Hipertexto: adaptando o beco escuro

Extraído da edição 106 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

O americano William Lindsay Gresham publicou O Beco das Ilusões Perdidas em 1946, aos 37 anos. Seu romance de estreia lhe rendeu algum dinheiro – e uma adaptação para o cinema (O Beco das Almas Perdidas) logo no ano seguinte.

A década de 1950 seria um tanto mais volátil. Casado com a poeta Joy Davidman, Gresham a trairia diversas vezes, algumas delas até sóbrio. A gota d’água, quando se envolveu com a prima da esposa, acolhida pelo casal enquanto Joy estava na Inglaterra para visitar ninguém menos que C. S. Lewis, com quem trocava correspondências.

Ela voltaria a Nova York para dar um basta no constrangimento, e, em um cenário ainda mais embaraçoso, os três morariam juntos por um tempo. Então, Joy retornaria em definitivo à Inglaterra – agora com os dois filhos do casal –, e Gresham se casaria com Renée, isto é, a prima dela. Este seria seu quarto e último casamento.

Por sua vez, na Inglaterra, Joy se casaria com C. S. Lewis em 1956, o que parece ter sido uma grande evolução (e um grande alívio) para sua vida. Infelizmente, ela morreria de câncer poucos anos depois, em 1960.

Lewis adotaria seus dois filhos, o que Gresham constatou quando foi visitá-los, após a morte da ex-mulher. Também escreveria A Grief Observed, publicado sob o pseudônimo N.W. Clerk.

Em 1962, depois de descobrir um câncer na língua, um Gresham já sóbrio e bem menos problemático se hospedou em um hotel em Manhattan e se matou com uma overdose de remédios, aos 53 anos.

  • Às vezes acredito que, se tenho algum talento, não é literário, mas um talento puro de sobrevivência. Sobrevivi a três casamentos quebrados, perda dos meus filhos, guerra, tuberculose, marxismo, alcoolismo, neurose e anos de escrita freelance. Sou apenas malvado e teimoso demais para matar, creio eu.[1]

Interessado por espiritualismo (não necessariamente Espiritismo), ilusões, charlatanismo e psicologia social, Gresham trabalhou todos esses temas – mais o alcoolismo – n’O Beco das Ilusões Perdidas, recentemente adaptado para o cinema outra vez, agora pelas mãos de Guillermo del Toro. Hoje, o filme está disponível no Star+.

O Beco do Pesadelo (2021), pois, é um belíssimo filme. Situada no final dos anos 1930 e início dos anos 1940, a narrativa acompanha Stan Carlisle (Bradley Cooper), um jovem esperto com tendências à picaretagem que tenta voar perto demais do Sol ao se envolver com a psiquiatra Lilith Ritter (Cate Blanchett). Eis uma história noir de desgraçamento, território bem conhecido por Gresham.

Curioso, decidi ler O Beco das Ilusões Perdidas (publicado no Brasil pela editora Planeta, 2021) assim que saí do cinema, depois de assistir a Beco do Pesadelo. Ou melhor, no dia seguinte, após confirmar que o filme havia ganhado espaço na minha mente.

Comparando as duas obras – isto é, considerando suas diferentes mídias, mas não a noção tão tola quanto ingênua de “fidelidade” –, fica claro como del Toro potencializou seu texto-fonte para criar beleza.

Nighmare Alley, o filme, é um primor audiovisual (que, no momento, concorre ao Oscar de Melhor Fotografia). Quem recebe esse mérito é o dinamarquês Dan Laustsen, com quem del Toro já havia trabalhado nA Forma da Água (2017).

Sua homenagem à estética noir é explícita, porém a obra vai além do pastiche seguro para trabalhar suas cenas com um encanto estonteante. Há muita chuva, muitas luzes e, principalmente, muita escuridão. A união entre esses elementos, pincelada com carinho em cada frame, potencializa a narrativa.

Nighmare Alley, o livro, é cativante, mas limitado. Outrora chocante, seu impacto já perde força, apesar de a temática permanecer atual, tendo em vista a atemporalidade do charlatanismo (que existirá enquanto o ser humano pisar na Terra).

Obviamente, não podemos exigir que um livro seja um primor audiovisual. Entretanto, podemos sempre debater seu devido nível e compará-lo com sua contraparte de outra mídia. Nesse caso, há uma discrepância entre o romance e o longa-metragem, e o mérito fica com os responsáveis pelo segundo.

Isso porque, em que pese o apelo (e a autenticidade) da narrativa de Gresham, ela é um tanto unidimensional. Seus personagens, caricatos e/ou pouco surpreendentes, perdem espaço em um desenvolvimento cuja previsibilidade não é o maior problema. Voltaremos a esse ponto.

Novamente, não se trata de um romance ruim, ainda mais se ele carrega algum valor 76 anos depois de sua publicação. Porém, creio que Gresham sequer discordaria de uma avaliação mais criteriosa de seu livro, que não se destaca por estilo, enredo ou caracterização.

  • Não tenho ilusões sobre mim como um ‘autor’ – sou um escritor de aluguel que aborda a escrita como um ofício tal qual a marcenaria. Dei muitas aulas sobre a escrita de contos; os alunos provavelmente aprenderam muito pouco, mas eu sempre aprendi muito, ouvindo a mim mesmo falar sobre como a ficção curta deve ser montada.[2]

À época, O Beco das Ilusões Perdidas foi reconhecido pela maneira como trabalhou o vocabulário daquele contexto nem rural nem urbano dos circos itinerantes. O prefácio de Nick Tosches, contido na edição da Planeta, contextualiza esses méritos (que podem se perder na tradução).

