Hipertexto: Tarantino romancista

Extraído da edição 100 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

No fim de junho, Quentin Tarantino publicou Era uma vez em Hollywood, novelização de seu filme homônimo (2019).

Assisti a Era uma vez em Hollywood no cinema, o que já parece há uma eternidade, tratando-se de 2019. Lembro de ter gostado, mas com algum estranhamento. A sensação de não saber exatamente o que agradou, o que desagradou; a confusão que requer nada além de tempo para indicar direções.

Passados alguns dias, o filme não saía da minha cabeça. Mas não necessariamente o que acontecia nele, em termos de eventos e movimentos, e sim cenários, transições; Clith (Brad Pitt) dirigindo; Sharon Tate (Margot Robbie) dirigindo.

Isso bastou para abraçar aquele universo – Los Angeles, fevereiro de 1969 – (re)criado por Tarantino com enorme afeto. Quando o livro do diretor foi anunciado, soube que daria uma chance de braços abertos. Principalmente após ouvir Quentin Tarantino falar sobre a própria obra: é difícil não se convencer pela paixão irrestrita com que ele, como uma criança na sorveteria – já cheia de açúcar –, trata o próprio trabalho.

Em suma (e sem spoilers), o diretor se deu conta de que tinha personagens cativantes em mãos, interpretados por grandes atores. A partir disso, ele não precisaria construir uma grande história para além de um dia comum na vida de três personagens centrais: os fictícios Rick (Leonardo DiCaprio) e Cliff e a realíssima Sharon Tate, cujo assassinato traumatizou uma era.

Assistir ao filme com essa premissa em mente (e sem esperar, digamos, Cães de Aluguel) permite uma catarse deliciosa, o mero deixar-se levar por um universo construído com um carinho visivelmente pessoal.

Era uma vez em Hollywood, o livro, é uma extensão disso.

De início, portanto, Tarantino sequer trata a obra como um romance propriamente dito. Tal qual o longa-metragem, é um apanhado de momentos (às vezes cotidianos, banais) de seus personagens, os quais, por sinal, ele não se propõe a desenvolver. O livro é um filme com cenas estendidas, cenas extras e mais contexto (por sinal, haverá um extended cut).

Era uma vez em Hollywood, tanto o filme como o livro, é repleto de metalinguagem, mas não por ela mesma – nem como muleta crítica –, e sim simplesmente como um mecanismo para Tarantino desenvolver uma fan fiction do período desejado e se perder nele sem as chaves.

No romance, com ares de pulp fiction (o gênero, não o filme), Tarantino transita entre a história do cinema, opiniões sobre filmes (terceirizadas em personagens), eventos fictícios de personagens reais e demais eventos de personagens fictícios.

Ironicamente – e com absoluta consciência –, a maior narrativa do livro diz respeito à série Lancer, escrutinada pelo autor como um conto e temperada pela fluidez natural dos obsessivos.

Aqueles convencidos pelo filme têm muito a ganhar com Era uma vez em Hollywood, literatura despreocupada e rústica, mas totalmente ciente de seus objetivos – e com uma voz bem definida. Não se trata de “narrativa transmidiática”, malemal de narrativa. São momentos espalhados de personagens espalhados.

Por fim, testemunhamos um sujeito talentoso compartilhando conosco um período mágico (para ele) e traduzindo isso em duas mídias (portanto, linguagens) diferentes. Quentin Tarantino se perde, no melhor dos sentidos, em seu universo, abrindo a porta para nos emprestar um pouco desse encanto. O que mais podemos pedir?

Hipertexto: Era Uma Vez na América

Extraído da edição 99 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Noodles, I slipped!

Não se pode chamar de subestimado, afinal se trata de um filme de Sergio Leone, mas Era Uma Vez na América (1984) decerto é menos lembrado que outras grandes obras do diretor italiano – e menos lembrado do que merece.

  • Talvez porque o filme não seja um western, gênero ao qual Leone ficou tão associado.
  • Talvez porque seja seu último longa-metragem, com grande distância em relação ao anterior (13 anos para Giù la testa/Duck, You Sucker!).
  • Talvez por conta de seu lançamento confuso, com uma versão reduzida nos Estados Unidos, capaz de prejudicar a recepção imediata da película (e sua arrecadação).
  • Talvez porque sua versão consagrada tenha 229 minutos (3 horas e 49 minutos), o que intimida um tanto – mas vale cada segundo.

Era Uma Vez na América é um pináculo do cinema, sem mais nem menos. Ao longo de suas quase quatro horas, acompanhamos a trajetória de Noodles (Roberto De Niro) e Max (James Woods) representada de forma hipnotizante. A dupla lidera uma gangue juvenil cujo contexto tem a Lei Seca dos Estados Unidos (1920-1933) como ponto central.

A partir disso, assistimos a uma narrativa que desenvolve esses personagens por décadas, de 1918 até o fim da década de 1960, fragmentando a história de forma não linear e pincelando-a por cenas de um capricho etéreo.

Testemunhamos a ação do tempo, a degradação e a amargura através de cenários oníricos e transições de cenas coreografadas por um gênio, pois tamanha clarividência e tamanha técnica pertencem apenas ao gênio. Era Uma Vez na América redimensiona o que essa arte é capaz de proporcionar.

O filme é brutal e delicado; singelo e complexo; claro e ambíguo. Muitos adjetivos (que nada dizem), infelizmente, mas Sergio Leone criou algo digno de tal êxtase – com mais uma trilha sonora primorosa de Ennio Morricone e cinematografia de Tonino Delli Colli.

Há cenas que espectador algum esquece – quem viu sabe exatamente quais –, mas tratar delas pode atrapalhar a experiência de curiosos. Nosso maior intuito é incentivar o contato com essa obra-prima de densidade narrativa, psicológica, visual e sonora. Por hoje é só: reassistindo, seguimos pasmos.


