Hipertexto: o assassinato d’O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford

Extraído da edição 49 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

São raros os filmes monumentais; aqueles que te submetem a um estado contemplativo de agradecer à Estética. Esporadicamente, um alinhamento perfeito entre os indivíduos envolvidos na produção presenteia o mundo com a demonstração de uma visão capaz de unir forma e conteúdo primorosamente, fornecendo uma obra tão estupidamente bela que assombra sua memória em razão do poema visual com que teve contato.

Isso aconteceu com O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007), um western pouco western. Nele, a ideia de “a cada frame uma pintura” foi executada com um capricho ímpar pelo diretor australiano Andrew Dominik, que dispunha de uma carta sagrada na manga: o diretor de fotografia Roger Deakins. Inglês (não confundir com Dickens), o arcanjo das lentes é colaborador frequente dos irmãos Coen (e, mais recentemente, de Denis Villeneuve).

Mas o filme não é só – visualmente – espetacular. Dominik adaptou a película de um romance homônimo de Ron Hansen (1983), potencializando suas forças, amenizando suas fraquezas e conferindo uma caracterização bastante vitoriana, dessaturada, sem chapéus de cowboy ou barris. O livro, apesar de competente, não é uma obra-prima. Por sua vez, Nick Cave e Warren Ellis (que também faz parte dos Bad Seeds) compuseram a belíssima trilha sonora.

Jesse James, um personagem histórico (nome familiar?), é um capítulo à parte – em algum momento, falaremos sobre ele por aqui. Mas conhecer sua vida não é necessário para apreciar a película. James foi um fora-da-lei que havia lutado na Guerra Civil Americana defendendo violentas guerrilhas dos Confederados. Bandido frio, herói local, Robin Hood… tornou-se um personagem folclórico cujas lendas e fatos se misturam na mesma nascente.

James morreu (ou fingiu a própria morte) em 1882, assassinado – pasmem – por Robert Ford, um colega, amigo e discípulo que o idolatrava. Seu assassinato foi um evento histórico em razão da popularidade da vítima, àquela altura uma celebridade para uma cultura moderna que se erigia. Tanto o romance como o filme retratam o protagonista como um homem temido porém perturbado, perseguido por traumas antigos e cansado do fardo da vida.

Brad Pitt, também produtor da obra, o interpreta. Pitt, que já fez aquele filme, aquele outro e aquele outro, declarou à GQ que “meu filme favorito é o de pior resultado entre tudo que já fiz, O Assassinato de Jesse James” (e o afirmou dez anos depois, não em uma entrevista de promoção com blogueiros – detalhe importante). Em sua pele, James, neurótico e melancólico, está à beira da insanidade.

Ao lado dele, vemos o irmão Affleck talentoso; Sam Rockwell; Mary-Louise Parker; aquele herói dos Vingadores que atira flechas e até a Zooey Deschanel. Na condição de antagonista perturbado, Affleck é impecável: numa trama cujo desfecho já é revelado pelo título, seu personagem segura as pontas para manter a ambiguidade necessária em sua relação com o protagonista. Ao longo da narrativa, portanto, as revelações são primordialmente psicológicas – e o que se se sucede após o assassinato em questão é tão importante quanto este fato.

O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, enfim, é um filmaço. Se desconfia que eu esteja exagerando, assista a essa cena em tela cheia, na mais nítida definição do vídeo e com som alto. Cena que, aliás, foi homenageada no último Red Dead Redemption. Outros argumentos audiovisuais repousam aqui e aqui.

Então por que, diante de tamanha chupação – oito parágrafos, no nosso caso –, esse filme passou tão batido?

Porque O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford foi boicotado pela própria produtora/distribuidora.

Dominik e Pitt, com o apoio de Ridley Scott – também produtor –, brigaram com a Warner Bros. por um controle maior sobre a edição final. Até aí, tudo bem: nada mais ordinário na indústria. Tão desconfiado como envolvido, a estrela principal mantinha uma cláusula em contrato que impedia qualquer alteração do título do filme (o que não permitiu que o pouco acessível nome da obra se tornasse, digamos, Clube da Pólvora ou Deu a Louca no Cowboy).

