Baú: hippies em Woodstock (Ayn Rand)

Extraído da edição 78 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Antimaterialistas declarados cuja única manifestação de rebelião e individualismo toma a forma material das roupas que escolhem vestir são um espetáculo ridículo. De todo tipo de inconformismo, esse é o mais fácil de praticar – e o mais seguro.

Mas mesmo nessa questão, existe um componente psicológico especial: observe as roupas dos hippies. Não têm o objetivo de deixá-los atraentes, mas sim grotescos. Não têm o objetivo de despertar admiração, mas sim escárnio e pena. Ninguém se faz parecer uma caricatura a não ser que queira que sua aparência implore: “por favor, não me leve a sério”.

(…)

Seus encantamentos histéricos de adoração do “agora” eram sinceros: o momento imediato é tudo o que existe para a mentalidade de nível perceptivo, vinculada ao concreto, animalesca: compreender “amanhã” é uma enorme abstração, uma façanha intelectual disponível apenas ao nível conceitual (ou seja, racional) da consciência.

Ayn Rand, palestra “Apolo e Dionísio”, 1969. Tradução nossa.

Hipertexto: Atlas Bar, onde gostaríamos de encher a cara

Extraído da edição 76 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Fechamos este texto na sexta-feira à tarde, portanto não estranhem o conteúdo na segunda pela manhã.

Até porque 9h da manhã em Brasília são 20h em Singapura (com s), onde gostaríamos de estar – com ou sem chiclete – neste momento. Mais especificamente no imponente Parkview Square, mais especificamente no Atlas Bar.

Primeiro, o edifício. Inspirado no Chanin Building – este construído no fim da década de 1920 em Nova York –, o Parkview exala uma sofisticação art déco parte Gatsby, parte Gotham City, parte banda de jazz, parte Bioshock, parte possível excesso brega porém saudável.

Com 144 metros de altura, é apenas o 80º prédio mais alto de Singapura, mas certamente um dos mais fascinantes. Fica pertinho (5 minutos de carro, segundo o Google) do megalomaníaco Marina Bay Sands, um complexo difícil de resumir, fácil de enxergar e propício a gastar dinheiro – isto é, se você tem algum. O Parkview Square ficou pronto em 2002.

Nele, brilha o Atlas Bar, mais bem representado por imagens do que por palavras (aliás, mais fotos no Cool Hunter, de onde tiramos a primeira). Ele é, enfim, o bar onde gostaríamos de encher a cara elegantemente.

E é isso aí. A Enclave de hoje é bastante autoexplicativa.

Ok, é claro que dinheiro não traz necessariamente elegância (“a arte de não se fazer notar aliada ao cuidado sutil de se deixar distinguir”, Paul Valéry), o que não significa que ele a impeça. O Atlas Bar é o tipo de ambiente que faz você querer se vestir como um personagem de Mad Men; sua imponência intimida com reverência, não desdém.

E aquele acervo…

O bar dispõe de um dos maiores acervos de gin (com n ou m) do mundo, talvez o maior. É tão grande que os funcionários têm que basicamente voar para pegar certas garrafas (ou tinham, não sei confirmar se essa logística permanece). Entre as raridades, há até champanhe resgatado de naufrágio (e servido no Titanic, mas não resgatado de lá – aliás, eis aqui um belo vídeo do acervo do Atlas).

Mas esses materiais estupidamente caros nos interessam menos. Os apenas muito caros nos cativam mais, então quem dera sentar-se nesse salão espaçoso, sentir-se um espião na Guerra Fria (em plena “Disneylândia com pena de morte“) e saborear um lindo, refrescante e inflacionado whisky sour sob a meia-luz dos desejos – caros demais, distantes demais, inconvenientes demais – materializados.

Ah, segundo o site oficial, é proibido entrar de bermuda e/ou chinelo.

Baú: David Kelley

Extraído da edição 48 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

É por isso que precisamos de virtudes, antes de mais nada: nós não conseguimos atingir nossos fins com ações mágicas, fantasiosas ou aleatórias; nós precisamos levar em conta fatos sobre a natureza humana, o mundo em que agimos e a relação causal entre ações e resultados. Uma virtude envolve o reconhecimento de tais fatos e o compromisso de agir de acordo com eles. Assim, o orgulho é o reconhecimento do fato de que ‘o homem é um ser cuja alma se faz’: nós não conseguimos alcançar a autoestima sem que ajamos de forma com que a mereçamos. A racionalidade é o reconhecimento do fato mais básico de todos – fatos são fatos, A é A e a razão é nosso único meio de conhecimento.

David Kelley, Unrugged Individualism, 1996