  • Ao fechamento desta edição, Era Uma Vez na América está disponível no Prime Video, que não financiou este texto.
  • Uma possibilidade é dividir o filme em dois, assistindo à primeira parte, até 2h40min; depois disso, até o fim (cerca de 1h10min). Outra é serializá-la em seis partes. Segue sugestão: 1 (até 38 min); 2 (até 1h29min); 3 (até 2h03min); 4 (até 2h40min); 5 (até 3h12min) e 6 (até o fim).

Hipertexto: Matrix, suco de acerola com maçã

Extraído da edição 98 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

A confirmação de um quarto e provavelmente redundante, desnecessário e autorreferencial filme Matrix (trailer aqui) nos trouxe alguns insights. Brincadeira, jamais usaríamos o termo “insights“. Mas temos lá uma sequência de comentários (redundantes, desn… etc.).

1. Na opinião deste editor, Matrix (1999), das irmãs Lana e Lily Wachowski, é um baita filme, seguido de uma aporrinhação (Matrix Reloaded) e de algo desastroso (Matrix Revolutions), respectivamente.

2. Ao juntar Neuromancer com The Invisibles (talvez até demais) a partir de uma representação visual cativante, a franquia fez por merecer seu impacto na cultura popular da virada do século. Não foi (nem poderia ser) tão marcante à toa – quem lembra das inúmeras paródias de ação “estilo Matrix“?

3. É curioso que Show de Truman (1998), Cidade das Sombras (1998) Matrix e 13º Andar (1999) sejam tão próximos e carreguem temáticas tão semelhantes. Isto é, grosso modo, de que a realidade objetiva é uma farsa prestes a romper. Não há coincidência aí, nem falha na matriz.

4. “Todos os filmes de 1999 são iguais” – Matrix, Clube da Luta, Beleza Americana, Office SpaceQuero Ser John Malkovich… todos lidam com um cansaço existencial oriundo de uma estabilidade típica da época – ao menos para os americanos. Muito disso mudou há exatos 20 anos, digo, a partir de 11 de setembro de 2001.

5. Curiosamente, essa estabilidade hoje nos parece, se não utópica, bastante aprazível. Quantos cidadãos de classe média não digladiariam por esses trabalhos “chatos”, “entediantes”, “sem futuro” que ao menos sustentam um indivíduo com alguma tranquilidade? (Em oposição a, digamos, preencher um currículo para ganhar R$ 2 mil/mês [bruto] e viver com igual carência de futuro?)

6. Em 1994, o produtor japonês Towa Tei lançou Future Listening!, seu primeiro disco. Este álbum encapsula o que seria o ethos da segunda metade da década de 1990: globalização e uma ideia otimista de mundo digital. Future Listening! tem participação de Bebel Gilberto e Marcos Valle.

(6.1. O planeta inteiro já escutou Towa Tei alguma vez na vida… Pois é, é ele o de chapéu.)

(6.2. Towa Tei com Kylie Minogue e Haruomi Hosono: ‘GBI‘, 1997, certamente a melhor música da história dedicada a uma fonte caligráfica.)

7. ‘Technova‘, justamente com refrão de Bebel (em português), é uma pequena obra-prima. Claramente influenciado pelo hip hop americano – Towa Tei já morava em Nova York –, o produtor misturou bossa nova (incluindo sample de ‘Lamento’, do nosso maestro soberano) com soul e certo easy listening da década de 1960. A mistura pode ser visualizada no seguinte esquema:

Fonte: Bossa reborn: electronic bossa nova and millennial cultures of circulation, 2014.

8. Em The Love Movement (1998), A Tribe Called Quest ofereceu ao mundo ‘Find a way‘, outra bela faixa – a mais bela, por sinal, do álbum menos impressionante do grupo, cuja discografia é repleta de diamantes. De influenciadores, eles passaram para influenciados: o grupo partiu de ‘Technova’, de Towa Tei, sampleando a música do produtor japonês. Agora com uma temática mais romântica, ATCQ manteve o refrão de Bebel Gilberto, sobrepondo-o com versos de Phife Dawg (1970-2016).

9. Esta é a interseção entre Bebel e Phife:
“Lá em Copacabana que tem / Tudo de bom, tudo que é de bem / Suco de acerola com maçã / E vem do pé, meu bem”
Now you caught my heart for the evening / Kissed my cheek, moved in, you confuse things / Should I just sit out or come harder? / Help me find my way

10. Portanto, ela canta em português; ele, em inglês. Porém, a consonância é incrível: a não ser que cacemos os desencontros, não percebemos que essa criação, mediada por um japonês, trata de duas línguas diferentes. Por um breve momento, o mundo fala a mesma língua.

11. “Matrix 4”, intitulado The Matrix Resurrections, será lançado em 22 de dezembro.

Hipertexto: Saul Bass, um corpo que ainda cai

Extraído da edição 88 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Poucos elementos ficaram tão associados a Alfred Hitchcock quanto as aberturas do designer gráfico Saul Bass (1920-1996). Este, por sinal, vai muito além dos créditos do diretor inglês, tendo trabalhado com diretores variados e deixado sua marca em muitos pôsteres – e logotipos – ao longo de sua carreira.

Se hoje o cinema e a televisão oferecem créditos dinâmicos, envolventes e com uma tipografia que flutua, captura nosso olhar e conta uma história, muito disso é mérito de Bass.

Até então, os créditos (iniciais ou finais) eram basicamente estáticos, mas esse designer americano identificou a oportunidade de unir forma e conteúdo de uma maneira tão característica que, hoje, forma um gênero próprio.

Ele chamou atenção com um de seus primeiros trabalhos no cinema, o que aconteceu na abertura do noir O Homem do Braço de Ouro (1955, já em domínio público), de Otto Preminger, com Frank Sinatra e Kim Novak (que viria a estrelar Um Corpo que Cai [Vertigo] em 1958).

Aliás, Saul Bass faria os créditos de Pelos Bairros do Vício (Walk on the Wild Side) em 1962, também adaptado de romance de Nelson Algren, autor d’O Homem do Braço de Ouro.

