Hipertexto: igualmente humanos – adeus a Tony Allen, Aldir Blanc e Florian Schneider

Extraído da edição 55 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Tony Allen (esquerda), Aldir Blanc (superior direita) e Florian Schneider (inferior direita).

Já havíamos sentido a morte de Moraes Moreira em abril. Mas três outras mortes – tão demograficamente distantes, tão inquestionavelmente impactantes – afetaram a música nos últimos dias.

Em 30 de abril, perdemos Tony Allen, 79, em razão de um aneurisma da aorta abdominal. Nigeriano, Allen era um baterista extraordinário, reconhecido por tocar (e, literalmente, conduzir) a banda de Fela Kuti, expoente do afrobeat, que muito influenciaria o pós-punk e, posteriormente, a música eletrônica. Sobre ele, disserta o convidado Matheus Chequim.

Tony Allen pode não ter sido o rosto nem a voz do afrobeat – este certamente foi seu parceiro Fela Kuti. Mas nada disso se sustentaria em pé sem um corpo, do qual saem pernas e braços e onde fica o coração: órgão fundamentalmente rítmico e mais essencial do organismo. Este foi o baterista Tony Allen. Sem ele, jamais teria existido o afrobeat – palavras do próprio Fela.

Se o afrobeat assim é chamado, é porque existe algo de distinto sobretudo em seu ritmo, em sua batida. Na percussão não existe tonalidade. Isto é, não existe fá, nem sol, nem ré. O papel da bateria é essencialmente o da sustentação, mas há diversas maneiras de se equilibrar. Tony Allen criou silenciosamente um ritmo que foi capaz de segurar a explosão e a inquietação de Fela Kuti, e ao mesmo tempo libertar os corpos que, contagiados, inevitavelmente se põem a dançar.

O afrobeat seguramente não morrerá. Mas a morte de Tony Allen nos tira um criador prolífico que jamais se acomodou com um legado que já havia precocemente deixado escrito. Nas últimas duas décadas de vida, trabalhou com os mais diversos músicos, se associando a artistas como Damon Albarn (Blur/Gorillaz) e Charlotte Gainsbourg. Também chegou a gravar disco com o “mago” do techno, Jeff Mills.

Miles Davis disse um dia que o afrobeat era a música do futuro. Brian Eno considerou Tony Allen o maior baterista que já viveu. Certa vez, quando indagado se pensava em aposentadoria, Tony Allen declarou: “Não sei o que essa palavra significa.Tocarei até meu último suspiro.

Em 4 de maio, morreu Aldir Blanc, 73, vítima de COVID-19. Blanc era compositor e cronista; exalava o carioquismo reconhecido pelo Brasil e pelo qual o Brasil é reconhecido. Em Vida Noturna (2005), interpretou todas as letras de um disco pela primeira vez. Com a palavra, Daniel Zanella.

A morte de Aldir Blanc me comove como a derrota de uma estrela, ocasião suspensa de supernova — borboleta vadia, nos deixa na chuva, com a mão no bolso. O compositor carioca é a tríade basal da letra brasileira, ao lado de Chico Buarque e Paulo Cesar Pinheiro, sem a importância de ordens e estabelecimentos, afinal, quem orgulhava-se de ser o emérito do boteco, “Doutor, quer cerveja ou pinga com limão?”, não corria atrás de pinguins de geladeira.

A música brasileira, enquanto patrimônio, enquanto sumidouro do espelho… Existem tantos outros grandes compositores, tantos outros que foram acometidos pela desgraça de bem-escrever, compositores de um Brasil hediondo com seus expoentes, um Brasil que cantarola letras sem saber intencionalmente quem as compôs. Aldir, artista introspectivo, reflete, tensiona o que é ser contemporâneo, pertencer ao agora, e ainda nos remete ao estremecer das essências primeiras.

Aldir… Aldir atingiu um índice fundador de sujidade e lirismo, de indiscrição e elegância. A sua gnose era a gnose do bar, a gnose do amor derradeiro, a gnose do silêncio, como se habitasse em suas letras uma paleta de sóis discretos, luminar de grandezas e ressalvas. Ouvir “Vida Noturna”, espantosa madrugada serena em forma de disco, de 2005, resguarda as profundezas desse compositor, e aqui também intérprete, ora na direção do pôr do sol, ora diante do quarto silencioso, “que amores terminam no escuro, sozinhos”.

