pois bem, sobre ‘Something wicked this way comes’. Há algo de hipnótico nessa joia, o que certamente chamou a atenção meditativa de Lynch a ponto de convencê-lo a inseri-la em seu filme (e de conquistar meu cérebro pouco perspicaz). A composição é direta: logo no primeiro segundo, conhecemos o loop da batida que nos acompanhará ao longo da jornada de quatro minutos e meio.

Segundo o Who Sampled, bíblia para esse tipo de atividade, a música de Barry Adamson contém quatro samples reconhecíveis, na seguinte ordem de aparição (clique nos títulos para ouvir):

A base de ‘Something wicked’ é, claramente, ‘Spooky’, de Gary Walker (um dos Walker Brothers). Basta ouvir ambas para testemunhar – evitaremos a redundância da explicação. Se cultivássemos a ideia ingênua e tola de fidelidade artística, poderíamos ser levados a crer que Barry Adamson copiou (num mau sentido) uma música original alheia. E quem sabe até desmerecêssemos essa reutilização, embora bastante incrementada a seu modo.

Porém, se nos atentarmos a ‘Spooky’, perceberemos (ou descobriremos) que se trata de um cover: a versão original (ou inicial…) pertence ao grupo Classics IV. Então concluiremos, talvez com menos julgamento, que Gary Walker & the Rain também são copiadores!

A brincadeira não se encerra aqui. O vocal onírico de ‘Something wicked’ (tcha-ra-ra-ra…) pertence à francesa Françoise Hardy, em ‘Le temps des souvenirs’, que, quem diria, adaptou a seu modo – afrancesando e enchendo de charme – a música ‘Just call and I’ll be there’, de P. J. Proby (1964). Outra copiadora! Mas só se pode copiar a quem se ama

Por fim, na primeira pausa de ‘Something wicked’ (1min11s), antes de o loop recomeçar, escutamos um trecho de ‘Blue lines’, do Massive Attack (1991). O grupo de Bristol não nos decepcionaria (jamais), uma vez que sua música contém dois samples gritantes: ‘Sneakin’ in the back’, de Tom Scott & The L.A. Express (1974); e a guitarra de ‘Rock Creek Park’, dos Blackbyrds (1975). Pior: se destrincharmos cada uma das músicas citadas, chegaremos em outro enorme jardim de veredas que se bifurcam. ‘Sneakin’ in the back’, por exemplo, já foi sampleada nada menos que 251 vezes – incluindo em ‘Capítulo 4, Versículo 3’, dos Racionais MC’s.

E assim retornamos a ‘Something wicked this way comes’, agora cônscios de sua arquitetura múltipla, hipertextual. Misturando um pouco de Gary Walker, Jack McDuff, Françoise Hardy e Massive Attack, nasce um novo filho – misterioso, inebriante, ativo.

Para criar a trilha sonora do lobby da minha mente, Barry Adamson recortou peças e as juntou a seu gosto. Não fez nada de novo (“Then again, who does?”) e, ao mesmo tempo, tudo que fez foi novo. Não existe criação pura no tecido recursivo da criatividade.

Baú: Vladimir Nabokov

Extraído da edição 117 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.


Confesso que não acredito no tempo. Gosto de dobrar meu tapete mágico depois do uso, de forma a sobrepor uma parte do padrão sobre outra. As visitas que tropecem. E o maior prazer da intemporalidade – numa paisagem escolhida ao acaso – é quando paro entre borboletas raras e as plantas de que se alimentam. Isso é êxtase, e por trás do êxtase há algo mais, que é difícil de explicar. É como um vácuo momentâneo para dentro do qual corre tudo quanto amo. Uma sensação de unicidade com sol e pedra. Um arrepio de gratidão a quem possa interessar – ao gênero contrapontista do destino humano ou aos fantasmas ternos agradando um mortal de sorte.

Vladimir Nabokov. Fala, Memória, 1967 (trad. José Rubens Siqueira; Alfaguara, 2014).

Deu green! Ganância, dopamina, Dostoiévski, operação Penalidade Máxima

Extraído da edição 116 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Prompt: “Cassino medieval mas futurístico onde um homem russo aposta a vida na roleta (representado por Botticelli)” — DALL-E.

“Por mais ridículo que seja eu ter esperado obter tantas coisas na roleta, me parece ainda mais ridícula a opinião rotineira, aceita por todos, de que é tolice e absurdo esperar alguma coisa do jogo. E por que o jogo é pior do que qualquer outro meio de ganhar dinheiro, por exemplo, digamos, o comércio? É verdade que, de cem que jogam, só um ganha. Mas o que é que eu tenho a ver com isso?”

Não faz muito tempo que algo mudou na nossa relação com os esportes.

Casas de apostas conquistaram terreno na internet, então dominaram os espaços publicitários, depois os estádios de futebol, depois os uniformes. Compraram licenças de campeonatos. Palavras (esses sintomas infalíveis) emergiram: bet, green, odds. Com os atalhos tecnológicos de que dispomos, tornou-se estupidamente fácil apostar. Surgiram apostadores profissionais, grupos, consultorias – tudo muito normalizado (afinal já vemos nas taças, nos estádios, nos uniformes…).

Agora, para surpresa de provavelmente ninguém, descobrimos que as apostas também se apossaram de alguns atletas. Não atletas de várzea, sem contrato ou qualquer tipo de rede de proteção. Atletas de elite, jogadores de primeira divisão. A operação Penalidade Máxima tem se encarregado de investigar – e ainda estamos no começo do fio.

Sobre a febre

Apostas não são nem de longe uma invenção contemporânea. Ao contrário: foram necessários milênios até que alguém se dispusesse a teorizar sobre esse ato tão intrínseco à diversão humana, capaz de preceder até a escrita. Estamos falando de uma das atividades mais antigas da nossa espécie.

Antes de morrer [em 1576], Gerolamo Cardamo queimou 170 manuscritos não publicados. As pessoas que vasculharam suas posses encontraram 111 textos sobreviventes. Um deles, escrito décadas antes e aparentemente revisado muitas vezes, era um tratado em 32 capítulos curtos. Intitulado O livro dos jogos de azar, foi o primeiro na história a tratar da teoria da aleatoriedade. As pessoas já apostavam e lidavam com outras incertezas havia milhares de anos.