Com Hitchcock, a parceria trouxe resultados marcantes: Um Corpo que Cai, Intriga Internacional (1959, imagem que abre o texto) e Psicose (1960). Só o altíssimo nível. Este editor andou revendo os dois primeiros, daí a lembrança. É impossível deixar passar a contribuição de Bass – ou não perceber sua evidente influência sobre a área, que hoje dedica uma enorme atenção às sequências de título.

Com Martin Scorsese, já na década de 1990 – e com Elaine Bass, sua parceira criativa e esposa –, Bass colaborou em outros filmes notáveis: Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990), Cabo do Medo (1991), A Época da Inocência (1993) e Cassino (1995).

Saul Bass morreu de LNH (linfoma não Hodgkin) aos 75 anos, em 1996.


  • Neste vídeo, vemos uma compilação de vários dos créditos criados por Saul Bass. Essencial.
  • Além de sua influência eminente (com e mesmo), duas homenagens a Bass são muito explícitas: as aberturas do filme Prenda-me se for Capaz (2002) e da série Mad Men (2007-2015). Sobre esta última, aqui vemos uma discussão bastante aprofundada.
  • Linkamos no começo do texto, mas vale o reforço: pôsteres e logotipos.

Hipertexto: Colateral

Extraído da edição 85 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Que experiência reassistir a Colateral (2004), blockbuster de Michael Mann (no momento desta publicação, disponível na Netflix). Acredito que muitos o tenham encarado no mesmo contexto deste editor, isto é, há muito tempo. Dois amigos contaram o mesmo relato: “vi com meu pai no cinema”.

Lembro de ter visto Colateral, mas pouco me lembrava. Na miríade de opções disponíveis para assistir a um clique, sem pensar muito, decidi reassistir. Esta newsletter, como salientamos no texto sobre After Hours (1985) – uma beleza relativamente esquecida de Martin Scorsese –, gosta muito de cenários noturnos e dos desdobramentos narrativos típicos deles.

Pois lembro de gostar de Colateral e de considerá-lo um bom filme. Acontece que, agora sem risco de ser traído pela memória, sei que Colateral não é um bom filme, mas um neo-noir extraordinário (néon-noir?).

A premissa é simples: a noite do taxista Max (Jamie Foxx) acaba entrelaçada com a do matador de aluguel Vincent (Tom Cruise). O assassino precisa do motorista para ir de um trabalho a outro; sem querer, sua ocupação acaba revelada ao condutor, que – ameaçado – não pode interromper seu itinerário. Completam a película Jada Pinkett Smith, Mark Ruffalo e Javier Bardem.

A partir disso, testemunhamos um roteiro impecável, redondo e fechado (quase simétrico!) como o ouroboros. Ele é carregado por dois personagens carismáticos e brilhantemente interpretados por Foxx e Cruise. O primeiro traz humor ao drama com reações/expressões sutis; o segundo, bom, quem não dá o braço a torcer por Tom Cruise dentro de campo só pode fazê-lo por implicância.

Afinal, Vincent é o pivô do filme. Fardado com um terno cinza (como Robert De Niro em Heat, a outra obra-prima de Michael Mann), o vilão é um lobo completo: seu cabelo e, principalmente, sua visão de mundo são cinza. Por sua vez, Max, apesar de competente e esperto, vive entre o medo e o comodismo. Para impedir Vincent, portanto, ele precisa ser mais Vincent.

Conforme a narrativa avança (sem spoilers), identificamos as fraquezas dos dois protagonistas – e como eles se complementam. O desenvolvimento de Max é espetacular: gradual, divertido, coerente. Por meio de sinais visuais, falas e ações (num bolo só), ele é compreensível o suficiente para gerar uma aula de semiótica, mas não explícito e mastigado a ponto de acabar com a fluidez da descoberta.

Mann pincela essa narrativa com cenas noturnas belíssimas, carregadas de contemplação. Viajamos com o táxi, vemos as luzes de Los Angeles e nos surpreendemos quando o diretor assim deseja. Como toda grande obra, seu drama não anula diálogos genuinamente engraçados. Colateral, enfim, é um filmaço em que os personagens avançam com (e graças ao) enredo.

Hipertexto: After Hours, o esquecido de Scorsese

Extraído da edição 82 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Em noites de confinamento – voluntário ou por inércia –, a imagem das ruas vazias da cidade têm me lembrado de After Hours (Depois de Horas), não um disco recente, mas o filme de Martin Scorsese, lançado em 1985.

After Hours me fez gostar de cinema, isto é, não de “ver um filme”, mas de apreciar a imagem, a edição, a trilha sonora, as pontas amarradas de uma história; enxergar aquela arte como uma linguagem própria. O estalo começou ali, na adolescência.

Trata-se, claro, de conclusões retroativas: não tive uma epifania e/ou passei a dedicar a vida ao Expressionismo alemão no Ensino Médio (nem agora). Mas o território começava a ganhar um mapa; um esboço de mapa. Por isso, Depois de Horas, além de seu valor intrínseco, puxa um valor afetivo.

Como toda curiosidade genuína, esta nasceu com a guarda baixa, não contaminada pela pretensão. Lembro de ligar a televisão (cinza, de tubo) no início da madrugada e, por acaso, parar no canal que transmitia After Hours.

Não sabia que aquele era um filme de Scorsese, o que tampouco faria diferença, porque ‘scorsese’ podia muito bem ser o nome de um molho, à época. Também não saberia descrever a função de um diretor. Hoje, me impressiona quanto não ouço grandes menções à película quando o assunto é a filmografia desse brilhante contador de histórias.

No entanto, havia uma magnetismo naquelas imagens, mesmo que jurássicas do ponto de vista de um adolescente. Tudo se passava à noite, porém uma noite estranha, com personagens fascinantes, pitorescos. Nenhum cenário ou sujeito daquela trama poderia existir sob a luz do dia.

Exceto o protagonista, Paul, interpretado por Griffin Dunne (recentemente, ele apareceu na extraordinária Succession). Paul é um eterno deslocado no enredo, atirado como uma bola de pinball entre um desconforto e outro – o que faz de sua jornada tão cativante.