Se até o momento tratamos apenas das competências audiovisuais do filme de del Toro, também precisamos registrar – e gostaria de fazê-lo de forma mais elegante, em vez de dizer isso – como uma adaptação pode elevar os méritos e amenizar os aspectos mais fracos de um texto-fonte.

O Beco do Pesadelo faz isso por meio de cortes conscientes, que removem o subenredo de líder religioso do protagonista e não elucidam seu passado. Com menos, faz-se mais. O filme também consegue mostrar os truques de Stan para “ler mentes”, ou seja, sem precisar explicá-los (nas descrições meio técnicas, meio rocambolescas que compõem um ponto baixo do livro).

Depois da limpeza, enfim, o tempero: inserções simbólicas como a do bebê Enoque engrandecem a narrativa, amarrando-a.

Por último, mas não menos importante, Rooney Mara. Ou melhor, sua personagem, Molly, crucial para o enredo. No romance, testemunhamos uma mulher tão frágil quanto estúpida, limitada a suplícios e angústias infantilizados. O longa-metragem enobrece sua vulnerabilidade e, a partir disso, permite um envolvimento muito maior.

Já me estendi demais neste texto, pelo qual devo pedir perdão, não tendo mais tempo de abreviá-lo. Na pior das hipóteses, O Beco do Pesadelo é, literalmente, espetacular. Deve ser visto à noite, no escuro e, se possível, com som alto e tela extensa.

Baú: W. Somerset Maugham

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Êste livro baseia-se nas minhas experiências no Departamento do Serviço Secreto durante a guerra, mas foi modificado com o propósito de ficção. O fato em si constitui tema muito pobre como enrêdo. Geralmente começa por acaso, muito antes do início da história, arrasta-se inconseqüentemente e some-se, deixando traços indecisos sem nenhuma conclusão. Arma uma situação interessante e a deixa no ar para seguir uma direção diferente que nada tem a ver com a história; não se prende a nenhuma ideia de clímax, e desperdiça inconseqüentemente seus efeitos dramáticos. Existe uma escola de novelistas que considera isso como o modêlo perfeito de ficção. Se a vida é arbitrária e irregular a ficção deve sê-lo também, pois ela imita a vida. Na vida as coisas acontecem a êsmo, e assim devem acontecer numa história; elas não conduzem a um clímax – o que é um ultraje à probabilidade –, mas sucedem-se a êsmo. (…)

Escrevi tudo isso para fazer ver ao leitor que êste livro é de ficção, se bem que eu possivelmente não diga muito mais do que vários outros livros publicados sôbre o mesmo assunto nos últimos anos e que se propõem ser memórias legítimas.

O trabalho de um agente do Serviço Secreto é, de um modo geral, extremamente monótono. Grande parte dêle é absolutamente inútil. O material que oferece para histórias é fragmentário e sem interêsse agudo; o autor tem de torná-lo coerente, dramático e provável. (…)

W. Somerset Maugham, prefácio de O Agente Britânico (Ashenden), 1928 (ed. Livraria do Globo, 1946).

Hipertexto: 007 e o Gângster Ciumento

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Lana Turner, Johnny Stompanato e Cheryl Crane (1958)

Aqueles familiarizados com a quadrilogia de Los Angeles do escritor James Ellroy (1948) talvez conheçam o protagonista da nossa história de hoje – e não me refiro ao 007.

Vamos ao contexto: entre a segunda metade da década de 1980 e a primeira de 1990, Ellroy resgatou a literatura policial noir e escreveu quatro romances que se passam em Los Angeles, entre 1946 (Dália Negra) e 1958 (Jazz Branco).

Todos misturam pessoas e casos reais com personagens e resoluções fictícias; aquilo que pessoas normais chamam de ficção histórica; e teóricos pós-modernos, de alguma outra coisa.

  • No Brasil, os quatro foram publicados na Coleção Negra da Record, facilmente encontráveis em sebos. O editor se encontra no terceiro (e a-man-do). Acima de tudo, trata-se de obras com caracterização invejável: amamos acompanhar seus personagens extremamente falhos.
  • Terceiro, por sinal, adaptado no filmaço Los Angeles: Cidade Perdida (1997). No momento, disponível no Prime Video.
  • Quem já jogou L.A. Noire também conhece boa parte desse universo, considerando como o jogo se inspirou na literatura noir e, especificamente, no trabalho de Ellroy.

Pois bem, assim chegamos em Johnny Stompanato, um gângster com nome de caricatura. Stompanato serviu à Marinha Americana no Japão durante a Segunda Guerra, converteu-se ao Islamismo para se casar com uma turca, teve um filho com ela, abandonou ambos e rumou a Los Angeles em 1947. Então viveu, ou melhor, correu por um outro casamento, que durou três meses.

Stompanato se estabeleceria como proprietário de uma humilde loja de cerâmica e esculturas em madeira, mas, sabe-se lá como, manteria um vínculo com o poderoso gângster Mickey Cohen, ex-boxeador baixinho (1,65 m) crescido em meio à máfia judaica de Nova York e estabelecido em Chicago – mas já deslocado para Los Angeles.

A partir desse encontro, Stompanato faria algo mais dinâmico que administrar cerâmica, consolidando-se como braço direito, guarda-costas e matador de aluguel de Cohen, líder do crime local. Ambos são figuras frequentes na quadrilogia de James Ellroy, com grande participação no segundo, O Grande Deserto (1988).

A vida de Johnny Stompanato é cheia de histórias curiosas, bem como a sua morte, isto é, esfaqueado pela enteada de 14 anos, que defendia a própria mãe – ninguém menos que Lana Turner – dos ataques do mafioso.

