Hipertexto: adaptando o beco escuro

Extraído da edição 106 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

O americano William Lindsay Gresham publicou O Beco das Ilusões Perdidas em 1946, aos 37 anos. Seu romance de estreia lhe rendeu algum dinheiro – e uma adaptação para o cinema (O Beco das Almas Perdidas) logo no ano seguinte.

A década de 1950 seria um tanto mais volátil. Casado com a poeta Joy Davidman, Gresham a trairia diversas vezes, algumas delas até sóbrio. A gota d’água, quando se envolveu com a prima da esposa, acolhida pelo casal enquanto Joy estava na Inglaterra para visitar ninguém menos que C. S. Lewis, com quem trocava correspondências.

Ela voltaria a Nova York para dar um basta no constrangimento, e, em um cenário ainda mais embaraçoso, os três morariam juntos por um tempo. Então, Joy retornaria em definitivo à Inglaterra – agora com os dois filhos do casal –, e Gresham se casaria com Renée, isto é, a prima dela. Este seria seu quarto e último casamento.

Por sua vez, na Inglaterra, Joy se casaria com C. S. Lewis em 1956, o que parece ter sido uma grande evolução (e um grande alívio) para sua vida. Infelizmente, ela morreria de câncer poucos anos depois, em 1960.

Lewis adotaria seus dois filhos, o que Gresham constatou quando foi visitá-los, após a morte da ex-mulher. Também escreveria A Grief Observed, publicado sob o pseudônimo N.W. Clerk.

Em 1962, depois de descobrir um câncer na língua, um Gresham já sóbrio e bem menos problemático se hospedou em um hotel em Manhattan e se matou com uma overdose de remédios, aos 53 anos.

  • Às vezes acredito que, se tenho algum talento, não é literário, mas um talento puro de sobrevivência. Sobrevivi a três casamentos quebrados, perda dos meus filhos, guerra, tuberculose, marxismo, alcoolismo, neurose e anos de escrita freelance. Sou apenas malvado e teimoso demais para matar, creio eu.[1]

Interessado por espiritualismo (não necessariamente Espiritismo), ilusões, charlatanismo e psicologia social, Gresham trabalhou todos esses temas – mais o alcoolismo – n’O Beco das Ilusões Perdidas, recentemente adaptado para o cinema outra vez, agora pelas mãos de Guillermo del Toro. Hoje, o filme está disponível no Star+.

O Beco do Pesadelo (2021), pois, é um belíssimo filme. Situada no final dos anos 1930 e início dos anos 1940, a narrativa acompanha Stan Carlisle (Bradley Cooper), um jovem esperto com tendências à picaretagem que tenta voar perto demais do Sol ao se envolver com a psiquiatra Lilith Ritter (Cate Blanchett). Eis uma história noir de desgraçamento, território bem conhecido por Gresham.

Curioso, decidi ler O Beco das Ilusões Perdidas (publicado no Brasil pela editora Planeta, 2021) assim que saí do cinema, depois de assistir a Beco do Pesadelo. Ou melhor, no dia seguinte, após confirmar que o filme havia ganhado espaço na minha mente.

Comparando as duas obras – isto é, considerando suas diferentes mídias, mas não a noção tão tola quanto ingênua de “fidelidade” –, fica claro como del Toro potencializou seu texto-fonte para criar beleza.

Nighmare Alley, o filme, é um primor audiovisual (que, no momento, concorre ao Oscar de Melhor Fotografia). Quem recebe esse mérito é o dinamarquês Dan Laustsen, com quem del Toro já havia trabalhado nA Forma da Água (2017).

Sua homenagem à estética noir é explícita, porém a obra vai além do pastiche seguro para trabalhar suas cenas com um encanto estonteante. Há muita chuva, muitas luzes e, principalmente, muita escuridão. A união entre esses elementos, pincelada com carinho em cada frame, potencializa a narrativa.

Nighmare Alley, o livro, é cativante, mas limitado. Outrora chocante, seu impacto já perde força, apesar de a temática permanecer atual, tendo em vista a atemporalidade do charlatanismo (que existirá enquanto o ser humano pisar na Terra).

Obviamente, não podemos exigir que um livro seja um primor audiovisual. Entretanto, podemos sempre debater seu devido nível e compará-lo com sua contraparte de outra mídia. Nesse caso, há uma discrepância entre o romance e o longa-metragem, e o mérito fica com os responsáveis pelo segundo.

Isso porque, em que pese o apelo (e a autenticidade) da narrativa de Gresham, ela é um tanto unidimensional. Seus personagens, caricatos e/ou pouco surpreendentes, perdem espaço em um desenvolvimento cuja previsibilidade não é o maior problema. Voltaremos a esse ponto.

Novamente, não se trata de um romance ruim, ainda mais se ele carrega algum valor 76 anos depois de sua publicação. Porém, creio que Gresham sequer discordaria de uma avaliação mais criteriosa de seu livro, que não se destaca por estilo, enredo ou caracterização.

  • Não tenho ilusões sobre mim como um ‘autor’ – sou um escritor de aluguel que aborda a escrita como um ofício tal qual a marcenaria. Dei muitas aulas sobre a escrita de contos; os alunos provavelmente aprenderam muito pouco, mas eu sempre aprendi muito, ouvindo a mim mesmo falar sobre como a ficção curta deve ser montada.[2]

À época, O Beco das Ilusões Perdidas foi reconhecido pela maneira como trabalhou o vocabulário daquele contexto nem rural nem urbano dos circos itinerantes. O prefácio de Nick Tosches, contido na edição da Planeta, contextualiza esses méritos (que podem se perder na tradução).

Se até o momento tratamos apenas das competências audiovisuais do filme de del Toro, também precisamos registrar – e gostaria de fazê-lo de forma mais elegante, em vez de dizer isso – como uma adaptação pode elevar os méritos e amenizar os aspectos mais fracos de um texto-fonte.

O Beco do Pesadelo faz isso por meio de cortes conscientes, que removem o subenredo de líder religioso do protagonista e não elucidam seu passado. Com menos, faz-se mais. O filme também consegue mostrar os truques de Stan para “ler mentes”, ou seja, sem precisar explicá-los (nas descrições meio técnicas, meio rocambolescas que compõem um ponto baixo do livro).

Depois da limpeza, enfim, o tempero: inserções simbólicas como a do bebê Enoque engrandecem a narrativa, amarrando-a.

Por último, mas não menos importante, Rooney Mara. Ou melhor, sua personagem, Molly, crucial para o enredo. No romance, testemunhamos uma mulher tão frágil quanto estúpida, limitada a suplícios e angústias infantilizados. O longa-metragem enobrece sua vulnerabilidade e, a partir disso, permite um envolvimento muito maior.

Já me estendi demais neste texto, pelo qual devo pedir perdão, não tendo mais tempo de abreviá-lo. Na pior das hipóteses, O Beco do Pesadelo é, literalmente, espetacular. Deve ser visto à noite, no escuro e, se possível, com som alto e tela extensa.

