Hipertexto: ukiyo-e

Extraído da edição 48 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

A gravura é a arte de impressão que surge na China no século 9 (e você ainda achava que o primeiro livro impresso do mundo tinha sido a Bíblia de Gutemberg…) e marca a Idade Média no Ocidente. Feita pela criação de uma matriz única, cria a possibilidade de cópia em grande escala, funcionando como um grande carimbo. Entre as inúmeras técnicas de gravura, a primeira a ser desenvolvida foi a xilogravura.

A xilogravura é a arte de trabalhar com a madeira, primeiro lhe entalhando e em seguida passando camadas de tinta no alto relevo produzido, que ao ser prensado sobre um papel transmite a imagem “desenhada” na matriz. Cada cor a ser usada deve ser passada separadamente para o papel, o que, junto do tempo de espera da secagem de cada mão, torna grande o tempo gasto com cada trabalho.

No Ocidente, o maior exemplo que temos de gravura japonesa é certamente a Grande Onda de Kanagawa:

 

Essa xilogravura é uma ukiyo-e e foi criada em torno de 1833. Foi gravada por Katsushika Hokusai e faz parte de uma série de 36 obras que representam o Monte Fuji. Hokusai demonstrava um grande amor pela paisagem japonesa e criou centenas de ukiyo-e nesta temática.

Ukiyo-e, em português “Retratos do Mundo Flutuante“, são xilogravuras feitas no Japão do período Edo – marcado pelo isolamento drástico do Japão ao resto do mundo e que serviu para o aprimoramento e desenvolvimento de novas técnicas artísticas. As ukiyo-e geralmente representavam a beleza da mulher, momentos históricos, o teatro Kabuki, paisagens, enfim, o cotidiano japonês deste período. Por mais que hoje sejam exibidas em belas exposições nos mais importantes museus ao redor do mundo, quando surgiram eram comuns e de fácil acesso, muitas vezes servindo como papéis bonitos para enrolar peixe.

A beleza desta arte está dividida em muitas partes, literalmente, pois não era feita por um único par de mãos, mas por várias pessoas trabalhando juntas. Pelo menos três: o artista, o talhador e o impressor. Essa técnica se tornou um dos mais famosos estilos artísticos japoneses e muitos historiadores da arte chegam a descrever a história da arte do Japão com base unicamente no estudo das ukiyo-e, o que, claro, corresponde a um reducionismo.

Mesmo assim, o papel dessas xilogravuras na identidade artística nacional é tamanho que as ukiyo-e foram a principal referência estética do japonismo, tendência na pintura europeia do século 19 em que artistas, sobretudo impressionistas franceses como Degas e Monet, se inspiraram nas cores vivas e no movimento da arte japonesa para compor suas obras e para estudar. Van Gogh, por exemplo, copiou diverssos trabalhos de Hiroshige e pintou árvores que claramente homenageiam as cerejeiras nipônicas. Outros pintores, como Felix Valloton, Paul Gauguin e Edvard Munch, chegaram a experimentar com essa técnica diretamente e foram precursores de seu uso no Ocidente. Já quase no século 21, a obra de Hokusai ainda é fonte de releituras, como em Uma Súbita Rajada de Vento, do fotógrafo canadense Jeff Wall.

Outra curiosidade sobre as ukiyo-e é que elas são as responsáveis pelo surgimento dos mangás. E o precursor dessa ideia foi o próprio Katsushika Hokusai. Em 1814, ele desenhou uma série de 15 ukiyo-e, as encadernou e batizou de Hokusai Manga, ou “esboços de Hokusai”. Nela estão cenas do dia a dia, paisagens, estudos sobre animais, plantas e também histórias de fantasmas.

Para ler mais a respeito, admirar e até participar de leilões de ukiyo-e originais, visite o site da Fuji Arts — e nos agradeça depois!

[por Flávia Rhafaela]

Hipertexto: o Leão do Castelo de Gripsholm

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No século 18, as relações diplomáticas entre Suécia e Argélia eram bastante próximas. Os escandinavos enviavam vários presentes valiosos aos argelinos e em troca tinham garantida a passagem segura e gratuita de seus navios pelo mar mediterrâneo. Em retribuição, em 1731 o Rei Frederik I recebeu do Dey (uma espécie de regente) da Argélia alguns mimos, que incluíam: um leão, três hienas e um escravo liberto, que se tornou o cuidador dos animais. Todos viveram suas vidas no luxuoso Djurgården, o parque real.