E como um gângster truculento chegaria a namorar Lana Turner, grande estrela da Era de Ouro de Hollywood(land)? Um misto de sorte (azar), oportunidade e decadência da atriz, que, como podemos imaginar, viveu altos e baixos com o sujeito.

Até o momento, nada do que relatamos chega perto de um James Bond, não é mesmo? Pois bem, em 1957 (portanto, para fins cronológicos, anos antes do primeiro filme de 007), Lana Turner gravava Vítima de uma Paixão (Another Time, Another Place) com Sean Connery na Inglaterra.

Stompanato não gostou da ideia de ver sua namorada contracenando com um grandalhão (1,88 m) escocês, muito menos dos rumores de que eles teriam um affair, e fez aquilo que lhe parecia coerente: voou para a Inglaterra armado e ameaçou o ator dentro do set de filmagem, em Hertfordshire. Não sem antes ligar para Turner e ameaçá-la (e, obviamente, ouvir – e ignorar – apelos para que não causasse nada disso).

Acontece que, além de grandalhão (e escocês), Connery era faixa preta em karatê e tinha história como bodybuilder. Stompanato não teve chance: seu braço armado foi torcido pelo futuro James Bond, que, enquanto neutralizava o risco do tiro, desferiu-lhe um soco suficiente para acabar com a brincadeira ali mesmo. A partir daí, a história virou problema da Scotland Yard, que deportou um gângster humilhado.

  • O desempenho de Connery no embate foi tão supremo que o agente Milton Bolotti, estupefato, logo telefonou à Eon Productions e cravou: “temos o nosso protagonista para os romances de Ian Fleming”. Ok, essa parte a Enclave inventou 100%. Não repassar.

Johnny Stompanato seria assassinado logo no ano seguinte, mas Cheryl Crane – a filha de Turner – acabaria inocentada em um caso escandaloso e tremendamente documentado. Mickey Cohen arcou com os custos do funeral e divulgou cartas de amor trocadas entre Lana Turner e seu escudeiro, tentando melhorar a imagem do morto.

Baú: John le Carré

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Breve história de George Smiley

Quando desposou George Smiley, pouco antes do fim da guerra, Lady Ann Sercomb qualificou-o, ante os seus atônitos amigos de Mayfair, de comovedoramente vulgar. Ao abandoná-lo dois anos depois por um automobilista cubano, ela anunciou enigmaticamente que, se não o tivesse deixado então, jamais poderia tê-lo feito; e o visconde Sawley fez uma visita especial a seu clube para comentar que o gato botara as unhas de fora.

Esse comentário, que durante uma curta temporada foi tomado por um mot, só pôde ser entendido pelos que conheciam Smiley. Baixote, gorducho e de índole tranquila, ele parecia gastar muito dinheiro com roupas de mau gosto, que lhe pendiam em volta da figura atarracada como a pele de um sapo engelhado. Sawley, de fato, declarou no enlace que “Sercomb se uniu a uma rã-touro numa rajada de sudoeste”. E Smiley, sem saber dessa descrição, atravessara gingando a nave lateral da igreja em busca do beijo que o converteria em príncipe.

Era ele rico ou pobre, camponês ou clérigo? De onde ela o fora tirar? A incongruência da união era acentuada pela beleza indiscutível de Lady Ann, o mistério estimulado pela desproporção entre o homem e sua noiva. Mas a bisbilhotice tem de ver suas personagens em branco e preto, atraviá-las de pecado e motivos facilmente transmitidos na estenografia da conversação. E assim, Smiley, sem escola, sem pais, sem regimento nem ofício, sem riqueza nem pobreza, viajou sem rótulos no vagão do condutor do expresso social e logo se transformou em bagagem perdida, destinada, quando o divórcio chegou e foi embora, a permanecer sem dono na prateleira empoeirada das notícias do dia anterior.

John le Carré, O Morto ao Telefone, 1961 (ed. Círculo do Livro, ano desconhecido).

Hipertexto: passeio musical de Concorde

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Há alguns meses, na Enclave #98, fizemos uma digressão a respeito do lançamento de um quarto filme Matrix (que, por sinal – e coincidência –, estreia hoje). Tratamos de “globalização e uma ideia otimista de mundo digital” por meio do músico japonês Towa Tei, mais especificamente na música ‘Technova‘.

Pois bem, achamos ou fomos achados pela globalização otimista absoluta em forma de disco. Refiro-me ao álbum Jet Sounds (2000), do italiano Nicola Conte.

Nele, testemunhamos um europeu fazendo seu acid jazz com influências do mundo inteiro, inclusive – e principalmente – do Brasil. Esse eletrônico suave resgata os anos 1960 (daí a clara influência da bossa nova) e os embebeda em doses eletrônicas de negroni, rusty nail e bloody mary.

Podemos falar em gêneros musicais (acid jazz? Future jazz? Latin jazz? Lounge?), mas é muito mais efetivo tratar de sentimentos.

  • Jet Sounds é uma festa na piscina com gente bronzeada, coquetéis irrestritos, sem celulares e sem fila para qualquer banheiro.
  • Jet Sounds é um clube sofisticado ao qual você não teria acesso na vida real.
  • Jet Sounds é um passeio de Concorde: um sonho encerrado; uma máquina do futuro vivendo no passado. (E adivinha o destino do primeiro voo comercial do Concorde…)
  • Jet Sounds é uma relação tão confusa quanto prazerosa entre espaço e tempo (“chegue antes de partir“).