Ouvi-lo pela primeira vez sempre foi aquela pinga da sede de noite, o estupor do conhaque, a mulher de vermelho disparando no crepúsculo. Reouvi-lo: a constatação do fim em si mesmo, a aceitação do sorriso covarde, a claridade da manhã que se mede pelo simples, pelo direto, o cultivo da tristeza, um piano acompanhando o desterro.

Constelação maior, Aldir Blanc sempre foi estar no melhor inferno ao som da Ave-Maria. Para onde foi Aldir Blanc? Tudo depende, como “depende o seu conceito de assassinato”, especula em “Lupicínia”. Certamente os gênios brindam no céu, “andorinhas fazem ninho nas ruínas” e os deuses embriagam-se da essência do imorrível.

“Estrela é só um incêndio na solidão”, escreveu.

Por fim, em 6 de maio o público foi informado da morte de Florian Schneider, 73 – que ocorrera, por conta de um câncer, em 21 de abril. Schneider fundou o Kraftwerk com Ralf Hütter no início dos anos 1970 e deixou o grupo em 2008. Além de fundadores, ambos foram responsáveis pela fase mais prolífica da banda, na segunda metade daquela década.

A influência do Kraftwerk, a perfeita simbiose homem-máquina, é imensa, imensurável. Mapeá-la não diz respeito a quem tentou reproduzir ou emular seu som – vai muito além disso. É um exercício análogo a entender como a evolução da tecelagem afetou a produção de roupas.

Schneider e Hütter são responsáveis por um impulso sem fim na produção de ritmo, textura e melodia. ‘Neon lights‘, contida na obra-prima The Man Machine (1977), é uma síntese disso em 9 minutos.

É quadrada, porém melódica. Seus sintetizadores, melancólicos, conduzem à poesia imagética do futuro com a qual o Kraftwerk se consagrou. Uma letra simples e cantarolável é pincelada, então gradativamente cede espaço a uma suave combinação de rastros sonoros tenros, longos e devaneadores, potencializados em um fone de ouvido competente ou em uma caixa de som grande e limpa.

Também há o fator visual. Poucos grupos se tornaram tão marcantes, tão reconhecíveis como aqueles quatro robôs no palco, que permitiram de uma só vez não só uma identidade inconfundível, mas também a condução enigmática, misteriosa e privativa da trajetória do grupo.

Kraftwerk, uma criação tão alemã com consequências tão universais, tornou-se significado e significante, um farol mental a guiar seus sucessores. A morte de Florian Schneider é sensível por nos lembrar que nem mesmo esse robô brilhante (enigmático, misterioso e privativo) escapa à condição de humano.

Se Tony Allen, Aldir Blanc e Florian Schneider se juntassem para criar uma só música, teríamos lírica, percussão e melodia. Orgânico e eletrônico. Nigéria, Brasil e Alemanha. Tudo o que perdemos em algumas semanas.

Hipertexto: melancolia mortal da trilha sonora infantil

Extraído da edição 54 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Na infância, é improvável que consigamos mapear exatamente aquilo que nos cativa em um filme ou personagem. Nossa rede de conexões é confusa; nosso vocabulário, limitado. Talvez por isso mesmo aquilo que nos cativa cedo seja tão direto, instintivo e marcante; talvez, ao contrário, por isso seja mais frágil – não tenho ideia.

De todo modo, houve um momento do ano passado em que minhas emoções me pegaram de surpresa. Comia (um prato executivo de arroz, feijão, frango e salada) durante meu intervalo de almoço e utilizava meu fone de ouvido para gastar tempo no YouTube.

Levado pelo algoritmo, revi determinada cena de um desenho muito querido em razão do apego emergido e consolidado na infância. Ao assisti-la, subitamente senti aquele amortecimento dos pômulos que denuncia o despertar das glândulas lacrimais: eu estava segurando choro. O que não era ou é comum, muito menos diante de um prato de frango grelhado, em público, às 12h30.

A cena provinha de Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya, 1986-1989), anime muitíssimo popular entre as crianças brasileiras dos anos 1990. Não lembrava sequer a última vez que havia visto qualquer coisa relacionada com a franquia, e ainda assim aquilo me derrubou de imediato.