Mas o conflito tomou proporções maiores. Diante da recepção fria dos testes de público a um western com pouca ação e muita contemplação – “é realmente desprovido de enredo”, resumiu Dominik –, o processo de edição levou nove meses e algumas demissões do diretor. Havia uma confusão, para os espectadores, sobre a postura de Brad Pitt no filme: não fazia sentido que uma estrela daquele calibre, interpretando o protagonista, fosse tão melancólica.

Dessa forma, preocupações surgiram no estúdio, àquela altura já preocupado com a duração da película, que viria a ter 160 minutos. Toda a etapa de pós-produção levou mais de um ano e contou com editores diferentes – Michael Kahn, por exemplo, foi enviado pela Warner para compor um filme com menos de duas horas. “Pagaram a ele uma fortuna, e acho que ninguém sequer olhou aquela versão”, contou Hugh Ross, assistente cuja voz, a princípio provisória, viria a permanecer como a narração do filme.

Diante da recepção invariavelmente morna a diferentes cortes – e muito por conta do apoio de Brad Pitt e Ridley Scott –, o estúdio aceitou a versão inicial de Dominik, que contratualmente não tinha direito à palavra final. Ainda que com restrições, o filme a que temos acesso foi primordialmente – embora não totalmente – encaixado pelo diretor.

No entanto, a vitória se mostrou parcial – pírrica, talvez. Porque a partir disso a Warner desistiu. Isto é, não só de uma versão, mas do projeto como um todo. Antecipando o que considerava um iminente fracasso de público, a companhia sequer tentou divulgá-lo. Quando finalmente estreou, em 21 de setembro de 2007 – um ano depois da data anunciada –, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford podia ser visto em… cinco cinemas dos Estados Unidos.

Sem qualquer esforço para divulgar o filme, a Warner seguiu a lógica de que, se você não tentar, não pode perder. Aos poucos, com críticas positivas, a produtora/distribuidora lembrou de, afinal, distribuir, e a obra chegou a constar em 301 telas americanas ao longo das 19 semanas em que foi exibido. Mas os dados já haviam sido lançados: não houve qualquer chance de a película gerar um impacto para além de nichos específicos.

E assim, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford arrecadou domesticamente cerca de um décimo dos $30 milhões gastos para sua concepção, e pouco mais do que isso globalmente – $4 milhões. Teve duas indicações ao Oscar – Roger Deakins na cinematografia; Casey Affleck como ator coadjuvante. “Sempre me deixou perplexo como o roteiro é uma adaptação fiel ao livro, e o filme é exatamente o roteiro. Não sei o que eles estavam esperando”, sintetizou Ross. O estúdio sabia exatamente a aposta que havia feito.

De acordo com Dominik, há pelo menos outras três versões mais longas do filme, duas delas muito boas e uma correspondente a uma tortura de quatro horas. Todas têm zero esperança de lançamento, mesmo com o apelo de uma massa apaixonada, porém extensa como uma kombi – e do próprio diretor de fotografia.

***

  • O livro chegou a ser publicado no Brasil com a capa do filme (ed. Novo Conceito) e pode ser encontrado facilmente na Estante Virtual.
  • Tentando compreender o raciocínio da empresa bilionária, o pessimismo da Warner em relação à obra não se justificou exclusivamente pelo conteúdo da obra: tudo indicava que um lançamento àquela altura já não atrairia o público, muito por conta da temática (ver item abaixo). A produtora aproveitou para nem tentar.
  • 2007 foi um ano notável para o lançamento de belos filmes com cenários tipicamente associados ao western, com Sangue Negro (Paul Thomas Anderson) e Onde os Fracos Não Têm Vez (irmãos Coen). Curiosamente, o editor d’O Assassinato (…), Dylan Tichenor, deixou a produção para trabalhar em Sangue Negro, ao passo que Roger Deakins também é responsável pela cinematografia de Onde os Fracos Não Têm Vez, pela qual também foi indicado (por filmes diferentes, portanto) ao Oscar 2008. Nele, foi derrotado por Robert Elswit, diretor de fotografia de – adivinha só – Sangue Negro. Que triângulo amoroso, não?
  • Três anos depois, Roger Deakins foi diretor de fotografia de outro western, Bravura Indômita (2009), dos irmãos Coen – esse derivado de um romance espetacular.
  • Andrew Dominik e Brad Pitt viriam a trabalhar juntos no projeto seguinte do diretor, O Homem da Máfia (2012).