Hipertexto: 007 e o Gângster Ciumento

Extraído da edição 105 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Lana Turner, Johnny Stompanato e Cheryl Crane (1958)

Aqueles familiarizados com a quadrilogia de Los Angeles do escritor James Ellroy (1948) talvez conheçam o protagonista da nossa história de hoje – e não me refiro ao 007.

Vamos ao contexto: entre a segunda metade da década de 1980 e a primeira de 1990, Ellroy resgatou a literatura policial noir e escreveu quatro romances que se passam em Los Angeles, entre 1946 (Dália Negra) e 1958 (Jazz Branco).

Todos misturam pessoas e casos reais com personagens e resoluções fictícias; aquilo que pessoas normais chamam de ficção histórica; e teóricos pós-modernos, de alguma outra coisa.

  • No Brasil, os quatro foram publicados na Coleção Negra da Record, facilmente encontráveis em sebos. O editor se encontra no terceiro (e a-man-do). Acima de tudo, trata-se de obras com caracterização invejável: amamos acompanhar seus personagens extremamente falhos.
  • Terceiro, por sinal, adaptado no filmaço Los Angeles: Cidade Perdida (1997). No momento, disponível no Prime Video.
  • Quem já jogou L.A. Noire também conhece boa parte desse universo, considerando como o jogo se inspirou na literatura noir e, especificamente, no trabalho de Ellroy.

Pois bem, assim chegamos em Johnny Stompanato, um gângster com nome de caricatura. Stompanato serviu à Marinha Americana no Japão durante a Segunda Guerra, converteu-se ao Islamismo para se casar com uma turca, teve um filho com ela, abandonou ambos e rumou a Los Angeles em 1947. Então viveu, ou melhor, correu por um outro casamento, que durou três meses.

Stompanato se estabeleceria como proprietário de uma humilde loja de cerâmica e esculturas em madeira, mas, sabe-se lá como, manteria um vínculo com o poderoso gângster Mickey Cohen, ex-boxeador baixinho (1,65 m) crescido em meio à máfia judaica de Nova York e estabelecido em Chicago – mas já deslocado para Los Angeles.

A partir desse encontro, Stompanato faria algo mais dinâmico que administrar cerâmica, consolidando-se como braço direito, guarda-costas e matador de aluguel de Cohen, líder do crime local. Ambos são figuras frequentes na quadrilogia de James Ellroy, com grande participação no segundo, O Grande Deserto (1988).

A vida de Johnny Stompanato é cheia de histórias curiosas, bem como a sua morte, isto é, esfaqueado pela enteada de 14 anos, que defendia a própria mãe – ninguém menos que Lana Turner – dos ataques do mafioso.

E como um gângster truculento chegaria a namorar Lana Turner, grande estrela da Era de Ouro de Hollywood(land)? Um misto de sorte (azar), oportunidade e decadência da atriz, que, como podemos imaginar, viveu altos e baixos com o sujeito.

Até o momento, nada do que relatamos chega perto de um James Bond, não é mesmo? Pois bem, em 1957 (portanto, para fins cronológicos, anos antes do primeiro filme de 007), Lana Turner gravava Vítima de uma Paixão (Another Time, Another Place) com Sean Connery na Inglaterra.

Stompanato não gostou da ideia de ver sua namorada contracenando com um grandalhão (1,88 m) escocês, muito menos dos rumores de que eles teriam um affair, e fez aquilo que lhe parecia coerente: voou para a Inglaterra armado e ameaçou o ator dentro do set de filmagem, em Hertfordshire. Não sem antes ligar para Turner e ameaçá-la (e, obviamente, ouvir – e ignorar – apelos para que não causasse nada disso).

Acontece que, além de grandalhão (e escocês), Connery era faixa preta em karatê e tinha história como bodybuilder. Stompanato não teve chance: seu braço armado foi torcido pelo futuro James Bond, que, enquanto neutralizava o risco do tiro, desferiu-lhe um soco suficiente para acabar com a brincadeira ali mesmo. A partir daí, a história virou problema da Scotland Yard, que deportou um gângster humilhado.

  • O desempenho de Connery no embate foi tão supremo que o agente Milton Bolotti, estupefato, logo telefonou à Eon Productions e cravou: “temos o nosso protagonista para os romances de Ian Fleming”. Ok, essa parte a Enclave inventou 100%. Não repassar.

Johnny Stompanato seria assassinado logo no ano seguinte, mas Cheryl Crane – a filha de Turner – acabaria inocentada em um caso escandaloso e tremendamente documentado. Mickey Cohen arcou com os custos do funeral e divulgou cartas de amor trocadas entre Lana Turner e seu escudeiro, tentando melhorar a imagem do morto.

Hipertexto: passeio musical de Concorde

Extraído da edição 104 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Há alguns meses, na Enclave #98, fizemos uma digressão a respeito do lançamento de um quarto filme Matrix (que, por sinal – e coincidência –, estreia hoje). Tratamos de “globalização e uma ideia otimista de mundo digital” por meio do músico japonês Towa Tei, mais especificamente na música ‘Technova‘.

Pois bem, achamos ou fomos achados pela globalização otimista absoluta em forma de disco. Refiro-me ao álbum Jet Sounds (2000), do italiano Nicola Conte.

Nele, testemunhamos um europeu fazendo seu acid jazz com influências do mundo inteiro, inclusive – e principalmente – do Brasil. Esse eletrônico suave resgata os anos 1960 (daí a clara influência da bossa nova) e os embebeda em doses eletrônicas de negroni, rusty nail e bloody mary.

Podemos falar em gêneros musicais (acid jazz? Future jazz? Latin jazz? Lounge?), mas é muito mais efetivo tratar de sentimentos.

  • Jet Sounds é uma festa na piscina com gente bronzeada, coquetéis irrestritos, sem celulares e sem fila para qualquer banheiro.
  • Jet Sounds é um clube sofisticado ao qual você não teria acesso na vida real.
  • Jet Sounds é um passeio de Concorde: um sonho encerrado; uma máquina do futuro vivendo no passado. (E adivinha o destino do primeiro voo comercial do Concorde…)
  • Jet Sounds é uma relação tão confusa quanto prazerosa entre espaço e tempo (“chegue antes de partir“).

Próximo dos 30 anos, naturalmente carrego alguma saudade do início dos anos 2000 – até porque, convenhamos, chega de resgatar absolutamente qualquer coisa da década de 1990; está na hora de o passado virar a página.

Esse zeitgeist pré-11 de setembro (de que tratamos na edição 98 e que agora encapsulamos na produção de Nicola Conte) também tem seu apelo por servir como oposto ao sentimento de fronteiras fechadas, desconfiança incessante, polarização política e mal-estar tecnológico com que nos habituamos nos últimos anos, por motivos diversos.

Jet Sounds é a nossa descoberta tardia de 2021 e uma recomendação sólida para o próximo ano. Obrigado por acompanhar a Enclave: nos reencontramos em algumas semanas!