Alguns anos após o leão morrer, o rei enviou os restos do felino (a pele e os ossos que haviam sobrado) para que um taxidermista o reconstruísse em toda a sua glória. O leão seria exposto no castelo como um símbolo da força da Coroa sueca. O problema era que o taxidermista nunca tinha visto um leão pessoalmente e teve que se basear em relatos escritos e brasões de armas. Como é de se imaginar, o resultado ficou uma bosta:

Essa espécie de Ecce Homo animal está em exposição no castelo de Gripsholm, hoje um museu, e é um dos muitos exemplos de animais exóticos sendo mal desenhados por artistas europeus. Nas iluminuras medievais, principalmente nos bestiários, eram comuns as representações bizarras de animais como elefantescrocodilos e corujas.

O tempo passou e pouca coisa mudou: em 1840, Londres renovava a Trafalgar Square, sua principal praça, e encomendou, além de uma coluna imensa, esculturas de quatro leões. O encarregado pelos leões foi Sir Edwin Landseer,  pintor especializado em retratar animais como cães, cavalos, touros… mas não muito familiarizado com esculturas. Ou leões.

De fato, o único espécime desse animal que o artista conhecia era o leão do zoológico da cidade, e quando este morreu, Landseer pediu para que deixassem o corpo em seu ateliê para que ele pudesse estudá-lo. Mas, dizem, ele demorou tanto para terminar seu projeto que os restos  do bicho começaram a se decompor. Faltando ainda as patas a serem esculpidas, Edwin usou seu cachorro como modelo e terminou a obra.

resultado final lembra mais um esfinge do que um leão propriamente dito e causou estranhamento aos olhares mais críticos na época, mas não chama tanta atenção dos transeuntes e turistas que passam pela praça hoje em dia. Ao menos não a ponto de as pessoas deixarem de tirar fotos e escalar os bichanos de bronze. De todo modo, se for esculpir ou empalhar um leão, talvez a relação entre perfeição e pressa tenha que ser reconsiderada.

Hipertexto: Tony Garnier

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No início do século passado, Lyon, na França, passava por uma grande industrialização. Centro metalúrgico, a cidade, cuja linha férrea com início em St. Étienne havia sido asegunda da história do país, já se adaptara a uma nova realidade de produção. Somam-se a isso a primeira fábrica de automóveis da França – uma Berliet –, testes com os primeiros aviões e a invenção do cinematógrafo. (Lembra do primeiro filme exibido ao público? Aquela fábrica se tornou o Instituto Lumière.)

Lyon, enfim, compunha um contexto agitado, modernizado e propício a especulações. Isso provavelmente borbulhava na cabeça de um arquiteto local, o talentoso Tony Garnier. Nascido em 1869, Garnier estudou na École des Beaux-Arts, em Paris, e retornou a Lyon, onde projetou aquela que seria, para ele, a cidade ideal. Seu projeto, Une cité industrielle, refletia o planejamento de uma utopia.

Une cité industrielle foi publicado em 1917 após vários anos de estudos. Preocupado com a monotonia do trabalhador em seu ofício, Garnier visou ao lazer e à acessibilidade de áreas verdes — cada casa de família, por exemplo, teria um jardim. A cidade foi idealizada para 35.000 habitantes e continha as seções industrial, agricultural, universitária, sanitária, residencial e pública, esta última dividida entre setores administrativo, cultural e esportivo.

A utopia projetada por ele não continha delegacias, tribunais, prisões ou igrejas. Porque capitalismo. Não obstante, existe ali um legado arquitetônico mais rico do que a ignorância arquitetônica do editor permite enxergar – como a existência de edifícios de concreto armado – portanto permanecemos na apreciação estética. Se você entende algo de francês, vale se atentar a este documento aqui. Se não entende, fique pelas imagens e dificilmente se arrependerá.

Hipertexto: por quem os sinos dobram

Extraído da edição 47 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

 

Dizem que nada se cria, tudo se copia. O título deste texto foi copiado de uma música de Raul Seixas chamada “Por quem os sinos dobram”. Essa música é boa, mas seu significado é um pouco obscuro. Ao menos no começo Raul canta “nunca se vence uma guerra lutando sozinho”. A canção é a primeira faixa do lado B do disco Por quem os sinos dobram, lançado em 1979.