Baú: Jaguar

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Já o tempo na prisão (em 1970) não deve ter sido tão divertido…
O quê? Fiquei três meses na Vila Militar. Nunca bebi tanto. Não é piada: foi a fase mais feliz da minha vida. Acordava e pensava: ‘O que tenho para fazer hoje? Porra nenhuma!’ Subornava os guardas para ter cachaça. Bebia do gargalo e jogava num matagal atrás da cela. Consegui ler 60 páginas de Ulisses. Depois não retomei. Ulisses ou você lê na prisão ou não lê. O Paulo Francis e o (fotógrafo) Paulo Garcês vinham com uns pedaços de pau e apontavam para mim, imitando colonizadores: ‘Look… this is almost human!‘ (Olhe… isto é quase humano!) Quando fomos soltos no réveillon de 1970, fui espiar o matagal, e tinha uma pirâmide de garrafas. O coronel responsável vinha perguntar se eu estava sendo bem tratado, eu tinha que tampar a boca por causa do bafo. ‘O que houve?’, ele perguntava, e eu dizia que era dor de dente. Ele oferecia dentista e eu recusava, explicando que preferia a dor ao dentista. Era tão divertido! Depois o coronel foi exilado para Goiânia porque tinha tratado bem os intelectuais. Coitado.
Jaguar, entrevista a’O Globo, 2014.

Hipertexto: ukiyo-e

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A gravura é a arte de impressão que surge na China no século 9 (e você ainda achava que o primeiro livro impresso do mundo tinha sido a Bíblia de Gutemberg…) e marca a Idade Média no Ocidente. Feita pela criação de uma matriz única, cria a possibilidade de cópia em grande escala, funcionando como um grande carimbo. Entre as inúmeras técnicas de gravura, a primeira a ser desenvolvida foi a xilogravura.

A xilogravura é a arte de trabalhar com a madeira, primeiro lhe entalhando e em seguida passando camadas de tinta no alto relevo produzido, que ao ser prensado sobre um papel transmite a imagem “desenhada” na matriz. Cada cor a ser usada deve ser passada separadamente para o papel, o que, junto do tempo de espera da secagem de cada mão, torna grande o tempo gasto com cada trabalho.

No Ocidente, o maior exemplo que temos de gravura japonesa é certamente a Grande Onda de Kanagawa:

 

Essa xilogravura é uma ukiyo-e e foi criada em torno de 1833. Foi gravada por Katsushika Hokusai e faz parte de uma série de 36 obras que representam o Monte Fuji. Hokusai demonstrava um grande amor pela paisagem japonesa e criou centenas de ukiyo-e nesta temática.

Ukiyo-e, em português “Retratos do Mundo Flutuante“, são xilogravuras feitas no Japão do período Edo – marcado pelo isolamento drástico do Japão ao resto do mundo e que serviu para o aprimoramento e desenvolvimento de novas técnicas artísticas. As ukiyo-e geralmente representavam a beleza da mulher, momentos históricos, o teatro Kabuki, paisagens, enfim, o cotidiano japonês deste período. Por mais que hoje sejam exibidas em belas exposições nos mais importantes museus ao redor do mundo, quando surgiram eram comuns e de fácil acesso, muitas vezes servindo como papéis bonitos para enrolar peixe.

A beleza desta arte está dividida em muitas partes, literalmente, pois não era feita por um único par de mãos, mas por várias pessoas trabalhando juntas. Pelo menos três: o artista, o talhador e o impressor. Essa técnica se tornou um dos mais famosos estilos artísticos japoneses e muitos historiadores da arte chegam a descrever a história da arte do Japão com base unicamente no estudo das ukiyo-e, o que, claro, corresponde a um reducionismo.