Próximo dos 30 anos, naturalmente carrego alguma saudade do início dos anos 2000 – até porque, convenhamos, chega de resgatar absolutamente qualquer coisa da década de 1990; está na hora de o passado virar a página.

Esse zeitgeist pré-11 de setembro (de que tratamos na edição 98 e que agora encapsulamos na produção de Nicola Conte) também tem seu apelo por servir como oposto ao sentimento de fronteiras fechadas, desconfiança incessante, polarização política e mal-estar tecnológico com que nos habituamos nos últimos anos, por motivos diversos.

Jet Sounds é a nossa descoberta tardia de 2021 e uma recomendação sólida para o próximo ano. Obrigado por acompanhar a Enclave: nos reencontramos em algumas semanas!


Baú: Vladimir Nabokov

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O leitor irá certamente deplorar que, pouco depois do meu retorno à civilização, eu tenha tido mais um embate com a insanidade (se é que à melancolia e a uma sensação de opressão intolerável cabe de fato aplicar esse termo cruel). E devo minha plena recuperação a uma revelação que tive enquanto me tratava num sanatório particular especialmente dispendioso. Descobri que existia uma fonte inesgotável de intenso entretenimento em zombar dos psiquiatras: fornecer-lhes ardilosas pistas falsas; jamais deixar que percebessem o quanto conhecemos os truques do seu ofício; criar em seu benefício sonhos elaborados, clássicos no estilo (que faziam com que eles, os extorsionários de sonhos, acordassem aos gritos com seus pesadelos); espicaçá-los com “cenas primais” forjadas; e nunca permitir que tivessem o mais ligeiro vislumbre de nossos verdadeiros conflitos sexuais. Subornando uma enfermeira, adquiri acesso a certos arquivos e encontrei, para meu grande regozijo, fichas que me definiam como “potencialmente homossexual” e “totalmente impotente”. A diversão era tamanha, e seus resultados – no meu caso – tão estimulantes que permaneci internado por mais um mês depois de plenamente recuperado (dormindo admiravelmente e comendo como uma escolar). E depois ainda fiquei mais uma semana só pelo prazer do confronto com um poderoso recém-chegado, uma celebridade deslocada (e, sem dúvida, delirante), conhecido por seu talento de fazer os pacientes crerem que tinham testemunhado sua própria concepção.
Vladimir Nabokov, Lolita, 1955 (Alfaguara, 2011).

Hipertexto: quando a ficção científica passa do ponto

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Já tratamos de ficção científica, diretamente ou indiretamente, muitas – várias! – vezes neste enclave. Temos provas.

Resgataremos duas menções específicas, porque elas se unirão.

Recentemente, como boa parte do planeta, assistimos à nova adaptação de Duna, com grande entusiasmo. Relatamos a experiência na Enclave #101. Embalado por isso, este editor deu continuidade à leitura da saga, abrindo o Messias de Duna (1969) – segundo da série – há muito comprado e esquecido na prateleira.

Agora, uma pausa.

Outra de nossas lembranças recentes da ficção científica – gênero que, vale lembrar, adoramos – consiste nas palavras ácidas do sempre azedo (e ébrio) Raymond Chandler, que também adoramos.

Na Enclave #98, graças aos estudos de Bráulio Tavares, descobrimos o escárnio de Chandler em relação à sci-fi. Em uma carta a seu agente literário datada de 1953, o autor criou sua paródia:

Fiz meu checkout com K19 em Adabaran III e atravessei a escotilha de crumalite no meu modelo 22 Sirius Hardtop. Encaixei o timejector em segunda e fui abrindo caminho entre a relva azul de manda. Minha respiração congelou em pretzels cor-de-rosa. Acionei as barras de calor e os Brylls dispararam em cinco pernas usando as outras duas para produzir vibrações de crylon. A pressão era quase insuportável, mas eu detectei a variação no meu computador de pulso através dos cisícitos transparentes. Apertei o gatilho. (…)

Chandler concluiu, incisivo: “Pagam dinheiro vivo por essa porcaria?”.

Agora, de volta a Messias de Duna, de Frank Herbert. Sua missão é difícil, tendo em vista que Duna (1965), o precursor, introduz um universo fascinante, pincelando um futuro interplanetário altamente tecnológico, porém (grosso modo) analógico e feudal. Além disso, o universo contém temáticas de religião, misticismo e substâncias psicotrópicas.

Portanto, muitas peças são necessárias para sustentar essa obra – e não deve ser fácil manter tal equilíbrio, cuja nascente ostenta uma criatividade impressionante. Não é fácil escrever Duna, e não seria fácil escrever Qualquer Coisa de Duna: Herbert desfilou méritos enormes.

Pois bem, na página 110 (ed. Aleph, 2017) de Messias de Duna, lemos o seguinte trecho:

— Eu também trouxe o acessório de pulsossincronização, milorde. — arriscou Korba. Obviamente sentira a tensão cada vez maior entre Paul e Stilgar, e isso o perturbara.

Stilgar balançou a cabeça de um lado para o outro. Pulsossincronização? Por que Paul queria que ele usasse um vibrossistema mnemônico com um projetor de shigafio? Para que procurar dados específicos nas crônicas? Eu trabalho para os Mentats! (…)

Não dá.

Ninguém consegue ser Nabokov o tempo todo, mas… não dá. Stilgar, eu não sei por que Paul queria que você usasse um vibrossistema mnemônico com um projetor de shigafio. Eu também não consigo me importar, Stilgar.

Seja por miopia, seja por pressa, a caricatura e o personagem se encontraram. Eis aí um trecho doloroso, capaz de romper qualquer catarse.

