Baú: Howard Marks

Extraído da edição 78 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Ouvimos muito a respeito de projeções do “pior cenário”, mas elas muitas vezes acabam não sendo suficientemente negativas. Conto uma história do meu pai sobre o apostador que perdia regularmente. Um dia, o apostador escutou sobre uma corrida com apenas um cavalo, então ele apostou o dinheiro do aluguel. No meio da pista, o cavalo pulou a cerca e fugiu. Invariavelmente, as coisas podem ficar piores do que as pessoas esperam. Talvez “pior cenário” signifique “o pior que vimos no passado”. Mas isso não significa que as coisas não podem ficar piores no futuro. Em 2007, muitos “piores cenários” foram extrapolados.

Howards Marks, The Most Important Thing, 2013. Tradução nossa.

Baú: Clarice Lispector

Extraído da edição 78 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Quando eu me comunico com criança, é fácil porque sou muito maternal. Quando me comunico com adulto, na verdade estou me comunicando com o mais secreto de mim mesma, aí é difícil… O adulto é triste e solitário. A criança tem a fantasia muito solta.

Clarice Lispector, 1977.

Baú: Chico Lopes

Extraído da edição 78 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Há algo de adolescente masturbador, sexualmente virginal ou travado e bobo nas maiores fantasias de Lovecraft, para ficar só nele, pai espiritual de toda essa gente. Livros (e filmes, claro) de terror, na verdade, impressionam mais, quando se os olha friamente, pela força que as superstições, as paranoias sexuais, os atavismos, as criações familiares rígidas e puritanas, as infantilidades persistentes, podem ter. A gente fica com a impressão de que esses autores simplesmente exorcizam, indefinidamente, infâncias povoadas por monstros que, se abertos o armário, se dissipariam, ou por criaturas demoníacas (sic) que, se o criador delas fosse mais sincero e mais audacioso ou menos indulgente com os próprios medos e hesitações, se dissolveriam depressa num ato sexual bem praticado, com o devido prazer e com o devido conhecimento de genitais que, em fantasias paranoicas, assumem até tentáculos e antenas e tecem enormes fantasias de grotesco com secreções, viscosidades, etc. O filme de terror típico sempre traz algum jovem crédulo ou tecnicamente ignorante (porque o gênero ficou decididamente adolescente) que tateia diante de uma realidade assustadora, punitiva, ligada à repressão sexual ou a algum terror racista ou xenofóbico, que lhe foi inculcado por uma educação torta, com base na excessiva correção WASP. Seus pais reais, com seus preconceitos, rigores e fanatismos (basta lembrar a mãe de Carrie, a Estranha) são muito mais horrendos e talvez sejam os únicos verdadeiros horrores a produzir outros tantos, de fantasia. A puerilidade desses livros e produções, que se prolonga e rende muito dinheiro, dá o que pensar. Para ficar apenas nos filmes que adaptam obras de Lovecraft, como são ruins! Quanto mais pomposo e “ciclópico” (é outro dos adjetivos constantes do autor) o horror, mais a tendência a ficar ridículo, risível, na tela. Só se assustam os pouco sofisticados.
Chico Lopes, Revista Germina, 2014.

Baú: Ben Macintyre

Extraído da edição 78 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Abwehr (que literalmente significa “defesa”) tinha reputação de ser o mais eficiente serviço de inteligência da Europa. Uma primeira avaliação do MI5, o serviço de segurança que controlava a contraespionagem no Reino Unido e em todo o império britânico, descreveu a Abwehr como “organização de primeira classe em treinamento e em pessoal”. Essa estimativa era claramente lisonjeira. Um dos aspectos mais importantes do serviços da inteligência nos países era como cada lado sabia pouco sobre o outro. Em 1939, o SIS, serviço secreto de inteligência britânico (também conhecido como MI6 e que opera em todas as áreas fora do território britânico), não sabia como o serviço de inteligência militar alemão se chamava e nem quem o dirigia. Em uma autoavaliação franca, escrita depois do fim da Segunda Guerra, o MI5 reconheceu que “na época da queda da França, a organização do serviço de segurança como um todo estava num estado que pode ser descrito apenas como caótico (…) tentando desenvolver meios de detectar agentes inimigos sem qualquer conhecimento interno de organização alemã”.

A Abwehr se encontrava igualmente mal preparada. Hitler não havia esperado ou desejado entrar em guerra com a Inglaterra, e a maioria das operações de inteligência dos nazistas era dirigida para o leste. A rede de espionagem da Abwehr na Inglaterra era virtualmente inexistente. Quando os dois países se enquadraram para o conflito, uma estranha dança de sombras se iniciou entre os serviços de inteligência rivais: ambos começaram a construir freneticamente redes de espiões, quase que do zero, para uso imediato. Cada um atribuía ao outro extrema eficiência e preparativos bem adiantados, e ambos estavam errados.

Ben Macintyre, Agente Zigzag, 2007 (Ed. Record, 2010).

Baú: hippies em Woodstock (Ayn Rand)

Extraído da edição 78 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Antimaterialistas declarados cuja única manifestação de rebelião e individualismo toma a forma material das roupas que escolhem vestir são um espetáculo ridículo. De todo tipo de inconformismo, esse é o mais fácil de praticar – e o mais seguro.

Mas mesmo nessa questão, existe um componente psicológico especial: observe as roupas dos hippies. Não têm o objetivo de deixá-los atraentes, mas sim grotescos. Não têm o objetivo de despertar admiração, mas sim escárnio e pena. Ninguém se faz parecer uma caricatura a não ser que queira que sua aparência implore: “por favor, não me leve a sério”.

(…)

Seus encantamentos histéricos de adoração do “agora” eram sinceros: o momento imediato é tudo o que existe para a mentalidade de nível perceptivo, vinculada ao concreto, animalesca: compreender “amanhã” é uma enorme abstração, uma façanha intelectual disponível apenas ao nível conceitual (ou seja, racional) da consciência.

Ayn Rand, palestra “Apolo e Dionísio”, 1969. Tradução nossa.