Baú: Toquinho

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Todo músico tem a sua ‘Aquarela’. Essa música não tem muita explicação porque ela é uma antimúsica. É uma música grande, tem uma letra enorme, não tem refrão e fala de uma maneira fatalista que tudo vai acabar. Tudo vai se descolorir. O mundo vai acabar. E virou uma música infantil porque as crianças detectaram nela um começo lúdico. “Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo”… Mas, na segunda parte dela, ela fala da morte. Então é uma música que não tinha que fazer sucesso. E ela fez sucesso no mundo inteiro e em várias línguas que eu gravei. Ela tem 37 anos de vida e hoje é tocada. ‘Aquarela’ tem um carisma inexplicável para mim. Canções como essas ficam maiores do que seus compositores. Ela já não pertence a mim. É assim que é a vida. Você faz a música e a joga para o mundo, que nem um filho. E depois que está no mundo, a vida dele já não te pertence. São filhos que estão aí mundo afora e às vezes voltam para te ver.

Toquinho, 2020.

Hipertexto: Gang of Four e a morte discreta de Andy Gill

Extraído da edição 71 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

(Photo by Ebet Roberts/Redferns)

Semana passada, tratamos da música brasileira na primeira metade dos anos 1970 (na verdade, nos primeiros seis anos, antes que alguém nos corrija…). Hoje, lembramos um personagem da geração diretamente influenciada por aquele período musical brasileiro.

Andy Gill (1956-2020) foi guitarrista do Gang of Four, banda ícone do pós-punk, gênero/movimento em que jovens universitários descobriram sons de origem latina e/ou africana. Basta ouvir meio disco dos Talking Heads para compreender o que estou apontando (e melhor do que a minha explicação atenciosa possibilitaria).

Não à toa, David Byrne (Talking Heads) foi responsável direto pela propagação de músicos brasileiros (e não só) para grandes centros – Tom Zé talvez como o caso mais emblemático. A história pormenorizada do pós-punk foi costurada por Simon Reynolds no livro Rip it up and start again.

Mas voltando ao Gang of Four. A banda de Leeds (Inglaterra) lançou Entertainment!, seu álbum de estreia, em 1979. Esse debut é tranquilamente um dos discos mais influentes da história, ou então entre pessoas que usam guitarras, ou no mínimo entre indivíduos que compram e discutem a perenidade de discos.

Lembro perfeitamente meu primeiro contato com Gang of Four. Foi por meio de um CD gravado por um tio (e espécie de farol estético). Portanto, ainda quando se gravavam CDs. Eu tinha 14, 15 anos. Naquele CD-R havia uma espécie de guia do que eu deveria escutar ou já deveria ter escutado.

Da banda, constavam “Natural’s not in it” e “At home he’s a tourist”, e ambas me marcaram. O Gang of Four dispunha de verve, angústia política e originalidade estética. Em Entertainment!, tudo é conscientemente rústico e encaixado: trata-se de um trabalho tão próximo do disco como da poesia – isso apenas com a formação tradicional de quarteto (voz, guitarra, baixo, bateria).

Entertainment! é, acima de qualquer letra crítica ao capital, dançante; o protagonismo do baixo na estrutura de suas músicas – uma refrescante marca do pós-punk – atestava isso. E Andy Gill, de quem ainda falaremos, conseguiu desdobrar sua guitarra brilhantemente a partir disso.

A magia se repetiu – com menos efeito, mas ainda inegável qualidade (e talvez alguma inflação por parte da crítica) – em Solid Gold (1981), segundo álbum.

Conforme o tempo passava, no entanto, a banda perdia a capacidade de unir forma e conteúdo. Por fim, os discos posteriores aos dois primeiros passaram a soar cada vez mais datados, esquecíveis – e não há lista de Pitchfork que redima o mediano Songs of the free (1982), terceiro do catálogo. Seus membros pouco a pouco se dispersavam.

Com o julgamento distante, o Gang of Four parece um atacante que, depois de uma temporada extraordinária em time médio, nunca conseguiu se impor em palcos maiores (nesse caso, literalmente; que tal essa metáfora dentro de uma analogia?).