Em 1984, o Metallica lançou a canção ‘For whom the bell tolls’, que em português poderia ser traduzido como “Por quem os sinos dobram”, apesar de o sino em inglês (bell) estar no singular. A canção tratava dos horrores de uma guerra. Em 1993, o Bee Gees lançou uma canção chamada ‘For whom the bell tolls’, que também pode ser entendida como “Por quem os sinos dobram”. Essa canção é sobre desilusão amorosa.

Algumas décadas antes, em 1940, Ernest Hemingway publicou o romance For whom the bell tolls (em português, Por quem os sinos dobram), um romance sobre a guerra civil espanhola que influenciou bastante, ao menos, a música do Metallica.

Muito, muito antes, em 1624, um reverendo e poeta inglês chamado John Donne escreveu, na cama em que passou dias a um passo da morte, um livro chamado, adivinha!, Devotions upon emergent occasions. Era uma coleção de 23 pequenas “devoções”, uma para cada dia de internação, sobre seu processo de adoecimento e cura e outras questões humanas.

Na Devoção XVII, John Donne traz o seguinte trecho, originalmente:
“No man is an Iland, intire of it selfe; every man is a peece of the Continent, a part of the maine; if a Clod bee washed away by the Sea, Europe is the lesse, as well as if a Promontorie were, as well as if a Mannor of thy friends or of thine owne were; any mans death diminishes me, because I am involved in Mankinde; And therefore never send to know for whom the bell tolls; It tolls for thee.”

Em português, tradução livre:
“Nenhum homem é uma ilha, todo em si; todo homem é uma parte do continente, uma parte da terra; se um torrão de terra é levado pelo mar, a Europa é diminuída, tanto se fosse um promontório, como também se fosse uma casa de teus amigos ou a tua própria; a morte de todo homem me diminui, porque sou parte na humanidade; e então nunca pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

E foi daí surgiu essa frase consagrada na cultura popular.

Do quarto de Donne, ele conseguia ouvir os sinos da igreja tocando. Isso significava que alguém que vivia ali perto havia morrido, e as pessoas se perguntavam: por quem os sinos dobram? Em outras palavras, quem morreu?

O reverendo se perguntava se as pessoas não achavam que tivesse sido ele próprio.

Hipertexto: Fra Angelico

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Fra Angelico e sua Anunciação – a transição perfeita entre o Gótico e o Renascimento

O Renascimento, se é que isso realmente existiu, pode ser visto, ainda que de maneira bastante simplista, como a transição entre a representação artística rudimentar do período Gótico e as inovações que culminaram nas formas e proporções perfeitas do David de Michelangelo. Na realidade, esse trajeto foi muito mais tortuoso do que os almanaques de história da arte fazem parecer, e não foram poucas as ramificações, bem como idas e vindas dos artistas.

É fato, porém, que nesse espaço de mais de 200 anos as artes visuais passaram por uma transformação profunda: os motivos representados deixaram de ser estritamente religiosos e rigidamente ditados pela tradição bizantina para incorporar símbolos pagãos e métodos sistemáticos de representação de luz e espaço. E não houve nenhum artista que expressasse melhor o equilíbrio entre esses dois mundos do que Fra Angelico.

Fra Angelico, muito antes de ser um licor, era Guido di Pietro, um pintor que começou seus estudos como iluminador (fazedor de iluminuras) e mais tarde tornou-se frade. Seus trabalhos sempre tiveram motivos religiosos, tanto pelo século em que vivia quanto pela sua intensa fé pessoal: pintava peças de altar para igrejas e objetos de devoção pessoal para patronos mais abastados. Apesar de estar envolvido direta e profundamente com a Igreja, não se limitava a reproduzir a pintura religiosa tradicional. Ao contrário, estava completamente consciente das mudanças que aconteciam ao seu redor.

O estilo em voga para a pintura religiosa na época era o Gótico Internacional, em que figuras esbeltas com rostos angelicais idealizados contracenam num espaço celestial austero e normalmente folheado a ouro. O que se pretendia era representar o mundo espiritual e a mensagem trazida do evangelho. Um dos exemplos mais simbólicos dessa escola é a Anunciação de Simone Martini, realizada praticamente 100 anos antes de Fra Angelico começar a pintar.

