Hipertexto: Matrix, suco de acerola com maçã

Extraído da edição 98 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

A confirmação de um quarto e provavelmente redundante, desnecessário e autorreferencial filme Matrix (trailer aqui) nos trouxe alguns insights. Brincadeira, jamais usaríamos o termo “insights“. Mas temos lá uma sequência de comentários (redundantes, desn… etc.).

1. Na opinião deste editor, Matrix (1999), das irmãs Lana e Lily Wachowski, é um baita filme, seguido de uma aporrinhação (Matrix Reloaded) e de algo desastroso (Matrix Revolutions), respectivamente.

2. Ao juntar Neuromancer com The Invisibles (talvez até demais) a partir de uma representação visual cativante, a franquia fez por merecer seu impacto na cultura popular da virada do século. Não foi (nem poderia ser) tão marcante à toa – quem lembra das inúmeras paródias de ação “estilo Matrix“?

3. É curioso que Show de Truman (1998), Cidade das Sombras (1998) Matrix e 13º Andar (1999) sejam tão próximos e carreguem temáticas tão semelhantes. Isto é, grosso modo, de que a realidade objetiva é uma farsa prestes a romper. Não há coincidência aí, nem falha na matriz.

4. “Todos os filmes de 1999 são iguais” – Matrix, Clube da Luta, Beleza Americana, Office SpaceQuero Ser John Malkovich… todos lidam com um cansaço existencial oriundo de uma estabilidade típica da época – ao menos para os americanos. Muito disso mudou há exatos 20 anos, digo, a partir de 11 de setembro de 2001.

5. Curiosamente, essa estabilidade hoje nos parece, se não utópica, bastante aprazível. Quantos cidadãos de classe média não digladiariam por esses trabalhos “chatos”, “entediantes”, “sem futuro” que ao menos sustentam um indivíduo com alguma tranquilidade? (Em oposição a, digamos, preencher um currículo para ganhar R$ 2 mil/mês [bruto] e viver com igual carência de futuro?)

6. Em 1994, o produtor japonês Towa Tei lançou Future Listening!, seu primeiro disco. Este álbum encapsula o que seria o ethos da segunda metade da década de 1990: globalização e uma ideia otimista de mundo digital. Future Listening! tem participação de Bebel Gilberto e Marcos Valle.

(6.1. O planeta inteiro já escutou Towa Tei alguma vez na vida… Pois é, é ele o de chapéu.)

(6.2. Towa Tei com Kylie Minogue e Haruomi Hosono: ‘GBI‘, 1997, certamente a melhor música da história dedicada a uma fonte caligráfica.)

7. ‘Technova‘, justamente com refrão de Bebel (em português), é uma pequena obra-prima. Claramente influenciado pelo hip hop americano – Towa Tei já morava em Nova York –, o produtor misturou bossa nova (incluindo sample de ‘Lamento’, do nosso maestro soberano) com soul e certo easy listening da década de 1960. A mistura pode ser visualizada no seguinte esquema:

Fonte: Bossa reborn: electronic bossa nova and millennial cultures of circulation, 2014.

8. Em The Love Movement (1998), A Tribe Called Quest ofereceu ao mundo ‘Find a way‘, outra bela faixa – a mais bela, por sinal, do álbum menos impressionante do grupo, cuja discografia é repleta de diamantes. De influenciadores, eles passaram para influenciados: o grupo partiu de ‘Technova’, de Towa Tei, sampleando a música do produtor japonês. Agora com uma temática mais romântica, ATCQ manteve o refrão de Bebel Gilberto, sobrepondo-o com versos de Phife Dawg (1970-2016).

