Baú: Tom Jobim

Extraído da edição 85 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Eu digo por razões dialéticas: a proximidade do mar, o fato do João [Gilberto] ser baiano, o fato do Vinicius [de Moraes] ser um homem culto. Eu acho que houve uma série de circunstâncias para que isso [bossa nova] acontecesse. No Rio de Janeiro ainda existe uma influência climática, uma vagabundagem, certa folga que favorece a criação. Aqui é o pindorama. Você não pode compor “No rancho fundo” em Nova Iorque, não pode. Você pode compor como memória: Guimarães Rosa, por exemplo, escreveu grande parte de sua obra na Alemanha, João Cabral de Mello Neto em Barcelona. Mas o que eles traziam dentro? Quer dizer, o sujeito escreve como memória. É possível que eu vá pra Moscou, fique num quarto de hotel e faça um choro autenticamente carioca. Mas isso é pelo que eu tenho dentro da cabeça. Você não pode se descartar do seu meio. Eu nunca fiz outra música que não música brasileira, porque é o melhor que a gente sabe fazer. (…)
O Villa-Lobos, por exemplo, dizia que era o último dos grandes músicos. Tive a felicidade de conhecê-lo e creio que ele queria dizer com isso, que um músico no sentido que ele foi cada vez se torna mais difícil no mundo de hoje, entende? A música passa a se tornar uma arte visual, ligada a gestos, roupas, imagens, atitudes, política e tudo o mais. A gente pergunta: mas qual é o meio de se ouvir uma sinfonia? Radinho de pilha ou televisão? Esses dois meios são inadequados. Como você vai ouvir a Sagração da primavera no radinho do carro? Você pode, mas está perdendo 90% do conteúdo sonoro.
A música exige uma atenção por parte do ouvinte que hoje em dia não tem mais tempo. Ainda outro dia li no jornal que tudo que tem mais de cinco minutos de existência deve ser destruído. Quer dizer, toda obra que exige muito tempo, como um romance por exemplo. Você vê, nós pensamos hoje em dia em termos de leitura dinâmica, de informação, de passar a vista em quatro ou cinco jornais, três revistas e se libertar daquilo o mais rapidamente possível e, ao mesmo tempo, estar informado para estar por dentro, não é? Eu não creio que essas coisas levem à criatividade. O indivíduo que sofre de superinformação, de superalimentação, de supertrabalho, de superócio, ele está sempre dirigido, entende? E as pessoas são dirigidas muito facilmente, o que é lamentável descobrir, não é fato? (…)
Sinto uma padronização e diversificação de quase tudo. Muitas vezes, os jovens que se dizem livres e que almejam a liberdade estão todos se vestindo igual, tendo as mesmas atitudes, o que nos faz supor que eles não sejam tão livres assim. (…) O sujeito acreditar em ideias é um problema, o raciocínio comparativo é falso. O dar nome às coisas prejudica a compreensão: quer dizer eu chamo Maria de Maria, e penso que conheço Maria, quando Maria não é nada disso.

Antonio Carlos Jobim, 1968 (!). Encontros: Tom Jobim. Frederico Coelho e Daniel Caetano (org.). Azougue Editorial, 2011.