Em Nova York, nosso herói conhece uma mulher e combina de encontrá-la após o trabalho. A partir daí, surgem problemas que, ao invés de soluções, acarretam novos problemas. Até porque a verdadeira protagonista de After Hours sequer é Paul, mas a própria noite, com seu eterno mistério e a não linearidade exclusiva às sombras.

Flutuando por cenários típicos de Edward Hopper, mas com enorme sensibilidade cômica, Scorsese costurou um filme de Alfred Hitchcock a seu modo – podemos chamar de paródia. São premissas literalmente fascinantes, pois geram um deslumbramento, uma curiosidade que leva à aproximação.

Talvez esse efeito seja amplificado agora, quando não conseguimos nós mesmos testemunhar qualquer não linearidade na magia da noite. Afinal, não há magia: travados no tempo, resta o resgate de elementos queridos. After Hours é um deles.

Hipertexto: Syd Mead, o futurista visual

Extraído da edição 72 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Quando o ilustrador Syd Mead morreu, em 30 de dezembro do ano passado, a Enclave estava parada. Do contrário, não teríamos deixado passar.

Mead é, direta ou indiretamente, um dos grandes arquitetos do imaginário popular do século passado. Sua influência reverbera interminavelmente, e muito do que vemos na ficção científica – por si só fonte contínua de inspiração para arquitetura, design e moda – partiu desse artista.

Americano, serviu ao exército logo após a Guerra da Coreia. Depois de retornar, graduou-se na Art Center School em Los Angeles (1959), então ingressou na Ford, onde permaneceu por dois anos. Passou as décadas seguintes prestando serviços de ilustração, design e renderização para diversas empresas do mundo inteiro.

Sua consagração no imaginário popular veio com Blade Runner e Tron, ambos lançados em 1982. Tratamos da construção do universo do primeiro na Enclave 58.

Já respeitado como designer industrial, Mead foi chamado pelos respectivos diretores (Ridley Scott e Steven Lisberger) para auxiliar com objetos (incluindo veículos) e cenários das duas narrativas futuristas. Ele já havia trabalhado em Star Trek: The Motion Picture (1979).

Como os filmes foram lançados praticamente ao mesmo tempo – 25 de junho (BR) e 9 de julho (Tron) – não sabemos em qual produção Mead trabalhou primeiro, ou se houve alguma influência direta entre um serviço e outro. Os spinners (carros voadores) de Blade Runner e as motocicletas futuristas de Tron são fruto da imaginação e dos traços do ilustrador.

Mas esses são apenas exemplos pinçados. Basta bater o olho em alguma de suas obras (recomendamos este link) para compreender a grande beleza de seus cenários, sempre envolventes em cores e detalhes. Em uma tela nítida, identificamos todo um universo vivo – e quem se inspirou nele.

Mead ainda trabalharia em diversos títulos, como Aliens, Strange Days, 2010, Elysium e Blade Runner 2049. Sua ligação com o cinema foi compilada no belíssimo livro The movie art of Syd Mead (2017), com prefácio de Denis Villeneuve.

O artista morreu aos 86 anos, em razão de um linfoma. Ele deixou um marido, Roger Servick, com quem havia se casado em 2016. Guardamos seu legado com muito carinho.

Baú: Stanley Kubrick

Extraído da edição 70 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

O que há de melhor em um filme é quando o efeito é criado pelas imagens e pela música. A linguagem, quando a utilizamos, deve ser, claro, a mais inteligente e imaginativa possível, mas eu ficaria bem interessado em fazer um filme sem nenhuma palavra, se pudesse achar um meio de fazê-lo. Poderíamos imaginar um filme no qual as imagens e a música seriam utilizadas de maneira poética ou musical, no qual se faria uma espécie de enunciados visuais implícitos em vez de declarações verbais explícitas: digo que poderíamos imaginar, pois não posso imaginá-lo a ponto de escrever realmente uma história assim, mas acho que, se isso fosse feito, o cinema seria utilizado ao máximo. Ele seria então totalmente diferente de qualquer outra forma de arte, do teatro, do romance ou até mesmo da poesia.

Stanley Kubrick (Michael Ciment, Conversas com Kubrick, Cosac Naify, 2010, p. 123).

Hipertexto: Hitchcock vs. Chandler

Extraído da edição 69 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Pacto sinistro (Strangers on a train, 1951).

Não é repeteco! Na última Enclave, acompanhamos a péssima relação entre Billy Wilder e Raymond Chandler na condição de diretor e roteirista de Pacto de Sangue, respectivamente.

Como um filme que, diante do sucesso, transforma-se em franquia, trazemos hoje uma segunda parte para a extensa lista de azedumes de Ray. Algumas das cartas de Chandler podem ser encontradas nas edições do autor publicadas no Brasil pela Alfaguara, sempre traduzidas por Bráulio Tavares, responsável por uma excelente seleção de material.

O documento que norteia nosso evento de hoje sequer foi enviado. Trata-se de uma carta escrita por Chandler e endereçada a ninguém menos que Alfred Hitchcock. Eles colaboraram – ou teriam colaborado – em Pacto sinistro (Strangers on a train, 1951; essas traduções…).

Motivado justamente pela qualidade de Pacto de sangue (e após algumas recusas), Hitchcock pinçou Chandler para escrever o roteiro de Pacto sinistro, uma adaptação do romance de Patricia Highsmith (Strangers on a train, 1950, publicado no Brasil).

Como um Renato Gaúcho empapuçado, o diretor inglês provavelmente superestimou a própria capacidade de converter a má vontade que bloqueia o talento alheio. “Dá no pai que o pai resolve”, ele deve ter refletido. Chandler não se encantava com o romance, mas topou. Eles começaram a se reunir em agosto de 1950.

No entanto, quanto mais os dois se encontravam, pior era o convívio. Hitchcock gostava de conversar; Chandler não gostava de nada. Por fim, conta-se que o escritor, em referência ao diretor, disse: “Look at the fat bastard trying to get out of his car!”, que preferimos não traduzir para manter a poesia intacta. O fat bastard ouviu.

