Baú: Vladimir Nabokov

Confesso que não acredito no tempo. Gosto de dobrar meu tapete mágico depois do uso, de forma a sobrepor uma parte do padrão sobre outra. As visitas que tropecem. E o maior prazer da intemporalidade – numa paisagem escolhida ao acaso – é quando paro entre borboletas raras e as plantas de que se alimentam. Isso é êxtase, e por trás do êxtase há algo mais, que é difícil de explicar. É como um vácuo momentâneo para dentro do qual corre tudo quanto amo. Uma sensação de unicidade com sol e pedra. Um arrepio de gratidão a quem possa interessar – ao gênero contrapontista do destino humano ou aos fantasmas ternos agradando um mortal de sorte.

Vladimir Nabokov. Fala, Memória, 1967 (trad. José Rubens Siqueira; Alfaguara, 2014).

Baú: Morgan Housel

Extraído da edição 87 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

[Angus] Campbell queria saber o que deixava as pessoas felizes. Seu livro, The Sense of Well-being in America [O bem-estar nos Estados Unidos, em tradução livre], publicado em 1891, começa afirmando que as pessoas, em geral, eram mais felizes do que a maioria dos psicólogos presumia. No entanto, algumas estavam se saindo melhor do que outras nisso. E o que as diferenciava não era obrigatoriamente o nível de renda, o local em que moravam ou o grau de instrução, porque muita gente em cada uma dessas categorias era cronicamente infeliz.

O mais poderoso denominador comum da felicidade era simples. Campbell o resumiu da seguinte maneira:

Ter uma forte sensação de estar no controle da própria vida é um indicador mais confiável de sentimentos positivos de bem-estar do que qualquer uma das condições objetivas da vida a que costumamos prestar atenção.

Mais do que o seu salário. Mais do que o tamanho da sua casa. Mais do que o prestígio do seu trabalho. Poder fazer o que quer, com as pessoas com que se quer é a maior variável de estilo de vida que proporciona felicidade às pessoas.

O grande valor intrínseco do dinheiro – e nunca é demais repetir isso – é a capacidade que ele nos dá de termos controle sobre o nosso tempo. A capacidade de obter, pouco a pouco, um nível de independência e de autonomia que vem de ativos não gastos e que nos proporcionam maior controle sobre o que e quando podemos fazer. (…)

Ter o controle do próprio tempo é o maior dividendo que o dinheiro pode pagar.

Morgan Housel. A psicologia financeira, 2020 (ed. HarperCollins, 2021).