Hipertexto: Adam Worth, Napoleão do crime (parte I)

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Leitores das aventuras de Sherlock Holmes já ouviram – ou melhor, leram – essa descrição. Não é por acaso, afinal trataremos da maior inspiração para o arquivilão prof. Moriarty.

O criminoso mais brilhante do século 19 foi um baita cavalheiro, de certa forma. Adam Worth, possivelmente nascido Wirth, provavelmente nascido Werth, certamente nascido na Alemanha (em 1844), migrou cedo com sua família para os Estados Unidos.

Quando a Guerra Civil Americana estourou, em 1865, Worth já era um adolescente promissor na arte da falcatrua: ele se consolidou como um bounty jumper (saltador de recompensa, em tradução livre). Ou seja, sua atuação consistia em alistar-se tanto na União como na Confederação, e então sumir.

Conforme relata Ben Macintyre em O Napoleão do Crime (Cia. das Letras, 2000), fonte das informações e das citações deste texto:

Durante os meses seguintes, Worth estabeleceu um sistema: ele se alistava num regimento qualquer, sob nome falso, recebia a gratificação que estivesse sendo oferecida, em seguida desertava. Assim foi que vagou de um lado do esparramado exército a outro, mudando de nome a cada parada e desenvolvendo um talento para a farsa que, mais tarde, tornar-se-ia uma profissão em tempo integral.

A prática, além de obviamente malvista, era criminosa. Bounty jumpers costumavam utilizar tantas identidades quanto possível, e Worth havia contado com a sorte ao ser erroneamente declarado morto, quando ainda lutava (a princípio, de verdade) pela União, em 1862.

Após a guerra – encerrada em 1865 –, Worth se estabeleceu em Nova York, que acolhia quilingues e sevandijas de todos os tipos (o filme Gangues de Nova York, baseado em livro homônimo de não ficção de 1927, se passa basicamente nesse cenário).

As coisas começaram a decolar para Adam Worth. Primeiro praticando pickpocketing (crimes de carteirista), depois como líder de gangue. Logo foi preso, e mais rapidamente ainda fugiu. Um universo se abriu para o malandro quando Fredericka Mandelbaum o acolheu.

Poderosa matriarca do submundo, “Marm” era uma receptadora/interceptadora extraordinária, servindo como um verdadeiro sistema de conexão entre mercadorias roubadas e eventuais compradores. Perfeitamente encaixado nessa equação, Worth passou a roubar bancos, atividade na qual se destacaria pelo resto da vida.

Nesse ramo, compôs sua obra-prima (até então, vamos com calma!) em 1869, ao lado do parceiro americano Charles Bullard, o Piano Charley, e do irlandês Big Ike Marsh. Juntos, eles assaltaram o Boylston National Bank, em Boston. Para fazê-lo, elaboraram um plano engenhoso:

Fazendo-se passar por William A. Judson e Co., negociantes de tônicos de saúde, os parceiros alugaram o prédio adjacente ao banco e puseram uma divisória na frente da janela na qual estavam expostas “umas duzentas garrafas contendo, segundo os rótulos, quantidades de ‘Tônico Oriental Gray'”. “As garrafas tinham o um propósito duplo (…); o de mostrar o negócio e o de evitar que o público visse o lugar” (…).
Depois de calcular cuidadosamente o ponto onde a parede da loja era contígua ao cofre de aço do banco, os ladrões começaram a cavar. Durante uma semana, trabalhando apenas à noite, Worth, Bullard e Marsh empilharam o entulho nos fundos da loja até que, finalmente, “o cofre ficou exposto”.

Restou cortar o cofre, o que não foi tarefa fácil, tendo sido pacientemente realizada com a realização de inúmeros furos pequenos, os quais formaram um buraco de apenas 45 x 30 centímetros, pelo qual Worth entrou. De lá, começou a retirar o tesouro, que dormia guardado em baús de lata. Pela manhã, os três sumiram em uma carruagem, então pegaram um trem para Nova York.

O roubo – de cerca de 200 mil dólares – foi, sob qualquer critério, estrondoso, chocando a sociedade (e, naturalmente, trazendo dores de cabeça para a dupla protagonista na ação). Marsh logo retornou à Irlanda, onde bebeu seu dinheiro. Então voltou aos EUA e foi preso tentando assaltar outro banco.