Para ser justo, não é representativo da obra como um todo, embora, a bem da verdade, também não seja tão isolado. De imediato, fez lembrar a patada de Chandler – ele próprio muito mais preocupado com estilo e caracterização.

Já falei que adoramos ficção científica?

Baú: Simone Weil

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É uma falha querermos ser compreendidos antes de termos sido claros com nós mesmos.

(…)

Desejar amizade é uma grande falha. A amizade deveria ser uma alegria gratuita como aquelas fornecidas pela arte ou pela vida. Devemos recusá-la para que sejamos dignos de recebê-la; é da ordem da graça. É uma dessas coisas que são adicionadas a nós. Todo sonho de amizade merece ser estilhaçado. Amizade não deve ser perseguida, não deve ser sonhada, não deve ser desejada; deve ser exercitada (é uma virtude).

(…)

A amizade não pode ser separada da realidade mais do que o belo. É um milagre, como o belo. E o milagre consiste simplesmente no fato de que ele existe.

(…)

Guarde sua solidão… Quando você receber um afeto verdadeiro, não haverá oposição entre solidão interior e amizade, bem o contrário.

Simone Weil, A gravidade e a graça, 1952 (tradução nossa via The Marginalian. Livro conta com uma nova edição da Chão de Feira: O peso e a graça, 2020).

Hipertexto: Espionagem, traição, adaptação

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Selo soviético em homenagem a Kim Philby, o traidor (muito) inglês. [WikiCommons]

1. O livro A Spy Among Friends, de Ben Macintyre, vai se tornar uma minissérie estrelada por Guy Pearce (L.A. Confidential; Memento) e Damian Lewis (Billions; Era uma vez em Hollywood).

2. Nunca publicado no Brasil, A Spy Among Friends é um belo livro. Trata do agente duplo Kim Philby (mais sobre ele logo abaixo) e de sua amizade com Nicholas Elliott. Ambos eram espiões do MI6 durante a Guerra Fria. Portanto, a notícia é animadora.

3. Já usamos um trecho de Agente Zigzag, do mesmo autor, na Enclave #78. Este cobre a história de Eddie Chapman, agente duplo durante a Segunda Guerra Mundial – e foi publicado no Brasil pela Record, em 2010. Chapman era um marginal beberrão e picareta extremamente ativo: todas esses traços o transformaram em um grande espião a serviço dos Aliados, enganando o serviço secreto alemão com consistência. Agente Zigzag também é um baita livro de não ficção.

4. Também já tratamos de outro livro de Macintyre na Enclave: Adam Worth: O Napoleão do Crime, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, em 2000. Worth foi um ladrão absoluto – não só o Napoleão, mas também o Pelé do crime. Brilhante, calculista e incrivelmente não violento, ele estendeu seu portfólio de atividades irregulares a diversos países ainda no século 19, inspirando o prof. Moriarty de Arthur Conan Doyle. Detalhamos a trajetória de Adam Worth em duas partes: 1 e 2. Naturalmente, consideramos O Napoleão do Crime outro ótimo livro.

5. Agora sim, de volta a Kim Philby. A sua história é uma das mais espetaculares do século 20, afinal Philby é um dos maiores traidores da história. Também já a detalhamos neste enclave, mais especificamente na edição #15. Com o perdão do autoplágio:

Nascido na Índia quando essa ainda atendia por Índia britânica, Kim Philby foi um espião dos mais altos rankings da inteligência britânica. Não à toa, ele se tornou cavaleiro ao receber um OBE na década de 1940, com apenas 34 anos.

Servindo ao MI6 por décadas, Philby chegou perto de se tornar o diretor da instituição. Problemas internos o fizeram se demitir do serviço de informações em 1951, quando passava por forte investigação por parte de seus colegas, além do MI5. Somente nos anos 1960, foi confirmada a temerosa suspeita de que Kim Philby havia sido, por todo esse tempo, um agente duplo que servia tanto à KGB quanto ao NKVD.

Por décadas, ele comprometeu colegas, missões e supostos amigos.

6. A trajetória de Philby (e dos “Cambridge Five“) exclama por uma adaptação digna. Se a minissérie anunciada dará conta disso, não sabemos; mas o ânimo é justo. Desde que li A Spy Among Friends, torcia para que alguma produtora endinheirada abraçasse a tarefa.

7. Sobre espiões na Guerra Fria, O Espião Inglês (The Courier) foi finalmente lançado este ano, após uma leva de atrasos por conta da pandemia. Dirigido por Dominic Cooke e estrelado por Benedict Cumberbatch, o filme se ancora na história real de Greville Wynne, empresário-tornado-espião que chegou a ser descoberto – e preso – pela KGB. No momento, está disponível no Prime Video. É um belo filme, ao menos para quem se anima com a temática.

8. Curiosamente, O Espião Inglês é o terceiro filme em que Cumberbatch se envolve com espionagem – que eu me lembre. N’O Jogo de Imitação (2014), no qual interpreta Alan Turing, inclusive, há uma mistureba narrativa com os espiões-traidores de Cambridge, nesse caso envolvendo John Cairncross (“mistureba narrativa” porque, ao contrário do que o filme retrata, a relação de Cairncross com os soviéticos só viria a ser descoberta muito depois da Segunda Guerra).

9. O outro filme? Nada menos que O Espião que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy, 2011), uma beleza contemplativa – ou seja, lenta – adaptada do romance homônimo (1974, publicado no Brasil pela Record, 2012) de John le Carré (1931-2020), uma lenda da narrativa de espionagem. Como se sabe, ele próprio foi um agente do MI5 e do MI6 nas décadas de 1950 e 1960. O Espião que Sabia Demais (tanto filme como livro) aborda a espionagem de maneira muito mais realista, característica típica da obra de le Carré.