Contemporâneo de Fra Angelico, Masaccio era um expoente de sua geração. Sua pintura O Pagamento do Tributo, entre as mais influentes desse início de Renascença, foi uma das primeiras a empregar a perspectiva linear, que acabara de ser desenvolvida por Brunelleschi, para criar a ilusão de um espaço realista. Com isso, veio a preocupação com o peso e o volume dos personagens, além de sua disposição nesse espaço, algo que não acontecia anteriormente.

Anunciação de Fra Angelico, um afresco de 1446,  é uma síntese dessas vertentes. Seus personagens – o Anjo Gabriel e a Virgem Maria – seguem a estética gótica com seus corpos leves, auréolas bidimensionais e a gravidade da troca silenciosa de olhares. Mas ao contrário da pintura de Martini, nessa cena as figuras habitam um espaço realista, uma varanda cuidadosamente composta respeitando a perspectiva de um ponto. Além disso, nota-se o capricho com o qual os detalhes arquitetônicos foram executados. Arcos ogivais, marca inconfundível do Gótico, dividem o espaço com capitéis jônicos e coríntios que só poderiam ser desenhados por alguém que estudou os textos antigos de Vitrúvio e estava em contato com o retorno da arquitetura clássica.

Ao mesmo tempo, alguns detalhes impedem o balanço perfeito da obra: a grama do lado esquerdo da imagem é representada sem profundidade alguma, como um papel de parede estendido entre o piso da varanda e a cerca de madeira. E mais: o teto, apesar de ser muito lindo, parece estar muito baixo, de modo que se a Virgem se levantasse, provavelmente bateria a cabeça. Mas engana-se quem pensar que isso aconteceu por inaptidão ou incapacidade técnica.

São escolhas conscientes que o autor fez para contrastar a santidade dos protagonistas com um ambiente mundano. Inclusive as colunas e arcos da Anunciação lembram muito o pátio do Convento de São Marco em Florença, onde está a pintura em questão e onde Fra Angelico pintou a porção mais célebre de sua obra. A intenção era auxiliar os monges e frades que habitavam o local em sua meditação, aproximando-os das figuras e ensinamentos transcendentais expressos nesse afresco.

Em suma, Fra Angelico foi o artista que melhor balanceou tradição e inovação no século 15 na Europa. Dominava igualmente a estética gótica e a renascentista e com total consciência se utilizava de diferentes  recursos para atingir seu público de maneiras diversas, sem nunca deixar de ter uma aura de santidade em volta de seu trabalho. Não à toa foi beatificado em 1982 pelo Papa João Paulo II e elevado ao status de padroeiro universal dos artistas.

Bônus: não deixe de conferir neste link uma galeria de fotos do Convento de São Marco, hoje um museu, mostrando como as pinturas de Fra estão dispostas nas paredes das celas individuais, os dormitórios dos monges, e como elas conversam com o espaço que ocupam. E falando em ocupar espaço, agradecemos formalmente ao sr. Ivan Gambus, que foi a Florença, visitou o museu de San Marco e nos trouxe lindas fotos, estórias e o livro-guia oficial. Obrigado, sr. Ivan Gambus.

Hipertexto: Lucien Rudaux

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Na minha infância, ainda em Porto Alegre, lembro de um CD-ROM próprio para Windows 95 dedicado ao nosso Sistema Solar. As poucas memórias sobreviventes são borradas, mas é certo que havia os planetas e que era possível clicar neles. A partir disso liam-se informações sobre cada um, com imagens – estáticas, nada de animação – acompanhadas por uma trilha sonora discreta. Não o encontrei na internet.

Nossa Lua, apesar de não ser um planeta, era a mais impactante, pois me ocorre que sua coloração mais fria convergia com a sonoridade cujo clara ambientação de solidão no desconhecido atingia seu objetivo. Eu sentia um medo saudável daquelas imagens — e certamente repeti o fascínio posteriormente com registros melhores, animações mais modernas e sonoridades mais bem gravadas.

Mas antes de qualquer software, e antes de Clarke, de Kubrick e, principalmente, de Clarke e Kubrick, havia Lucien Rudaux, pioneiro de arte especial. Rudaux (1874–1947), francês, era ele próprio astrônomo, autor e ilustrador. No final do século 19, isto é, com apenas 20 anos, fundou um observatório em Donville-les-Bains, na Normandia. Rudaux serviu ao exército francês na Primeira Guerra, quando, já respeitado pelos serviços prestado ao ensino, havia sido nomeado Oficial de Instrução Pública, uma ordem honorífica.