Baú: Thomas E. Skidmore

Extraído da edição 84 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

O golpe de 10 de novembro foi o triunfo do desejo de Vargas, evidente havia muito tempo, de permanecer no cargo além do mandato legal, que expiraria em 1938. Desde 1935 ele empurrava os adversários para uma posição em que lhe fosse possível desacreditá-los ou refreá-los, ao mesmo tempo que, cuidadosamente, cultivava o apoio de bem estabelecidos grupos de poder, como os cafeicultores e a cúpula militar. Para apaziguar os cafeicultores, por exemplo, em outubro de 1937 Vargas havia baixado o teto dos preços do café brasileiro, num esforço para aumentar as vendas (e, quem sabe, a renda total das exportações) no exterior. No que dizia respeito aos militares, o comando do Exército planejava uma solução autoritária para a crise política brasileira desde a revolta comunista de novembro de 1935. A cúpula militar achava que o Brasil não tinha capacidade para aguentar a confusão e a indecisão da disputa política aberta, e amedrontava-se com a possibilidade de novos avanços dos radicais de esquerda – que, se um dia chegassem ao poder, poderiam acabar com o papel de árbitro supremo dos conflitos políticos exercido pelas Forças Armadas. No fim das contas, o golpe de 1937 foi possível porque a classe média, esse pequeno mas importante grupo social capaz de assegurar o equilíbrio de qualquer sistema de eleições livres restrito a eleitores alfabetizados, estava confusa e dividida. Alguns eleitores de classe média continuavam leais a seu tradicional constitucionalismo liberal, e depositaram suas esperanças em Salles Oliveira na campanha de 1937. Outros, perdida a confiança em seu liberalismo original, voltaram-se para o radicalismo de esquerda ou de direita. Ao fazer isso, admitiram na prática que a fórmula liberal já não se aplicava ao Brasil e que estavam, portanto, preparados, ainda que inconscientemente, a aceitar, quase sem protesto, o tipo especial de autoritarismo que Vargas impôs, de súbito, em novembro de 1937. O golpe de novembro de 1937 fechou o sistema político. E todas as questões de força eleitoral nas eleições marcadas para janeiro de 1938 se tornaram acadêmicas.

Thomas E. Skidmore, Brasil: de Getúlio a Castello (1930-64), 1967 (Companhia das Letras, 2010).

Hipertexto: After Hours, o esquecido de Scorsese

Extraído da edição 82 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Em noites de confinamento – voluntário ou por inércia –, a imagem das ruas vazias da cidade têm me lembrado de After Hours (Depois de Horas), não um disco recente, mas o filme de Martin Scorsese, lançado em 1985.

After Hours me fez gostar de cinema, isto é, não de “ver um filme”, mas de apreciar a imagem, a edição, a trilha sonora, as pontas amarradas de uma história; enxergar aquela arte como uma linguagem própria. O estalo começou ali, na adolescência.

Trata-se, claro, de conclusões retroativas: não tive uma epifania e/ou passei a dedicar a vida ao Expressionismo alemão no Ensino Médio (nem agora). Mas o território começava a ganhar um mapa; um esboço de mapa. Por isso, Depois de Horas, além de seu valor intrínseco, puxa um valor afetivo.

Como toda curiosidade genuína, esta nasceu com a guarda baixa, não contaminada pela pretensão. Lembro de ligar a televisão (cinza, de tubo) no início da madrugada e, por acaso, parar no canal que transmitia After Hours.

Não sabia que aquele era um filme de Scorsese, o que tampouco faria diferença, porque ‘scorsese’ podia muito bem ser o nome de um molho, à época. Também não saberia descrever a função de um diretor. Hoje, me impressiona quanto não ouço grandes menções à película quando o assunto é a filmografia desse brilhante contador de histórias.

No entanto, havia uma magnetismo naquelas imagens, mesmo que jurássicas do ponto de vista de um adolescente. Tudo se passava à noite, porém uma noite estranha, com personagens fascinantes, pitorescos. Nenhum cenário ou sujeito daquela trama poderia existir sob a luz do dia.

Exceto o protagonista, Paul, interpretado por Griffin Dunne (recentemente, ele apareceu na extraordinária Succession). Paul é um eterno deslocado no enredo, atirado como uma bola de pinball entre um desconforto e outro – o que faz de sua jornada tão cativante.

Em Nova York, nosso herói conhece uma mulher e combina de encontrá-la após o trabalho. A partir daí, surgem problemas que, ao invés de soluções, acarretam novos problemas. Até porque a verdadeira protagonista de After Hours sequer é Paul, mas a própria noite, com seu eterno mistério e a não linearidade exclusiva às sombras.

Flutuando por cenários típicos de Edward Hopper, mas com enorme sensibilidade cômica, Scorsese costurou um filme de Alfred Hitchcock a seu modo – podemos chamar de paródia. São premissas literalmente fascinantes, pois geram um deslumbramento, uma curiosidade que leva à aproximação.

Talvez esse efeito seja amplificado agora, quando não conseguimos nós mesmos testemunhar qualquer não linearidade na magia da noite. Afinal, não há magia: travados no tempo, resta o resgate de elementos queridos. After Hours é um deles.

Hipertexto: Mère Louise, um cabaré western em Copacabana

Extraído da edição 79 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Mère Louise, na esquina à direita, no início do século 20.
Foto: Augusto Malta. Fonte: Rio de Janeiro Aqui.