10. A carreira de John le Carré na espionagem foi destruída por conta da traição de… Kim Philby. A Spy Among Friends deve estrear no segundo semestre de 2022.


Um fato bônus e perifericamente relacionado: encontrei o livro abaixo, de 1946, capa dura, extremamente conservado, por R$ 22,61. W. Somerset Maugham (1874-1965) também trabalhou no serviço secreto inglês, mas ao longo da Primeira Guerra Mundial. O Agente Britânico (Ashenden: Or the British Agent), parcialmente autobiográfico, foi publicado em 1927.

Baú: Baltasar Gracián

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123. Não ser afetado.
Quanto mais talento, menos afetação. Trata-se de um defeito vulgar, que desmerece e é tão maçante aos outros quanto é incômodo a quem a pratica. Faz-nos sofrer de preocupação, pois é um tormento ter de manter as aparências. As maiores qualidades perdem seu mérito por causa da afetação, pois serão julgadas como sendo fruto do artifício em vez de uma graça natural, e o mais agradável do que o artificial [sic]. Os afetados serão tidos como fatos dos talentos que afetam. Quanto melhor você é em algo, mais deve ocultar seus esforços, de modo que a perfeição pareça a ocorrer naturalmente. Não se deve, tampouco, para fugir da afetação fingir não tê-la. O homem prudente não deve nunca demonstrar mais que conhece os próprios méritos; a displicência desperta a atenção dos outros. Duplamente grande é quem tem todas as qualidades, mas nenhuma em sua própria opinião. Percorre seu próprio caminho até chegar ao aplauso.(…)

136. Ir ao âmago das questões.
Tomar logo pulso dos negócios. Muitos se perdem nas árvores mas não atinam com a floresta, ou põem seus esforços a perder, falando sem parar, argumentando inutilmente, sem atingir o cerne da questão. Dão voltas e mais voltas, cansando a si mesmos e os outros, e nunca chegam ao que importa. Têm entendimento confuso, não sabem como desemaranhar. Desperdiçam tempo e paciência naquilo que deveriam deixar de lado, e depois não há mais tempo para o que deveriam fazer.

(…)

138. Não se intrometer.
Principalmente quanto mais agitadas estiverem as ondas do social ou familiar. O convívio humano tem seus tumultos, suas tempestades de vontade; em tais ocasiões é sensato retirar-se para um porto seguro e deixar as ondas se acalmarem. Os remédios muitas vezes pioram os males. Deixe agir a natureza ali, e a moralidade aqui. O médico experiente sabe quando prescrever ou não o medicamento, e às vezes a sabedoria consiste em não aplicar remédios algum. De vez em quando, dar de ombros é uma boa maneira de debelar tormentas vulgares. Dando agora tempo ao tempo, será vencedor depois. Basta um pouco para turvar as águas de um regato, que não voltará a ficar limpo com tentativas, mas deixando-o em paz. Não há remédio melhor para a confusão do que deixá-la seguir seu curso, terminando assim por si mesma.

 

Baltasar Gracián, A Arte da Prudência, 1647 (Sextante, 2003).

Hipertexto: Duna é o espetáculo que Duna merece

Extraído da edição 101 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Que saudades de ir ao cinema! À minha direita, um sujeito trata o saco de pipoca como se precisasse nocauteá-lo, então a degusta com a ferocidade de um cão a descobrir um novo osso.

À minha esquerda, um bombonière humano com uma relação infinita de chocolates, todos encapsulados em plástico e guardados em outra sacola plástica, na qual é preciso navegar constantemente à procura do próximo doce.

À minha frente, impulsos assassinos controlados, depois distraídos por uma tela gigantesca a anunciar: “Duna, primeira parte“.

Talvez você já tenha cansado de ouvir sobre Duna; talvez lhe falte um último empurrão para ver o filme com os próprios olhos; talvez você não tenha qualquer interesse no assunto. Mas Duna, do franco-canadense Denis Villeneuve, é o principal assunto do cinema hoje, muito por conta da escassez de lançamentos em função da pandemia.

E Duna (1965), o romance de Frank Herbert que lhe serve como base, é um livraço. Enredos, personagens, conceitos: uma miríade de informações parte de Arrakis, o planeta desértico governado pela Casa Atreides, para compor uma verdadeira picadilha galática.

Tecendo a ficção científica com feudalismo, Herbert misturou tecnologia, transcendência e pluralismo cultural de maneira cativante. Não à toa, esse universo, tão grande como amarrado – a criatividade do autor é puramente invejável –, acarretou uma saga de publicações, e estas inspiraram diversas outras franquias.

Com um parâmetro simplificado, podemos dizer que Duna sempre foi o “Star Wars para adultos” (digo isso de maneira não depreciativa). George Lucas certamente bebeu dessa fonte.

Porém, a adaptação de David Lynch, de 1984, é esquisita (digo isso de maneira depreciativa) por vários motivos, alguns dos quais – não todos – fora do controle do diretor (“Meu, ele mistura muito bem essa coisa do inconsciente, abstrato com essa tecnologia estrambólica, polipotética, parafernálica, meu”).

Por sua vez, o Duna de Alejandro Jodorowsky seria o maior, melhor, mais espetacular, mais incrível filme da história, segundo Alejandro Jodorowsky. Contudo, o projeto acabou engavetado, alimentando o mito acerca do título, que seguia à procura de um filme capaz de traduzir sua devida potência.