Hipertexto: Espionagem, traição, adaptação

Extraído da edição 102 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Selo soviético em homenagem a Kim Philby, o traidor (muito) inglês. [WikiCommons]

1. O livro A Spy Among Friends, de Ben Macintyre, vai se tornar uma minissérie estrelada por Guy Pearce (L.A. Confidential; Memento) e Damian Lewis (Billions; Era uma vez em Hollywood).

2. Nunca publicado no Brasil, A Spy Among Friends é um belo livro. Trata do agente duplo Kim Philby (mais sobre ele logo abaixo) e de sua amizade com Nicholas Elliott. Ambos eram espiões do MI6 durante a Guerra Fria. Portanto, a notícia é animadora.

3. Já usamos um trecho de Agente Zigzag, do mesmo autor, na Enclave #78. Este cobre a história de Eddie Chapman, agente duplo durante a Segunda Guerra Mundial – e foi publicado no Brasil pela Record, em 2010. Chapman era um marginal beberrão e picareta extremamente ativo: todas esses traços o transformaram em um grande espião a serviço dos Aliados, enganando o serviço secreto alemão com consistência. Agente Zigzag também é um baita livro de não ficção.

4. Também já tratamos de outro livro de Macintyre na Enclave: Adam Worth: O Napoleão do Crime, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, em 2000. Worth foi um ladrão absoluto – não só o Napoleão, mas também o Pelé do crime. Brilhante, calculista e incrivelmente não violento, ele estendeu seu portfólio de atividades irregulares a diversos países ainda no século 19, inspirando o prof. Moriarty de Arthur Conan Doyle. Detalhamos a trajetória de Adam Worth em duas partes: 1 e 2. Naturalmente, consideramos O Napoleão do Crime outro ótimo livro.

5. Agora sim, de volta a Kim Philby. A sua história é uma das mais espetaculares do século 20, afinal Philby é um dos maiores traidores da história. Também já a detalhamos neste enclave, mais especificamente na edição #15. Com o perdão do autoplágio:

Nascido na Índia quando essa ainda atendia por Índia britânica, Kim Philby foi um espião dos mais altos rankings da inteligência britânica. Não à toa, ele se tornou cavaleiro ao receber um OBE na década de 1940, com apenas 34 anos.

Servindo ao MI6 por décadas, Philby chegou perto de se tornar o diretor da instituição. Problemas internos o fizeram se demitir do serviço de informações em 1951, quando passava por forte investigação por parte de seus colegas, além do MI5. Somente nos anos 1960, foi confirmada a temerosa suspeita de que Kim Philby havia sido, por todo esse tempo, um agente duplo que servia tanto à KGB quanto ao NKVD.

Por décadas, ele comprometeu colegas, missões e supostos amigos.

6. A trajetória de Philby (e dos “Cambridge Five“) exclama por uma adaptação digna. Se a minissérie anunciada dará conta disso, não sabemos; mas o ânimo é justo. Desde que li A Spy Among Friends, torcia para que alguma produtora endinheirada abraçasse a tarefa.

7. Sobre espiões na Guerra Fria, O Espião Inglês (The Courier) foi finalmente lançado este ano, após uma leva de atrasos por conta da pandemia. Dirigido por Dominic Cooke e estrelado por Benedict Cumberbatch, o filme se ancora na história real de Greville Wynne, empresário-tornado-espião que chegou a ser descoberto – e preso – pela KGB. No momento, está disponível no Prime Video. É um belo filme, ao menos para quem se anima com a temática.

8. Curiosamente, O Espião Inglês é o terceiro filme em que Cumberbatch se envolve com espionagem – que eu me lembre. N’O Jogo de Imitação (2014), no qual interpreta Alan Turing, inclusive, há uma mistureba narrativa com os espiões-traidores de Cambridge, nesse caso envolvendo John Cairncross (“mistureba narrativa” porque, ao contrário do que o filme retrata, a relação de Cairncross com os soviéticos só viria a ser descoberta muito depois da Segunda Guerra).

9. O outro filme? Nada menos que O Espião que Sabia Demais (Tinker Tailor Soldier Spy, 2011), uma beleza contemplativa – ou seja, lenta – adaptada do romance homônimo (1974, publicado no Brasil pela Record, 2012) de John le Carré (1931-2020), uma lenda da narrativa de espionagem. Como se sabe, ele próprio foi um agente do MI5 e do MI6 nas décadas de 1950 e 1960. O Espião que Sabia Demais (tanto filme como livro) aborda a espionagem de maneira muito mais realista, característica típica da obra de le Carré.

10. A carreira de John le Carré na espionagem foi destruída por conta da traição de… Kim Philby. A Spy Among Friends deve estrear no segundo semestre de 2022.


Um fato bônus e perifericamente relacionado: encontrei o livro abaixo, de 1946, capa dura, extremamente conservado, por R$ 22,61. W. Somerset Maugham (1874-1965) também trabalhou no serviço secreto inglês, mas ao longo da Primeira Guerra Mundial. O Agente Britânico (Ashenden: Or the British Agent), parcialmente autobiográfico, foi publicado em 1927.

Hipertexto: Duna é o espetáculo que Duna merece

Extraído da edição 101 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Que saudades de ir ao cinema! À minha direita, um sujeito trata o saco de pipoca como se precisasse nocauteá-lo, então a degusta com a ferocidade de um cão a descobrir um novo osso.

À minha esquerda, um bombonière humano com uma relação infinita de chocolates, todos encapsulados em plástico e guardados em outra sacola plástica, na qual é preciso navegar constantemente à procura do próximo doce.

À minha frente, impulsos assassinos controlados, depois distraídos por uma tela gigantesca a anunciar: “Duna, primeira parte“.

Talvez você já tenha cansado de ouvir sobre Duna; talvez lhe falte um último empurrão para ver o filme com os próprios olhos; talvez você não tenha qualquer interesse no assunto. Mas Duna, do franco-canadense Denis Villeneuve, é o principal assunto do cinema hoje, muito por conta da escassez de lançamentos em função da pandemia.

E Duna (1965), o romance de Frank Herbert que lhe serve como base, é um livraço. Enredos, personagens, conceitos: uma miríade de informações parte de Arrakis, o planeta desértico governado pela Casa Atreides, para compor uma verdadeira picadilha galática.

Tecendo a ficção científica com feudalismo, Herbert misturou tecnologia, transcendência e pluralismo cultural de maneira cativante. Não à toa, esse universo, tão grande como amarrado – a criatividade do autor é puramente invejável –, acarretou uma saga de publicações, e estas inspiraram diversas outras franquias.

Com um parâmetro simplificado, podemos dizer que Duna sempre foi o “Star Wars para adultos” (digo isso de maneira não depreciativa). George Lucas certamente bebeu dessa fonte.

Porém, a adaptação de David Lynch, de 1984, é esquisita (digo isso de maneira depreciativa) por vários motivos, alguns dos quais – não todos – fora do controle do diretor (“Meu, ele mistura muito bem essa coisa do inconsciente, abstrato com essa tecnologia estrambólica, polipotética, parafernálica, meu”).