(…)

Para qualquer pessoa interessada em apostar nos tempos de Cardano, todas as cidades eram Las Vegas. Em toda parte eram feitas apostas – jogos de cartas, dados, gamão e até mesmo xadrez. (…) Assim, fazendo sua entrada no mundo das apostas, Cardano passou a jogar os jogos governados pelo puro acaso. Em pouco tempo, já tinha economizado mais de mil coroas para pagar seus estudos – mais do que ganharia em uma década com o estipêndio desejado por seu pai. Em 1520, matriculou-se como estudante em Pavia. Pouco depois, começou a escrever sua teoria das apostas.¹

Fiódor Dostoiévski era viciado em roleta. E embora perder R$ 60 numa aposta sobre número de escanteios num Avaí x Londrina não faça de nenhum de nós um Dostoiévski, é interessante pensar que a mente capaz de produzir Os Irmãos Karamázov carregou vícios semelhantes aos de, bom, quem assiste a (e perde dinheiro com) um Avaí x Londrina. Somos todos humanos, portanto escorregamos.

O gênio russo era tão enroscado com as apostas que, famosamente, escreveu O Jogador (1867) em menos de um mês para sanar – entre vários outros problemas financeiros – dívidas de jogo.

Para obter o dinheiro de que precisava com urgência, Dostoiévski assinou um contrato draconiano em que se comprometia a entregar um romance, com um número determinado de páginas, até o dia de 10 de novembro de 1866. Caso contrário, os direitos de todos os seus livros posteriores passariam ao editor por nove anos. Para piorar, todo o dinheiro que recebeu ao assinar esse contrato acabou perdido, logo depois, justamente numa viagem alemã de Wiesbaden, famosa por seus cassinos.²

Em primeira pessoa, O Jogador acompanha Alexei Ivanovich, tutor apaixonado que logo se vê, previsivelmente, enroscado com o cassino. O romance ficou mais famoso por este paratexto do que por seu conteúdo, mas se sustenta com as próprias pernas (e, bom, sofre por existir entre Crime e Castigo [1866] e O Idiota [1869]).

De Dostoiévski ao primo que vive em função de cartões amarelos na segunda divisão finlandesa, por que apostar é tão divertido? Duas explicações nos satisfazem:

Pesquisas com macacos descobriram que não é realmente o prazer que estimula a liberação de dopamina, mas a incerteza da recompensa. Quanto mais incerta a recompensa, mais dopamina é liberada em antecipação. Supõe-se que isso explique o vício em jogos de azar, e agora é de conhecimento geral que os feeds de mídia social foram criados com base nesse conceito.

(…)

Um artigo de 2016 que examina as causas estruturais do problema do jogo observa que: “… a participação em jogos de azar também é uma resposta à experiência de ser marginalizado. Para esses grupos, o jogo representa uma das poucas ações que eles podem tomar para lidar com a falta de oportunidades e liberdades que experimentam

Na visão deste humilde editor, o segundo parágrafo não poderia encaixar mais com o brasileiro – que, não por acaso, lidera com folga o ranking mundial de acessos a sites de apostas. Via de regra, somos um povo de fodidos sem oportunidade [eu e você, muito provavelmente, somos exceções]. Como não se empolgar com a possibilidade de conseguir um atalho em meio a uma selva de atrasos?⁴

Complementando o viés desse argumento:

Vindo de uma cidade que tinha mais casas de apostas do que livros (para roubar uma frase do falecido Nick Tosches) e onde as oportunidades de progressão eram tão cinzentas e imutáveis como o horizonte, apostar representava uma forma de um trabalhador ganhar alguma coisa com a sua inteligência, instintos e finesse, em vez de apenas com a força dos seus braços e a durabilidade das suas costas.⁵

Se a loteria é “um imposto sobre as pessoas ruins em matemática”, como definia Ambrose Bierce (1911), as apostas parecem fornecer uma recompensa – dopaminérgica – para a esperteza. E quem é que não se considera mais esperto que a média?

Prompt: “Um Dostoiévski furioso apostando num cassino colorido (representado por Jans van Eyck)” — DALL-E.

Algumas odds

Em uma ponta, observamos cidadãos viciados – isto é, clinicamente, sem margem de dúvida – arruinando a própria vida com apostas. Eles sempre estiveram entre nós, é claro. Porém, a facilidade de entrar na brincadeira, a miríade de opções (de sites, de modalidades, de variáveis dentro de um mesmo jogo), o encurtamento do intervalo entre estímulo e resposta: tudo isso tem transformado a aposta esportiva na “nova oxicodona”.

Em outra ponta, profissionais que já vivem o sonho, com anos à frente para fazerem o que amam, na curva ascendente da vida, tornam-se engrenagens desse casamento nefasto (mas intenso, cheio de paixão…) entre dopamina e esperteza. O primeiro grupo parece mais compreensível – ou já nos acostumamos com exemplos de autodestruição –, mas e o segundo?

Sobre arriscar tudo por muito pouco

Nos surpreendemos com jogadores de futebol de elite envolvendo-se com apostas tão trambiqueiras – não por uma questão ética, mas financeira. Afinal, estamos habituados com “pilantragem, estelionato ou apenas uma inocente carraspana” em nossa cultura quilingue, porém assusta saber que algum indivíduo com salário de três dígitos possa pôr tudo a perder por uma recompensa proporcionalmente tão baixa.

Por que um atleta se submete ao risco de arruinar a própria carreira, perder qualquer credibilidade, dever para criminosos – em caso de insucesso do acordo, por incompetência individual ou por algum infortúnio da partida –, trair os próprios companheiros e comprometer a instituição que paga seu salário (provavelmente, o maior de sua vida)? Vamos confabular por aqui, sem qualquer critério ou metodologia.

É famoso um discurso em que John Bogle, fundador do Vanguard Group (maior gestora de fundos de investimento do mundo), relembra um diálogo entre Kurt Vonnegut e Joseph Heller:

Numa festa oferecida por um bilionário em Shelter Island, o falecido Kurt Vonnegut informa a seu amigo, o escritor Joseph Heller, que o anfitrião, um gestor de fundos de investimento, ganhou mais dinheiro num único dia do que Heller ganhou com o seu popular romance Ardil-22 durante toda a sua história. Heller responde: “Sim, mas eu tenho algo que ele nunca terá… O suficiente”.

