Hipertexto: Cornell Woolrich, cínico dos cínicos

Extraído da edição 61 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Policial corrompido; político corrompido; empresário corrompido; protagonista corrompido; amigo do protagonista corrompido; mulher mais bonita que o protagonista corrompida – na literatura policial do século passado (e em seus filhos e netos), o que sobra de puro é o álcool.

Dashiell Hammett (O Falcão Maltês, 1929) e Raymond Chandler (O Sono Eterno, 1939, e O Longo Adeus, 1953) são os nomes mais lembrados dessa roupagem da ficção policial, que passou a ser tipicamente americana, urbana e fria. James M. Cain e Ross MacDonald também caracterizaram os alicerces da estética noir (cigarros, coquetéis, detetives particulares ranzinzas, femmes fatales etc.), tão replicada até hoje.

Nas obras de Hammett, o cinismo deriva de um problema quase logístico: seus protagonistas, cansados e espancados, seguem em frente porque sobrevivem. O cinismo de Chandler é mais estilístico (James Ellroy, de Dália Negra e Los Angeles, Cidade Proibida: “Hammett escrevia o tipo de sujeito que ele temia ser. Chandler escrevia o tipo de sujeito que ele desejava ser”).

Mas há Cornell Woolrich (1903–1968), menos lembrado que os anteriores. Um autor cujo cinismo tão agudo só poderia derivar de um irrefreável desprezo pelo ser humano. Numa escala de 0 a 10 de fatalismo – em que 0 corresponde a um cliente de coach, e 10, ao próprio Emil Cioran –, Woolrich se alçava ao topo.

Cornell Woolrich costuma ser reconhecido pelo conto que inspirou Janela Indiscreta (1954), de Alfred Hitchcock. Também é dele o romance A Noiva Estava de Preto (1940), que François Truffaut adaptou para o cinema em 1968. Em sua literatura não há redenção ou perdão: os personagens estão fadados à desgraça, e não há página folheada que não assombre o leitor com a clara sensação de que a tragédia acompanha tudo de perto.

Woolrich dispunha de um talento incomum, ainda que com graus variados de qualidade na execução – seus romances oscilam e podem pecar pela inconstância, às vezes com um desfecho apressado, capazes de derrubar uma construção caprichadíssima. A arte bruta de contar histórias era-lhe natural; a ela se juntavam enredos notavelmente instigantes e a esculhambação dos próprios personagens.

Levar em conta a vida pessoal de um autor para avaliar sua obra é sempre arriscado (e, muitas vezes, preguiçoso), mas são fortes os indícios de que este escritor americano – que também utilizava o pseudônimo William Irish – sangrou na literatura as angústias de um desenvolvimento melancólico.

“O escritor pulp Cornell Woolrich poderia ter sido um personagem de uma de suas histórias – um alcoólatra recluso que perdeu a perna por gangrena, um gay não assumido que viveu com a mãe em uma série de hotéis ao longo da vida adulta. Ele passou muito tempo sozinho, olhando por janelas, mas certamente sabia escrever” – sintetizou sabiamente esta divulgação, de onde também extraímos a imagem de abertura.

Por isso, caro assinante da Enclave, se você não conhece Cornell Woolrich e quer esbarrar em uma literatura trágica, porém (ou porque) envolvente, os contos e romances deste cínico vêm a calhar. Janela Indiscreta (coletânea de contos) e A Dama Fantasma (romance) são favoritos pessoais.


Boa parte dos livros mencionados nesta edição – não só os de Woolrich, mas de Hammett, Cain e Chandler (selo Alfaguara) –, foi publicada pela Companhia das Letras e pode ser encontrada de forma mais barata (às vezes, muito barata) na Estante Virtual. Não estamos recebendo dessas empresas – o que nos parece óbvio, porque ninguém nos ofereceria dinheiro para nada –, porém não queremos ser acusados de sucesso.