Chandler chegou a terminar sua versão, prontamente descartada. Ele a entregou e não obteve retorno de Hitchcock. O diretor seguiu em frente.

Na primeira reunião com Czenzi Ormonde, a nova roteirista, Hitchcock jogou o trabalho de Chandler no lixo, isto é, literalmente, não simbolicamente. A criação do roteiro ainda exigiria uma força-tarefa para completá-lo antes das gravações (a segunda unidade começou antes).

Chandler teve acesso ao roteiro final – não conseguimos descobrir como ou por que razão (teria alguém enviado por engano? Foi uma provocação?). O resultado disso frutificou a carta que mencionamos, datada em 06/12/1950 – e que, repetimos, não chegou a ser enviada.

Nela, o escritor, provavelmente ébrio, destila em quatro páginas todo o seu arsenal talvez azedo, talvez amargo, com certeza nada doce. Eis alguns trechos em português (aqui, partes em inglês; não encontrei a versão completa – comprem o livro).

Caro Hitch:
Apesar de sua ampla e generosa indiferença com minhas tentativas de comunicação sobre o roteiro de Pacto sinistro (…), eu sinto que devo, só para ficar registrado, lhe repassar alguns comentários sobre o que foi considerado o roteiro final. (…) O que não posso entender é que você permita que um roteiro que afinal de contas tinha alguma vida e vitalidade possa ser reduzido a uma tal massa amorfa de clichês, um grupo de personagens sem rosto (…). É claro que você deve ter tido suas razões, mas, para usar uma frase cunhada por Max Beerbohm, seria preciso “uma mente menos brilhante do que a minha” para adivinhar quais foram.
Sem ligar muito para a questão de como meu nome vai aparecer na tela durante os créditos, eu não tenho o menor receio de que alguém venha a pensar que eu escrevi essa coisa. Eles vão saber muitíssimo bem que não fui eu. Eu não iria me incomodar nem um pouco se você tivesse produzido um roteiro melhor – pode acreditar, não iria mesmo. Mas se o que você queria era algo escrito como leite desnatado, por que diabo me procurou, pra começo de conversa? Que desperdício de dinheiro! Que desperdício de tempo! Dizer que eu fui bem pago não justifica nada. Ninguém pode ser adequadamente pago se está perdendo seu tempo. (…)

E assim a carta se move por outras três páginas, cheias de argumentos que justifiquem as afirmações iniciais. As gravações de Pacto sinistro terminaram em março de 1951; o filme foi lançado no fim de junho.

Pouco antes do lançamento, Hitchcock e Chandler finalmente concordaram em algo: não usar o nome do escritor nos créditos, em razão de sua participação nula no projeto (para além do folclore). Nem isso ocorreu, afinal a Warner Bros. queria aproveitar o capital simbólico do escritor e manteve Raymond Chandler na ficha técnica.

Isso responde por que ele foi pago!

Hipertexto: Wilder vs. Chandler

Extraído da edição 68 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Pacto de sangue (Double Indemnity, 1944).

O filme Pacto de sangue (Double Indemnity, 1944), adaptação de uma excelente novela de James M. Cain (1943), marcou o cinema tão logo foi lançado. Ali se consagrava a estética do noir americano, levantando o sarrafo para inúmeros filmes que viriam a copiá-lo.

Pacto de sangue dispunha de uma colaboração estelar por trás das câmeras: ao diretor Billy Wilder, juntou-se ninguém menos que Raymond Chandler como roteirista. E se a qualidade do resultado era indiscutível, a produção contou com um entrave: Wilder e Chandler não poderiam ser mais diferentes um do outro.

Simplificando (talvez demais), a relação entre os dois parece representar o desconforto que emerge quando um extrovertido e um introvertido não se batem.

Wilder, nascido (Samuel) na Áustria-Hungria, era 18 anos mais novo e havia escapado da Segunda Guerra (sua família – de judeus poloneses –, não). Chandler havia lutado na Primeira Guerra e, apesar de nascido nos Estados Unidos, tinha formação (e personalidade tipicamente) inglesa, afinal havia vivido da infância até o início da vida adulta na Inglaterra.

Wilder afirmou que Chandler parecia um contador – e que o escritor carregava a acidez típica dos alcoólatras. O diretor era adepto de um certo antagonismo entre colaboradores. Segundo ele, “se duas pessoas pensam parecido, é como se dois homens puxassem o mesmo lado da corda. Se você vai colaborar, precisa de um oponente para equilibrar as coisas”.

Chandler, novo em Hollywood, detestava Wilder. Já respeitado pelo romance Sono eterno (1939) quando foi contratado pela Paramount, o escritor chegou a se demitir da produção, relatando uma série de reclamações à produtora a respeito do diretor. A mais curiosa certamente se referia ao fato de Billy Wilder usar uma bengala e apontá-la para o roteirista enquanto conversavam.

Em carta de 1950 a seu editor inglês, Jamie Hamilton, Chandler escreveu: “Fui para Hollywood em 1943 para trabalhar com Billy Wilder em Pacto de sangue. Foi uma verdadeira tortura, e provavelmente encurtou a minha vida, mas com essa experiência aprendi, sobre a arte de escrever para o cinema, tudo que eu era capaz de aprender, e que não é grande coisa.”

No romance A irmã mais nova (1949), Chandler claramente se utilizou da experiência para descrever o momento em que seu notável protagonista, Philip Marlowe, interage com um produtor de Hollywood:

Ele caminhou até um vaso alto e cilíndrico no canto da sala. Dali, tirou uma bengala de malaca, entre várias que havia. Começou a ir e voltar pelo tapete, balançando com habilidade a bengala, paralela ao pé direito.

Fiquei sentado, terminei meu cigarro e respirei fundo: ‘Tem coisas que só podem acontecer em Hollywood’, resmunguei.

Ele deu uma elegante meia-volta e me olhou. ‘Perdão?’…

‘Por exemplo: um homem aparentemente dotado de sanidade mental andando para lá e para cá dentro de casa, imitando o andar das pessoas de Piccadilly e segurando uma vara de domar macacos.’