Morgan Housel⁶ resgata o discurso de Bogle como gancho para duas histórias de ruína: a de Rajat Gupta e a de Bernie Madoff. O primeiro, multimilionário após uma carreira como CEO na McKinsey – e já aposentado, com cargos na ONU e no Fórum Econômico Mundial, fazendo filantropia com Bill Gates –, jogou tudo no lixo ao se utilizar de informações privilegiadas para comprar ações do Goldman Sachs (que ele, justamente por conta dessas informações, sabia que logo estourariam). Terminou preso.

O segundo, talvez o maior trambiqueiro da história, realmente dispensa apresentações. Mas vale o registro de que, antes de comandar o maior esquema de pirâmide do planeta, Madoff já era extremamente bem-sucedido (de forma legítima, sem qualquer asterisco).

Warren Buffett, talvez o sujeito mais entediante do Ocidente inteiro (e, justamente por isso, um dos mais sábios), sintetizou: “nada justifica arriscar algo que você já tem e do qual precisa por algo que você não tem e do qual não precisa”. Estamos falando de multimilionários – letrados, calejados, espertos – que fizeram o extremo oposto.

A partir disso, bifurcamos o raciocínio:

  1. A ganância é um vício que o dinheiro não necessariamente cura.
  2. Se um multimilionário é capaz de arriscar décadas de trabalho e reputação por muito pouco, por que um atleta sem formação, instrução ou assessoria (sentido amplo), ainda embalado pela tolice da juventude, provavelmente sustentando meia ou uma dúzia de familiares, não faria algo parecido – por uma recompensa até proporcionalmente maior?
    1. Ademais, se pensarmos em elencos de 30 jogadores, são 600 atletas na Série A nacional. Quantos foram sondados e receberam propostas? Quantos recusaram? Esse número dificilmente será estimável. O ponto é que, de todo modo, não serão 600 os irresponsáveis, e um número de 10% (60), embora chocante, ainda é uma minoria restrita. (Lembrando que estamos falando da divisão de elite. O absurdo é exponencial – não há nada chocante em projetar acordos espúrios em jogos de série D, por exemplo, pois o contexto do atleta, muito mais próximo do chão de fábrica do que do Neymar, é completamente diferente).
    2. Me pergunto do fundo do coração se a maioria desses jogadores sabe que é rica. No sentido de ter noção concreta de que, se ele recebe R$ 50 mil por mês (e um atleta de primeira divisão tende a receber muito mais), isso já o coloca no topo do topo do topo do país, em que pese a não linearidade (e a brevidade) de sua carreira. Afinal, para alguém criado com muito pouco, talvez R$ 50 mil seja só um número alto – que muitas vezes precisa ser usado, não guardado, seja por compensação psicológica, seja por falta de instrução, seja por penduricalhos humanos que agora o cercam como abutres.

Com esses pontos, longe de defender a postura dos jogadores – que, acima de tudo, cometeram uma estupidez sem tamanho e provavelmente jogarão suas carreiras já curtas no lixo –, procuro tentar compreender suas motivações. Muitas vezes, elas nem são tão complexas (as nossas são?). Cada um de nós guarda uma interseção nebulosa entre o ético, o prático e o moral, tudo isso temperado com (i)legalidade.

Afinal, digamos que você tenha a chance de ser recompensado por fazer algo ilegal, mas esse ato ilegal prejudique apenas, hm…, o Detran (talvez você faça mesmo sem a recompensa). Agora digamos que este mesmo ato ilegal prejudique de alguma forma seus melhores amigos. Obviamente, você encararia a oferta de outra forma. (E se prejudicar os colegas de trabalho? E se prejudicar os colegas de trabalho, mas você odeia seus colegas de trabalho? And so it goes).

Enfim, são apenas hipóteses para testar o raciocínio. Longe de almejar um raciocínio inédito, o ponto é: pessoas fazem merda o tempo todo. Acontece. Eu, você, Bernie Madoff e o lateral Pedrinho temos gatilhos e motivações duvidosas; não necessariamente racionais, não necessariamente razoáveis. Alguns testes de força com indivíduos distintos em ambientes diversos gerarão resultados improváveis, curiosos – nos quais nem um adicto supersticioso teria arriscado seu dinheiro.


¹ Mlodinow, Leonard. O Andar do Bêbado, 2008. Zahar (2018).

² Dostoiévski, Fiódor. O Jogador, 1867, Penguin-Companhia (2017). Apresentação e tradução de Rubens Figueiredo. A citação que abre este texto também pertence à edição (p. 30).

³ Meadows, Jesse. Dopamine: The Self-Improvement Mythos Of Our Age. Sluggish, 2023. Destaques nossos. Sobre o segundo ponto, é impressionante a relação com esta outra pesquisa aqui, que relaciona como, contraintuitivamente, fumantes pobres se importam menos com o aumento do preço do cigarro. “Mas a maioria dos participantes (de ambos os sexos, especialmente os mais velhos, os desempregados e os que moram sozinhos) também afirmou que o cigarro preenche um vazio em sua vida cotidiana: Eles fumam porque não têm mais nada para fazer, porque é a única atividade de lazer que podem pagar (paradoxalmente, alguns fumantes acreditam que economizam dinheiro fumando); por outro lado, lembraram que costumavam fumar menos quando tinham um emprego; eles também fumam porque se sentem solitários, para compensar um rompimento emocional ou uma demissão, ou para aliviar os sintomas de abstinência depois de parar de usar ‘drogas pesadas’. Em outras palavras, muitos fumantes entrevistados consideravam que fumar era ‘tudo o que lhes restava.” Esta e outras traduções do texto partiram do Deepl.

⁴ Vale lembrar que “Nas décadas de 1930 e 1940, o Brasil viveu a era de ouro dos cassinos. No auge, funcionavam mais de 70 casas de apostas no país — do Rio, capital da República, à minúscula São Lourenço, no sul de Minas. Nos salões, homens de terno e mulheres de longo apostavam dinheiro nas roletas e nas cartas de baralho. O fervilhante negócio dos cassinos ruiu repentinamente. Em 30 de abril de 1946, três meses depois de assumir a Presidência da República, o general Eurico Gaspar Dutra pegou o país de surpresa e, com um decreto-lei, ordenou o fim dos jogos de azar”. Fonte: Agência Senado.