1907, Rio de Janeiro, Copacabana. Muito perto de onde seria o Forte de Copacabana, que ainda não existia (ele foi inaugurado em 1914), exatamente na esquina das atuais R. Francisco Otaviano e Av. Atlântica. Ali funcionava o Mère Louise, restaurante de frutos do mar administrado pela francesa Louise Chabas.

“Restaurante” é uma simplificação. O Mère Louise era um verdadeiro cabaré parisiense, um café dançante à beira-mar carioca. Lembrando que o Rio de Janeiro ainda era a capital do Brasil – e seguia um forte processo de urbanização.

Segundo Ruy Castro, em A Noite do Meu Bem, o estabelecimento funcionava “ao estilo de um saloon do Oeste americano, com varanda, portas em vaivém dando para o salão, piano, balcão, espelho e mesas, tudo em torno de uma cadeira de balanço da qual Madame Louise controlava o movimento. Apesar do ambiente mais propício a vaqueiros, seus clientes eram a nata letrada e boêmia do Rio: políticos, ministros de Estado, diplomatas, artistas e jornalistas, alguns acompanhados de ‘amigas’ ou admiradoras”.

Havia shows, havia comida, havia diplomacia e baixaria. Mas, principalmente, havia serviço – à noite, permanecia sempre aberto – e havia logística – os bondes próximos rodavam até as duas da manhã (podemos ver trilhos na imagem que abre o texto). A seguinte imagem, também do incrível Augusto Malta e também retirada do canal Rio de Janeiro Aqui, mostra o cabaré mais de perto, já num cenário mais urbanizado, com iluminação. Nela, vemos a Av. Atlântica e a praia à direita.

Para as emergências, também havia quartos. “Louise conhecia a todos pelo nome e ia de mesa em mesa, falando com cada um. Tal intimidade tornava natural que, em emergências, ela cedesse – pela escorchante diária de 6 mil-réis – discretos aposentos nos fundos para quem precisasse ‘repousar'”, ainda de acordo com Castro.

Movimentado por figurões, o estabelecimento era visado. As brigas eram comuns; os tiroteios, pouco raros. A atratividade da região também trazia um problema um tanto incontornável: alguns clientes, depois de encher o bucho e a cara, entravam no mar. O resultado é óbvio.

Idosa – mas, principalmente, cansada de confusões e de calotes –, Louise Chabas vendeu o local em 1911. O Mère Louise sobreviveu até o início da década de 1930, quando foi demolido e deu lugar ao Cassino Atlântico. Hoje, ali existe o Shopping Cassino Atlântico. Chabas se aposentou, instalou-se num asilo, desistiu da aposentadoria e administrou outros estabelecimentos. Morreu em 1918, aos 73 anos.

Dezoito menos um

O que este civil garboso faz no meio dos militares da Revolta do Forte de Copacabana, em 1922? Qual é a relação desse evento com o Mère Louise? Pela última vez (hoje!), emprestamos um trecho de Ruy Castro:

Na tarde do dia 5 de julho de 1922, em que dezoito oficiais e soldados rebeldes deixaram o Forte de Copacabana para se bater até a morte contra as forças do governo de Epitácio Pessoa – os “18 do Forte” –, o Mère Louise não tinha por que se meter. Aliás, tudo recomendava a neutralidade. Mas, quando os militares passaram pela sua porta, um de seus clientes, o gaúcho Otavio Corrêa, veio lá de dentro, chegou à calçada e lhes fez um aceno. Estava aderindo à rebelião e queria uma arma. O tenente Newton Prado acedeu e entregou-lhe um fuzil Mauser. Corrêa juntou-se a eles e, na mais famosa foto que se fez da marcha, pode-se vê-lo de terno escuro e chapéu-chile – o único civil da foto –, na primeira fila. Talvez por isso tenha sido um dos primeiros a ser abatido, antes mesmo que chegassem à rua Bolívar. Com isso, o Mère Louise tinha agora um mártir.

Nem sempre o espírito de quem acaba de ser motivado por Cristiano Ronaldo gera resultado.

Hipertexto: o escritório onde gostaríamos de procrastinar…

…ou até trabalhar. Elegantemente.