Ele assentiu.

James M. Cain adorou a adaptação de seu romance. Público e crítica também: Pacto de sangue foi indicado em sete categorias do Oscar de 1945 e, muito mais importante que isso, consagrou-se na estética cinematográfica. Naquele mesmo ano, Chandler escreveu o ensaio “Writers in Hollywood“, no qual reclamou de sequer ter sido convidado para uma coletiva de imprensa sobre a produção.

Wilder respondeu “não o convidamos? Como poderíamos? Ele estava bêbado embaixo da mesa do [bar] Lucy’s”. Farrapo humano (The Lost Weekend, 1945), o filme seguinte do diretor, contou com Ray Milland interpretando o protagonista Don Birnam, um escritor alcoólatra.

Hipertexto: vivendo a cidade – a construção do universo de Blade Runner

Extraído da edição 58 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Douglas Trumbull, diretor de efeitos especiais: o horizonte é uma mesa.

Propaganda da Heineken com Ronaldinho Gaúcho; clipe do cara de ‘Old town road’; clipe de Luan Santana e Alok: não interessa quão variado o contexto, é evidente que os responsáveis pelo audiovisual se inspiraram em Blade Runner (1982), ou nos filhos de Blade Runner, ou nos netos de Blade Runner. As ideias de cyberpunk e ficção científica como um todo foram ressignificadas com o filme, ele mesmo ressignificado com suas diferentes versões ao longo do tempo.

O fato é: se assistimos a qualquer coisa com chuva e néon, com certeza os indivíduos por trás das câmeras estudaram o universo de Blade Runner para replicar algo dele. Mesmo que eles trabalhem em um comercial da Claro com o Tiago Leifert – como podemos constatar aqui entre os 18 e os 24 segundos. Ou em genéricos impactantes como um comercial da Claro.

Há diversas razões para Blade Runner ter sido tão extraordinário. Como esmiuçamos em nosso texto sobre a série Community (2009-2014), omeletes de qualidade exigem ovos de qualidade. Ridley Scott, diretor (e, nesta analogia, ovo), dispunha de ao menos outros três: Syd Mead, Douglas Trumbull e Vangelis, cada qual um pináculo virtuoso por conta própria.

Não trataremos deles – guardando assunto para uma próxima oportunidade –, então vamos nos limitar a uma demonstração da magia do universo visual de Blade Runner, isto é, a Los Angeles de 2019 representada no filme.

A execução, por parte de Scott, com auxílio de Trumbull, do imaginário da narrativa de Philip K. Dick e dos objetos de Mead passa por um fator pouco a pouco revalorizado pelo cinema: a ausência de computação gráfica. O cenário de Blade Runner é real, portanto a cidade a que assistimos foi montada – tanto as ruas como as estruturas grandes, em miniatura (conforme demonstra a imagem de abertura).

O resultado da população daquela Los Angeles nos mostra camadas e camadas de pessoas, cada qual com um capricho em sua identidade. A cena em que o protagonista, Deckard, persegue Zhora, uma replicante (indivíduo criado por bioengenharia), é especialmente emblemática para visualizar essa dimensão. Podemos assistir à sequência neste link.

Nela, vemos figurantes de roupas, etnias, semblantes, religiões e culturas diferentes – com ritmos, direções e atividades diferentes. Pinçar frames não faz justiça à cena, pois retira dela o movimento e o dinamismo da composição entre esses elementos tão breves – mas aqui está um exemplo.

Não há música, apenas os ruídos caóticos da cidade: passos, veículos, diálogos, cantoria, semáforo sonoro. A quantidade de detalhes é embasbacante; a variedade de roupas, extrema. Em poucos minutos, enxergamos, portanto entendemos em que consiste aquele universo. Chuva e néon são elementos da composição, não muletas visuais.

Por fim, ‘Blade runner blues‘, de Vangelis, emerge no desfecho da sequência para indicar que o resultado da perseguição é um tanto trágico, apesar de o protagonista alcançar seu objetivo. E nós, o público, queremos cada vez mais morar naquele ambiente, mesmo diante de todas as informações explícitas e implícitas de seus problemas. É a magia da catarse.

É claro que isso não exige apenas imaginação e boa vontade. Executar tamanha escala de perfeccionismo demanda não só trabalho como orçamento – ninguém classificaria tarefa similar como tranquila, ou mesmo exequível.

Mas é exatamente por isso que, quase 40 anos depois, Blade Runner permanece uma referência visual para gênios e genéricos. Para a Heineken; para o cara de ‘Old town road’; para Luan Santana e Alok; para a Claro. Ao contrário dos indivíduos, o sublime não se vai como… ok, como lágrimas na chuva.


  • Inebriado pelo universo de Blade Runner? Aproveite nossa playlist com ambientações (ruídos, músicas, recortes) do filme.
  • O documentário Dangerous Days (2007), de três horas e meia, segue como dádiva absoluta para os fãs.
  • Outra cena é especial para a ambientação: quando Roy Batty e Leon Kowalski se encontram, logo antes de visitar Dr. Chew, o fabricante de olhos. Eles caminham pela direita da tela e somem de nosso campo visual. Ao invés de cortar a sequência, o diretor opta por movimentar a câmera para a esquerda, onde não há mais personagens relevantes ou ação. Vemos somente a cidade a partir do que parece ser um beco, e então um grupo de ciclistas passa. Só depois revemos Batty e Leon, já de outro ângulo, agora atrás dos ciclistas – que ainda trafegam pelo centro da tela. Assim assimilamos a perspectiva do cenário, compreendemos o que compõe a cidade e, mais do que isso, nos deixamos levar pela experiência estética de contemplá-la.

Baú: Jodô, mendigo sagrado

Extraído da edição 54 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Por que financiou Poesia Sem Fim pelo crowdfunding?