Em que pese o letramento dos integrantes, sua angústia política – a começar pelo nome, alusão à Camarilha dos Quatro da Revolução Cultural Chinesa – não se sobressaiu para além de uma revolta no mínimo mal aproveitada. (Essa é a interpretação bondosa; a maldosa veria a banda como críticos de DCE cuja fachada escondia um notável vazio.)

Então chegamos em Andy Gill. Ele chegou a produzir o primeiro álbum do Red Hot Chili Peppers ainda em 1984, e longe de mim agradecê-lo(s) por isso. Entre outras produções, reuniu-se com Jon King, vocalista original do Gang of Four, para uma retomada no início da última década.

Em 2011, lançaram um disco; em 2015, já sozinho novamente, Gill lançou outro. Finalmente, 2019 marcou seu último álbum. São todos discos decentes, e não há por que não reconhecer o mérito banhado em alívio daquilo que poderia ter sido muito pior (e, novamente, talvez tenha havido certa inflação por parte da crítica, provavelmente por gratidão, visto que o crítico musical padrão cresceu tarado por Gang of Four).

Em maio, escrevemos sobre as mortes de Aldir Blanc, Tony Allen e Florian Schneider. E simplesmente não sabíamos, àquela altura, que Andy Gill havia morrido. Com ele, o Gang of Four – em definitivo.

Oficialmente, Gill, 64, morreu de pneumonia e falência múltipla dos órgãos. O problema: ele esteve na China em novembro e começou a apresentar sintomas hoje associados à Covid-19 em dezembro. Sua esposa, a jornalista Catherine Mayer, escreveu um relato detalhado a respeito da situação. Também é possível escutá-la falar sobre o doloroso desfecho à BBC.

Os sintomas acompanharam o círculo imediato do casal e da banda – a ponto de o gerente de turnê ser internado com crise respiratória logo após retornar à Inglaterra –, porém antes de a Europa identificar esses problemas como algo novo. “É possível que nunca saibamos se a Covid-19 matou Andy, mas eu sempre saberei, em detalhes indeléveis, como ele morreu”, registrou Meyer.

Tardiamente, registramos nossa homenagem ao responsável direto por no mínimo um dos melhores discos de um período interessantíssimo da música no século 20. Muita coisa aconteceu e ainda acontece a partir do Gang of Four, cuja verve inicial transforma qualquer cínico no adolescente que abre um CD gravável pela primeira vez e, sem saber o que lhe espera, reage estupefato.

Hipertexto: Brasil 1970-75, um guia musical

Extraído da edição 70 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Que a música brasileira é mundialmente reconhecida, qualquer um sabe. Mas nós nunca tínhamos nos dado conta da proporção de qualidade concentrada na década de 1970, especialmente até 1975.

Havia uma mistura bastante talentosa de talentos e contextos: veteranos da bossa nova; herdeiros da bossa nova; gente de saco cheio da bossa nova; tropicalistas; clássicos do samba; samba rock; geração dos festivais televisivos de música; guitarra elétrica; passeata contra a guitarra elétrica; eruditos; empíricos; gente que viajou pelo mundo; gente que nunca saiu do Brasil; repressão e tensão política; cultura hippie; o Hermeto Pascoal.

Os frutos são incríveis. A partir deles, concluímos que, àquela época, o Brasil dispunha do apogeu da música mundial. Sem nenhum traço de saudosismo – porque não vivemos essa época –, tampouco de ufanismo – porque é brega. Trata-se de uma afirmação bastante razoável de defender.

Pensando nisso, listamos todos os álbuns de que gostamos após ouvir, pesquisar e reescutar. Não são todos extraordinários, o que seria impossível, mas há discos soberbos entre eles. Todos têm pontos altos; nenhum é fraco. Ficam as nossas sugestões para que esta lista seja lida e relida (como uma porta de entrada ou fonte de discórdia).