Por sua vez, o Duna de Alejandro Jodorowsky seria o maior, melhor, mais espetacular, mais incrível filme da história, segundo Alejandro Jodorowsky. Contudo, o projeto acabou engavetado, alimentando o mito acerca do título, que seguia à procura de um filme capaz de traduzir sua devida potência.

E assim chegamos ao Duna a que podemos assistir nos cinemas no fim de 2021. Para fazê-lo, por sinal, não li absolutamente nada sobre o filme; nem uma crítica; zero. Acompanhei a produção anos atrás, então procurei me desinteressar para não criar expectativas – mesmo confiando em Villeneuve, ou melhor, “no De“.

Mais que um excelente filme, Duna é uma experiência cinematográfica incrível. Ideal para grudar os olhos em uma tela gigante, ficar meio surdo e esquecer o indivíduo nefasto amassando uma sacola plástica ao seu lado.

Protagonizada por um monte de ator famoso mais um monte de famoso ator, a obra é expositiva o suficiente para dar conta da parcela do romance a que se propõe. Ainda assim, flui bem o bastante para entregar pancadaria, belas cores, belos cenários, belos trajes e um capricho sonoro capaz de tensionar seus músculos na cadeira.

Duna, finalmente, tem um espetáculo digno de Duna – o melhor blockbuster possível diante de seu texto fonte. Nem fãs nem curiosos se decepcionarão. A segunda parte já foi confirmada para 2023.

Hipertexto: Tarantino romancista

Extraído da edição 100 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

No fim de junho, Quentin Tarantino publicou Era uma vez em Hollywood, novelização de seu filme homônimo (2019).

Assisti a Era uma vez em Hollywood no cinema, o que já parece há uma eternidade, tratando-se de 2019. Lembro de ter gostado, mas com algum estranhamento. A sensação de não saber exatamente o que agradou, o que desagradou; a confusão que requer nada além de tempo para indicar direções.

Passados alguns dias, o filme não saía da minha cabeça. Mas não necessariamente o que acontecia nele, em termos de eventos e movimentos, e sim cenários, transições; Clith (Brad Pitt) dirigindo; Sharon Tate (Margot Robbie) dirigindo.

Isso bastou para abraçar aquele universo – Los Angeles, fevereiro de 1969 – (re)criado por Tarantino com enorme afeto. Quando o livro do diretor foi anunciado, soube que daria uma chance de braços abertos. Principalmente após ouvir Quentin Tarantino falar sobre a própria obra: é difícil não se convencer pela paixão irrestrita com que ele, como uma criança na sorveteria – já cheia de açúcar –, trata o próprio trabalho.

Em suma (e sem spoilers), o diretor se deu conta de que tinha personagens cativantes em mãos, interpretados por grandes atores. A partir disso, ele não precisaria construir uma grande história para além de um dia comum na vida de três personagens centrais: os fictícios Rick (Leonardo DiCaprio) e Cliff e a realíssima Sharon Tate, cujo assassinato traumatizou uma era.

Assistir ao filme com essa premissa em mente (e sem esperar, digamos, Cães de Aluguel) permite uma catarse deliciosa, o mero deixar-se levar por um universo construído com um carinho visivelmente pessoal.

Era uma vez em Hollywood, o livro, é uma extensão disso.

De início, portanto, Tarantino sequer trata a obra como um romance propriamente dito. Tal qual o longa-metragem, é um apanhado de momentos (às vezes cotidianos, banais) de seus personagens, os quais, por sinal, ele não se propõe a desenvolver. O livro é um filme com cenas estendidas, cenas extras e mais contexto (por sinal, haverá um extended cut).

Era uma vez em Hollywood, tanto o filme como o livro, é repleto de metalinguagem, mas não por ela mesma – nem como muleta crítica –, e sim simplesmente como um mecanismo para Tarantino desenvolver uma fan fiction do período desejado e se perder nele sem as chaves.

No romance, com ares de pulp fiction (o gênero, não o filme), Tarantino transita entre a história do cinema, opiniões sobre filmes (terceirizadas em personagens), eventos fictícios de personagens reais e demais eventos de personagens fictícios.

Ironicamente – e com absoluta consciência –, a maior narrativa do livro diz respeito à série Lancer, escrutinada pelo autor como um conto e temperada pela fluidez natural dos obsessivos.

Aqueles convencidos pelo filme têm muito a ganhar com Era uma vez em Hollywood, literatura despreocupada e rústica, mas totalmente ciente de seus objetivos – e com uma voz bem definida. Não se trata de “narrativa transmidiática”, malemal de narrativa. São momentos espalhados de personagens espalhados.

Por fim, testemunhamos um sujeito talentoso compartilhando conosco um período mágico (para ele) e traduzindo isso em duas mídias (portanto, linguagens) diferentes. Quentin Tarantino se perde, no melhor dos sentidos, em seu universo, abrindo a porta para nos emprestar um pouco desse encanto. O que mais podemos pedir?

Hipertexto: Era Uma Vez na América

Extraído da edição 99 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Noodles, I slipped!

Não se pode chamar de subestimado, afinal se trata de um filme de Sergio Leone, mas Era Uma Vez na América (1984) decerto é menos lembrado que outras grandes obras do diretor italiano – e menos lembrado do que merece.

  • Talvez porque o filme não seja um western, gênero ao qual Leone ficou tão associado.
  • Talvez porque seja seu último longa-metragem, com grande distância em relação ao anterior (13 anos para Giù la testa/Duck, You Sucker!).
  • Talvez por conta de seu lançamento confuso, com uma versão reduzida nos Estados Unidos, capaz de prejudicar a recepção imediata da película (e sua arrecadação).
  • Talvez porque sua versão consagrada tenha 229 minutos (3 horas e 49 minutos), o que intimida um tanto – mas vale cada segundo.

Era Uma Vez na América é um pináculo do cinema, sem mais nem menos. Ao longo de suas quase quatro horas, acompanhamos a trajetória de Noodles (Roberto De Niro) e Max (James Woods) representada de forma hipnotizante. A dupla lidera uma gangue juvenil cujo contexto tem a Lei Seca dos Estados Unidos (1920-1933) como ponto central.

A partir disso, assistimos a uma narrativa que desenvolve esses personagens por décadas, de 1918 até o fim da década de 1960, fragmentando a história de forma não linear e pincelando-a por cenas de um capricho etéreo.

Testemunhamos a ação do tempo, a degradação e a amargura através de cenários oníricos e transições de cenas coreografadas por um gênio, pois tamanha clarividência e tamanha técnica pertencem apenas ao gênio. Era Uma Vez na América redimensiona o que essa arte é capaz de proporcionar.

O filme é brutal e delicado; singelo e complexo; claro e ambíguo. Muitos adjetivos (que nada dizem), infelizmente, mas Sergio Leone criou algo digno de tal êxtase – com mais uma trilha sonora primorosa de Ennio Morricone e cinematografia de Tonino Delli Colli.

Há cenas que espectador algum esquece – quem viu sabe exatamente quais –, mas tratar delas pode atrapalhar a experiência de curiosos. Nosso maior intuito é incentivar o contato com essa obra-prima de densidade narrativa, psicológica, visual e sonora. Por hoje é só: reassistindo, seguimos pasmos.