Para quem não conhece ou não se recorda, Cavaleiros do Zodíaco, criação de Masami Kurumada (1953-), é puro melodrama. Os cavaleiros em questão usam armaduras e lutam em defesa da reencarnação da deusa Atena. A todo momento, os protagonistas, órfãos e irmãos de criação, precisam superar adversários mais fortes em seu caminho de sangue, suor e lágrimas.

Um amigo apanha pelo outro, sacrifica-se pelo outro, tenta (ativamente, às vezes comicamente) morrer pelo outro. Todos se motivam e lutam por uma causa maior, e no fim o personagem principal (Seiya), após ser surrado feito purê, sempre resiste e vence.

O universo da narrativa consiste em uma mistura desenfreada de mitologia greco-romana e nórdica, cristianismo e budismo, astronomia e astrologia a partir da qual uma molecada se estoura na porrada usando armaduras caprichosamente desenhadas – até porque boa parte do apelo da série vinha, ou melhor, ainda vem, da venda de bonecos.

Por fim, a cena que me comoveu era a de Hyoga, um cavaleiro de bronze, derrotando o próprio mestre, Camus de Aquário. Se essa sequência de palavras não lhe diz nada, não há problema, pois a trama não será relevante aqui. (Mas o nome “Camus” é sim uma homenagem explícita ao autor d’A Peste.)

O fato é que, naquele momento, meu cognitivo finalmente ligou os pontos – e só precisou de vinte anos para fazê-lo. O que impulsionava a comoção súbita era, além do melodrama usual das mortes do anime, sua trilha sonora, sempre sinfônica e melodiosa.

É típica da produção. Nos momentos dramáticos de Cavaleiros do Zodíaco, não raro um acompanhamento vocálico se junta à orquestra. ‘Inside a dream‘ é um exemplo clássico; ‘Sad brothers‘, outro. ‘Aria of the three‘ toca na cena mencionada.

Até então, essas melodias marcantes não me apontavam nome ou rosto. Mas o responsável pelas trilhas sonoras é – era – Seiji Yokoyama. Não sei quão comum é ou era compor sinfonias tão completas para animes; conheço pouco sobre este universo. No entanto, é certo que as composições de Yokoyama – ora épicas, ora suaves, sempre com belos arranjos –, não contêm nada de intrinsecamente infantil.

Seiji Yokoyama morreu de pneumonia em 2017, aos 82 anos. Não sabia quem ele era, portanto não pude lamentar. Sua música comoveu minha infância e, de forma contraintuitiva, hoje parece comover ainda mais. Ao identificar seu valor, descobri uma lembrança de morte que continuará comigo.

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Hipertexto: Charles Manson & Dennis Wilson

Extraído da edição 44 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Wilson e Manson: boas vibrações.

Um antigo ditado assírio, datado de quando a Babilônia virou modinha, defende que o ateísmo recebe três grandes testes ao longo da vida: o leito de morte, a queda livre de um avião e o contato com Pet Sounds. Nas palavras do próprio Assurbanípal, “mano…… Beach Boys é lôco demais”. Mas não é do Pet Sounds, especificamente, que trataremos. Ah, não. O tópico que abre a Enclave de hoje traz uma dessas conexões inesperadas que a vida trata de abrir. Talvez uma nota 7 na escala Julian Assange-Pamela Anderson.

Acontece que Charles Mansonaquele Charles Manson, morou um certo tempo na casa de Dennis Wilson, baterista, compositor e único surfista de fato dos Beach Boys. Curiosamente, Wilson também era um Wilson, e, portanto, irmão de Brian e Carl, integrantes da banda californiana. O ano era 1968: conta-se que o músico encontrou duas moças peregrinando pela estrada e as levou à sua casa. No dia seguinte, lá estavam elas de novo, desta vez com mais uma dezena de pessoas, todas seguidoras de Manson – que ali também constava, literalmente beijando seus pés. A versão menos romântica narra que Manson descobriu a residência do baterista ao procurar maconha.

Quando um culto inteiro para no seu jardim, resta chamá-lo pra dentro e abrigá-lo. Ou tomar outra cem decisões melhores do que essa, mas, de todo modo, foi o que ocorreu. Como é de se imaginar, a residência de Charles Manson & Seguidores deve ter sido uma bela merda para Wilson. Ao todo, a hospedagem de quase duas dezenas de gente custou ao músico mais de 100 mil dólares, 21 mil deles torrados em um carro sem seguro, destruído pelos inquilinos. Muito dinheiro também foi gasto com penicilina para amenizar o constante problema da Família Manson com… gonorreia. Qual era o benefício em receber uma corja tão expressiva? Para Wilson, 17 mulheres constantemente nuas e dispostas a obedecer comandos.

