Hipertexto: Jimmy Glass

Extraído da edição 43 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Jimmy Glass

Entre as infinitas maluquices proporcionadas pelo esporte, especificamente no futebol, o gol de Jimmy Glass, em maio de 1999, figura entre as mais marcantes. Glass não era um grande atleta, tampouco viria a sê-lo. Aliás, também não ocupava o posto de titular, ídolo ou qualquer outra honra. Seu gol não garantiu título algum e seu clube não era nada expressivo. Muito pelo contrário: o arqueiro defendia as cores do Carlisle United, que lutava contra o rebaixamento da quarta divisão inglesa.

A queda para a quinta divisão significaria uma redução às ligas semiprofissionais. O Carlisle, desesperado na última rodada da competição, precisava derrotar o Plymouth Argyle para se manter no círculo profissional dos torneios ingleses, a Football League, onde já fardava havia 71 anos. Glass fazia apenas sua terceira aparição pelo Carlisle, isso porque um goleiro havia sido negociado e o outro havia se lesionado. A mágica de Jimmy Glass se deu a meros 10 segundos do fim, o único scenario de desespero que permite a goleiros a insanidade de almejar o gol adversário.

Em uma cobrança de escanteio, Glass aproveitou rebote do guarda-redes adversário para empurrar a bola na caixa por meio de uma finalização rasante. Narradores, torcedores e quaisquer espectadores foram à loucura, e os pouco mais de 7 mil torcedores que aquilo testemunhavam no Brunton Park logo invadiram o gramado (foto), em atitude inquestionavelmente espontânea. Jimmy Glass, desprovido de qualquer grandeza em seu contexto, precisou de 10 segundos para protagonizar um dos episódios mais marcantes da história do futebol.

Na temporada seguinte, o Carlisle quase caiu novamente. Por sua vez, o improvável herói Jimmy Glass, que sequer permaneceu no clube, rodou entre várias equipes inexpressivas até se aposentar em 2001, com apenas 27 anos. Glass se tornou vendedor, e depois taxista. Também chegou a se viciar em apostas, mas, segundo ele, toda ansiedade negativa se foi graças a um casamento feliz, o qual lhe concedeu dois filhos. O ex-goleiro lançou uma autobiografia, cujo título, One hit wonder, não poderia ser mais apropriado.Nenhuma sequência de elementos ordinários, no entanto, colocaria e colocará em xeque aquele mísero fragmento de tempo em que Jimmy Glass se tornou eterno.

As chuteiras do fatídico jogo figuram no National Football Museum, em Manchester.

Hipertexto: Highbury

Extraído da edição 42 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Em 1992, o Arsenal, clube londrino de futebol, reformava o Highbury, seu estádio. O North Bank, setor norte do lar do clube, deixava de ser um standing terrace – onde torcedores ficam em pé, apoiados em algumas barras de metal – pra dar lugar a confortáveis cadeiras dispostas em dois andares. Enquanto a obra acontecia, a seção foi desativada e foi montado um painel pintado que simulava a torcida, transformando a área de trás de um dos gols num paredão, como mostra a foto a seguir.

Além do efeito visual curioso em um estádio de futebol, o conteúdo do painel se mostrou bastante controverso: primeiro, foi criticado por não ter negros o suficiente (o Arsenal era o time com a maior torcida entre negros na Inglaterra). A pintura foi então alterada para corrigir o erro. Pouco depois foi levantada a questão de que havia crianças aparentemente sozinhas, ou perto de adultos que não pareciam ser seus pais. Assim, todas as crianças foram colocadas perto de adultos e pintadas da mesma cor do adulto mais próximo. Mas notaram que nenhuma criança estava perto de mulheres, e que mulheres estavam sub-representadas no geral.

Mil mulheres foram adicionadas, incluindo moças portando sarisburkas e vestimentas tradicionais africanas. Quatro freiras foram inseridas, sendo que uma delas foi atingida no rosto por um chute de Lee Dixon no primeiro jogo. Cinquenta sikhs também foram adicionados, com suas tradicionais espadas cerimoniais, que foram mais tarde retiradas por recomendação da polícia.

Mais tarde, houve rumores de que a pintura tinha sido alterada novamente, para adicionar mais homossexuais. Embora isso não tenha sido feito, chegaram reclamações de que gays haviam sido colocados perto de mulheres e crianças. O clube, junto a organizações de direitos homossexuais, soltou uma nota dizendo que nenhuma alteração tinha sido feita, e que gays não têm aparência diferente das outras pessoas, e não são uma ameaça a mulheres, crianças ou partidas de futebol.

Steve Bould, ícone do Arsenal durante os anos 1990, conta um pouco de sua experiência com o painel em uma entrevista: “o mural era esquisito: todas aqueles rostos pintados, em silêncio, olhando pra você. No primeiro jogo com ele, estávamos ganhando do Norwich de 2 a 0 e perdemos de 3 a 2 no fim. Isso resume bem como era o sentimento de jogar em frente àquele painel”. Um trecho de uma partida com o paredão pintado pode ser visto aqui.

O mural veio abaixo no ano seguinte, com a conclusão das obras. Não deixou saudades.

Lista: grandes apelidos do futebol

Extraído da edição 39 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

He-Man (Rafael Moura)
Ibracadabra
McLaren
Doutor Sócrates
Adriano Imperador
La Bestia (Júlio Baptista)
Diabo Loiro (Paulo Nunes)
Dirceu Flecha Loira
Ronaldo Fenômeno
Euller Filho do Vento
Loco Abreu
Harry Pottker
Edílson Capetinha
Major Galopante (Puskas)
La Brujita (Verón)
Washington Coração Valente
Túlio Maravilha
Tigre da Vila (Saulo)
Edmundo Animal
La Pulga (Lionel Messi)
Hernane Brocador
Douglas Barriga de Cadela
Ruy Cabeção
Zidanilo
Quinto Beatle (George Best)
Vágner Love
Fabuloso (Luís Fabiano)
El Tanque (Santiago Silva)
Aloísio Boi Bandido
Aloísio Chulapa
Valdir Bigode
Émerson Sheik
Marcelinho Pé-de-Anjo
Robinho Rei da Pedalada
Hernanes Profeta
Magnata (Magno Alves)
Diamante Negro (Leônidas da Silva)
Donizete Pantera
Novo Zidane (qualquer meia habilidoso francês e/ou argelino)

[por Rômulo Candal, com adições nossas. Os exemplos ruins são nossos.]