  • Ao fechamento desta edição, Era Uma Vez na América está disponível no Prime Video, que não financiou este texto.
  • Uma possibilidade é dividir o filme em dois, assistindo à primeira parte, até 2h40min; depois disso, até o fim (cerca de 1h10min). Outra é serializá-la em seis partes. Segue sugestão: 1 (até 38 min); 2 (até 1h29min); 3 (até 2h03min); 4 (até 2h40min); 5 (até 3h12min) e 6 (até o fim).

Hipertexto: Matrix, suco de acerola com maçã

Extraído da edição 98 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

A confirmação de um quarto e provavelmente redundante, desnecessário e autorreferencial filme Matrix (trailer aqui) nos trouxe alguns insights. Brincadeira, jamais usaríamos o termo “insights“. Mas temos lá uma sequência de comentários (redundantes, desn… etc.).

1. Na opinião deste editor, Matrix (1999), das irmãs Lana e Lily Wachowski, é um baita filme, seguido de uma aporrinhação (Matrix Reloaded) e de algo desastroso (Matrix Revolutions), respectivamente.

2. Ao juntar Neuromancer com The Invisibles (talvez até demais) a partir de uma representação visual cativante, a franquia fez por merecer seu impacto na cultura popular da virada do século. Não foi (nem poderia ser) tão marcante à toa – quem lembra das inúmeras paródias de ação “estilo Matrix“?

3. É curioso que Show de Truman (1998), Cidade das Sombras (1998) Matrix e 13º Andar (1999) sejam tão próximos e carreguem temáticas tão semelhantes. Isto é, grosso modo, de que a realidade objetiva é uma farsa prestes a romper. Não há coincidência aí, nem falha na matriz.

4. “Todos os filmes de 1999 são iguais” – Matrix, Clube da Luta, Beleza Americana, Office SpaceQuero Ser John Malkovich… todos lidam com um cansaço existencial oriundo de uma estabilidade típica da época – ao menos para os americanos. Muito disso mudou há exatos 20 anos, digo, a partir de 11 de setembro de 2001.

5. Curiosamente, essa estabilidade hoje nos parece, se não utópica, bastante aprazível. Quantos cidadãos de classe média não digladiariam por esses trabalhos “chatos”, “entediantes”, “sem futuro” que ao menos sustentam um indivíduo com alguma tranquilidade? (Em oposição a, digamos, preencher um currículo para ganhar R$ 2 mil/mês [bruto] e viver com igual carência de futuro?)

6. Em 1994, o produtor japonês Towa Tei lançou Future Listening!, seu primeiro disco. Este álbum encapsula o que seria o ethos da segunda metade da década de 1990: globalização e uma ideia otimista de mundo digital. Future Listening! tem participação de Bebel Gilberto e Marcos Valle.

(6.1. O planeta inteiro já escutou Towa Tei alguma vez na vida… Pois é, é ele o de chapéu.)

(6.2. Towa Tei com Kylie Minogue e Haruomi Hosono: ‘GBI‘, 1997, certamente a melhor música da história dedicada a uma fonte caligráfica.)

7. ‘Technova‘, justamente com refrão de Bebel (em português), é uma pequena obra-prima. Claramente influenciado pelo hip hop americano – Towa Tei já morava em Nova York –, o produtor misturou bossa nova (incluindo sample de ‘Lamento’, do nosso maestro soberano) com soul e certo easy listening da década de 1960. A mistura pode ser visualizada no seguinte esquema:

Fonte: Bossa reborn: electronic bossa nova and millennial cultures of circulation, 2014.

8. Em The Love Movement (1998), A Tribe Called Quest ofereceu ao mundo ‘Find a way‘, outra bela faixa – a mais bela, por sinal, do álbum menos impressionante do grupo, cuja discografia é repleta de diamantes. De influenciadores, eles passaram para influenciados: o grupo partiu de ‘Technova’, de Towa Tei, sampleando a música do produtor japonês. Agora com uma temática mais romântica, ATCQ manteve o refrão de Bebel Gilberto, sobrepondo-o com versos de Phife Dawg (1970-2016).

9. Esta é a interseção entre Bebel e Phife:
“Lá em Copacabana que tem / Tudo de bom, tudo que é de bem / Suco de acerola com maçã / E vem do pé, meu bem”
Now you caught my heart for the evening / Kissed my cheek, moved in, you confuse things / Should I just sit out or come harder? / Help me find my way

10. Portanto, ela canta em português; ele, em inglês. Porém, a consonância é incrível: a não ser que cacemos os desencontros, não percebemos que essa criação, mediada por um japonês, trata de duas línguas diferentes. Por um breve momento, o mundo fala a mesma língua.

11. “Matrix 4”, intitulado The Matrix Resurrections, será lançado em 22 de dezembro.

Entre mexicas e conquistadores

Extraído da edição 97 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

A invasão e conquista de Tenochtitlán, cidade-estado mexica (asteca), é um dos maiores eventos do Ocidente. Os conquistadores espanhóis lá chegaram em 1519, liderados por Hernán Cortés. Entre alianças, negociações e batalhas, de lá não saíram.

Tenochtitlán era a capital da Tríplice Aliança, o chamado Império Asteca – Tetzcuco e Tlacopan eram as outras duas altepeme, plural de altepetl, palavra em náuatle que caracteriza essas cidades-estado, cada qual governada por um tlatoani. O tlatoani da capital (Huey Tlatoani), como Montezuma II, era o líder da aliança, por isso costuma ser chamado de imperador.

Náuatle, por sinal, era a língua do povo náuatle (naua), o grupo indígena da região. O primeiro filho de Cortés com Marina (La Malinche), sua intérprete, concubina e protagonista neste cenário todo, é um dos primeiros mestizos (metade espanhol, metade ameríndio) da história do México.

Tenochtitlán foi construída sobre um lago natural (Lago de Texcoco) que hoje não existe mais, o que confere ao território um aspecto mágico, uma das tantas belezas intrínsecas a esse contexto histórico. O Texcoco foi drenado para conter enchentes depois de as represas terem sido destruídas (mas nunca reconstruídas) durante o cerco de Cortés.

Hoje, a antiga Tenochtitlán é o centro histórico da Cidade do México – sem lago. A Tríplice Aliança existia desde 1428 e acabou (pois passou para domínio espanhol) em agosto de 1521, portanto há exatos 500 anos.

Aqueles que hoje chamamos de astecas (nome retroativo) são famosos por alguns fatores. Entre eles, sua cultura militar e a beleza de suas cidades – por exemplo, por conta de sua arquitetura e de seu grau de limpeza, que fazia qualquer megalópole europeia parecer um lixão. O aqueduto de Chapultepec, feito de terracota, fornecia água fresca para a população se banhar.

A cultura dos mexicas pré-colombianos também é conhecida pela organização de uma população imensa para os padrões da época: em suas feiras se reuniam dezenas de milhares de pessoas, movendo a prosperidade local. Por fim, havia os rituais de sacrifício, um dos pontos de conflito com os espanhóis da época (e não só espanhóis; e não só da época).