Filho do pintor Edmond Rudaux, Lucien sem dúvidas herdou a aptidão para representações visuais, a maioria delas produzida nas décadas de 1920 e 30, após a atuação militar. Com elas, fugindo de planetas montanhosos, oferecia imagens mais sóbrias cujo realismo superou até seus sucessores. Seus traços acumulam ainda mais valor conforme caçamos, ou tentamos emular, retrofuturismo.

Pioneiro, Rudaux virou prêmio. E se já temos muitos outros registros, imagens melhores e fotografias mais precisas, suas ilustrações sobrevivem pelo único caminho capaz de garantir sobrevivência de qualquer arte: estética, o encanto cuja coceira limita as palavras e permite, vez ou outra, que o medo seja saudável e a solidão, confortável.

Hipertexto: trench coat

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A relação entre guerra e moda é muitíssimo forte – nós até já providenciamos alguns exemplos na Enclave 42, e também já tratamos do fraque. Um dos exemplos mais clássicos da convergência entre esses dois campos cabe ao trench coat, aquele casacão belíssimo visto em pessoas elegantes no inverno. E em detetives sombrios, mas chegaremos lá.

trench coat (casaco de trincheira, ao pé da letra) é facilmente reconhecido: um agasalho extenso, do tamanho de um sobretudo, com duas lapelas largas, botões e um cinto que afunila a cintura de quem o veste. Tradicionalmente na cor cáqui, hoje é produzido em outras colorações (entre as alternativas mais comuns, cinza e preto).

Inicialmente concebido no início do século passado pelas marcas Burberry e Aquascutum, ambas britânicas e ambas careiras, o trench coat nasceu como item opcional do Exército Britânico. Era uma alternativa mais leve em relação ao sobretudo. Seu tecido – a gabardina – havia sido inventado por Thomas Burberry no final do século 19. Na Primeira Guerra Mundial, já foi presença constante entre os soldados britânicos.

Impermeável e provido com vários bolsos e fivelas, caiu nas graças dos soldados, que não o abandonavam após voltar das batalhas. Durante a Segunda Guerra, estava estabelecido – outros países já haviam confeccionado seus trench coats.

Sua popularização entre civis se deu por meio do cinemaHumphrey Bogart em Casablanca (1942) e Peter Sellers nos filmes d’A Pantera Cor de Rosa popularizaram de vez o item, que na década de 1960 já caía no gosto de moderninhos em geral. Você pode comprar um trench coat igual ao de Bogart na própria Aquascutum por R$4.715, por que não? Na Burberry, um modelo feminino está à venda por R$ 14.540.

A essa altura, as telonas também já haviam solidificado o gênero noir: detetives alcoólatras, art déco, femmes fatales, traições perversas. Humphrey Bogart, sempre ele, havia auxiliado na montagem do arquétipo, vide as adaptações de Falcão Maltês (1941) e The Big Sleep (1946). Passado o tempo, o trench coat se consolidou como um clichê do noir. Basta equipá-lo com um fedora, um maço de cigarros e bastante mal-humor para você se pagar de Philip Marlowe por aí.

Hipertexto: Síndrome ACHOO

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Sabe aquela sabedoria popular de olhar para o Sol quando alguém não consegue espirrar? Isso realmente funciona para algumas pessoas, e essas pessoas provavelmente são portadoras da Síndrome ACHOO, acrônimo de Autosomal-Dominant Compelling Helio-Opthalmic Outburst (Síndrome Autossômica Dominante do Espirro Provocado por Exposição ao Sol), ou simplesmente Reflexo do Espirro Solar.

Essa síndrome é caracterizada por um formigamento no nariz e uma vontade incontrolável de espirrar ao olhar para uma fonte de luz muito intensa, normalmente o Sol. É uma condição genética de herança dominante, ou seja, se você tem é porque um dos seus pais também a tem. Ela vem de uma mutação no cromossomo 2. Embora não seja uma entidade clínica muito comentada, estima-se que afete por volta de um quarto da população mundial.