Mesmo assim, o papel dessas xilogravuras na identidade artística nacional é tamanho que as ukiyo-e foram a principal referência estética do japonismo, tendência na pintura europeia do século 19 em que artistas, sobretudo impressionistas franceses como Degas e Monet, se inspiraram nas cores vivas e no movimento da arte japonesa para compor suas obras e para estudar. Van Gogh, por exemplo, copiou diverssos trabalhos de Hiroshige e pintou árvores que claramente homenageiam as cerejeiras nipônicas. Outros pintores, como Felix Valloton, Paul Gauguin e Edvard Munch, chegaram a experimentar com essa técnica diretamente e foram precursores de seu uso no Ocidente. Já quase no século 21, a obra de Hokusai ainda é fonte de releituras, como em Uma Súbita Rajada de Vento, do fotógrafo canadense Jeff Wall.

Outra curiosidade sobre as ukiyo-e é que elas são as responsáveis pelo surgimento dos mangás. E o precursor dessa ideia foi o próprio Katsushika Hokusai. Em 1814, ele desenhou uma série de 15 ukiyo-e, as encadernou e batizou de Hokusai Manga, ou “esboços de Hokusai”. Nela estão cenas do dia a dia, paisagens, estudos sobre animais, plantas e também histórias de fantasmas.

Para ler mais a respeito, admirar e até participar de leilões de ukiyo-e originais, visite o site da Fuji Arts — e nos agradeça depois!

[por Flávia Rhafaela]

Hipertexto: o Leão do Castelo de Gripsholm

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No século 18, as relações diplomáticas entre Suécia e Argélia eram bastante próximas. Os escandinavos enviavam vários presentes valiosos aos argelinos e em troca tinham garantida a passagem segura e gratuita de seus navios pelo mar mediterrâneo. Em retribuição, em 1731 o Rei Frederik I recebeu do Dey (uma espécie de regente) da Argélia alguns mimos, que incluíam: um leão, três hienas e um escravo liberto, que se tornou o cuidador dos animais. Todos viveram suas vidas no luxuoso Djurgården, o parque real.

Alguns anos após o leão morrer, o rei enviou os restos do felino (a pele e os ossos que haviam sobrado) para que um taxidermista o reconstruísse em toda a sua glória. O leão seria exposto no castelo como um símbolo da força da Coroa sueca. O problema era que o taxidermista nunca tinha visto um leão pessoalmente e teve que se basear em relatos escritos e brasões de armas. Como é de se imaginar, o resultado ficou uma bosta:

Essa espécie de Ecce Homo animal está em exposição no castelo de Gripsholm, hoje um museu, e é um dos muitos exemplos de animais exóticos sendo mal desenhados por artistas europeus. Nas iluminuras medievais, principalmente nos bestiários, eram comuns as representações bizarras de animais como elefantescrocodilos e corujas.

O tempo passou e pouca coisa mudou: em 1840, Londres renovava a Trafalgar Square, sua principal praça, e encomendou, além de uma coluna imensa, esculturas de quatro leões. O encarregado pelos leões foi Sir Edwin Landseer,  pintor especializado em retratar animais como cães, cavalos, touros… mas não muito familiarizado com esculturas. Ou leões.

De fato, o único espécime desse animal que o artista conhecia era o leão do zoológico da cidade, e quando este morreu, Landseer pediu para que deixassem o corpo em seu ateliê para que ele pudesse estudá-lo. Mas, dizem, ele demorou tanto para terminar seu projeto que os restos  do bicho começaram a se decompor. Faltando ainda as patas a serem esculpidas, Edwin usou seu cachorro como modelo e terminou a obra.

resultado final lembra mais um esfinge do que um leão propriamente dito e causou estranhamento aos olhares mais críticos na época, mas não chama tanta atenção dos transeuntes e turistas que passam pela praça hoje em dia. Ao menos não a ponto de as pessoas deixarem de tirar fotos e escalar os bichanos de bronze. De todo modo, se for esculpir ou empalhar um leão, talvez a relação entre perfeição e pressa tenha que ser reconsiderada.

Hipertexto: Tony Garnier

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No início do século passado, Lyon, na França, passava por uma grande industrialização. Centro metalúrgico, a cidade, cuja linha férrea com início em St. Étienne havia sido asegunda da história do país, já se adaptara a uma nova realidade de produção. Somam-se a isso a primeira fábrica de automóveis da França – uma Berliet –, testes com os primeiros aviões e a invenção do cinematógrafo. (Lembra do primeiro filme exibido ao público? Aquela fábrica se tornou o Instituto Lumière.)