Por diversos motivos, a Tríplice Aliança pereceu em seu ápice. Isso rega a imaginação com questões do tipo “e se…”.

Para uma civilização e um evento tão expressivos, existe um número surpreendentemente baixo de produções modernas interessadas em nos contar alguma versão dessa longa história, repleta de conflitos das mais variadas ordens.

Até que a TV Azteca, em conjunto com duas outras produtoras, criou a série Hernán (2019), a maior produção já rodada na América Latina. A segunda temporada já foi confirmada.

Como o nome indica, a obra se concentra em Cortés. Muito além dele, no entanto, sete dos oito episódios têm algum outro personagem como pivô, começando pela própria Marina.

Também são extraordinários os episódios de Xicotencatl II – líder militar de Tlaxcala, que se uniu aos espanhóis na luta contra Tenochtitlán – e de Bernal Díaz del Castillo – que relataria a epopeia décadas depois na História Verdadera de La conquista de la Nueva España (há questionamentos).

Hernán dispõe de ao menos três grandes méritos: a ambientação, que nos permite ver Tenochtitlán com uma qualidade inédita; a caracterização corajosa, que lida de forma adulta com conflitos muito difíceis de simplificar; e o linguístico – este merece grande destaque.

Isso porque espanhóis falam castelhano; náuatles falam náuatle e maias falam maia. Isso exige o intermédio de um tradutor (às vezes, dois), o que confere um realismo devidamente catártico às cenas. Em outras palavras, nada de ver romanos, chineses e vikings falando inglês com sotaque britânico na Grécia.

Não tenho dúvidas de que conhecedores mais letrados que este editor encontrarão problemas históricos na narrativa. Também não tenho dúvidas de que a obra em si sobrevive às possíveis (prováveis, obrigatórias) distorções em seu recorte.

Hernán é um trabalho belíssimo sobre um dos eventos mais delicados, violentos e caóticos do Ocidente – por isso mesmo, um evento tão humano.

Hipertexto: Jiro Ono, absoluto e interminável

Extraído da edição 96 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Agora que os Jogos Olímpicos de Tóquio acabaram, algumas dúvidas têm atormentado este editor: como está Jiro Ono? Ele ainda trabalhava em seu restaurante? Será que se aposentou? A Enclave de hoje contextualiza, mas, infelizmente, não traz respostas definitivas.

Jiro Ono é um chef; mais que um chef, um mestre do sushi; mais que um mestre do sushi, um verdadeiro shokunin, cuja tradução nos leva a “artesão”, mas implica algo maior: a preocupação cônscia de ser cada dia melhor, além de uma responsabilidade com o próprio ofício.

O documentário Jiro Dreams of Sushi (O Sushi dos Sonhos de Jiro, 2011), dirigido por David Gelb, demonstra por que Jiro é a epítome do shokunin. À época do lançamento, o protagonista tinha 86 anos, mas seguia firme em sua busca diária pela perfeição.

Nada para, parou, pararia ou havia parado Jiro, que lidera o Sukiyabashi Jiro, seu – premiadíssimo, consagradíssimo, limitadíssimo – restaurante, desde 1965.

A atração fica literalmente dentro da estação de metrô de Ginza, em Tóquio, atende apenas 10 pessoas por vez (com reservas muito antecipadas) e sequer dispõe de um banheiro para os clientes. Hoje, custa ¥44,000 (cerca de R$ 2.120) a refeição, que inclui uma rodada veloz de 20 sushis (aproximadamente meia hora).

A obra é tão cativante que consta entre os favoritos de nichos bastante diversos, afinal Jiro convence tanto pelo lado artista/artesão (movido pela beleza) como pelo empreendedor/executor (movido pela resiliência). Suas lições são abrangentes o suficiente para extrapolar o contexto gastronômico. Por exemplo:

  • “Para fazer uma comida deliciosa, você deve comer uma comida deliciosa. A qualidade dos ingredientes é importante, mas é preciso desenvolver um paladar capaz de discernir o bom e o ruim. Sem bom gosto, você não pode fazer uma boa comida.”
  • “Mesmo na minha idade, no meu trabalho, não cheguei à perfeição.”
  • “Vou continuar a subir para tentar chegar ao topo, mas ninguém sabe onde fica o topo!”
  • “Depois de decidir sua profissão, você deve mergulhar no seu trabalho. Você tem que se apaixonar pelo seu trabalho. Nunca reclame do seu trabalho. Você deve dedicar sua vida para dominar sua habilidade. Esse é o segredo do sucesso e é a chave para ser considerado com honra.”

A película é, sem dúvidas, extraordinária. Mas começamos este texto perguntando sobre Jiro por um simples motivo: no documentário, ele relata que já fazia sushis na Olimpíada de Tóquio de 1964 (até porque já era um itamae desde 1951) e que pretendia se aposentar após os Jogos Olímpicos de 2020, fechando o ciclo.

Quando o evento foi adiado para 2021, a maior preocupação deste editor se referia ao estado de Jiro Ono: como ele estava? Será que aguentaria mais um ano? Será que aguentou? Não encontramos novidades sobre Jiro, hoje próximo de completar 96 anos. Por definição, podemos acreditar que ele continuou fazendo o que sempre fez – e cada dia melhor.


  • No momento da publicação deste texto, o documentário está disponível no Prime Video.
  • Neste link, o relato completo de um brasileiro.
  • Um chá entre Jiro Ono and René Redzepi.

Hipertexto: testemunhas da solidão

Extraído da edição 95 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Night Shadows, Edward Hopper, 1921.

Já tratamos algumas vezes da literatura policial na Enclave, muitas vezes desembocando organicamente no noir. Também já escrevemos especificamente sobre a solidão em Mad Men, obra-prima da televisão. Hoje, em outra eterna interseção (ou recursão?), ligamos mais pontos óbvios para seguir pensando dentro da caixa de forma quinzenal.

A literatura policial – essa mais urbana, americana, do século 20 – tem um apelo claro. Nas palavras de Raymond Chandler, seu representante máximo, mistérios “são quase que o único tipo de ficção que não está querendo dar um passo mais largo que as pernas”. O gênero que o consagrou, moldado por Dashiell Hammett, é conhecido por apresentar detetives particulares apanhando, mas seguindo em frente até o fim da trama.

Hammett apresentou ao mundo Sam Spade e o agente da Continental; Chandler, Philip Marlowe; Rex Stout, Nero Wolfe e Archie Goodwin. Por fim, Ross MacDonald sustentou uma carreira longeva com seu herói Lew Archer, tão implacável como qualquer outro, mas talvez mais complacente com a miséria alheia.

Após uma longa sequência mergulhando nesses e em outros autores próximos (como Cornell Woolrich), porém mais recentemente conhecendo a fundo o desenvolvimento de MacDonald, este editor se perguntou, entre trench coats e gotas de chuva: para além de afinidade estética, onde está o apelo narrativo em acompanhar detetives particulares apanhando e seguindo em frente?

Sem o menor risco de trazer um raciocínio inédito, a conclusão é simples.