⁵ Bevan, Thomas J. On Gambling. The Commonplace, 2020.

⁶ Housel, Morgan. A Psicologia Financeira, 2020. HarperCollins (2021). Capítulo 3: “Nada é o suficiente”.

Baú: Hermann Hesse

Extraído da edição 116 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.


E nesse ponto abrasou-me de repente como aguda chama a revelação definitiva: todo homem tinha uma “missão”, mas ninguém podia escolher a sua, delimitá-la ou administrá-la a seu prazer. Era errôneo querer novos deuses, era completamente errôneo querer dar algo ao mundo. Para o homem consciente só havia um dever: procurar-se a si mesmo, afirmar-se em si mesmo e seguir sempre adiante o seu próprio caminho, sem se preocupar com o fim a que possa conduzi-lo. Tal descoberta comoveu-me profundamente e foi para mim como o fruto daquela vivência. Muitas vezes havia brincado com imagens do futuro e havia entressonhado os destinos que estavam reservados a mim, como poeta talvez ou talvez como profeta, como pintor, ou de que modo fosse. E tudo isso era um equívoco. Eu não existia para fazer versos, para rezar ou para pintar. Nem eu nem nenhum homem existíamos para isso. Tudo era secundário. O verdadeiro ofício de cada um era apenas chegar até si mesmo. Depois, podia acabar poeta ou louco, profeta ou criminoso. Isso já não era coisa sua, e além de tudo, em última instância, carecia de todo alcance. Sua missão era encontrar seu próprio destino, e não qualquer um, e vivê-lo inteiramente até o fim. Tudo o mais era ficar a meio caminho, era retroceder para refugiar-se no ideal da coletividade, era adaptação e medo da própria individualidade interior. Essa nova imagem ergueu-se claramente diante de mim, terrível e sagrada, mil vezes vislumbrada, talvez já expressa alguma vez, mas somente agora vivida. Eu era um impulso da natureza, um impulso em direção ao incerto, talvez do novo, talvez do nada, e minha função era apenas deixar que esse impulso atuasse, nascido das profundezas primordiais, sentir em mim sua vontade e fazê-lo meu por completo. Isto e mais nada!

Hermann Hesse, Demian, 1919 (ed. Record, 2022, trad. Ivo Barroso, p. 145).

Swing de amor nesse planeta: os trinta anos da maior banda brasileira

Extraído da edição 115 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

por Marceli Mengarda, a Burocrata — publicado na edição de abril do Jornal RelevO, com diagramação especial (de Marceli Mengarda, a Burocrata).

Tem uma teoria sobre a popularidade do reggae em São Luís, capital do Maranhão e considerada por muitos a “Jamaica brasileira”, segundo a qual o ritmo emplacou especialmente nas periferias após chegar aos dials ludovicenses pelas ondas de rádio AM de estações caribenhas, que percorrem distâncias bem mais longas que a FM. Se foi isso mesmo ou se na verdade algum marinheiro só largou um vinil do Bob Marley ali no porto, pouco importa. Este texto é sobre o Skank, então uma imagem envolvendo reggae, rádios e situações em que ninguém apostaria serve bem demais para ser desperdiçada.

Se você tinha ouvidos funcionais e um aparelho de rádio nos anos 1990, é absolutamente impossível não ter ouvido a voz do psicólogo Samuel Rosa de Alvarenga em algum momento. O Skank é talvez a banda que chegou mais perto da unanimidade em território brasileiro e, enquanto comemora trinta anos do lançamento de seu primeiro disco, está fazendo uma turnê de despedida dos palcos. Antes de nos perdermos pensando em por que todas as coisas boas sempre têm um fim, cabe um exercício afetivo de elencar, com razões aleatórias e mais ou menos cronológicas, por que esta coisa (a banda Skank) é tão boa.

De início, bem, é uma banda mineira: Samuel Rosa, Henrique Portugal, Lelo Zaneti e Haroldo Ferretti estavam todos em Belo Horizonte, o que já desperta a maior das simpatias. Impossível imaginar o pessoal comendo um espaguete no Bolão, em Santa Tereza, e não ser tomado por uma vontade de chegar junto, pedir uma dose de cachaça e perguntar se o Lô Borges não vai aparecer por lá nessa noite. A banda surgiu em 1991, mas o primeiro disco, Skank, saiu só em 1993. A ideia era trazer referências do dancehall jamaicano ao pop brasileiro, e o CD foi lançado e distribuído, no início, de maneira independente. Começou a fazer tanto sucesso que chamou atenção da gravadora Sony Music e o que se seguiu foi contrato, relançamento, tudo oficializado e nos conformes. Neste disco, tem uma versão de ‘I want you’, do Bob Dylan, com uma batida dub e uma letra muito bonita falando em realejos ancestrais e dândis de paletó chinês, que ficou melhor que a original – o prêmio para quem é ousado a ponto de unir os Bobs e colocar um pouco de Marley no Dylan. O som desse primeiro disco é cru e bastante regueiro, mas as letras estão vários níveis acima do que se ouve em música reggae normalmente: não há uma menção sequer à cor verde ou à planta que nasce da terra, e talvez esse seja exatamente o caminho. Emplacar uma banda cujo nome é uma variedade de maconha e não precisar mais tocar nesse assunto.

Em 1994, veio o Calango: uma capa com tipografia inegavelmente noventista e um pé ainda no dancehall, mas um pé que dança com muito mais desenvoltura, misturando com mais elegância as referências musicais (um dos melhores exemplos é juntar o tema do Peter Gunn a ‘É proibido fumar’, por sinal mais uma música que fala de maconha sem precisar falar de maconha). Discaço. Tem ‘O beijo e a reza’, que manda um “o sol na nuca e o corpo dela ofusca a luz do sol”, algo que o Milton Nascimento diria se tivesse escrito um reggae dub. Tem uma variedade musical mineira, o calango (han, han), que é recuperada em ‘A cerca’: o estilo é uma espécie de desafio verbal, um repente entre caipiras, mas musicalmente também vai até Recife, beija Chico Science e volta a Minas Gerais pelo Grande Sertão. No fim do disco, tem uma ‘Let ‘em in’ incidental em ‘Pacato Cidadão’ que já dá uma pista dos rumos McCartneyanos pelos quais a banda ia enveredar mais pra frente.