Worth e Bullard, cientes dos riscos envolvidos – a agência Pinkerton, precursora do FBI, passou a persegui-los – decidiram rumar à Europa. Antes disso, colheram os frutos do roubo ao Boylston National Bank:

Agindo com rapidez, o par despachou os papéis roubados para um advogado (…) com instruções para esperar alguns meses, depois vender os títulos por uma fração do valor real e remeter os lucros no tempo devido. Na época esse era um método amplamente aceito de se recuperar propriedade roubada, sob as vistas da polícia, que muitas vezes ajudava a negociar o retorno dos títulos, para vantagem tanto dos donos quanto dos ladrões. “Tudo que [os ladrões] precisam fazer é entrar ‘num acordo’, o que significa abrir mão de parte dos lucros, e depois dedicar suas horas de lazer a planejas novas vilanias”, observou o Boston Sunday Times.

No Velho Continente, a vida dupla de Adam Worth começou, ou melhor, desenvolveu-se como nunca. Ali ele morreu novamente: o gentleman Henry J. Raymond – um bon-vivant, um aristocrata – tomou seu lugar. E a história de Worth/Raymond ainda notabilizaria diversos episódios, todos pitorescos.

> PARTE 2 <

Baú: Ben Macintyre

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Antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Abwehr (que literalmente significa “defesa”) tinha reputação de ser o mais eficiente serviço de inteligência da Europa. Uma primeira avaliação do MI5, o serviço de segurança que controlava a contraespionagem no Reino Unido e em todo o império britânico, descreveu a Abwehr como “organização de primeira classe em treinamento e em pessoal”. Essa estimativa era claramente lisonjeira. Um dos aspectos mais importantes do serviços da inteligência nos países era como cada lado sabia pouco sobre o outro. Em 1939, o SIS, serviço secreto de inteligência britânico (também conhecido como MI6 e que opera em todas as áreas fora do território britânico), não sabia como o serviço de inteligência militar alemão se chamava e nem quem o dirigia. Em uma autoavaliação franca, escrita depois do fim da Segunda Guerra, o MI5 reconheceu que “na época da queda da França, a organização do serviço de segurança como um todo estava num estado que pode ser descrito apenas como caótico (…) tentando desenvolver meios de detectar agentes inimigos sem qualquer conhecimento interno de organização alemã”.

A Abwehr se encontrava igualmente mal preparada. Hitler não havia esperado ou desejado entrar em guerra com a Inglaterra, e a maioria das operações de inteligência dos nazistas era dirigida para o leste. A rede de espionagem da Abwehr na Inglaterra era virtualmente inexistente. Quando os dois países se enquadraram para o conflito, uma estranha dança de sombras se iniciou entre os serviços de inteligência rivais: ambos começaram a construir freneticamente redes de espiões, quase que do zero, para uso imediato. Cada um atribuía ao outro extrema eficiência e preparativos bem adiantados, e ambos estavam errados.

Ben Macintyre, Agente Zigzag, 2007 (Ed. Record, 2010).

Hipertexto: Kim Philby

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Nascido na Índia quando essa ainda atendia por Índia britânica, Kim Philby foi um espião dos mais altos rankings da inteligência britânica. Não à toa, ele se tornou cavaleiro ao receber um OBE na década de 1940, com apenas 34 anos.

Servindo ao MI6 por décadas, Philby chegou perto de se tornar o diretor da instituição. Problemas internos o fizeram se demitir do serviço de informações em 1951, quando passava por forte investigação por parte de seus colegas, além do MI5. Somente nos anos 1960, foi confirmada a temerosa suspeita de que Kim Philby havia sido, por todo esse tempo, um agente duplo que servia tanto à KGB quanto ao NKVD.

Por décadas, ele comprometeu colegas, missões e supostos amigos, tornando-se um dos traidores mais famosos da história. “Para trair, você primeiro precisa pertencer. Eu nunca pertenci”, afirmou ele próximo de sua morte, em 1988. Uma das carreiras arruinadas pelo agente duplo foi a de John le Carré, que se utilizaria dessa experiência para escrever O Espião que Sabia Demais (1974), muito bem adaptado ao cinema em 2011.

Conturbado, enigmático ou apenas consistentemente filho da puta, Kim Philby comandou tragédias familiares, envolvendo várias esposas e várias esposas somadas a tragédias familiares. Sempre fiel à União Soviética, ele passou seus últimos anos em Moscou, supostamente melancólico e desiludido – e certamente embriagado.

Repleto de medalhas (e sem arrependimentos), teve um funeral de herói. Ele fazia parte do círculo hoje conhecido como Cambridge Five, cujos agentes duplos haviam sido recrutados ainda antes da Segunda Guerra Mundial (uma trama que perpassa o enredo do filme Jogo de Imitação, 2014, porém sem grande precisão histórica).

Sobre Philby, A Spy Among Friends (2014), de Ben Macintyre, é um belíssimo livro. O ex-colega John le Carré assina o posfácio.