9. Esta é a interseção entre Bebel e Phife:
“Lá em Copacabana que tem / Tudo de bom, tudo que é de bem / Suco de acerola com maçã / E vem do pé, meu bem”
Now you caught my heart for the evening / Kissed my cheek, moved in, you confuse things / Should I just sit out or come harder? / Help me find my way

10. Portanto, ela canta em português; ele, em inglês. Porém, a consonância é incrível: a não ser que cacemos os desencontros, não percebemos que essa criação, mediada por um japonês, trata de duas línguas diferentes. Por um breve momento, o mundo fala a mesma língua.

11. “Matrix 4”, intitulado The Matrix Resurrections, será lançado em 22 de dezembro.

Hipertexto: queimando um milhão em nome de… algo

Extraído da edição 92 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

O conceito de loucura é definido e disputado há tempos num bolo que envolve medicina, psicologia, Michel Foucault, meu pau de óculos e a importantíssima luta antimanicomial. Um consenso que parece atravessar todas essas instâncias é o de que alguém que literalmente queima dinheiro só pode estar louco.

Em 23 de agosto de 1994, Bill Drummond e Jimmy Cauty, a dupla de artistas do K Foundation (ex-The KLF), queimaram um milhão de libras esterlinas para a performance de arte K Foundation Burn a Million Quid.

Dinheiro vivo, real (um parêntese, aliás, para a gíria Quid, que no inglês britânico é usada para se referir à libra, e que deriva do latim quid pro quo, algo como “tomar uma coisa por outra”, de onde deriva também a expressão em português “quiprocó”, familiar a todo fã de Los Hermanos).

A performance virou um filme, as cinzas do dinheiro queimado viraram um tijolo – que depois também virou um filme – e, com o tempo, as explicações dos dois artistas para essa loucura ficaram cada vez mais lacônicas e arrependidas.

Drummond e Cauty formaram o duo The KLF (não confundir com KLB), produtores de um poperô de qualidade que fez um sucesso estrondoso no início dos anos 1990. Impostos deduzidos, no ano de 1992, quando eles se aposentaram precoce e mui artisticamente do mundo da música, ainda havia algo em torno de 1 milhão de libras esterlinas.

Esse dinheiro todo, que foi para a K Foundation, deveria ser utilizado em projetos artísticos e, principalmente, para o apoio de artistas fudidos.

Mas, como tão bem colocou Drummond, eles perceberam que o principal fator para ser um artista fudido é justamente a parte de ser mal pago. Em nome da arte, portanto, esse dinheiro não seria dado a ninguém – ele se tornaria o próprio material das obras.

Foi assim que eles começaram a contactar galerias de arte e pensaram em planos grandiloquentes de exposições, como a Nailed to the Wall, em que o dinheiro seria pregado à parede, ou a ideia de uma exposição itinerante pela União Soviética com um milhão de libras (abandonada provavelmente pela falta de fé das seguradoras).

Drummond e Cauty já tinham um histórico piromaníaco, o que contribuiu para que a ideia de simplesmente queimar o dinheiro fosse tomando forma e virasse uma performance intimista numa casinha da ilha de Jura, na Escócia.

O jornalista Jim Reid (não confundir com… Jim Reid) foi o único a acompanhar a hora inteira em que o dinheiro queima – parte dele saiu voando, em brasa, para o delírio da comunidade vizinha –, enquanto uma câmera filma o processo. Esse vídeo foi exibido por cerca de um ano e, depois, destruído para sempre (aparentemente, um deles guardou uma cópia), dando início a um período de 23 anos de moratória em que os artistas não falariam sobre o assunto.

Em 2017, houve um debate promovido pelo duo de artistas durante o lançamento de 2023, trilogia de livros de ficção científica.

Hoje, os arteiros são lembrados sempre como aqueles que queimaram um milhão de pilas e ensaiam declarações menos artísticas e mais reticentes sobre a razão que leva alguém a queimar um milhão de pilas. Quem os conhece diz que nunca mais foram os mesmos.

por Marceli Mengarda

Hipertexto: Varg Vikernes

Extraído da edição 42 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Eis um conjunto de histórias bastante conhecido entre os fãs de black metal norueguês – eles são vários, aliás. Poucas bandas, afinal, incluem em sua linha do tempo [SPOILER] não só um suicídio de reações mórbidas, mas também um assassinato entre integrantes. Falemos, então, do Mayhem, cujas lendas tomaremos todas como verdade absoluta nesta pequena introdução.