Calango tinha vendido um milhão de cópias e o Brasil todo dançava e cantava os hits dos mineiros, mas ainda não havia resposta para uma dúvida muito importante, que era a questão de a bola na trave alterar ou não o placar. Aí, em 1996, veio O samba poconé, começando com uma das dobradinhas de riff de guitarra + hey mais conhecidas da música brasileira em ‘É uma partida de futebol’, para responder: não, bola na trave não altera o placar. O disco de 1996 vendeu dois milhões de cópias e encapsula a Fase Seios do Skank: tanto na capa do disco quanto no videoclipe de ‘Garota nacional’, o mamilo feminino foi libertado sem reservas e sem incorrer em cancelamentos (sequer pelo revisionismo, o que é curioso). ‘Garota nacional’ foi a música mais tocada nas rádios brasileiras em 1994, liderou as paradas espanholas (!) por três meses e foi a única brasileira escolhida pela Sony Music para uma coletânea de comemoração do centenário da gravadora. A batida alegre e funky, aliada a um refrão chicletíssimo, é indefectível e explica o alcance inimaginável da canção – uma anedota bastante pessoal que ajuda a colocar as coisas em escala é a forte lembrança dessa música começando a tocar no som mecânico da festa de quinze anos de minha irmã mais velha, num salão de igreja de uma cidade do interior de Santa Catarina, e a emoção que tomou conta de todos os adolescentes noventistas lá presentes. Hoje, se você olhar em um serviço de streaming como o Spotify, vai ver que ‘Garota nacional’ tem menos da metade dos plays de ‘Sutilmente’, por exemplo, então entendemos o quão difícil é explicar esse tipo de coisa à juventude streamer, mas aconteceu demais.

Um videoclipe pra lá de seios.

Há quem, depois de fazer muito sucesso, não sabe direito o que fazer com isso e perde oportunidades, abandona a chance de alçar voos ainda mais altos e fica no patamar onde está (ou, pior, tropeça e cai). O Skank sempre bancou o sucesso de forma aparentemente muito tranquila e segura. O Samba Poconé já teve mixagem em um estúdio de Nova Iorque e parceria com Michael Fossenkemper (que divide os créditos por ‘Tão seu’), além de três músicas com feat de Manu Chao e uma viagem completa pela América, do funk norte-americano à já tradicional mistura caribenha ao pop-rock latinoamericano que estava quebrando tudo. Enquanto o trabalho e as parcerias se profissionalizavam cada vez mais, o produto permanecia acessível – pop fino, bem trabalhado e que respeita o ouvinte. Poucas bandas conseguem manter esse equilíbrio com essa consistência, e os três primeiros do Skank consolidaram tanto a proposta quanto o conceito. Acertadamente, em 2018 a banda lançou uma série de EPs ao vivo chamada Os três primeiros – com mais músicas dos dois últimos, como deve ser. Tática esperta, defendida por teóricos sérios da música e corroborada por aqui, que poderia ser aplicada até a um Black Sabbath da vida (mas, aí, contando os quatro primeiros).

Em 1998, no Siderado, a batida dub já é um eco distante, mas há grooves finíssimos e verdadeiras joias do ar soprado por entre tubos de metal, como ‘Saideira’, a música que encerra o disco (e que, depois, ganhou um cover de Carlos Santana). A cota de música de festinha é atendida com glórias por ‘Mandrake e os cubanos’ – canção que ensaiou um revival nos convescotes de jovens descolados no fim dos anos 2010, sendo interrompida abruptamente pelas restrições pandêmicas –, parceria de Samuel Rosa com Chico Amaral, saxofonista que divide a composição de tantas outras canções. Outra parceria que está ali e vai frutificar ainda mais nos anos seguintes é a de Nando Reis, que presenteou o Skank com ‘Resposta’, uma das mais lindas letras de término do cancioneiro popular, feita para Marisa Monte – a despeito de os Titãs todos ficarem de cara, porque a música fez um sucesso danado. Às vésperas do novo milênio, em 2000, Maquinarama vem para completar a transição do som que passou a ter referências cada vez mais britpop beatlemaníacas – anunciadas, de alguma maneira, com aquela parte do desejo e o destino brigando como irmãos em ‘Três lados’, um claro aceno ao Oasis que só não vê quem não quer. Sem brincadeira, essa letra: “somos dois contra a parede / e tudo tem três lados / e a noite arremessará outros dados”. Né. ‘Balada do amor inabalável’ completa a cota de música que tocou em novela – outra das bem-sucedidas táticas de distribuição da banda, que emplacou 23 músicas em trilhas sonoras de telenovela, oito delas só em Malhação. ‘Canção noturna’, quase o que seria uma saga de Castañeda mas com mais romance e num deserto um pouco mais andino, é outra das excelentes composições do disco (aliás, descobrindo agora: um dervixe é um tipo de monge muçulmano, seja lá o que isso signifique. A gente também acredita em tanta coisa que não vale nada).

O carinho da torcida com o cover guitarrado de ‘Saideira’

O disco Skank (ao vivo), gravado em Ouro Preto em 2001, conseguiu outro feito admirável: ‘Acima do Sol’, uma música ainda inédita (e que não foi lançada em nenhum outro disco posteriormente), alcançou o topo das paradas, porque o pessoal estava querendo diversificar essa coisa de topo das paradas para ganhar também de modos menos convencionais. Nesse disco, tem ainda ‘Estare prendido en tus dedos’, uma versão em espanhol de uma música do The Police, mais uma generosidade da banda em fazer um cover melhor que o original, seguida por um novo arranjo para ‘Tanto (I want you)’ bem menos dub que a do primeiro disco. O novo milênio chegou e muitas coisas estavam mudando com o advento da tecnologia e essas frases feitas para falar dos impactos da internet que se popularizava e da telefonia celular se imiscuindo sorrateiramente em nossos bolsos e em nossas vidas. O Skank conseguiu fazer uma boa leitura da conjuntura toda, talvez também por estar numa transição sonora muito particular e específica – e, claro, respaldados pela consistência de uma carreira de dez anos sendo honestos e, para usar uma expressão contemporânea, entregando tudo.