Primeiro, sabemos que narrativa alguma se sustenta sem alguma relação (mesmo que de desprezo) com seus personagens. O enredo mais interessante do mundo não vale nada se os personagens são um lixo incapaz de articular nada além de lixo, ao passo que personagens interessantes vivendo um dia banal podem compor uma história cativante.

Com essa premissa bem estabelecida, a literatura dos detetives durões nos oferece uma relação curiosa. Afinal, ela funciona porque posiciona o leitor como testemunha da solidão de seus heróis. Sim, eles sempre apanham e seguem em frente. Mais do que isso, no entanto, esses personagens o fazem de maneira – constantemente – solitária, embora jamais declarada diretamente, ou com uma metafísica extensa. Estão cansados demais para isso.

Os detetives vagam, visitam locais onde não foram convidados para conversar com pessoas que não querem dialogar, extraem pedaços de informação, brigam, bebem, dormem mal e ligam pontos com pouco ou nenhum auxílio. Em primeira pessoa, com períodos curtos e diretos, expõem a própria vulnerabilidade enquanto relatam resiliência.

Ao leitor, também resta ir em frente. A literatura policial urbana desse grupelho de americanos é simplesmente irresistível.

Hipertexto: Conan, o último de sua era

Extraído da edição 94 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Conan O’Brien, o ruivo grandalhão mais longevo entre os apresentadores de talk show nos Estados Unidos, pendurou as chuteiras – ao menos no formato que o consagrou.

Americano de ascendência irlandesa, Conan comandava algum talk show desde Late Night with Conan O’Brien (NBC), em 1993, quando ele ainda era um jovem roteirista de Os Simpsons. O apresentador chegou a trocá-lo pelo The Tonight Show, ainda na NBC, por um breve período (que acarretou uma polêmica longa e desinteressante), então assumiu Conan (TBS) em 2010. O último episódio de Conan foi ao ar mês passado e incluiu uma entrevista conduzida por Homer Simpson.

O apelo de Conan O’Brien é simples: ele é um sujeito tremendamente inteligente tentando ser o mais bobo possível em suas interações. Com o aspecto de um cartum gigante, Conan costuma ser o alvo da própria piada, e em suas interações com outros (famosos ou não) fica evidente sua capacidade de fazer qualquer um rir de forma sincera, geralmente armado apenas da própria espontaneidade.

O que parece ser justamente o ponto cego de seu gênero de atuação. Nos últimos anos, esses talk shows americanos – uma instituição sempre copiada no mundo inteiro – mudaram. A internet expandiu sua audiência tremendamente e possibilitou esquetes muito bem produzidas, já pensadas para a propagação digital.

Por outro lado, talvez pela gradual desimportância do tempo televisivo; talvez pela hiperatividade do espectador; talvez pela urgência em capturar o maior engajamento possível com todas as faixas etárias possíveis; talvez pela tentativa generalizada de transformar a existência em algo “tipo a Marvel”; talvez por puro desespero; talvez por mero desgosto do editor… há menos conversas (isto é, interações entre adultos atentos) genuínas e engraçadas no formato.

Por exemplo, de um lado, Jimmy Fallon e James Corden, com seus joguinhos e risadas ininterruptas, testam a paciência de qualquer espectador com uma abertura mínima para o cinismo [a linha do escapismo], ao passo que Stephen Colbert e Seth Meyers pregam para convertidos, num estilo de comédia cada vez mais refém de conteúdo (e alinhamento) político [a linha do proselitismo]. Craig Ferguson, o bom caótico, já abandonou o talk show há anos.

Resta Jimmy Kimmel, que vez ou outra proporciona um quadro marcante, mas simplesmente não dispõe da mesma aptidão para o humor natural. Nenhum deles tem a fluidez do irlandês Graham Norton, por exemplo. O formato imortalizado por Johnny Carson e conhecido por certa maturaridade, enfim, mantém outras preocupações hoje (o que, por si só, não é nenhum problema). A respeito do talk show como gênero contemporâneo, há considerações interessantes nessa conversa com Conan O’Brien em Oxford.

Ademais, não bastasse a concorrência com absolutamente tudo (Netflix, Playstation, TikTok etc.), outra competição emergiu. Porque conversas mais detalhadas, histórias de bastidores e anedotas em geral parecem cada vez mais direcionadas aos podcasts – cuja produção, por sinal, é muito mais simples e barata. Não à toa, a impressão recente é de que qualquer pessoa pública mantém um (e ganha um bom cascalho extra no fim do mês, afinal basta anunciar e recolher o dinheiro do anunciante, sem intermédios).

O próprio Conan criou um podcast (Conan O’Brien Needs a Friend) e parece ter se dado conta da leveza do formato, que não chega perto de exigir todo o preparo necessário em comparação com um episódio de TV, o qual, muitas vezes, pode incluir um convidado indesejado, empurrado pela emissora, ou conversas interessantes, mas limitadas pelo fator tempo.

Fora do talk show, mas agora contratado pela HBO, Conan O’Brien não se aposentou do entretenimento. A mudança provavelmente será uma evolução, capaz de aproveitar mais sua habilidade para interações aleatórias e explosões de nonsense. Basta vê-lo perambulando pelo mundo: seus momentos em viagens se tornaram o Conan Without Borders e, mais do que isso, permitiram uma rara apreciação de um sujeito que faz uso da própria sagacidade para produzir uma alegria tão boba que só pode exigir muito talento.

Hipertexto: nossa bandeira jamais será… igual?

Extraído da edição 93 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Tal qual a próxima Olimpíada (Tóquio 2020), que se iniciará no fim de julho (de 2021), os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, foram um tanto atípicos, embora por razões bem distintas. Afinal, havia o fator Hitler, que por sinal ainda não tinha assumido como chanceler da Alemanha – o que ocorreu em 1933 – quando a sede do evento foi escolhida, isto é, em 1931.

Em 1936, no entanto, Berlim já estava devidamente preparada (nos padrões do Partido Nazista) para receber o mundo e propagar o arianismo que excitava seu comandante. Isso incluía a exclusão de atletas judeus da delegação alemã, processo iniciado já em 1933.

  

Diante de tensões em qualquer esfera, houve ameaça internacional de boicote. Por sua vez, isso permitiu a participação de judeus e negros, o que possibilitaria momentos belíssimos, como a histórica vitória de Jesse Owens.

Mas todos esses fatos são bastante conhecidos. No momento, não trataremos de nenhuma das bandeiras (literais ou figuradas) mencionadas. Com seu olhar atento ao irrisório, porém curioso, a Enclave – sem querer, como toda descoberta alegre – ficou encantada com a seguinte situação.

1º de agosto de 1936, cerimônia de abertura, estádio Olímpico de Berlim, 49 nações. O Haiti desfila com sua bandeira civil:

Participando do mesmo ritual, a delegação de Liechtenstein estranha. Isso porque ela se via representava pela seguinte bandeira:

Nem um, nem outro sabia até os Jogos Olímpicos de 1936: Haiti e Liechtenstein tinham a mesma bandeira desde 1921 (a do principado europeu veio depois, pois os caribenhos já a usavam desde o século 19).