E assim chegamos ao Duna a que podemos assistir nos cinemas no fim de 2021. Para fazê-lo, por sinal, não li absolutamente nada sobre o filme; nem uma crítica; zero. Acompanhei a produção anos atrás, então procurei me desinteressar para não criar expectativas – mesmo confiando em Villeneuve, ou melhor, “no De“.

Mais que um excelente filme, Duna é uma experiência cinematográfica incrível. Ideal para grudar os olhos em uma tela gigante, ficar meio surdo e esquecer o indivíduo nefasto amassando uma sacola plástica ao seu lado.

Protagonizada por um monte de ator famoso mais um monte de famoso ator, a obra é expositiva o suficiente para dar conta da parcela do romance a que se propõe. Ainda assim, flui bem o bastante para entregar pancadaria, belas cores, belos cenários, belos trajes e um capricho sonoro capaz de tensionar seus músculos na cadeira.

Duna, finalmente, tem um espetáculo digno de Duna – o melhor blockbuster possível diante de seu texto fonte. Nem fãs nem curiosos se decepcionarão. A segunda parte já foi confirmada para 2023.

Baú: Thomas Pynchon

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Em certos dias, ir de carro para Santa Monica era como ter alucinações sem se dar a todo o trabalho de adquirir e depois ingerir uma droga qualquer, embora em certos dias, sem sobra de dúvida, qualquer droga fosse melhor que ir de carro para Santa Monica.

Hoje, depois de uma volta enganosamente ensolarada e monótona pelas propriedades da Companhia Hughes – uma espécie de smörgasbord de zonas de combate americanas em potencial, espécimes de tipos de terrenos que iam de montanhas e desertos a pântanos e florestas e coisa e tal, todos ali, segundo a lógica da paranoia, para servir à regulagem fina de sistemas de radar de combate – passando por Westchester e a Marina até Venice, Doc chegou à via de entrada de Santa Monica, onde começou o seu mais recente exercício mental. De repente ele estava em algum planeta onde o vento pode soprar simultaneamente em duas direções, trazendo neblina do oceano e areia do deserto ao mesmo tempo, obrigando o motorista incauto a reduzir a marcha assim que entrava nessa atmosfera alienígena, com a luz do sol obscurecida, a visibilidade reduzida a meio quarteirão, e todas as cores, inclusive as dos sinais de trânsito, desviadas radicalmente para outro ponto do espectro.

Thomas Pynchon, Vício Inerente, 2009 (Companhia das Letras, trad.
Caetano W. Galindo, 2010).

Editorial: Enclave #100

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Esta é a edição #100 da Enclave, a newsletter que completa, oras, 100 edições.

Começamos em março de 2015 e, desde então, passamos por algumas interrupções, bem como evoluções de formato (quem diria que escrever textos diferentes, semanalmente, tomaria muito tempo). Desde a edição #49, em março de 2020, não paramos.

A Enclave, como um… enclave, localiza-se inteiramente dentro do Jornal RelevO, mas é conduzida por conta própria. Buscamos tornar o RelevO mais presente no cotidiano digital.

Nenhum de nós (isto é, eu, Mateus; e o editor do RelevO, Daniel Zanella) tem o menor interesse, traquejo ou competência para participar da dinâmica de conquista de mercado digital, o que ora dificulta a expansão do RelevO, ora consolida nossa linha discreta de atuação.

Dessa forma, tentamos nos limitar a nosso já limitado círculo de competência. Nosso site é limpo e oferece todas as informações essenciais a quem procurá-las; nossa newsletter é um mero apanhado de observações sobre a estética em geral; nossas redes sociais prezam por não poluir.

Nos últimos anos, depois de muita prática – e de grandes ensinamentos de grandes amigos –, sentimos ter finalmente encontrado uma dinâmica que não nos toma um tempo exagerado (afinal não vivemos disso), não nos traz a sensação de ridículo e, ao mesmo tempo, gera conteúdo suficiente para manter o RelevO vivo para além de sua distribuição física.

Além da Enclave (gratuita), temos a Latitudes (exclusiva para assinantes do RelevO), editada pela jornalista Amanda Andrade, e as circulares mensais do próprio Zanella, enviadas diretamente aos assinantes. Nas redes sociais, fazemos o mínimo possível publicamente, mas estamos sempre lá, respondendo a perguntas e a qualquer coisa que nos enviam.

Reitero que a assinatura do RelevO custa R$ 60 por ano. Não por mês. Por ano. Hoje, pagamos a todos os colaboradores: ilustradores, escritores, diagramador, mídias sociais etc. Se você bobear, o RelevO está te pagando por alguma tarefa.

Não temos nenhum órgão, empresa, concurso, edital, absolutamente nada por trás. Também não temos família rica. Apenas tentamos ser estúpidos de forma séria e, com esse modelo leve, conseguimos sobreviver e, curiosamente, carregar (sentindo na própria pele) a bandeira da profissionalização em um meio tarado pelo favor.

Ainda temos muito a melhorar, mas gostamos do que fazemos e, mais do que isso, continuamos a fazê-lo. Se você já conduziu qualquer projeto de qualquer esfera, sabe como essa é a parte mais difícil.

Hipertexto: Tarantino romancista

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No fim de junho, Quentin Tarantino publicou Era uma vez em Hollywood, novelização de seu filme homônimo (2019).

Assisti a Era uma vez em Hollywood no cinema, o que já parece há uma eternidade, tratando-se de 2019. Lembro de ter gostado, mas com algum estranhamento. A sensação de não saber exatamente o que agradou, o que desagradou; a confusão que requer nada além de tempo para indicar direções.