Um cruzeirense absolutamente transtornado na vitória do cabuloso sobre o Huracán. Sai daí, Samuel, é perigoso!

Cosmotron, de 2003, foi uma espécie de divisor de águas. Ricardo Alexandre, no livro Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar, de 2006, tem um capítulo dedicado às relações dos mineiros com os fãs, outros músicos e a imprensa musical brasileira. Uma reunião da banda com os executivos da gigante Sony durante a mixagem do Cosmotron fecha o capítulo e é ilustrativa dessa natureza muito particular do Skank. Por ter chegado na gravadora já com um disco independente que vendeu muito bem, e por ter somado a ele dois discos que venderam bizentos milhões de cópias, a banda pôde ocupar uma posição muito mais independente do que se acredita possível nesses contratos. Assim, enquanto o pessoal ouvia o disco, os integrantes defendiam (com ‘simpatia e cordialidade’, segundo Alexandre) que o primeiro single do disco, antes do inegável single ‘Vou deixar’, deveria ser ‘Dois rios’. Funcionou: a música mais pianera-Paul-McCartney – uma das músicas mais bonitas de todos os tempos, inclusive –, foi lançada como o primeiro single, fazendo muito sucesso, e logo depois deixaram que ‘Vou deixar’ chegasse varrendo o Brasil numa catarse que só os grandes hits enérgicos para cantar a plenos pulmões são capazes de suscitar.

‘Vou deixar’ inaugura também uma categoria muito específica de Efeito Mandela, que é o de estar nas lembranças de todo mundo tendo sido a trilha sonora de formaturas que aconteceram antes mesmo de seu lançamento. Apesar de ter tocado à exaustão, perigando enjoar todo mundo com tamanho alto-astral, é engraçado que ela só tenha surgido só no sétimo disco da banda, já que é um dos momentos mais enérgicos das apresentações ao vivo da banda. Outra questão importante sobre o Skank: há muitas bandas que entregam uma boa performance ao vivo, animando o mar de gente que se posiciona ali e espera pular, levantar os braços e dar uns gritos em algum momento. Há muitas bandas que entregam composições complexas, letras que te fazem refletir mas que não necessariamente te fariam pular. Uma coisa não tem que, necessariamente, pressupor a outra: dá pra pular com uma letra que diga apenas “vamo pular” e dá para sentar e ouvir as mais poéticas do Milton Nascimento sem que essas experiências sejam diminuídas. Mas, quando uma banda junta as duas coisas, é preciso reconhecer o quanto isso é especial. Não por acaso, o pessoal do fã-clube – um produto extremamente noventista, assim como a rádio FM – estará lá, em quantos últimos-shows-da-última-turnê houver.

Em 2004, veio Radiola, uma coletânea dos maiores sucessos focada em Maquinarama e Cosmotron, trazendo também ‘Vamos fugir’, versão da maravilhosidade de Gilberto Gil que, segundo consta nas fontes, foi gravada para uma campanha publicitária da Rider (não lembrava, mas então tá). Dois anos depois, foi lançado Carrossel, com hits como ‘Uma canção é pra isso’ e ‘Mil acasos’ e diferentes tentativas de incorporar as novas tecnologias. A melhor de todas talvez tenha sido a banda ganhar, após um sem-número de discos de ouro, o primeiro Celular de Ouro do Brasil, por ter lançado o álbum Carrossel em formato digital em parceria com a Sony Ericsson – o modelo W300 vinha com todas as músicas do disco (lembra quando o U2 fez isso e todo mundo odiou e só queria saber como fazia pra deletar aquele álbum do iTunes?). Na toada tecnológica, teve ainda votação para escolher single de disco no site da banda (no álbum seguinte, com ‘Sutilmente’) e asseguram eles que ‘Vou deixar’ foi o ringtone com mais downloads no país.

O disco Estandarte, lançado em 2008, trouxe os últimos grandes hits inéditos: ‘Sutilmente’, uma parceria com Nando Reis (e uma música inegavelmente nandorrêica), e ‘Ainda gosto dela’, com participação de Negra Li que, salvo engano, é a primeira contribuição feminina numa gravação deles (esperando ser um engano mesmo; de todo modo, apesar da demora, a escolha foi muitíssimo acertada). Em 2010, veio o Multishow ao vivo, gravado no Mineirão. Foi uma despedida do estádio antes da reforma para a Copa do Mundo, não sem antes Samuel Rosa chamar a Máfia Azul para sacudir o gigante da Pampulha durante ‘É uma partida de futebol’. Essa música, a propósito, já é uma parceria com Nando Reis – reza a lenda que eles se conheceram no Rock Gol MTV, onde o Skank participou uma porção de vezes, consolidando também a posição de banda mais boleira do Brasil. Outro destaque do Ao vivo no Mineirão é a capa do disco, a partir de uma foto real, antiga e lindíssima da inauguração do estádio, em 1965, feita pelo fotógrafo Paulo Albuquerque.

Um trem bonito desses rebenta com nóis tudo.

Em 2011, teve mais um disco ao vivo, agora no Rock in Rio; em 2012 teve um revival do reggae com o Skank 91 e, em 2013, uma compilação dos #1 Hits com 25 canções entre os maiores hits (o famoso ‘só as boas’). Velocia, o disco de 2014, tem um tanto de parcerias com Nando Reis e uma pedrada para tocar fogo em todas as Babilônias com a ajuda de BNegão. Dali até 2019, quando anunciaram um hiato por tempo indeterminado e uma turnê de despedida, teve ainda a supracitada gravação dos três primeiros. Muitas coisas complicadas aconteceram nesse tempo todo e a relação do Skank (e da música pop como um todo) com a rádio FM parece acompanhar essa dinâmica.

