Baú: Rudyard Kipling

Extraído da edição 69 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Na cidade grande, havia um grupo de sobreviventes locais, de um contingente sul-americano, que vieram da Guerra. Eles eram alegres e sinceros, mas cada um devia carregar a própria amargura ou nostalgia por baixo de toda a jovialidade e do riso. “Brincadeiras à parte, que tipo de vida era esta para eles?”. E a resposta, com todas inserções e alusões locais, era: “É uma vida boa. Esta é uma vida boa. É claro que temos reclamações, mas no geral é uma vida tão boa quanto se pode esperar. Não há porquê afligir-se, e não há razão para desuniões, se o dinheiro levar a isso. Mas está repleta de tentações, você sabe, independente de ter-se dinheiro ou não”. Deveria-se contentar com isso. Em outra parte, um grupo distinto era formado por alguns homens, mulheres e crianças inglesas à vontade, após um dia de trabalho, em um lindo clube. Ali parecia que nos aproximávamos um pouco mais dos vestígios e meio segredos da vida. Mas as convenções – tanto pior – proíbem interrogar os passantes e perguntar a eles: “Como você vive na realidade? O que acha das coisas daqui – negócios, comércio, empregados, doenças infantis, educação e tudo o mais?”. Assim o rio de rostos fluía com suficiente placidez, e podia-se apenas imaginar o que jazia por baixo da superfície e reentrâncias.

Os brasileiros que encontrei eram interessados e completamente a par dos assuntos externos, mas estes não compunham seu mundo essencial. O Deus deles – eles caçoavam – era brasileiro. Ele dava a eles tudo o que queriam e um pouco mais. Por exemplo, uma vez quando a colheita do café excedeu os limites, Ele enviou uma geada no momento certo, que podou um quarto e equilibrou confortavelmente o mercado. E as vastas terras do interior do país estavam repletas de tudo o que se poderia querer, esperando para ser usado no devido tempo. Durante a Guerra, quando foram obrigados a prover por si mesmos metais, fibras e coisas assim, mostraram uma amostra a um índio e perguntaram: “Onde se pode encontrar mais disto?”. Então ele pôde guiá-los até lá. Mas possuir tais coisas, eles davam a entender, não implicava desenvolvimento imediato pelas concessionárias. O Brasil era um país gigantesco, com metade ou um terço inexplorado. Ele cuidaria de si mesmo no tempo certo. Pouco depois, fantasiei qualquer coisa nos bastidores, existiu uma linhagem de proprietários de terras com aversão ao mero comprador e vendedor de mercadorias, que sugeria uma origem aristocrática para a construção nacional.

Rudyard Kipling, Um mundo à parte (em Crônicas do Brasil, 1927), tradução ed. Landmark, 2006.

 

Baú: Bertrand Russell

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Mas num homem idoso que conheceu as alegrias e mágoas humanas, e que atingiu alguma obra que estivesse propenso a realizar, o medo da morte é algo abjeto e ignóbil. A melhor maneira de superá-lo – ao menos assim me parece ser – é tornar seus interesses gradualmente cada vez mais amplos e mais impessoais, até que pouco a pouco os muros do ego se afastem, e sua vida se torne crescentemente fundida à vida universal.

A existência de um indivíduo deve ser como um rio – pequeno no começo, estreitamente contido em suas margens, e correndo apaixonadamente através de pedregulhos e quedas. Gradualmente o rio se alarga, as margens se afastam, as águas correm mais calmas, e no fim, sem uma quebra visível, as águas misturam-se com o mar; e sem dor perdem sua individualidade. O homem que, na idade avançada, pode ver sua vida dessa forma, não sofrerá com o medo da morte, pois o que é importante para ele continuará.

Bertrand Russell, Como envelhecer (em Retratos da memória e outros ensaios, 1956).

Baú: Megan Abbott

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O hardboiled é diferente do noir, embora ambos sejam usados de maneira intercambiável. O argumento comum é de que os romances hardboiled são uma extensão do wild west e das narrativas pioneiras do século 19. A vastidão dá lugar à cidade, e o herói é geralmente um tipo de personagem derrubado, um detetive ou policial. No fim, tudo é uma bagunça e pessoas morreram, mas o herói fez a coisa certa ou algo próximo disso – e a ordem foi, até certo ponto, restabelecida. Law and Order é um ótimo exemplo da fórmula hardboiled em uma montagem contemporânea.

O noir é diferente. No noir, todo mundo é derrubado, e certo e errado não são claramente definidos – talvez nem mesmo atingíveis. Nesse sentido, o noir dialoga poderosamente conosco agora, quando certas estruturas de autoridade não fazem mais sentido e nos perguntamos: ‘por que nós deveríamos obedecê-las?’. O noir prosperou nos anos 1940, depois da Depressão e da Segunda Guerra, e nos anos 1970, com Watergate e o Vietnã, por razões similares.

Megan Abbott, LitHub, 2018.

Baú: Antonio Paim

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Em síntese, o Estado brasileiro é uma realidade extremamente complexa para esgotar-se em termos dicotômicos e admitir soluções simplistas.

A elite técnica, constituída no seio do Estado, corresponde a uma aspiração secular de nossa civilização. Tudo leva a crer, por isto mesmo, que não se trate de uma criação transitória.

É provável que seu conflito com a máquina patrimonialista tradicional não possa ser solucionado antes que sejam eliminados os múltiplos focos de pobreza ainda subsistente em nossa realidade social. Essa situação de carência, não se deve perder de vista, é que tem facultado uma sólida base social ao patrimonialismo brasileiro. Assim, o conflito e a tensão entre os técnicos e a burocracia estatal tampouco podem ser encarados como fenômenos transitórios.

Antonio Paim, A Querela do Estatismo, 1998, p. 157 (Senado Federal).

 

Baú: Richard Yates

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E ela jamais conseguira explicar, nem mesmo compreender, que o que adorava não era o emprego – qualquer emprego serviria –, nem mesmo a independência que o emprego lhe propiciava (embora isso fosse importante para uma mulher sempre à beira do divórcio). No fundo, o que ela adorava e precisava era do trabalho em si. “Trabalho duro”, seu pai sempre dissera, “é o melhor remédio para todos os males do homem… e da mulher”, e ela sempre acreditara nisso. A pressão, a agitação e as luzes do escritório, o almoço rápido entregue numa bandeja, o despacho de papeis, e o atendimento de chamadas telefônicas, o cansaço das horas extras e o grande alívio de tirar os sapatos à noite, num cansaço que sempre a deixava inerte, com força apenas para tomar duas aspirinas, um banho quente, comer um jantar leve e cair na cama – eis a essência do que ela adorava; era isso que a fortificava contra as pressões do casamento e da maternidade. Sem isso, conforme costumava dizer, teria enlouquecido.

Richard Yates, Foi Apenas um Sonho (Rua da Revolução), 1961. Edição brasileira da Alfaguara, 2009.

Baú: John Updike sobre Dostoiévski

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Ele estava sempre escrevendo por dinheiro, não apenas pelo dinheiro, mas porque estava desesperado para pagar dívidas. E ele escrevia rápido. E colocava sua dor nas páginas, sua necessidade de respostas, a busca por esperança e a tentativa de obter sentido nas coisas. Sua raiva, sua amargura, suas recriminações. Você não saberia dizer se ele lutava com suas forças ou fraquezas. Ele não escrevia como alguém que tenta criar um grande romance. Ele escrevia como alguém que tenta sobreviver.

John Updike sobre Dostoiévski. Extraído do perfil do escritor André Balaio, que traduziu o trecho do podcast The History of Literature. Obrigado, André!