Lyon, enfim, compunha um contexto agitado, modernizado e propício a especulações. Isso provavelmente borbulhava na cabeça de um arquiteto local, o talentoso Tony Garnier. Nascido em 1869, Garnier estudou na École des Beaux-Arts, em Paris, e retornou a Lyon, onde projetou aquela que seria, para ele, a cidade ideal. Seu projeto, Une cité industrielle, refletia o planejamento de uma utopia.

Une cité industrielle foi publicado em 1917 após vários anos de estudos. Preocupado com a monotonia do trabalhador em seu ofício, Garnier visou ao lazer e à acessibilidade de áreas verdes — cada casa de família, por exemplo, teria um jardim. A cidade foi idealizada para 35.000 habitantes e continha as seções industrial, agricultural, universitária, sanitária, residencial e pública, esta última dividida entre setores administrativo, cultural e esportivo.

A utopia projetada por ele não continha delegacias, tribunais, prisões ou igrejas. Porque capitalismo. Não obstante, existe ali um legado arquitetônico mais rico do que a ignorância arquitetônica do editor permite enxergar – como a existência de edifícios de concreto armado – portanto permanecemos na apreciação estética. Se você entende algo de francês, vale se atentar a este documento aqui. Se não entende, fique pelas imagens e dificilmente se arrependerá.

Lista: uniformes extraordinários do futebol italiano

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1. Fiorentina

1969

1999

2. Cagliari 1970

3. Parma 1999

4. Torino década de 1940

5. Lazio 1983

6. Milan

1977

1900

7. Vicenza 1978

8. Bologna 1964

 

9. Internazionale 1954

10. Sampdoria

1970

1976

11. Roma

2002

2017 derby

12. Genoa 1924

13. Palermo 2006

14. Brescia 1941

15. Sassuolo 2016

16. Itália 2002

 

Colaborou (sem saber) Felipe Portes

Baú: David Kelley

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É por isso que precisamos de virtudes, antes de mais nada: nós não conseguimos atingir nossos fins com ações mágicas, fantasiosas ou aleatórias; nós precisamos levar em conta fatos sobre a natureza humana, o mundo em que agimos e a relação causal entre ações e resultados. Uma virtude envolve o reconhecimento de tais fatos e o compromisso de agir de acordo com eles. Assim, o orgulho é o reconhecimento do fato de que ‘o homem é um ser cuja alma se faz’: nós não conseguimos alcançar a autoestima sem que ajamos de forma com que a mereçamos. A racionalidade é o reconhecimento do fato mais básico de todos – fatos são fatos, A é A e a razão é nosso único meio de conhecimento.

David Kelley, Unrugged Individualism, 1996

Hipertexto: por quem os sinos dobram

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Dizem que nada se cria, tudo se copia. O título deste texto foi copiado de uma música de Raul Seixas chamada “Por quem os sinos dobram”. Essa música é boa, mas seu significado é um pouco obscuro. Ao menos no começo Raul canta “nunca se vence uma guerra lutando sozinho”. A canção é a primeira faixa do lado B do disco Por quem os sinos dobram, lançado em 1979.

Em 1984, o Metallica lançou a canção ‘For whom the bell tolls’, que em português poderia ser traduzido como “Por quem os sinos dobram”, apesar de o sino em inglês (bell) estar no singular. A canção tratava dos horrores de uma guerra. Em 1993, o Bee Gees lançou uma canção chamada ‘For whom the bell tolls’, que também pode ser entendida como “Por quem os sinos dobram”. Essa canção é sobre desilusão amorosa.

Algumas décadas antes, em 1940, Ernest Hemingway publicou o romance For whom the bell tolls (em português, Por quem os sinos dobram), um romance sobre a guerra civil espanhola que influenciou bastante, ao menos, a música do Metallica.

Muito, muito antes, em 1624, um reverendo e poeta inglês chamado John Donne escreveu, na cama em que passou dias a um passo da morte, um livro chamado, adivinha!, Devotions upon emergent occasions. Era uma coleção de 23 pequenas “devoções”, uma para cada dia de internação, sobre seu processo de adoecimento e cura e outras questões humanas.