Uma busca pelas músicas mais tocadas nas rádios brasileiras a cada década dá uma boa visão do fenômeno. Nos anos 1990, havia um equilíbrio entre os artistas internacionais – um tanto de R&B, um tanto de pop pós-roqueiro – e bandas nacionais de estilos diversos, desde o próprio Skank e os outros mineiros ilustres do Só pra Contrariar ao pop-guitarrado-creuzebeck dos Mamonas Assassinas, com algumas aparições do sertanejo hoje clássico, com duplas como Leandro e Leonardo. Nos anos 2000, o pop seguiu dominando as listas, agora com alguma expressividade de divas pop internacionais e um ensaio do que aconteceria uma década depois no estouro do sertanejo misturado ao pop, com artistas como Michel Teló e Victor e Léo – nessa década, o Skank ainda seguia lá, com músicas como ‘Sutilmente’ e ‘Vou deixar’. De 2010 para a frente, é muito difícil encontrar qualquer música que não tenha menção a cerveja ou motel no título ou que não seja de um cantor com letra duplicada no nome (numerologia, a grande parceira do famoso brasileiro desde sempre); uma dupla usando chapéu e cinto com fivelas exorbitantes sobre calças skinny ou mesmo uma mulher, desde que esteja cantando também sobre litrão e adultério. O agronejo, popnejo ou funknejo (diferentes digievoluções, que requerem alguém mais estudioso do tema para explicar) tomaram de assalto os dials das rádios FM brasileiras, complementando locutores que ficaram cada vez mais confortáveis para falar todo tipo de descalabro e, hoje, têm como única disputa à altura as rádios evangélicas (embora a real salvação seja mesmo a Antena 1, mas isso não vem tanto ao caso agora).

Como acontece com tudo que é bonito e complexo, não dá para afirmar categoricamente se a onda chorumosa que tomou este país é uma causa ou uma consequência de não termos mais hits inéditos do Skank. O que dá para afirmar – e, caso não tenha ficado claro nessa exposição extremamente puxa-saco – é que a banda se despede consolidada com um trabalho que fala por si e a coloca em posição de destaque seja qual for o critério de comparação. Um ponto fora da curva na música popular brasileira (e na música pop brasileira também), elaborado e acessível, com a antropofagia de sons e referências que só o brasileiro é capaz de engendrar. Já sabemos que vai ter um lugar diferente lá depois da saideira; não sabemos se vai ser bom mas, por enquanto, nesta última rodada, vamos brindar ao Skank.

Baú: David Mamet

Extraído da edição 115 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Como você manteve a exposição [dos roteiros] em um nível mínimo?

Essa é a graça. Qualquer um pode escrever um roteiro que tenha “Jim, como foram as coisas desde que você foi eleito governador do Minnesota? Como está sua filha albina?”; “Como é claro que você sabe, Sr. Smith, seu filho tem miopia. É incrível que, tendo essa miopia, ele estivesse ganhando o concurso nacional de ortografia”. Isso é fácil; isso não é um desafio. O truque é pegar uma história que pode ser complexa e tornar simples o suficiente para que as pessoas queiram alcançá-la em vez de detê-las e explicar-lhes por que deveriam estar interessadas – porque assim elas poderiam entender, mas não se importarão. O que deixa as pessoas interessadas é fazê-las alcançar [a história]. O que está acontecendo aqui? Quem é este cara? Que crime foi cometido? Quem foi levado? Por que ela é importante? Por que todas essas pessoas do governo estão correndo por aí? E como ele vai trazê-la de volta? Eles querem ver o que ele vai fazer a seguir. É aquilo a que se resume o cinema: o que acontece a seguir?

David Mamet entrevistado por Fred Topel, Screenwriter’s Monthly (fonte).


O truque é: nunca escreva exposição. Este é absolutamente o truque. Nunca escreva. O público precisa entender qual é a história, e se o herói entender o que procura, então o público irá segui-lo. A antiga piada sobre a exposição costumava estar na escrita de rádio quando diziam: “Venha e sente-se naquela cadeira azul”. Então, para mim, isso é o paradigma de por que é um erro escrever a exposição. Então a exposição saiu da televisão, “Eu sou bom, Jim, eu sou bom. Não admira que me chamem de melhor cirurgião ortopédico da cidade”. Não é mesmo? E agora a exposição migrou ou metastaseou para a porra da direção de palco. “Ele entra na sala e você pode ver que é o tipo de cara que lutou na Guerra do Vietnã”. Portanto, o erro da exposição de escrita existe mesmo sem a mais irrisória compreensão do processo dramático. Você tem que retirar a exposição. O público não se importa. Como sabemos que eles não se importam? Alguém já entrou na sala e viu um drama televisivo que estava na metade? Você teve alguma dificuldade para entender o que estava acontecendo? Não. O truque é deixar a exposição de fora e deixar sempre a “cena obrigatória” de fora. A cena obrigatória é sempre a cena da audição. Então, quando você vê o filme, ela não só é a pior cena – é também aquela com a pior atuação. Porque a estrela tem que fazer sua pior e mais expositiva atuação para conseguir o trabalho. Deixe de fora a exposição; queremos saber o que acontecerá a seguir. Todos os nossos amiguinhos lhe dirão em certo momento: “Você sabe, queremos saber mais sobre ela”. E é quando você diz: “Bom, foi para isso que você me pagou – para que você quisesse saber mais sobre ela”.

David Mamet entrevistado por Jeff Goldsmith, Creative Screenwriting (fonte).

Em defesa de Babilônia

Extraído da edição 114 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Batalhão do RelevO descendo para defender Babylon (2022, frame do filme).

Sábado à tarde, sol e… shopping. O cenário do inferno: poucos contextos são tão desprazerosos e te despertam tanto para os males da sociedade quanto um shopping lotado. Tudo é brega, triste e, principalmente, cheio. Até o estacionamento é caro – e árduo. Todos os olhares compõem antíteses de beleza, uma atrás da outra.

Era a única sessão de Babilônia restante em Curitiba, e eu já chegava à sala parcialmente arrependido. Ademais, sabia que permaneceria mais de três horas naquele lugar, portanto o custo de oportunidade era muito alto (deslocamento + estacionamento + ingresso + desgosto + tempo).

Então Babilônia começou – a primeira das duas vezes em que eu me submeteria àqueles mágicos 189 minutos.


É época de Oscar (acho eu, recebendo gotas do tema após este cair com peso na piscina aberta, respingando nos inocentes ao redor), um dos assuntos mais desinteressantes da civilização. Importar-se com o Oscar é por si só uma postura tão entediante que este enclave sequer procurará argumentar sua posição.