Passados alguns dias, o filme não saía da minha cabeça. Mas não necessariamente o que acontecia nele, em termos de eventos e movimentos, e sim cenários, transições; Clith (Brad Pitt) dirigindo; Sharon Tate (Margot Robbie) dirigindo.

Isso bastou para abraçar aquele universo – Los Angeles, fevereiro de 1969 – (re)criado por Tarantino com enorme afeto. Quando o livro do diretor foi anunciado, soube que daria uma chance de braços abertos. Principalmente após ouvir Quentin Tarantino falar sobre a própria obra: é difícil não se convencer pela paixão irrestrita com que ele, como uma criança na sorveteria – já cheia de açúcar –, trata o próprio trabalho.

Em suma (e sem spoilers), o diretor se deu conta de que tinha personagens cativantes em mãos, interpretados por grandes atores. A partir disso, ele não precisaria construir uma grande história para além de um dia comum na vida de três personagens centrais: os fictícios Rick (Leonardo DiCaprio) e Cliff e a realíssima Sharon Tate, cujo assassinato traumatizou uma era.

Assistir ao filme com essa premissa em mente (e sem esperar, digamos, Cães de Aluguel) permite uma catarse deliciosa, o mero deixar-se levar por um universo construído com um carinho visivelmente pessoal.

Era uma vez em Hollywood, o livro, é uma extensão disso.

De início, portanto, Tarantino sequer trata a obra como um romance propriamente dito. Tal qual o longa-metragem, é um apanhado de momentos (às vezes cotidianos, banais) de seus personagens, os quais, por sinal, ele não se propõe a desenvolver. O livro é um filme com cenas estendidas, cenas extras e mais contexto (por sinal, haverá um extended cut).

Era uma vez em Hollywood, tanto o filme como o livro, é repleto de metalinguagem, mas não por ela mesma – nem como muleta crítica –, e sim simplesmente como um mecanismo para Tarantino desenvolver uma fan fiction do período desejado e se perder nele sem as chaves.

No romance, com ares de pulp fiction (o gênero, não o filme), Tarantino transita entre a história do cinema, opiniões sobre filmes (terceirizadas em personagens), eventos fictícios de personagens reais e demais eventos de personagens fictícios.

Ironicamente – e com absoluta consciência –, a maior narrativa do livro diz respeito à série Lancer, escrutinada pelo autor como um conto e temperada pela fluidez natural dos obsessivos.

Aqueles convencidos pelo filme têm muito a ganhar com Era uma vez em Hollywood, literatura despreocupada e rústica, mas totalmente ciente de seus objetivos – e com uma voz bem definida. Não se trata de “narrativa transmidiática”, malemal de narrativa. São momentos espalhados de personagens espalhados.

Por fim, testemunhamos um sujeito talentoso compartilhando conosco um período mágico (para ele) e traduzindo isso em duas mídias (portanto, linguagens) diferentes. Quentin Tarantino se perde, no melhor dos sentidos, em seu universo, abrindo a porta para nos emprestar um pouco desse encanto. O que mais podemos pedir?

Baú: Marco Aurélio

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7. Jamais estima algo como vantajoso a ti, se vier a te obrigar algum dia a violar tua fé, a abrir mão do respeito que tens por ti, a odiar alguém, levantar suspeita, lançar maldições, ser hipócrita, desejar algo que exige paredes e tapeçarias. Com efeito, aquele que preferiu a sua própria inteligência, a sua divindade tutelar e o culto religioso em razão desta dignidade, não atuará em nenhuma tragédia, não se porá a lamentar e dispensará o isolamento e a presença maciça das pessoas; e, sobretudo, não viverá nem se apegando à vida, nem fugindo dela. Não o preocupa que sua alma permaneça por um intervalo maior ou menor de tempo tendo um corpo por invólucro; se, com efeito, for necessário desde já que ele o abandone, estará pronto para isso e partirá sem qualquer embaraço, como o faria em relação a outras atividades que pudesse executar reservada e decentemente. Por toda a vida, seu único cuidado é manter seu pensamento ocupado com o que é próprio a um ser vivo racional e social.

8. No pensamento daquele que foi contido pela moderação e purificado, não podes descobrir nada de purulento, imundo nem que prossegue supurando internamente. Nem o destino o pega com sua vida incompleta, como se diz de um ator trágico que se afasta antes de encerrar a peça e completar seu papel. Ademais, nele não verás servilismo, nem afetação, nem demasiado apego, nem demasiado desapego, nem sujeição a um ajuste de contas nem dissimulação.

9. Honra a faculdade de pensar e conceber opinião. Tudo se encontra nela, pois não há na tua faculdade condutora um pensamento que não esteja de acordo com a natureza e a constituição de um animal racional. Ela nos prescreve a não precipitação, a boa administração das relações com os seres humanos e a obediência dos deuses.

10. Então, descartando tudo o mais, retém apenas esses poucos princípios, lembrando, ao mesmo tempo, que cada um se limita a viver o presente, que tem duração muito curta; quanto ao restante, é incerto ou impenetrável. Efêmera, portanto, é a vida de cada um e pequeno é o cantinho em que vive; efêmero, inclusive, é o mais duradouro dos renomes oferecidos pela posteridade, e até isso segundo uma sucessão de pessoas medíocres que não tardarão a morrer, que nem sequer conhecem a si mesmas, muito menos aquelas que morreram há muito tempo.

Marco Aurélio (121-180 d.C.), Meditações, Livro III (Edipro, trad. Edson Bini, 2019).