Na Devoção XVII, John Donne traz o seguinte trecho, originalmente:
“No man is an Iland, intire of it selfe; every man is a peece of the Continent, a part of the maine; if a Clod bee washed away by the Sea, Europe is the lesse, as well as if a Promontorie were, as well as if a Mannor of thy friends or of thine owne were; any mans death diminishes me, because I am involved in Mankinde; And therefore never send to know for whom the bell tolls; It tolls for thee.”

Em português, tradução livre:
“Nenhum homem é uma ilha, todo em si; todo homem é uma parte do continente, uma parte da terra; se um torrão de terra é levado pelo mar, a Europa é diminuída, tanto se fosse um promontório, como também se fosse uma casa de teus amigos ou a tua própria; a morte de todo homem me diminui, porque sou parte na humanidade; e então nunca pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

E foi daí surgiu essa frase consagrada na cultura popular.

Do quarto de Donne, ele conseguia ouvir os sinos da igreja tocando. Isso significava que alguém que vivia ali perto havia morrido, e as pessoas se perguntavam: por quem os sinos dobram? Em outras palavras, quem morreu?

O reverendo se perguntava se as pessoas não achavam que tivesse sido ele próprio.

Hipertexto: Fra Angelico

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Fra Angelico e sua Anunciação – a transição perfeita entre o Gótico e o Renascimento

O Renascimento, se é que isso realmente existiu, pode ser visto, ainda que de maneira bastante simplista, como a transição entre a representação artística rudimentar do período Gótico e as inovações que culminaram nas formas e proporções perfeitas do David de Michelangelo. Na realidade, esse trajeto foi muito mais tortuoso do que os almanaques de história da arte fazem parecer, e não foram poucas as ramificações, bem como idas e vindas dos artistas.

É fato, porém, que nesse espaço de mais de 200 anos as artes visuais passaram por uma transformação profunda: os motivos representados deixaram de ser estritamente religiosos e rigidamente ditados pela tradição bizantina para incorporar símbolos pagãos e métodos sistemáticos de representação de luz e espaço. E não houve nenhum artista que expressasse melhor o equilíbrio entre esses dois mundos do que Fra Angelico.

Fra Angelico, muito antes de ser um licor, era Guido di Pietro, um pintor que começou seus estudos como iluminador (fazedor de iluminuras) e mais tarde tornou-se frade. Seus trabalhos sempre tiveram motivos religiosos, tanto pelo século em que vivia quanto pela sua intensa fé pessoal: pintava peças de altar para igrejas e objetos de devoção pessoal para patronos mais abastados. Apesar de estar envolvido direta e profundamente com a Igreja, não se limitava a reproduzir a pintura religiosa tradicional. Ao contrário, estava completamente consciente das mudanças que aconteciam ao seu redor.

O estilo em voga para a pintura religiosa na época era o Gótico Internacional, em que figuras esbeltas com rostos angelicais idealizados contracenam num espaço celestial austero e normalmente folheado a ouro. O que se pretendia era representar o mundo espiritual e a mensagem trazida do evangelho. Um dos exemplos mais simbólicos dessa escola é a Anunciação de Simone Martini, realizada praticamente 100 anos antes de Fra Angelico começar a pintar.

Contemporâneo de Fra Angelico, Masaccio era um expoente de sua geração. Sua pintura O Pagamento do Tributo, entre as mais influentes desse início de Renascença, foi uma das primeiras a empregar a perspectiva linear, que acabara de ser desenvolvida por Brunelleschi, para criar a ilusão de um espaço realista. Com isso, veio a preocupação com o peso e o volume dos personagens, além de sua disposição nesse espaço, algo que não acontecia anteriormente.

Anunciação de Fra Angelico, um afresco de 1446,  é uma síntese dessas vertentes. Seus personagens – o Anjo Gabriel e a Virgem Maria – seguem a estética gótica com seus corpos leves, auréolas bidimensionais e a gravidade da troca silenciosa de olhares. Mas ao contrário da pintura de Martini, nessa cena as figuras habitam um espaço realista, uma varanda cuidadosamente composta respeitando a perspectiva de um ponto. Além disso, nota-se o capricho com o qual os detalhes arquitetônicos foram executados. Arcos ogivais, marca inconfundível do Gótico, dividem o espaço com capitéis jônicos e coríntios que só poderiam ser desenhados por alguém que estudou os textos antigos de Vitrúvio e estava em contato com o retorno da arquitetura clássica.