Essa condição já é conhecida há milhares de anos: Aristóteles, provavelmente por ser portador da ACHOO, questionava por que o Sol poderia provocar espirros. Sua teoria era que, com o calor, as narinas suavam e o espirro seria uma maneira de limpá-las. Muitos séculos depois, o físico Francis Bacon, um conhecido “espirrador solar”, desmentiu o filósofo grego ao não espirrar enquanto ficava no Sol. Sua explicação foi que o problema estava nos olhos: eles lacrimejariam ao olhar o Sol e escorreriam até o nariz, causando o espirro. O problema é que o lacrimejamento e a passagem da lágrima até o nariz são muito mais lentos do que o espirro nessas condições.

Ainda não há consenso quanto à explicação, mas hoje acredita-se que o reflexo do espirro solar seja causado por uma hiperexcitabilidade do córtex visual, a parte do cérebro responsável por processar imagens, aliado a uma ativação cruzada do nervo trigêmeo, que inerva tanto a região dos olhos quanto o nariz e a boca. Apesar de sua fisiopatologia complexa, a síndrome ACHOO é relativamente benigna, afinal, espirrar às vezes não é lá um incômodo muito grande.

O problema existe quando o espirrador solar tem alguma ocupação de risco, como cirurgião, motorista ou piloto de caça, em que um espirro pode acarretar uma MORTE. Nesse caso, como para os outros pacientes com esse reflexo, recomenda-se o uso de chapéu e óculos escuros em caso de exposição ao Sol ou a luzes fortes.

Hipertexto: Antonio Sant’Elia

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Algumas pessoas, projetos ou fenômenos acumulam reconhecimento não somente pelo que foram, mas também pelo que poderiam ter sido. Como nas despedidas prematuras do Duna de Jodorowsky, do craque Dener e do humorista Douglas Kenney, a arquitetura – e o imaginário do século 20 como um todo – pode enxergar a morte precoce de Antonio Sant’Elia com uma lamentação bastante fundamentada.

Nascido em Como (Born in Eat), Sant’Elia estudou arquitetura em Milão. Lá, conheceu figuras como Carlo Carrà, Umberto Boccioni e Luigi Russolo, concluindo a formação de professor de desenho arquitetônico. Trabalhou como empreiteiro nas obras de um canal e passou a ter contato mais direto com questões urbanísticas, sobre as quais nunca deixou de pensar.

Com demais artistas nacionalistas e falastrões, aderiu ao Futurismo e criou o manifesto de arquitetura do movimento (1914), cujas ideias defendeu até o fim da vida. O que, na verdade, foi pouco depois disso, pois Sant’Elia morreu em 1916, aos 28 anos. Ele servia voluntariamente ao Exército Italiano e lutou contra o Império Austro-Húngaro em meio à Batalha de Isonzo, durante a Primeira Guerra Mundial.

Mas Sant’Elia é um arquiteto de legado atípico: apenas um de seus projetos foi construído Villa Elisi, 1912), o qual nem caracterizaria um one-hit wonder, pois Villa Elisi sequer dispõe de alguma notoriedade. A grande contribuição de Antonio Sant’Elia ressoa nos cenários futuristas que até hoje emulam vários de seus traços. Não à toa, Sant’Elia ficou conhecido como o arquiteto que inspirou Metropolis e Blade Runner, não por acaso entre os filmes visualmente mais influentes da história. (Estamos há zero edição sem falar em Blade Runner).

Suas contribuições mais vívidas provêm de 1913, quando passou a representar a utopia moderna com  que sonhava. Com uma delas iniciamos o texto; com algumas outras o encerramos. Interessados podem conferir todos os desenhos (sobreviventes) de Antonio Sant’Elia na página dedicada à obra deste arquiteto e no WikiCommons. É uma pena que ele não tenha vivido tempo suficiente para contribuir ainda mais com nosso imaginário de futuro.

Hipertexto: irmãos Hitchens

Extraído da edição 45 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Christopher Hitchens

Christopher Hitchens é o grande arquétipo de intelectual moderno, um modelo de forma e conteúdo a que tantos aspiram sem sucesso. Iconoclasta, genuinamente sarcástico, independente – enfureceu direita e esquerda conforme lhe pareceu justo –, compunha sua persona com bebedeira e, principalmente, com seu sotaque inglês proferido num inconfundível barítono.

Ao longo da vida, Hitchens se destacou escrevendo para a Vanity Fair, na qual publicou perfis de personalidades como Madre TeresaPrincesa Diana e Mel Gibson. Travou por décadas uma batalha contra religiões, instituições religiosas e religiosidades em geral. Padeceu por conta de um câncer no esôfago, e suas memórias da doença formam o excelente Últimas Palavras (2012). Aleatoriamente, ele também foi babá de Olivia Wilde – os pais dela são jornalistas renomados com quem Christopher mantinha amizade.