O cinema, desde o início, foi considerado um negócio. Arte que nunca procurou ser uma boa arte, mas agradar o máximo possível. A finalidade do cinema foi ganhar milhões de dólares. Uma coisa tão monstruosa – como dizer, no caso da poesia, “indústria poética”. Pensando não na obra, mas no resultado econômico, os produtores escravizaram as musas. Como eu, mísero poeta, que não pensa em dólares, mas em versos, irá conseguir que produtores, estrelas prostituídas, distribuidores ladrões e técnicos escravos se interessem em trabalhar de graça? Durante 20 anos, estive lutando, mendigando, suplicando e me humilhando para conseguir dinheiro para transformar meus sonhos em filmes. Cansado de tantas negativas (“não, não é comercial”), passei 20 anos reunindo o que rodei com a câmera. Depois, esperando que a juventude não seja formada somente por idiotas infantilóides e consumidores, mas por espíritos novos que aspiram alimentar seu coração com ideais sublimes por meio de uma arte honesta, converti-me num mendigo sagrado e inaugurei o crowdfunding. Dez mil pessoas colaboraram. Assim, pude ser o senhor da minha obra e criar com total liberdade, sem me preocupar em agradar ou não, mas comunicar sentimentos que enaltecem o ser humano.

Alejandro Jodorowsky, 2007.

Baú: Orson Welles

Extraído da edição 51 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Eu odeio Woody Allen fisicamente, detesto aquele tipo de homem. Mal consigo suportar uma conversa com ele. Ele tem a doença de Chaplin. Aquela combinação particular de arrogância e timidez me dá nos nervos. (…) Como toda pessoa de personalidade tímida, sua arrogância é ilimitada.

Orson Welles, data não identificada, livro (de Peter Biskind) publicado em 2013.

 

Hipertexto: o assassinato d’O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford

Extraído da edição 49 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

São raros os filmes monumentais; aqueles que te submetem a um estado contemplativo de agradecer à Estética. Esporadicamente, um alinhamento perfeito entre os indivíduos envolvidos na produção presenteia o mundo com a demonstração de uma visão capaz de unir forma e conteúdo primorosamente, fornecendo uma obra tão estupidamente bela que assombra sua memória em razão do poema visual com que teve contato.

Isso aconteceu com O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007), um western pouco western. Nele, a ideia de “a cada frame uma pintura” foi executada com um capricho ímpar pelo diretor australiano Andrew Dominik, que dispunha de uma carta sagrada na manga: o diretor de fotografia Roger Deakins. Inglês (não confundir com Dickens), o arcanjo das lentes é colaborador frequente dos irmãos Coen (e, mais recentemente, de Denis Villeneuve).

Mas o filme não é só – visualmente – espetacular. Dominik adaptou a película de um romance homônimo de Ron Hansen (1983), potencializando suas forças, amenizando suas fraquezas e conferindo uma caracterização bastante vitoriana, dessaturada, sem chapéus de cowboy ou barris. O livro, apesar de competente, não é uma obra-prima. Por sua vez, Nick Cave e Warren Ellis (que também faz parte dos Bad Seeds) compuseram a belíssima trilha sonora.

Jesse James, um personagem histórico (nome familiar?), é um capítulo à parte – em algum momento, falaremos sobre ele por aqui. Mas conhecer sua vida não é necessário para apreciar a película. James foi um fora-da-lei que havia lutado na Guerra Civil Americana defendendo violentas guerrilhas dos Confederados. Bandido frio, herói local, Robin Hood… tornou-se um personagem folclórico cujas lendas e fatos se misturam na mesma nascente.

James morreu (ou fingiu a própria morte) em 1882, assassinado – pasmem – por Robert Ford, um colega, amigo e discípulo que o idolatrava. Seu assassinato foi um evento histórico em razão da popularidade da vítima, àquela altura uma celebridade para uma cultura moderna que se erigia. Tanto o romance como o filme retratam o protagonista como um homem temido porém perturbado, perseguido por traumas antigos e cansado do fardo da vida.

Brad Pitt, também produtor da obra, o interpreta. Pitt, que já fez aquele filme, aquele outro e aquele outro, declarou à GQ que “meu filme favorito é o de pior resultado entre tudo que já fiz, O Assassinato de Jesse James” (e o afirmou dez anos depois, não em uma entrevista de promoção com blogueiros – detalhe importante). Em sua pele, James, neurótico e melancólico, está à beira da insanidade.

Ao lado dele, vemos o irmão Affleck talentoso; Sam Rockwell; Mary-Louise Parker; aquele herói dos Vingadores que atira flechas e até a Zooey Deschanel. Na condição de antagonista perturbado, Affleck é impecável: numa trama cujo desfecho já é revelado pelo título, seu personagem segura as pontas para manter a ambiguidade necessária em sua relação com o protagonista. Ao longo da narrativa, portanto, as revelações são primordialmente psicológicas – e o que se se sucede após o assassinato em questão é tão importante quanto este fato.

O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, enfim, é um filmaço. Se desconfia que eu esteja exagerando, assista a essa cena em tela cheia, na mais nítida definição do vídeo e com som alto. Cena que, aliás, foi homenageada no último Red Dead Redemption. Outros argumentos audiovisuais repousam aqui e aqui.

Então por que, diante de tamanha chupação – oito parágrafos, no nosso caso –, esse filme passou tão batido?

Porque O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford foi boicotado pela própria produtora/distribuidora.

Dominik e Pitt, com o apoio de Ridley Scott – também produtor –, brigaram com a Warner Bros. por um controle maior sobre a edição final. Até aí, tudo bem: nada mais ordinário na indústria. Tão desconfiado como envolvido, a estrela principal mantinha uma cláusula em contrato que impedia qualquer alteração do título do filme (o que não permitiu que o pouco acessível nome da obra se tornasse, digamos, Clube da Pólvora ou Deu a Louca no Cowboy).

Mas o conflito tomou proporções maiores. Diante da recepção fria dos testes de público a um western com pouca ação e muita contemplação – “é realmente desprovido de enredo”, resumiu Dominik –, o processo de edição levou nove meses e algumas demissões do diretor. Havia uma confusão, para os espectadores, sobre a postura de Brad Pitt no filme: não fazia sentido que uma estrela daquele calibre, interpretando o protagonista, fosse tão melancólica.