Ao mesmo tempo, alguns detalhes impedem o balanço perfeito da obra: a grama do lado esquerdo da imagem é representada sem profundidade alguma, como um papel de parede estendido entre o piso da varanda e a cerca de madeira. E mais: o teto, apesar de ser muito lindo, parece estar muito baixo, de modo que se a Virgem se levantasse, provavelmente bateria a cabeça. Mas engana-se quem pensar que isso aconteceu por inaptidão ou incapacidade técnica.

São escolhas conscientes que o autor fez para contrastar a santidade dos protagonistas com um ambiente mundano. Inclusive as colunas e arcos da Anunciação lembram muito o pátio do Convento de São Marco em Florença, onde está a pintura em questão e onde Fra Angelico pintou a porção mais célebre de sua obra. A intenção era auxiliar os monges e frades que habitavam o local em sua meditação, aproximando-os das figuras e ensinamentos transcendentais expressos nesse afresco.

Em suma, Fra Angelico foi o artista que melhor balanceou tradição e inovação no século 15 na Europa. Dominava igualmente a estética gótica e a renascentista e com total consciência se utilizava de diferentes  recursos para atingir seu público de maneiras diversas, sem nunca deixar de ter uma aura de santidade em volta de seu trabalho. Não à toa foi beatificado em 1982 pelo Papa João Paulo II e elevado ao status de padroeiro universal dos artistas.

Bônus: não deixe de conferir neste link uma galeria de fotos do Convento de São Marco, hoje um museu, mostrando como as pinturas de Fra estão dispostas nas paredes das celas individuais, os dormitórios dos monges, e como elas conversam com o espaço que ocupam. E falando em ocupar espaço, agradecemos formalmente ao sr. Ivan Gambus, que foi a Florença, visitou o museu de San Marco e nos trouxe lindas fotos, estórias e o livro-guia oficial. Obrigado, sr. Ivan Gambus.

Hipertexto: Lucien Rudaux

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Na minha infância, ainda em Porto Alegre, lembro de um CD-ROM próprio para Windows 95 dedicado ao nosso Sistema Solar. As poucas memórias sobreviventes são borradas, mas é certo que havia os planetas e que era possível clicar neles. A partir disso liam-se informações sobre cada um, com imagens – estáticas, nada de animação – acompanhadas por uma trilha sonora discreta. Não o encontrei na internet.

Nossa Lua, apesar de não ser um planeta, era a mais impactante, pois me ocorre que sua coloração mais fria convergia com a sonoridade cujo clara ambientação de solidão no desconhecido atingia seu objetivo. Eu sentia um medo saudável daquelas imagens — e certamente repeti o fascínio posteriormente com registros melhores, animações mais modernas e sonoridades mais bem gravadas.

Mas antes de qualquer software, e antes de Clarke, de Kubrick e, principalmente, de Clarke e Kubrick, havia Lucien Rudaux, pioneiro de arte espacial. Rudaux (1874–1947), francês, era ele próprio astrônomo, autor e ilustrador. No final do século 19, isto é, com apenas 20 anos, fundou um observatório em Donville-les-Bains, na Normandia. Rudaux serviu ao exército francês na Primeira Guerra, quando, já respeitado pelos serviços prestado ao ensino, havia sido nomeado Oficial de Instrução Pública, uma ordem honorífica.

Filho do pintor Edmond Rudaux, Lucien sem dúvidas herdou a aptidão para representações visuais, a maioria delas produzida nas décadas de 1920 e 30, após a atuação militar. Com elas, fugindo de planetas montanhosos, oferecia imagens mais sóbrias cujo realismo superou até seus sucessores. Seus traços acumulam ainda mais valor conforme caçamos, ou tentamos emular, retrofuturismo.

Pioneiro, Rudaux virou prêmio. E se já temos muitos outros registros, imagens melhores e fotografias mais precisas, suas ilustrações sobrevivem pelo único caminho capaz de garantir sobrevivência de qualquer arte: estética, o encanto cuja coceira limita as palavras e permite, vez ou outra, que o medo seja saudável e a solidão, confortável.