Extraído da edição 77 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

A essa altura de 2020, qualquer comentário sobre 2020 é redundante, repetitivo; uma retroalimentação entre cansativo e cansado. A Enclave te poupará (mas, principalmente, se poupará) de qualquer análise.

Mas houve bons momentos em 2020, naturalmente. Entre aqueles agradáveis e singelos na vida do editor, consta a descoberta acidental de um livro sobre o arquiteto Frank Lloyd Wright (Wright, 2006) escrito por seu aprendiz Bruce Books Pfeiffer (1930-2017) e editado pela Taschen.

O livro foi traduzido para o português (de Portugal), então distribuído no Brasil pela Paisagem. Não sei como foi parar no canto escuro de um sebo pouco charmoso do centro de Curitiba, onde eu havia entrado para buscar outra encomenda e, com a adição de 18 reais, saí com duas. (Aparentemente, ainda há opções baratas no mercado.)

De acordo com a folha de rosto, Wright: construir para a democracia foi impresso em Singapura, o que, em outra descoberta acidental, nos liga à última Enclave. Pois bem, se semana passada sonhamos com coquetéis no Atlas Bar, hoje trazemos a matriz da SC Johnson em Racine, Wisconsin (EUA).

Finalizado em 1939, o edifício contém esse escritório que você vê na abertura do nosso texto. Mas a criação de Wright vai muito além do escritório (embora este nos cative mais no atual momento): o edifício, complementado por uma torre de pesquisa em 1950, é tão singular como encantador, interna e externamente.

Segundo Pfeiffer (p. 57), “Na sala de trabalho principal, uma floresta de finas colunas brancas de betão eleva-se para se abrir em cima e formar o tecto, sendo os espaços entre os círculos cheios de clarabóias feitas de tubos de vidro. Nos cantos, onde as paredes normalmente encontram o tecto, estas param um pouco mais abaixo, sendo continuadas por tubos de vidro que se ligam às clarabóias”.

O Arch Daily descreve o Johnson Wax da seguinte forma:
  • “Estar no edifício é um pouco como estar em uma floresta. Um estacionamento mais baixo, com colunas menores, leva ao saguão. Quando alcança-se a Grande Sala, o céu se abre e você está cercado por esbeltas colunas cogumelos e raios de luz. (…) Wright forneceu espaço de trabalho quase utópico, auto-suficiente e um tanto quanto futurista. A atmosfera moderna e racional foi comunicada através de uma linguagem circular consistente, perfis de canto curvos, formas arredondadas em peças de mobiliários e o uso do vidro Pyrex, que se estendem além dos materiais de cobertura para divisórias de paredes e substituem as janelas convencionais.”

Tal como o bar em Singapura, as fotografias são autoexplicativas. Nesse escritório, gostaríamos de usar o YouTube, reclamar da falta ou do excesso de ar-condicionado, decidir onde almoçar, ouvir fofocas sobre o alto escalão corporativo (sem fomentá-las!), isto é, tudo aquilo que se faz num escritório.

Esta página institucional da SC Johnson contém um histórico e mais fotos, algumas bastante preciosas. O Atlas of Space, por sua vez, dispõe imagens inestimáveis aos interessados – em alta resolução. Dele, extraímos as fotografias no miolo deste texto. Outra página do Arch Daily (aqui, em inglês) apresenta mais imagens e mais detalhes da construção.

Hipertexto: Brasília, poema sinfônico

Extraído da edição 73 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Ainda encantado com a música brasileira, deparei com um evento até então desconhecido para meu limitado repertório. Diante de minha surpresa, consultei alguns amigos para averiguar se fui o último no planeta a conhecer Brasília: Sinfonia da Alvorada (1959). Concluí que a descoberta, mesmo longe de obscura, é suficientemente esquecida para justificar meu espanto.

A obra, pois, consiste em um poema sinfônico escrito por Vinicius de Moraes e composto por Tom Jobim. A criação foi incentivada (mas, tecnicamente, não encomendada) por Juscelino Kubitschek – em razão da inauguração de Brasília (DF), em 1960. Ela é dividida em cinco movimentos: I. O planalto deserto; II. O homem; III. A chegada dos candangos; IV. O trabalho e a construção; V. Coral.