Paralelamente, ou por outro lado, ou de forma contraditória, adoramos virar os olhos para a crítica, esse Leviatã imaterial maníaco-depressivo eternamente atrapalhado pela própria miopia. É divertido, embora angustiante, indignar-se com o louvor a algum produto medíocre, questionar ferramentas (os tomates, os bots, o rabo preso) ou defender ferrenhamente uma injustiça, imaginando-se à frente de seu tempo – sem se levar muito a sério, por favor.

Enfim, tentar compreender os mecanismos de raciocínio que elevam ou repudiam uma obra (seja musical, seja audiovisual, seja gastronômica) é um baita exercício de compreensão da cultura, da sociedade e de comportamentos miméticos.

Também já é senso comum estabelecer a fase melancólica de Hollywood – e, vale registrar, não necessariamente do cinema (injusta sinédoque…) –, escrava de franquias mastodônticas, reciclagens extremas, algoritmos famintos e, queiramos ou não, esterilidade de produções tão politicamente corretas (outro subtópico que não temos interesse em desenvolver).

Pois bem, queremos filmes mais originais, autorais, cujos diretores (simbolicamente) nos estapeiem e proclamem “cala a boca, eu sei o que tô fazendo”. Ao menos dizemos isso em voz alta. Para nossa sorte, recebemos um destes com Babilônia (2022), de Damien Chazelle (Whiplash, La La Land, First Man).

Babilônia é uma pedrada épica cujos vários atos retratam a passagem do cinema mudo para o sonoro, partindo de 1926. O filme tem muito de Era uma vez na América (1984); Boogie Nights (1997); Eyes Wide Shut (1999); A Grande Beleza (2013); O Grande Gatsby (2013); Lobo de Wall Street (2013) e Era uma vez em Hollywood (2019) – e talvez por ter um tanto de tudo, sem recortes, tenha chegado a seus 189 minutos.

  • Era uma vez na América: crescimento de um grupo; música-tema em variações; melancolia do tempo e suas mudanças; longa duração.
  • Boogie Nights: por dentro de uma indústria; ascensão e decadência dos envolvidos nessa indústria; produções e vaidade.
  • Eyes Wide Shut: um dos capítulos, especialmente, é 100% De Olhos Bem Fechados.
  • A Grande Beleza: festa; glamour; decadência; beleza vs. vazio.
  • O Grande Gatsby: período parecido, euforia parecida; Tobey Maguire. Muito superior, Babilônia é o que Baz Luhrmann gostaria de ter feito com seu Gatsby.
  • Lobo de Wall Street: gente rica se drogando; apogeu e queda; euforia.
  • Era uma vez em Hollywood: os filmes por dentro; passado de Hollywood; Margot Robbie e Brad Pitt.

No entanto, Babilônia teve uma recepção crítica… morna, no mínimo. “Polarizada”. Acreditamos que o Leviatã míope se arrependerá dentro de alguns anos, portanto registramos nossa breve defesa (sem spoilers).

  1. O ato inicial do filme, uma festa megalomaníaca (à Grande Beleza), é um pináculo de montagem, edição e figurino sozinho mais interessante que a maioria das produções de grande orçamento a terem saído do papel. Há camadas e camadas e camadas: ao público basta perder-se e admirar a sequência.
  2. A trilha sonora é monumental, praticamente um personagem. Quem assina é Justin Hurwitz, também encarregado da função em Whiplash, La La Land e First Man. Tal entrosamento justifica como Chazelle consegue potencializar o trabalho de seu escudeiro por meio de uma edição, then again, primorosa. A estratégia Morricônica de estabelecer um tema e desenvolvê-lo em variações seguindo o desenvolvimento dos personagens encaixa precisamente com a filme.
    1. Mais sobre a trilha aqui.
  3. Os atores estão voando. Entre os protagonistas, Margot Robbie impressiona no papel de Nellie, a estrela selvagem adentrando um novo universo de glamour, cocaína, sujeira e vaidade. Diego Calva nos cativa como Manny Torres, o imigrante ligeiro. Brad Pitt faz o que sempre fez e, justamente, quando se precisa de um personagem-Brad-Pitt na tela, ele ainda é o mais indicado. Menções honrosas a Jovan Adepo (trompetista Sidney) e Jean Smart, cuja personagem representa, vejam só, a crítica.
    1. Aqui uma relação entre os personagens e suas contrapartes históricas.
  4. Há um desenvolvimento concreto, progressivo e realista dos personagens – o que justifica e faz valer os 189 minutos. Trata-se de épocas diferentes, cenários distintos, mudanças drásticas e desfechos variados: não teria graça pincelar tudo isso. Sob a perspectiva de Manny, Babilônia é praticamente um Bildungsroman. A virada de chave do cinema mudo elevou e derrubou muita gente. Absorvemos isso testemunhando o contexto inicial com calma. Nos situamos, então realmente enxergamos o impacto da mudança. Da mesma forma, a produção não fecha os olhos para a diversidade sociocultural da época e seus respectivos preconceitos. Só não o faz com o didatismo enfadonho com que muitos filmes-massa-amorfa parecem dirigir-se ao Twitter.
  5. Todas as cenas retratando produções cinematográficas – isto é, a dificuldade técnica de gravá-las cem anos atrás, em cenários externos ou internos – são extraordinárias, sem tirar nem por. O silêncio, o improviso, a magia. Esses momentos complementam a conclusão anterior: entendemos a magia, portanto, depois disso, a mudança nos afeta e conseguimos sentir os personagens.
  6. A cena final (novamente, sem spoilers) é um derretimento imperdível; o dedo médio de confiança absoluta do diretor; a autoria em seu êxtase. O fim que merecemos depois de uma jornada divertida, melancólica, megalomaníaca, engraçada, trágica, bela. De chorar. De chorar. Quem se rendeu não esquece.

Convenhamos, nenhum desses argumentos é grande coisa (“show, don’t tell”). Assista ao filme com som alto e coração limpo, depois diga-nos o que achou (por favor!). Três horas não são nada. Por fim, se quiser argumentos ainda piores, saiba que Babilônia foi indicado a três categorias do Oscar. Viva o Oscar!