Todos os álbuns mencionados estão disponíveis no Spotify, exceto quatro, que sinalizamos e apontamos para o YouTube. No Spotify, você também pode acompanhar nossa playlist querida, melhor degustada na ordem aleatória – exatamente como o Brasil.


Playlist: Brasil 1970-1975 era o apogeu da música mundial [Spotify]

1970
Antonio Carlos & Jocafi – Mudei de Ideia
Egberto Gismonti – Sonho 70
Elis Regina – …Em Pleno Verão
Gal Costa – Legal
Jorge Ben Jor – Força Bruta
Milton Nascimento – Milton
Os Mutantes – A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado
Paulo SérgioPaulo Sérgio vol. IV
Roberto Carlos – Roberto Carlos (1970)
Rosinha de Valença – Rosinha de Valença apresenta o Ipanema Beat
Taiguara – Viagem
Tom Jobim – Stone Flower
Tom Jobim – Tide
Toquinho – Toquinho (1970)

1971
Chico Buarque – Construção
Erasmo Carlos – Carlos, Erasmo
Evinha – Cartão Postal
Jorge Ben Jor – Negro é Lindo
Maria Bethânia – A Tua Presença
Roberto Carlos – Roberto Carlos (1971)
Sílvio César – Sílvio César (1971)
Vinícius de Moraes – Como Dizia o Poeta
Wilson Simonal – Jóia, Jóia

1972
Caetano Veloso – Transa
Elis Regina – Elis
Gilberto Gil – Expresso 2222
Hermeto Pascoal – Hermeto [YouTube]
Jards Macalé – Jards Macalé
Luiz Bonfá – Introspection
Maria Bethânia – Drama
Milton Nascimento & Lô Borges – Clube da Esquina
Novos Baianos – Acabou Chorare
Paulinho da Viola – Dança da Solidão
Roberto Carlos – Roberto Carlos (1972)
Tom Jobim – Matita Perê
Toni Tornado – Toni Tornado (1972)

1973
Arthur Verocai – Arthur Verocai
Eumir Deodato – Prelude
Eumir Deodato – Deodato 2
Eumir Deodato – Os Catedráticos 73
Hermeto Pascoal – A Música Livre de Hermeto Pascoal [YouTube]
Ivan Lins – Modo Livre
João Donato – Quem é Quem
João Gilberto – João Gilberto [YouTube]
Luiz Melodia – Pérola Negra
Marcos Valle – Previsão do Tempo
Milton Nascimento – Milagre dos Peixes
Nelson Cavaquinho – Nelson Cavaquinho (1973)
Novos Baianos – Novos Baianos F. C.
Raul Seixas – Krig-Ha, Bandolo
Secos e Molhados – A Volta de Secos & Molhados
Sérgio Sampaio – Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua
Taiguara – Fotografias
Tim Maia – Tim Maia (1973)
Tom Zé – Todos os Olhos
Trio Mocotó – Trio Mocotó

1974
Adoniran Barbosa – Adoniran Barbosa
Airto Moreira & Eumir Deodato – Deodato/Airto in Concert [YouTube]
Benito Di Paula – Um Novo Samba
Cartola – Cartola
Egberto Gismonti – Academia de Danças
João Donato – Lugar comum
Jorge Ben Jor – A Tábua de Esmeralda
Jorge Mautner – Jorge Mautner (1974)
Martinho da Vila – Martinho da Vila
Nelson Gonçalves – Passado e Presente
Raul Seixas – Gita
Roberto Carlos – Roberto Carlos (1974)
Vinícius de Moraes & Toquinho – Vinícius & Toquinho

1975
Airto Moreira – Identity
Alcione – A Voz do Samba
Azymuth – Azimüth
Bebeto – Bebeto
Clara Nunes – Claridade
Di Melo – Di Melo (1975)
Hyldon – Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda
Lula Côrtes & Zé Ramalho – Paêbirú
Nelson Gonçalves – Nelson de Todos os Tempos
Tim Maia – Racional (vol. 1)
Waltel Branco – Meu balanço

Vamos lá. Listas, assim como goleiros e revisores de texto (e os Correios), são avaliadas a partir de suas falhas: o que esquecemos?