Entre as décadas 1980 e 1990, o líder do grupo era o sueco Per Ohlin, mais conhecido como Dead, cuja infância havia sido marcada pelos minutos em que esteve clinicamente morto graças a uma ruptura do baço. Para entrar no Mayhem, Dead enviou à banda uma fita acompanhada por uma carta e um rato crucificado. Ele usava camisetas com anúncios de funeral, raramente se alimentava e visava, nos shows, a parecer o mais próximo possível com um cadáver.

O vocalista não só enterrava as roupas antes de usá-las, como chegou a pedir para ser enterrado antes de uma apresentação. Dead guardava um corvo morto consigo, além de pássaros igualmente sem vida embaixo de sua cama. Cortar-se no palco restava como mera extensão, e arremessar cabeças de porco no público servia para afastar os fãs que lá estavam de pagação.

Em 1991, três dos quatro integrantes do Mayhem dividiam a moradia de uma casa na qual costumavam ensaiar. Conta-se que Euronymous, guitarrista – guarde este nome –, atiçava as ideias suicidas de Dead, bem como as corriqueiras automutilações. Em dado momento, Dead cortou os próprios pulsos e deu um tiro de shotgun na própria face. Dead deixou um recado em que pedia desculpas por dar um tiro dentro do lar – “perdoem o sangue” era a primeira frase.

As consequências realmente perturbadoras estão apenas começando: antes de comunicar a polícia, Euronymous rearranjou alguns elementos daquele cenário e o fotografou com uma câmera descartável. Também utilizou partes do cérebro de Dead em um ensopado – com o crânio, fez colares, os quais foram entregues a outros músicos como presente.

As reações do guitarrista se tornaram grotescas até para o padrão da banda: Necrobutcher, o baixista, afirmou que foi informado do suicídio de Dead com uma ligação de Euronymous, que se limitou a narrar que “Dead fez algo muito legal! Ele se matou. Relaxa, eu tenho fotos de tudo”. Necrobutcher deixou o grupo. Anos depois, uma das fotografias do suicídio foi utilizada como capa de um álbum bootleg, não lançado oficialmente pelo próprio Mayhem. Não direcionaremos à imagem: se você fizer questão, procure no lamaçal da internet.

Com apenas guitarrista e baterista remanescentes, Euronymous fundou uma loja de discos e gravadora em Oslo, na qual costumava se reunir com outros nomes da cena, dentre os quais Varg Vikernes, do Burzum, o qual viria a se notabilizar pelas acusações de queimar igrejas. Apesar de não ter sido oficialmente culpado, uma onda de incêndios a igrejas norueguesas no início dos anos 1990 foi atribuída a ele. Foram mais de 50 depredações até 1996 por parte de um grupo que não ia muito com a cara do cristianismo. Uma das igrejas queimadas chegou a ser capa do EP Aske (cinzas), do Burzum.

A relação entre Euronymous e Vikernes se fortaleceu, este último surgindo como um pupilo na vida do primeiro. Vikernes foi convidado para participar de um reformulado Mayhem, enquanto Euronymous colaborava com as gravações do Burzum. Aparentemente, ambos competiam para ver quem era o mais cabuloso.

Em 1993, Vikernes conseguiu exponenciar a atenção dada ao black metal: ao conseguir uma entrevista com o jornal BT, ele assumiu responsabilidade pelas igrejas queimadas, bem como anunciou que, enquanto adorador do diabo, o mau estava apenas começando. A entrevista ocupou a primeira página do periódico em 20 de janeiro. O músico, que manteve o intuito de meramente tocar terror, foi preso logo em seguida. “[A prisão] é completamente ridícula. Eu pedi para a polícia me jogar em um calabouço de verdade e também os encorajei a usar violência”. Por falta de evidência, foi solto ainda em março.