Provocador afiado, Hitchens não fugia de debates, principalmente daqueles com temática espinhosa. Em 2008, discutiu Deus, religião, Guerra no Iraque et cetera, diante de 1.400 pessoas, com um de seus maiores oponentes, um sujeito de opiniões simetricamente opostas, contra quem já havia duelado verbalmente – e talvez até fisicamente – diversas vezes. No caso, Peter Hitchens… seu irmão mais novo.

Peter: “alguns de vocês devem saber que tenho um irmão, Christopher, que discorda de mim em quase tudo. Alguns dos que leem seus livros e artigos também sabem que eu existo, embora eles geralmente desgostem de mim quando o fazem. Mas em geral nós habitamos mundos separados – em diversos níveis. Ele é da esquerda, mora nos Estados Unidos e recentemente se tornou um cidadão americano. Eu sou da direita e, após alguns anos na Rússia e nos Estados Unidos, moro no coração da Inglaterra. Ocasionalmente nós nos enfrentamos em público“. Um bom contexto inicial.

Peter Hitchens

Hitchens vs Hitchens, irmãos Gallagher da biblioteca, é um caso que traria diversão e dor de cabeça a um psicólogo, ou a vários deles. Filhos de um oficial da Marinha Real Britânica que lutou na Segunda Guerra, ambos – ateus e socialistas na juventude – chegaram a se filiar ao Labour Party inglês. Os dois também seguiram o caminho do Jornalismo.

Peter reavaliou sua ideologia (e sua descrença) após viajar o mundo em cobertura para o Daily Express. As experiências na Tchecoslováquia, na Romênia e em Moscou o alteraram. Ele viria a abraçar a crença em Deus e defender a cultura cristã. “Um clichê de descoberta tão óbvio e universal, e também tão profundo, privado e único para ser discutido com estranhos”. Pouco flexíveis e bastante expressivos, suas desavenças duraram décadas.

“Acho que Peter e eu tivemos azar de ele nascer perto demais de mim [3 anos] para ser um irmão mais novo que precisasse de proteção, mas perto o bastante para ser um rival, esperto e duro. Certamente lembro de dizer que ele era adotado, com uma chance razoável de ele ter acreditado”, contou Christopher.

A divergência entre eles cresceu após o 11 de setembro de 2001, momento a partir do qual Christopher passou a defender a invasão americana no Iraque – o que surpreendeu a opinião pública, tendo em vista suas décadas de atuação à esquerda da discussão política. Peter levantou o assunto no Spectator, endereçando-o diretamente a Christopher. A tensão só se expandiu desde aquele momento – no debate mencionado anteriormente, em 2008, eles talvez estivessem em um pico de discórdias.

(Peter se referiria àquele encontro como um dos piores momentos de sua vida: “só me dei conta quando caminhei pelo hall e, pela primeira vez, vi mil pessoas que me odiavam. Elas não me odiavam por quem eu era; me odiavam porque para elas Christopher era uma megaestrela no filme principal, e eles tinham que sentar e me aguentar como antigamente se sentava ao longo de um filme B no cinema, antes do filme real”.)

A relação entre os irmãos Hitchens é extraordinária, ao menos para quem não participou dela. Um correspondia ao oposto do outro. Ao mesmo tempo, eles eram tão incrivelmente parecidos – isto é, não só pelos traços ou pela voz grossa, mas sim pela condição de ambos se tornarem comentadores culturais notáveis, sempre munidos por um repertório artístico extenso.

O final dessa história, na verdade, é mais bonito do que se poderia imaginar de dois cabeças-duras de alto funcionamento. Após o diagnóstico de câncer de Christopher – e do tratamento amplamente documentado por ele mesmo –, os irmãos se reconciliaram, ou ao menos conseguiram se encontrar e conviver pacificamente. Eles ainda debateriam em público em 2010, um ano antes da morte de Christopher (o que, em uma grande coincidência cósmica, ocorreu três dias antes do fim da Guerra do Iraque). O tom foi definitivamente mais amistoso naquela ocasião.

“Nós nos demos surpreendentemente bem nos últimos meses, melhor do que por cerca de 50 anos”, constatou Peter após perder o irmão mais velho.

Christopher and Peter Hitchens