Dessa forma, preocupações surgiram no estúdio, àquela altura já preocupado com a duração da película, que viria a ter 160 minutos. Toda a etapa de pós-produção levou mais de um ano e contou com editores diferentes – Michael Kahn, por exemplo, foi enviado pela Warner para compor um filme com menos de duas horas. “Pagaram a ele uma fortuna, e acho que ninguém sequer olhou aquela versão”, contou Hugh Ross, assistente cuja voz, a princípio provisória, viria a permanecer como a narração do filme.

Diante da recepção invariavelmente morna a diferentes cortes – e muito por conta do apoio de Brad Pitt e Ridley Scott –, o estúdio aceitou a versão inicial de Dominik, que contratualmente não tinha direito à palavra final. Ainda que com restrições, o filme a que temos acesso foi primordialmente – embora não totalmente – encaixado pelo diretor.

No entanto, a vitória se mostrou parcial – pírrica, talvez. Porque a partir disso a Warner desistiu. Isto é, não só de uma versão, mas do projeto como um todo. Antecipando o que considerava um iminente fracasso de público, a companhia sequer tentou divulgá-lo. Quando finalmente estreou, em 21 de setembro de 2007 – um ano depois da data anunciada –, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford podia ser visto em… cinco cinemas dos Estados Unidos.

Sem qualquer esforço para divulgar o filme, a Warner seguiu a lógica de que, se você não tentar, não pode perder. Aos poucos, com críticas positivas, a produtora/distribuidora lembrou de, afinal, distribuir, e a obra chegou a constar em 301 telas americanas ao longo das 19 semanas em que foi exibido. Mas os dados já haviam sido lançados: não houve qualquer chance de a película gerar um impacto para além de nichos específicos.

E assim, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford arrecadou domesticamente cerca de um décimo dos $30 milhões gastos para sua concepção, e pouco mais do que isso globalmente – $4 milhões. Teve duas indicações ao Oscar – Roger Deakins na cinematografia; Casey Affleck como ator coadjuvante. “Sempre me deixou perplexo como o roteiro é uma adaptação fiel ao livro, e o filme é exatamente o roteiro. Não sei o que eles estavam esperando”, sintetizou Ross. O estúdio sabia exatamente a aposta que havia feito.

De acordo com Dominik, há pelo menos outras três versões mais longas do filme, duas delas muito boas e uma correspondente a uma tortura de quatro horas. Todas têm zero esperança de lançamento, mesmo com o apelo de uma massa apaixonada, porém extensa como uma kombi – e do próprio diretor de fotografia.

***

  • O livro chegou a ser publicado no Brasil com a capa do filme (ed. Novo Conceito) e pode ser encontrado facilmente na Estante Virtual.
  • Tentando compreender o raciocínio da empresa bilionária, o pessimismo da Warner em relação à obra não se justificou exclusivamente pelo conteúdo da obra: tudo indicava que um lançamento àquela altura já não atrairia o público, muito por conta da temática (ver item abaixo). A produtora aproveitou para nem tentar.
  • 2007 foi um ano notável para o lançamento de belos filmes com cenários tipicamente associados ao western, com Sangue Negro (Paul Thomas Anderson) e Onde os Fracos Não Têm Vez (irmãos Coen). Curiosamente, o editor d’O Assassinato (…), Dylan Tichenor, deixou a produção para trabalhar em Sangue Negro, ao passo que Roger Deakins também é responsável pela cinematografia de Onde os Fracos Não Têm Vez, pela qual também foi indicado (por filmes diferentes, portanto) ao Oscar 2008. Nele, foi derrotado por Robert Elswit, diretor de fotografia de – adivinha só – Sangue Negro. Que triângulo amoroso, não?
  • Três anos depois, Roger Deakins foi diretor de fotografia de outro western, Bravura Indômita (2009), dos irmãos Coen – esse derivado de um romance espetacular.
  • Andrew Dominik e Brad Pitt viriam a trabalhar juntos no projeto seguinte do diretor, O Homem da Máfia (2012).

Hipertexto: David Toschi

Extraído da edição 42 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

David Toschi

No cinema, uma mesma pessoa viva serviu como base para três personagens diferentes, em três filmes diferentes, com três atores diferentes, em três décadas diferentes. Trata-se de David Toschi, tido como inspiração direta e indireta para Steve McQueen, em Bullitt (1968), Clint Eastwood, em Dirty Harry (1971), e Mark Ruffalo, emZodíaco (2007). Nada mal.

Toschi, hoje com 85 anos, foi policial em São Francisco entre 1952 e 1983. Nesse meio tempo, recebeu McQueen para ver imortalizada, mais do que qualquer outra coisa, a posição de seus coldres, iconicamente apoiados no ombro – vide a fotografia acima. Frank Bullitt, protagonista interpretado pelo descoladíssimo Steve McQueen, logo ganharia notoriedade pelas cenas de perseguição automobilística que fazem de Velozes e Furiosos uma Via Calma. A trilha sonora que Lalo Schifrin compôs para o longa-metragem de Peter Yates também é de se admirar.

O que nos leva a Dirty Harry, ou Perseguidor Implacável, de Don Siegel e com Clint Eastwood, cujo protagonista Harry Calahan parte de Dave Toschi, àquela época já ocupado com o caso do Zodíaco. O assassino, até hoje alvo de discussões, também serviu como base para o vilão Scorpio. A trilha sonora, coincidentemente também assinada por Lalo Schifrin, não coincidentemente é também extraordinária.

Zodíaco, de David Fincher, por sua vez, foi o primeiro deles a retratar o próprio Dave Toschi, justamente durante o caso que dá título à película. No filme, um Mark Ruffalo menos rústico que McQueen e Eastwood não só se utiliza dos coldres nos ombros, como também assiste a Dirty Harry no cinema, em uma cena que faz referência direta às extrapolações de representação na ficção. O policial chegou a auxiliar a produção da obra: ele foi oficialmente listado como consultor técnico.

[Obrigado, Cassio Oliveira!]