Essa não seria a única passagem de Varg Vikernes pela prisão, o que nos leva ao desfecho dessas narrativas ramificadas. Após a repercussão da entrevista, Euronymous fechou sua loja de discos. Enquanto isso, cresciam as tensões entre a dupla, a ponto de, em agosto, Vikernes visitar Euronymous e, bom, assassiná-lo com 23 facadas (duas no rosto, cinco no pescoço e 16 nas costas). Nesta entrevista, ele se justifica. O documentário Until the Light Takes us (2008), aliás, acompanha todo esse período de exposição do black metal norueguês.

Ao todo, foram 15 anos de encarceramento, entre 1994 a 2009. Com seu projeto Burzum, Vikernes lançou dois discos na prisão, Dauði Baldrs (1997) e Hliðskjálf (1999). Apenas sintetizadores foram utilizados: ele não tinha acesso a guitarras, baixos ou baterias. Varg Vikernes ainda compõe músicas e tece comentários políticos. Ele vive com esposa e filhos em uma fazenda e, tecnicamente, pode ser considerado um youtuber.

Hipertexto: Highbury

Extraído da edição 42 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Em 1992, o Arsenal, clube londrino de futebol, reformava o Highbury, seu estádio. O North Bank, setor norte do lar do clube, deixava de ser um standing terrace – onde torcedores ficam em pé, apoiados em algumas barras de metal – pra dar lugar a confortáveis cadeiras dispostas em dois andares. Enquanto a obra acontecia, a seção foi desativada e foi montado um painel pintado que simulava a torcida, transformando a área de trás de um dos gols num paredão, como mostra a foto a seguir.

Além do efeito visual curioso em um estádio de futebol, o conteúdo do painel se mostrou bastante controverso: primeiro, foi criticado por não ter negros o suficiente (o Arsenal era o time com a maior torcida entre negros na Inglaterra). A pintura foi então alterada para corrigir o erro. Pouco depois foi levantada a questão de que havia crianças aparentemente sozinhas, ou perto de adultos que não pareciam ser seus pais. Assim, todas as crianças foram colocadas perto de adultos e pintadas da mesma cor do adulto mais próximo. Mas notaram que nenhuma criança estava perto de mulheres, e que mulheres estavam sub-representadas no geral.

Mil mulheres foram adicionadas, incluindo moças portando sarisburkas e vestimentas tradicionais africanas. Quatro freiras foram inseridas, sendo que uma delas foi atingida no rosto por um chute de Lee Dixon no primeiro jogo. Cinquenta sikhs também foram adicionados, com suas tradicionais espadas cerimoniais, que foram mais tarde retiradas por recomendação da polícia.

Mais tarde, houve rumores de que a pintura tinha sido alterada novamente, para adicionar mais homossexuais. Embora isso não tenha sido feito, chegaram reclamações de que gays haviam sido colocados perto de mulheres e crianças. O clube, junto a organizações de direitos homossexuais, soltou uma nota dizendo que nenhuma alteração tinha sido feita, e que gays não têm aparência diferente das outras pessoas, e não são uma ameaça a mulheres, crianças ou partidas de futebol.

Steve Bould, ícone do Arsenal durante os anos 1990, conta um pouco de sua experiência com o painel em uma entrevista: “o mural era esquisito: todas aqueles rostos pintados, em silêncio, olhando pra você. No primeiro jogo com ele, estávamos ganhando do Norwich de 2 a 0 e perdemos de 3 a 2 no fim. Isso resume bem como era o sentimento de jogar em frente àquele painel”. Um trecho de uma partida com o paredão pintado pode ser visto aqui.

O mural veio abaixo no ano seguinte, com a conclusão das obras. Não deixou saudades.