Ademais, quais são os melhores, mais influentes, mais marcantes, crème de la crème, apogeu do apogeu? Quais são seus favoritos? Se o editor tivesse de morrer abraçado com um, seria o Clube da Esquina.


  • Em 1976, já temos África Brasil (Jorge Ben Jor), Cartola (1976), Estudando o Samba (Tom Zé) e Alucinação (Belchior), entre outros. Mas quem sabe uma segunda lista…
  • Já a década de 1980…

Baú: Billy Joel

Extraído da edição 61 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Cresci escutando música clássica, e as pessoas que eu idolatrava quando muito jovem eram músicos de jazz e de música clássica. Li uma citação do Neil Diamond: ‘eu me perdoei por não ser Beethoven’. E me dei conta de que meu problema é não ter me perdoado por não ser Beethoven.

Billy Joel, 2017.

Hipertexto: igualmente humanos – adeus a Tony Allen, Aldir Blanc e Florian Schneider

Extraído da edição 55 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Tony Allen (esquerda), Aldir Blanc (superior direita) e Florian Schneider (inferior direita).

Já havíamos sentido a morte de Moraes Moreira em abril. Mas três outras mortes – tão demograficamente distantes, tão inquestionavelmente impactantes – afetaram a música nos últimos dias.

Em 30 de abril, perdemos Tony Allen, 79, em razão de um aneurisma da aorta abdominal. Nigeriano, Allen era um baterista extraordinário, reconhecido por tocar (e, literalmente, conduzir) a banda de Fela Kuti, expoente do afrobeat, que muito influenciaria o pós-punk e, posteriormente, a música eletrônica. Sobre ele, disserta o convidado Matheus Chequim.

Tony Allen pode não ter sido o rosto nem a voz do afrobeat – este certamente foi seu parceiro Fela Kuti. Mas nada disso se sustentaria em pé sem um corpo, do qual saem pernas e braços e onde fica o coração: órgão fundamentalmente rítmico e mais essencial do organismo. Este foi o baterista Tony Allen. Sem ele, jamais teria existido o afrobeat – palavras do próprio Fela.

Se o afrobeat assim é chamado, é porque existe algo de distinto sobretudo em seu ritmo, em sua batida. Na percussão não existe tonalidade. Isto é, não existe fá, nem sol, nem ré. O papel da bateria é essencialmente o da sustentação, mas há diversas maneiras de se equilibrar. Tony Allen criou silenciosamente um ritmo que foi capaz de segurar a explosão e a inquietação de Fela Kuti, e ao mesmo tempo libertar os corpos que, contagiados, inevitavelmente se põem a dançar.

O afrobeat seguramente não morrerá. Mas a morte de Tony Allen nos tira um criador prolífico que jamais se acomodou com um legado que já havia precocemente deixado escrito. Nas últimas duas décadas de vida, trabalhou com os mais diversos músicos, se associando a artistas como Damon Albarn (Blur/Gorillaz) e Charlotte Gainsbourg. Também chegou a gravar disco com o “mago” do techno, Jeff Mills.

Miles Davis disse um dia que o afrobeat era a música do futuro. Brian Eno considerou Tony Allen o maior baterista que já viveu. Certa vez, quando indagado se pensava em aposentadoria, Tony Allen declarou: “Não sei o que essa palavra significa.Tocarei até meu último suspiro.

Em 4 de maio, morreu Aldir Blanc, 73, vítima de COVID-19. Blanc era compositor e cronista; exalava o carioquismo reconhecido pelo Brasil e pelo qual o Brasil é reconhecido. Em Vida Noturna (2005), interpretou todas as letras de um disco pela primeira vez. Com a palavra, Daniel Zanella.

A morte de Aldir Blanc me comove como a derrota de uma estrela, ocasião suspensa de supernova — borboleta vadia, nos deixa na chuva, com a mão no bolso. O compositor carioca é a tríade basal da letra brasileira, ao lado de Chico Buarque e Paulo Cesar Pinheiro, sem a importância de ordens e estabelecimentos, afinal, quem orgulhava-se de ser o emérito do boteco, “Doutor, quer cerveja ou pinga com limão?”, não corria atrás de pinguins de geladeira.