Além da ausência de Wikipédia, a confusão provavelmente ocorreu porque a República do Haiti já dispunha de uma variação dessa bandeira militar com um brasão ao centro, bem semelhante à atual.

A partir disso, os países construíram uma relação diplomática harmoniosa e se mantiveram parceiros comerciais até hoje, incluindo tradicionais programas de intercâmbio entre os governos. “Isso só pode significar algo; nós temos tanto em comum!”, afirmaram embaixadores de ambas as nações, enquanto repudiavam Adolf Hitler.

Brincadeira, até parece. Liechtenstein apenas adicionou uma coroa à sua (e só sua) bandeira já no ano seguinte, representando seu principado.

Hipertexto: queimando um milhão em nome de… algo

Extraído da edição 92 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

O conceito de loucura é definido e disputado há tempos num bolo que envolve medicina, psicologia, Michel Foucault, meu pau de óculos e a importantíssima luta antimanicomial. Um consenso que parece atravessar todas essas instâncias é o de que alguém que literalmente queima dinheiro só pode estar louco.

Em 23 de agosto de 1994, Bill Drummond e Jimmy Cauty, a dupla de artistas do K Foundation (ex-The KLF), queimaram um milhão de libras esterlinas para a performance de arte K Foundation Burn a Million Quid.

Dinheiro vivo, real (um parêntese, aliás, para a gíria Quid, que no inglês britânico é usada para se referir à libra, e que deriva do latim quid pro quo, algo como “tomar uma coisa por outra”, de onde deriva também a expressão em português “quiprocó”, familiar a todo fã de Los Hermanos).

A performance virou um filme, as cinzas do dinheiro queimado viraram um tijolo – que depois também virou um filme – e, com o tempo, as explicações dos dois artistas para essa loucura ficaram cada vez mais lacônicas e arrependidas.

Drummond e Cauty formaram o duo The KLF (não confundir com KLB), produtores de um poperô de qualidade que fez um sucesso estrondoso no início dos anos 1990. Impostos deduzidos, no ano de 1992, quando eles se aposentaram precoce e mui artisticamente do mundo da música, ainda havia algo em torno de 1 milhão de libras esterlinas.

Esse dinheiro todo, que foi para a K Foundation, deveria ser utilizado em projetos artísticos e, principalmente, para o apoio de artistas fudidos.

Mas, como tão bem colocou Drummond, eles perceberam que o principal fator para ser um artista fudido é justamente a parte de ser mal pago. Em nome da arte, portanto, esse dinheiro não seria dado a ninguém – ele se tornaria o próprio material das obras.

Foi assim que eles começaram a contactar galerias de arte e pensaram em planos grandiloquentes de exposições, como a Nailed to the Wall, em que o dinheiro seria pregado à parede, ou a ideia de uma exposição itinerante pela União Soviética com um milhão de libras (abandonada provavelmente pela falta de fé das seguradoras).

Drummond e Cauty já tinham um histórico piromaníaco, o que contribuiu para que a ideia de simplesmente queimar o dinheiro fosse tomando forma e virasse uma performance intimista numa casinha da ilha de Jura, na Escócia.

O jornalista Jim Reid (não confundir com… Jim Reid) foi o único a acompanhar a hora inteira em que o dinheiro queima – parte dele saiu voando, em brasa, para o delírio da comunidade vizinha –, enquanto uma câmera filma o processo. Esse vídeo foi exibido por cerca de um ano e, depois, destruído para sempre (aparentemente, um deles guardou uma cópia), dando início a um período de 23 anos de moratória em que os artistas não falariam sobre o assunto.

Em 2017, houve um debate promovido pelo duo de artistas durante o lançamento de 2023, trilogia de livros de ficção científica.

Hoje, os arteiros são lembrados sempre como aqueles que queimaram um milhão de pilas e ensaiam declarações menos artísticas e mais reticentes sobre a razão que leva alguém a queimar um milhão de pilas. Quem os conhece diz que nunca mais foram os mesmos.

por Marceli Mengarda

Hipertexto: Mad Men, dança da solidão

Extraído da edição 91 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Queríamos ter escrito este texto em maio, mas outros acabaram entrando na frente. Pois foi no quinto mês de 2015 que o universo pôde assistir ao último episódio de Mad Men (AMC, 2007, sete temporadas). Portanto, já faz seis anos que a série criada por Matthew Weiner encontrou seu desfecho. Como passa o tempo…

Mad Men acompanha Don Draper (Jon Hamm), diretor criativo em uma agência de publicidade, do início até o fim da década de 1960. A partir do protagonista garanhão, testemunhamos o desenvolvimento de seus colegas, familiares e – tão importante quanto – fantasmas do passado.

A série remete imediatamente a belas roupas, belos cenários, belos coquetéis e muitos cigarros, e trabalha diretamente com a ideia de identidade. Mas o ponto nevrálgico dessa obra-prima audiovisual, cuja elegância narrativa consegue superar a dos trajes, cenários e coquetéis, é mesmo a solidão.

Mad Men vive sempre sob um cinismo saudável. Isto é, não aquele absoluto, que não enxerga valor em nada (“Um cínico é um homem que sabe o preço de tudo, mas o valor de nada”, Oscar Wilde, 1892). A partir disso, a série nunca deixa de se configurar segundo a condição de que todo homem é uma ilha (logo, discordando de John Donne).

Não há intimidade que não possa ser traída; não há comunicação imune ao não dito; não há confiança inquebrável. No cerne de todas as suas relações, o ser humano permanece, em última instância, sozinho. Se a filosofia da série discorda de Donne, concorda com Joseph Conrad (1899): “Vivemos como sonhamos – sozinhos”.

Essa constatação não repele senso de humor, muito ao contrário. Mad Men é engraçada, exponencialmente engraçada conforme conhecemos seus personagens (e, consequentemente, suas fraquezas). Ao unir esses dois elementos e expressá-los sempre com sutileza – e, agora sim, em belos cenários, belos trajes e belos coquetéis –, a série se consolida como um produto inesquecível.

Da literatura americana do século 20, Matthew Weiner absorveu quatro influências bastante explícitas: A nascente (Ayn Rand, 1943); O homem no terno de flanela cinza (Sloan Wilson, 1955); Foi apenas um sonho (tradução adotada para Revolutionary road, Richard Yates, 1961) e os contos de John Cheever (compilados em The stories of John Cheever, 1978; no Brasil, em 28 contos de John Cheever).

Um dia, escreveremos sobre a influência de cada uma delas. Por ora, restam a menção e as recomendações. No momento de publicação deste texto, Mad Men está disponível no Brasil pelo Prime Video e pelo Now, após deixar o catálogo da Netflix.

Passados 14 anos da estreia e seis do encerramento, não há qualquer sinal de envelhecimento. Tampouco haverá, pois Mad Men examina com enorme sensibilidade as fraquezas da natureza humana. E esta, como bem sabemos, nunca muda – “os seres humanos continuam os mesmos, com mais ou menos dentes podres” (2012).