Com essa união, Charles Manson visava a um desenvolvimento de sua carreira musical, utilizando-se do estúdio do irmão Brian. Wilson chegou a afirmar que o guru dispunha de ótimas ideias. Manson compôs ‘Cease to exist’, música que acabaria regravada pelos Beach Boys e lançada como ‘Never learn not to love‘, no lado B de ‘Bluebirds over the mountain’. Nenhum crédito foi concedido a Manson, que agiu de forma serena, ameaçando assassinar Wilson ao lhe presentear com uma bala. “Cada vez que você olhar para ela, quero que lembre de como seus filhos estão seguros”.

Dennis Wilson resolveu a saia justa de forma simples: bastou enfiar a porrada até dizer chega. Para se livrar da Família Manson, no entanto, o baterista simplesmente abandonou a casa onde o grupo já havia se instalado.

Hipertexto: Disintegration Loops

Extraído da edição 44 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Arte da capa de Disintegration Loops.

William Basinski é um compositor nova-iorquino que desde os anos 1980 experimenta com gravações fitas e loops para criar suas obras. Seu trabalho mais reconhecido são os Disintegration Loops, lançados em 2002 pelo seu selo próprio, 2062.

A história ficou tão famosa que o  próprio Basinski já não deve ter mais a paciência de contá-la. No verão de 2001, reza a lenda que ele encontrou em seu apartamento caixas repletas de fitas com trechos de músicas gravadas vinte anos antes. As músicas provinham de rádios easy listening. O artista resolveu transferi-las para o formato digital, mas logo percebeu que pequenos pedaços se desprendiam cada vez que a fita passava pelo equipamento de conversão, fazendo com que a faixa tocada se desintegrasse lentamente – até ficar completamente distorcida e eventualmente decair num silêncio absoluto.

Essa é a base do Disintegration Loops, que conta com quatro volumes, cada um com duas ou três faixas intituladas ‘dlp1.1’, ‘dlp2.1’, ‘dlp1.2’, etc. Cada faixa é um loop de alguns segundos mergulhado profundamente em efeitos sonoros etéreos (argh……..) que se repete e se desintegra lentamente.

Algum tempo depois de produzir a obra, William a escutava em seu terraço no Brooklyn quando aconteceram os ataques de 11 de setembro. Enquanto caía a tarde e fumaça cobria a não tão distante Manhattan, ele montou uma câmera num tripé e gravou horas de imagens de uma cidade em choque que lentamente voltava ao escuro da noite. O paralelo com os seus Loops não era difícil de perceber. No dia seguinte, Basinski assistiu às filmagens ao som de ‘dlp1.1‘, primeira faixa do disco, e decidiu que eram parte da mesma obra. A capa de Disintegration Loops foi retirada de um frame do vídeo e, na edição comemorativa de 10 anos, outras imagens e gravações daquele dia foram incluídas no encarte e CD.

Desde então, os  Disintegration Loops se tornaram uma espécie de elegia ao que se passou naquele dia. Num evento no museu Metropolitan de New York em homenagem aos dez anos do 11 de setembro foi apresentada uma versão orquestrada de ‘dlp1.1’. Assim como nas fitas, os instrumentos de cordas e percussão repetem a mesma frase exaustivamente e se decompõem aos poucos. Ao fim, o que resta é o silêncio, que só é interrompido depois de alguns minutos, por fortes aplausos de uma plateia profundamente tocada. Aqui você pode conferir um trecho, o único vídeo que a equipe Enclave conseguiu encontrar da ocasião.

‘Dlp1.1’ orquestrada, tocada em concerto no Metropolitan Museum.

Embora seja essencialmente música ambiente, não é exatamente do tipo que se pode deixar tocando ao fundo enquanto você lê ou prepara o almoço. É difícil não entrar numa atmosfera de luto quando o som que sai do alto-falante morre um pouco cada vez que é tocado. Eis o som de melancolia e efemeridade.

 

Hipertexto: Publius Enigma

Extraído da edição 43 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

The Division Bell, o décimo-quinto disco do Pink Floyd, é mundialmente apontado como um dos três melhores álbuns na discografia da banda (carece de fontes)O álbum tem músicas incríveis e um conceito tão difuso quanto interessante, a “comunicação”. As letras versam sobre a humanidade, suas relações e as falhas de entendimento entre as pessoas. Mas o famigerado Disco das Cabeça, além ser uma das obras mais subestimadas da história do rock, esconde um mistério maior: o Publius Enigma.