Baú: Raymond Chandler

Extraído da edição 50 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Os leitores são de tipos muito variados e de variados graus de cultura. O aficionado por enigmas, por exemplo, encara a história [de mistério] como um duelo de inteligências travado entre ele e o autor; se adivinhar a solução, ele se considera vencedor, mesmo que não possa documentar seu acerto ou justificá-lo através de uma argumentação sólida. Existe algo desse espírito competitivo em todos os leitores, mas o leitor em que essa atitude é predominante não considera nenhum valor além desse jogo de adivinhar a solução. E existe também o leitor cujo único interesse é no que existe de sensacional, de sádico, de cruel, de sanguinário, e na presença da morte. Também nesse caso existe um pouco disso em cada um de nós, mas o leitor em que isso predomina não vai dar a menor atenção à chamada ‘história de dedução’, por mais meticulosa que esta seja. Um terceiro tipo de leitor é aquele-que-se-preocupa-com-os-personagens; essa leitora não liga muito para a solução; o que realmente a deixa chateada é a possibilidade de que a heroína possa ter o pescoço torcido na escada em espiral. Em quarto lugar, e mais importante, está o leitor intelectual e com cultura literária que lê mistérios porque eles são quase que o único tipo de ficção que não está querendo dar um passo mais largo que as pernas. Este leitor quer saborear estilo, caracterização, reviravoltas de enredo, todas as virtuosidades da escrita, muito mais do que se importar com a solução. Não se pode satisfazer completamente a todos os leitores. Fazer isso teria que envolver elementos que são contraditórios. Eu, quando estou no papel de leitor, quase nunca tento adivinhar a solução do mistério. Eu simplesmente não considero que o duelo entre mim e o autor seja importante. Para ser franco, eu vejo isso como o divertimento de um tipo inferior de mente.

Raymond Chandler, “Doze anotações sobre a narrativa de mistério”.

Ensaio escrito por Chandler em seus cadernos de anotações e nunca publicado em vida. Retirado da edição Later Novels & Other Writings (The Library of America, 1995) e traduzido por Bráulio Tavares em seu primoroso trabalho de seleção e tradução das obras do autor americano para a Alfaguara. “Doze anotações sobre a narrativa de mistério” está inserido no romance A Dama do Lago (Alfaguara/Cia. das Letras, 2014).

Hipertexto: trench coat

Extraído da edição 46 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

A relação entre guerra e moda é muitíssimo forte – nós até já providenciamos alguns exemplos na Enclave 42, e também já tratamos do fraque. Um dos exemplos mais clássicos da convergência entre esses dois campos cabe ao trench coat, aquele casacão belíssimo visto em pessoas elegantes no inverno. E em detetives sombrios, mas chegaremos lá.

trench coat (casaco de trincheira, ao pé da letra) é facilmente reconhecido: um agasalho extenso, do tamanho de um sobretudo, com duas lapelas largas, botões e um cinto que afunila a cintura de quem o veste. Tradicionalmente na cor cáqui, hoje é produzido em outras colorações (entre as alternativas mais comuns, cinza e preto).

Inicialmente concebido no início do século passado pelas marcas Burberry e Aquascutum, ambas britânicas e ambas careiras, o trench coat nasceu como item opcional do Exército Britânico. Era uma alternativa mais leve em relação ao sobretudo. Seu tecido – a gabardina – havia sido inventado por Thomas Burberry no final do século 19. Na Primeira Guerra Mundial, já foi presença constante entre os soldados britânicos.

Impermeável e provido com vários bolsos e fivelas, caiu nas graças dos soldados, que não o abandonavam após voltar das batalhas. Durante a Segunda Guerra, estava estabelecido – outros países já haviam confeccionado seus trench coats.

Sua popularização entre civis se deu por meio do cinemaHumphrey Bogart em Casablanca (1942) e Peter Sellers nos filmes d’A Pantera Cor de Rosa popularizaram de vez o item, que na década de 1960 já caía no gosto de moderninhos em geral. Você pode comprar um trench coat igual ao de Bogart na própria Aquascutum por R$4.715, por que não? Na Burberry, um modelo feminino está à venda por R$ 14.540.

A essa altura, as telonas também já haviam solidificado o gênero noir: detetives alcoólatras, art déco, femmes fatales, traições perversas. Humphrey Bogart, sempre ele, havia auxiliado na montagem do arquétipo, vide as adaptações de Falcão Maltês (1941) e The Big Sleep (1946). Passado o tempo, o trench coat se consolidou como um clichê do noir. Basta equipá-lo com um fedora, um maço de cigarros e bastante mal-humor para você se pagar de Philip Marlowe por aí.

Baú: Dashiell Hammett

Extraído da edição 43 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Spade sentou-se na cadeira verde. O gordo começou a encher dois copos com a garrafa e o sifão. O rapaz havia sumido. As portas, situadas em três das paredes da sala, estavam fechadas. A quarta parede, atrás de Spade, era vazada por duas janelas que davam para a rua Geary.

Começamos bem, senhor — ronronou o gordo, virando-se com um copo na mão, que ofereceu para Spade. — Não confio em um homem que não bebe à vontade. Se ele precisa tomar cuidado para não beber demais, é porque não se pode confiar nele quando bebe.

Spade segurou o copo e, sorrindo, fez o início de um cumprimento com a cabeça, por cima da sua bebida.

Dashiell HammettO Falcão Maltês (Companhia das Letras, 2001, p. 142).