Hipertexto: Kim Philby

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Nascido na Índia quando essa ainda atendia por Índia britânica, Kim Philby foi um espião dos mais altos rankings da inteligência britânica. Não à toa, ele se tornou cavaleiro ao receber um OBE na década de 1940, com apenas 34 anos.

Servindo ao MI6 por décadas, Philby chegou perto de se tornar o diretor da instituição. Problemas internos o fizeram se demitir do serviço de informações em 1951, quando passava por forte investigação por parte de seus colegas, além do MI5. Somente nos anos 1960, foi confirmada a temerosa suspeita de que Kim Philby havia sido, por todo esse tempo, um agente duplo que servia tanto à KGB quanto ao NKVD.

Por décadas, ele comprometeu colegas, missões e supostos amigos, tornando-se um dos traidores mais famosos da história. “Para trair, você primeiro precisa pertencer. Eu nunca pertenci”, afirmou ele próximo de sua morte, em 1988. Uma das carreiras arruinadas pelo agente duplo foi a de John le Carré, que se utilizaria dessa experiência para escrever O Espião que Sabia Demais (1974), muito bem adaptado ao cinema em 2011.

Conturbado, enigmático ou apenas consistentemente filho da puta, Kim Philby comandou tragédias familiares, envolvendo várias esposas e várias esposas somadas a tragédias familiares. Sempre fiel à União Soviética, ele passou seus últimos anos em Moscou, supostamente melancólico e desiludido – e certamente embriagado.

Repleto de medalhas (e sem arrependimentos), teve um funeral de herói. Ele fazia parte do círculo hoje conhecido como Cambridge Five, cujos agentes duplos haviam sido recrutados ainda antes da Segunda Guerra Mundial (uma trama que perpassa o enredo do filme Jogo de Imitação, 2014, porém sem grande precisão histórica).

Sobre Philby, A Spy Among Friends (2014), de Ben Macintyre, é um belíssimo livro. O ex-colega John le Carré assina o posfácio.

Hipertexto: coincidência cósmica

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john f. kennedy

Uma das cenas mais marcantes do século 20 consiste no assassinato de John F. Kennedy. O presidente norte-americano participava de uma carreata em Dallas quando foi atingido no pescoço e na cabeça por dois tiros de rifle às 12h30. Sua morte – com apenas 46 anos – ocorreu em meio a uma escalada de tensões da Guerra Fria.

Por muito tempo, só se falou nisso – literalmente, a ponto de o assunto receber cobertura ininterrupta por quatro dias seguidos nos Estados Unidos, uma sequência superada apenas após o 11 de setembro de 2001. O impacto do assassinato gravado do líder de uma das nações mais poderosas do mundo em um contexto político cheio de faíscas não tinha precedentes.Mas John F. Kennedy estava muito bem acompanhado em sua transição para o que quer que (não) aconteça após a morte.

Enquanto um país ficava de cabeça para baixo em Dallas, Aldous Huxley via (nesta ou em outra dimensão) seu pitoresco pedido de leito de morte ser atendido em Los Angeles. “LSD, 100 microgramas, intramuscular”: este foi o recado escrito que Huxley, já incapaz de falar diante de um avançado câncer na laringe, entregou à esposa, Laura Archera.

Ela cumpriu a solicitação do escritor inglês com duas injeções: uma às 11h20, outra às 12h20, isto é, apenas dez minutos antes do assassinato de Kennedy. Um relato bastante detalhado dos últimos dias do autor de Admirável Mundo Novo e A Ilha, escrito pela própria Laura, pode ser lido aqui (em inglês).

Neste relato – uma carta endereçada ao irmão mais velho de Huxley –, Archera menciona a transmissão do assassinato de Kennedy na televisão (antes de administrar a primeira dose, o que contraria a estimativa dos horários, portanto deve ter havido alguma confusão cronológica deste momento delicado).

Aldous Huxley morreu às 17h30, aos 69 anos, no conforto das palavras de apoio de sua esposa, que, mantendo-se a seu lado, tranquilizava-o a respeito de “ir em direção à luz”. Segundo ela, “tanto os médicos como a enfermeira disseram nunca ter visto alguém em uma condição física similar se despedir tão desprovido de dor e luta. Nunca saberemos de fato se tudo isso é real ou apenas a ilusão motivada por nossa vontade, mas certamente todos os sinais externos indicavam que [sua morte] foi bela, pacífica e tranquila”.

Em outra coincidência cósmica, o horário de 17h30 já havia definido a morte de C. S. Lewis em Oxford, Inglaterra, em um fuso-horário diferente (neste caso, antes das mortes de Kennedy e Huxley). O autor d’As Crônicas de Nárnia havia sido diagnosticado com doença renal crônica naquele mesmo mês, bem como havia sobrevivido a um infarto em julho.

Lewis caiu em seu quarto pouco menos de uma hora antes do assassinato de Kennedy e morreu alguns minutos depois, uma semana antes de completar 65 anos. Sua morte também viria a ser completamente ofuscada. Dias, anos e décadas depois, nos damos conta de que o 22 de novembro de 1963 foi ainda mais impactante do que seu choque imediato demonstrou.