O ano era 1994. A internet ainda engatinhava e oferecia várias plataformas de comunicação digital que, descobriríamos depois, morreriam na casca. Uma delas, a Usenet, teve uma boa popularidade por algum tempo – há inclusive quem afirme que foi o local onde surgiram ou se tornaram comuns coisas como emoticons e os acrônimos do tipo LOL, mas isso é papo para outra Enclave. O que nos interessa aqui é que a Usenet funcionava basicamente como uma espécie de superfórum, onde vários grupos se formaram a partir de interesses comuns. Um deles, o Pink Floyd.

No dia 11 de junho daquele ano, um post tão críptico quanto intrigante apareceu na comunidade Usenet do Pink Floyd. Assinado por um indivíduo denominado Publius, o conteúdo se tratava do seguinte:

Publius Enigma
Primeira postagem assinada por Publius.

Na sequência, após receber algum ceticismo, Publius resolveu esclarecer um pouco melhor. Disse que The Division Bell não era como os discos que o antecederam porque, além das múltiplas interpretações que toda grande obra de arte carrega, continha um “propósito central e uma solução planejada”. Afirmou que o pessoal precisava se comunicar, ouvir, ler e absorver tudo que o álbum trazia, para começar a entender o que havia por trás da coisa toda. E fez referência a um “prêmio especial” a ser recebido pela alma elevada que chegasse ao resultado final.

Alguns se interessaram porque a mensagem parecia vir de um “cúmplice” da banda e do conceito, mas outros não deram a mínima e Publius seguia recebendo resistência. Em uma nova postagem, entretanto, o misterioso mensageiro deu data, local e horário para comprovar a sua veracidade – exatamente as coordenadas para um show do Pink Floyd. Os que conheciam esse papo e puderam acompanhar a performance ficaram um tanto surpresos, por causa disso aqui:

Eita.

Rapaz… E agora? Naquele palcão maravilhoso, em meio a milhares de detalhes cuidadosamente planejados, foram projetadas as palavras “Publius” e “Enigma”. Aí foi aquele fuzuê: já que o Publius era de fato alguém do staff da banda, isso significava, antes de tudo, que o quebra-cabeça existia. Sucedeu-se, então, uma exaustiva caçada por pistas, tanto em letras quanto em detalhes da capa, artes promocionais e detalhes nos palcos da The Division Bell Tour. Há relatos até de gente cavando ao redor da Ely Cathedral, a catedral anglicana que aparece entre as duas estátuas da foto – aparentemente, nada foi encontrado. Na apresentação de 20 de outubro do mesmo ano, durante a execução de ‘Another Brick in the Wall’, a palavra “enigma” apareceu novamente. Outros materiais, posteriores, também trouxeram referências ao enigma. Como exemplo, este detalhe do encarte na versão mini-disc do álbum A Momentary Lapse of Reason.

Publius publicou ainda outras várias mensagens, dando supostas pistas e respondendo a perguntas, mas sempre de forma vaga e solta. O último texto data de 2 de agosto de 1995 e, desde então, o “personagem” não deu mais sinal de vida.

O Pink Floyd, em si, nega envolvimento. Em 1995, David Gilmour afirmou, em entrevista a uma revista de guitarra, não saber nada sobre o Enigma. Durante um Q&A online em 2002, o discurso do guitarrista/vocalista/gênio mudou um pouco: chamou a empreitada de “Uma coisa boba da gravadora, que eles criaram para desafiar as pessoas”. Mas a afirmação mais interessante veio do baterista, Nick Mason, em um livro biográfico sobre o Pink Floyd. Ele corroborou a fala de Gilmour, sobre ser invenção da gravadora, mas terminou dizendo que “…o prêmio nunca foi dado. Até hoje, [o Enigma] continua sem resposta”. Essas declarações provam que o enigma não é uma farsa – se tem dedo da banda ou não, é outro papo.

A questão é: será que existe uma resposta para o Publius Enigma, ou a iniciativa foi abandonada antes de todas as pistas para a resolução serem dadas? Há quem diga que a ideia do quebra-cabeça é justamente não possuir um final: continuando as buscas, os participantes dessa “caça ao tesouro” vão seguir em contato e, por consequência, continuarão se comunicando. Pensa numa parada decepcionante.