A música brasileira, enquanto patrimônio, enquanto sumidouro do espelho… Existem tantos outros grandes compositores, tantos outros que foram acometidos pela desgraça de bem-escrever, compositores de um Brasil hediondo com seus expoentes, um Brasil que cantarola letras sem saber intencionalmente quem as compôs. Aldir, artista introspectivo, reflete, tensiona o que é ser contemporâneo, pertencer ao agora, e ainda nos remete ao estremecer das essências primeiras.

Aldir… Aldir atingiu um índice fundador de sujidade e lirismo, de indiscrição e elegância. A sua gnose era a gnose do bar, a gnose do amor derradeiro, a gnose do silêncio, como se habitasse em suas letras uma paleta de sóis discretos, luminar de grandezas e ressalvas. Ouvir “Vida Noturna”, espantosa madrugada serena em forma de disco, de 2005, resguarda as profundezas desse compositor, e aqui também intérprete, ora na direção do pôr do sol, ora diante do quarto silencioso, “que amores terminam no escuro, sozinhos”.

Ouvi-lo pela primeira vez sempre foi aquela pinga da sede de noite, o estupor do conhaque, a mulher de vermelho disparando no crepúsculo. Reouvi-lo: a constatação do fim em si mesmo, a aceitação do sorriso covarde, a claridade da manhã que se mede pelo simples, pelo direto, o cultivo da tristeza, um piano acompanhando o desterro.

Constelação maior, Aldir Blanc sempre foi estar no melhor inferno ao som da Ave-Maria. Para onde foi Aldir Blanc? Tudo depende, como “depende o seu conceito de assassinato”, especula em “Lupicínia”. Certamente os gênios brindam no céu, “andorinhas fazem ninho nas ruínas” e os deuses embriagam-se da essência do imorrível.

“Estrela é só um incêndio na solidão”, escreveu.

Por fim, em 6 de maio o público foi informado da morte de Florian Schneider, 73 – que ocorrera, por conta de um câncer, em 21 de abril. Schneider fundou o Kraftwerk com Ralf Hütter no início dos anos 1970 e deixou o grupo em 2008. Além de fundadores, ambos foram responsáveis pela fase mais prolífica da banda, na segunda metade daquela década.

A influência do Kraftwerk, a perfeita simbiose homem-máquina, é imensa, imensurável. Mapeá-la não diz respeito a quem tentou reproduzir ou emular seu som – vai muito além disso. É um exercício análogo a entender como a evolução da tecelagem afetou a produção de roupas.

Schneider e Hütter são responsáveis por um impulso sem fim na produção de ritmo, textura e melodia. ‘Neon lights‘, contida na obra-prima The Man Machine (1977), é uma síntese disso em 9 minutos.

É quadrada, porém melódica. Seus sintetizadores, melancólicos, conduzem à poesia imagética do futuro com a qual o Kraftwerk se consagrou. Uma letra simples e cantarolável é pincelada, então gradativamente cede espaço a uma suave combinação de rastros sonoros tenros, longos e devaneadores, potencializados em um fone de ouvido competente ou em uma caixa de som grande e limpa.

Também há o fator visual. Poucos grupos se tornaram tão marcantes, tão reconhecíveis como aqueles quatro robôs no palco, que permitiram de uma só vez não só uma identidade inconfundível, mas também a condução enigmática, misteriosa e privativa da trajetória do grupo.

Kraftwerk, uma criação tão alemã com consequências tão universais, tornou-se significado e significante, um farol mental a guiar seus sucessores. A morte de Florian Schneider é sensível por nos lembrar que nem mesmo esse robô brilhante (enigmático, misterioso e privativo) escapa à condição de humano.

Se Tony Allen, Aldir Blanc e Florian Schneider se juntassem para criar uma só música, teríamos lírica, percussão e melodia. Orgânico e eletrônico. Nigéria, Brasil e Alemanha. Tudo o que perdemos em algumas semanas.