O LP, gravado em 1960 e lançado em 1961, teve encarte de Oscar Niemeyer, que já havia trabalhado no cenário da peça Orfeu da Conceição, de Vinicius (a mesma que virou filme, teve trilha sonora de Jobim e cujo longa-metragem inspirou Bong Joon-ho). Na gravação, a voz que declama é do próprio Vinicius.

Curiosamente, a sinfonia só foi apresentada ao público em 1966, na TV Excelsior. Em Brasília, isso aconteceu apenas em 1986 – seis anos após a morte do Poetinha. Para contextualizar a criação, passo a palavra ao próprio Vinicius de Moraes, em relato disposto no encarte da obra. (Quem quiser ir mais a fundo pode ler esta dissertação).

Esboçado o plano da obra, partimos para Brasília a fim de estruturar temas e poemas em contato humano  com  a  cidade.  Hóspedes  do  “Catetinho”,  hoje  tombado  como  monumento  histórico,  olhávamos  de  nossa  sala-de-trabalho  –  a  mesma  em  que  o  Presidente  Kubitschek  assinou  seus  primeiros  atos  na  nova  capital  –  a  silhueta  quase  sobrenatural  da  cidade  na  linha  extrema  do  horizonte,  recortada  contra  auroras  e  poentes  de  indizível  beleza.  De  madrugada,  enquanto  víamos congelar-se no ar frio o jato ascencional do Boeing-707, escutávamos também o piar das perdizes  e  dos  jaós,  entre  as  surdas  rajadas  intermitentes  do  vento  do  altiplano.Havia  em  nós  essa  tristeza  que  nasce  da  beleza,  e  pavilhávamos  os  capões  de  mato  com  a  sensação  do  irremediável do tempo. Jobim, caçador experimentado e velho piador de pássaros, arremetia mais longe  do  que  eu.  Eu  voltava,  a  partir  do  lindo  ôlho  dágua  do  pequeno  bosque,  para  os  meus  intermináveis passeios na alpendrada do “Catetinho”, onde ficava a pensar o texto da Sinfonia e a esperar a comida simples e gostosa que nos dava “a patrôa” de Luciano, o caseiro: o mais antigo funcionário  de  Brasília.  Apraz-me  dizer  nunca  ouvi,  ao  longo  das  horas  em  que  Antonio  Carlos  Jobim mergulhava no mato, um só tiro perturbar o silêncio das velhas planuras. É minha impressão que o músico perdeu a coragem de chumbar seus coleguinhas alados, mesmo quando constituam ótimo comestível, como é o caso das perdizes.
(…)
Dez  dias  ficamos  assim  no  “Catetinho”,  nesse  dolce  far  niente  de  fazer  uma  Sinfonia,  com  sentinela à porta, pois a princípio os numerosos turistas punham sempre o nariz na vidraça para constatar  como  íamos  de  trabalho. (…)
Falei em piano. É fato. João Milton Prates providenciou-nos um piano que veio de Goiânia. Ajudados por Luciano e três candangos, nós o subimos a braço para o “Catetinho”, com mais mêdo de que seus degraus cedessem ao pêso do que de um enfarte do miocárdio. Naturalmente, pois o “Catetinho” é hoje um monumento histórico, e a estátua do Fundador de Brasília parecia apreensiva, sôbre o seu pedestal no terreiro em frente, com os resultados de nossa operação.

O assunto ressurgiu em entrevista de Tom Jobim a Jô Soares, em 1993 (um ano antes de o músico morrer). Jobim respondeu sobre Brasília: Sinfonia da Alvorada:

“Eu nunca escuto. Mas quando escuto, parece uma piada. Diante do que está lá… Aquele sonho do Vinicius [de Moraes], Juscelino [Kubitschek], Oscar Niemeyer; a gente acreditando, querendo o Brasil e coisa e tal… A gente fez aquilo tudo com um amor danado. Fala no planalto deserto, na chegada do homem, naqueles campos bonitos do senhor; a gente brincando nos campos do senhor. E era muito bonito. Hoje em dia, quando vejo Brasília, fico um pouco nostálgico, entristecido.”

Brasília: Sinfonia da Alvorada está disponível no Spotify e no YouTube: I, II, III, IV e V.

Oscar Niemeyer, Vinicius de Moraes, Lila Bôscoli e Tom Jobim nos bastidores da peça Orfeu da Conceição.