Hipertexto: melancolia mortal da trilha sonora infantil

Extraído da edição 54 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Na infância, é improvável que consigamos mapear exatamente aquilo que nos cativa em um filme ou personagem. Nossa rede de conexões é confusa; nosso vocabulário, limitado. Talvez por isso mesmo aquilo que nos cativa cedo seja tão direto, instintivo e marcante; talvez, ao contrário, por isso seja mais frágil – não tenho ideia.

De todo modo, houve um momento do ano passado em que minhas emoções me pegaram de surpresa. Comia (um prato executivo de arroz, feijão, frango e salada) durante meu intervalo de almoço e utilizava meu fone de ouvido para gastar tempo no YouTube.

Levado pelo algoritmo, revi determinada cena de um desenho muito querido em razão do apego emergido e consolidado na infância. Ao assisti-la, subitamente senti aquele amortecimento dos pômulos que denuncia o despertar das glândulas lacrimais: eu estava segurando choro. O que não era ou é comum, muito menos diante de um prato de frango grelhado, em público, às 12h30.

A cena provinha de Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya, 1986-1989), anime muitíssimo popular entre as crianças brasileiras dos anos 1990. Não lembrava sequer a última vez que havia visto qualquer coisa relacionada com a franquia, e ainda assim aquilo me derrubou de imediato.

Para quem não conhece ou não se recorda, Cavaleiros do Zodíaco, criação de Masami Kurumada (1953-), é puro melodrama. Os cavaleiros em questão usam armaduras e lutam em defesa da reencarnação da deusa Atena. A todo momento, os protagonistas, órfãos e irmãos de criação, precisam superar adversários mais fortes em seu caminho de sangue, suor e lágrimas.

Um amigo apanha pelo outro, sacrifica-se pelo outro, tenta (ativamente, às vezes comicamente) morrer pelo outro. Todos se motivam e lutam por uma causa maior, e no fim o personagem principal (Seiya), após ser surrado feito purê, sempre resiste e vence.

O universo da narrativa consiste em uma mistura desenfreada de mitologia greco-romana e nórdica, cristianismo e budismo, astronomia e astrologia a partir da qual uma molecada se estoura na porrada usando armaduras caprichosamente desenhadas – até porque boa parte do apelo da série vinha, ou melhor, ainda vem, da venda de bonecos.

Por fim, a cena que me comoveu era a de Hyoga, um cavaleiro de bronze, derrotando o próprio mestre, Camus de Aquário. Se essa sequência de palavras não lhe diz nada, não há problema, pois a trama não será relevante aqui. (Mas o nome “Camus” é sim uma homenagem explícita ao autor d’A Peste.)

O fato é que, naquele momento, meu cognitivo finalmente ligou os pontos – e só precisou de vinte anos para fazê-lo. O que impulsionava a comoção súbita era, além do melodrama usual das mortes do anime, sua trilha sonora, sempre sinfônica e melodiosa.

É típica da produção. Nos momentos dramáticos de Cavaleiros do Zodíaco, não raro um acompanhamento vocálico se junta à orquestra. ‘Inside a dream‘ é um exemplo clássico; ‘Sad brothers‘, outro. ‘Aria of the three‘ toca na cena mencionada.

Até então, essas melodias marcantes não me apontavam nome ou rosto. Mas o responsável pelas trilhas sonoras é – era – Seiji Yokoyama. Não sei quão comum é ou era compor sinfonias tão completas para animes; conheço pouco sobre este universo. No entanto, é certo que as composições de Yokoyama – ora épicas, ora suaves, sempre com belos arranjos –, não contêm nada de intrinsecamente infantil.

Seiji Yokoyama morreu de pneumonia em 2017, aos 82 anos. Não sabia quem ele era, portanto não pude lamentar. Sua música comoveu minha infância e, de forma contraintuitiva, hoje parece comover ainda mais. Ao identificar seu valor, descobri uma lembrança de morte que continuará comigo.

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