Uma outra teoria doida crava que o mistério já foi solucionado. Segundo alguns, o “prêmio especial” é uma surpresa maior, para ser compartilhada por todos: um pessoal colocou o The Division Bell para tocar junto com o filme O Mundo Fantástico de Oz (a sequência ruim e não-oficial do clássico O Mágico de Oz) e jura que a relação é ainda mais assustadora do que no famoso “The Dark Side of the Rainbow”. Segundo essas mentes fervilhantes, o Pink Floyd, motivado pela notoriedade que ganhou a sincronia acidental de anos antes, teria composto o álbum de 1994 de forma a – agora propositalmente – encaixar perfeitamente com a sequência.Será? O único link que achamos para isso foi infelizmente removido pela Disney. Se você achar por aí, envia pra nós!

Hipertexto: Varg Vikernes

Extraído da edição 42 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Eis um conjunto de histórias bastante conhecido entre os fãs de black metal norueguês – eles são vários, aliás. Poucas bandas, afinal, incluem em sua linha do tempo [SPOILER] não só um suicídio de reações mórbidas, mas também um assassinato entre integrantes. Falemos, então, do Mayhem, cujas lendas tomaremos todas como verdade absoluta nesta pequena introdução.

Entre as décadas 1980 e 1990, o líder do grupo era o sueco Per Ohlin, mais conhecido como Dead, cuja infância havia sido marcada pelos minutos em que esteve clinicamente morto graças a uma ruptura do baço. Para entrar no Mayhem, Dead enviou à banda uma fita acompanhada por uma carta e um rato crucificado. Ele usava camisetas com anúncios de funeral, raramente se alimentava e visava, nos shows, a parecer o mais próximo possível com um cadáver.

O vocalista não só enterrava as roupas antes de usá-las, como chegou a pedir para ser enterrado antes de uma apresentação. Dead guardava um corvo morto consigo, além de pássaros igualmente sem vida embaixo de sua cama. Cortar-se no palco restava como mera extensão, e arremessar cabeças de porco no público servia para afastar os fãs que lá estavam de pagação.

Em 1991, três dos quatro integrantes do Mayhem dividiam a moradia de uma casa na qual costumavam ensaiar. Conta-se que Euronymous, guitarrista – guarde este nome –, atiçava as ideias suicidas de Dead, bem como as corriqueiras automutilações. Em dado momento, Dead cortou os próprios pulsos e deu um tiro de shotgun na própria face. Dead deixou um recado em que pedia desculpas por dar um tiro dentro do lar – “perdoem o sangue” era a primeira frase.

As consequências realmente perturbadoras estão apenas começando: antes de comunicar a polícia, Euronymous rearranjou alguns elementos daquele cenário e o fotografou com uma câmera descartável. Também utilizou partes do cérebro de Dead em um ensopado – com o crânio, fez colares, os quais foram entregues a outros músicos como presente.

As reações do guitarrista se tornaram grotescas até para o padrão da banda: Necrobutcher, o baixista, afirmou que foi informado do suicídio de Dead com uma ligação de Euronymous, que se limitou a narrar que “Dead fez algo muito legal! Ele se matou. Relaxa, eu tenho fotos de tudo”. Necrobutcher deixou o grupo. Anos depois, uma das fotografias do suicídio foi utilizada como capa de um álbum bootleg, não lançado oficialmente pelo próprio Mayhem. Não direcionaremos à imagem: se você fizer questão, procure no lamaçal da internet.

Com apenas guitarrista e baterista remanescentes, Euronymous fundou uma loja de discos e gravadora em Oslo, na qual costumava se reunir com outros nomes da cena, dentre os quais Varg Vikernes, do Burzum, o qual viria a se notabilizar pelas acusações de queimar igrejas. Apesar de não ter sido oficialmente culpado, uma onda de incêndios a igrejas norueguesas no início dos anos 1990 foi atribuída a ele. Foram mais de 50 depredações até 1996 por parte de um grupo que não ia muito com a cara do cristianismo. Uma das igrejas queimadas chegou a ser capa do EP Aske (cinzas), do Burzum.

A relação entre Euronymous e Vikernes se fortaleceu, este último surgindo como um pupilo na vida do primeiro. Vikernes foi convidado para participar de um reformulado Mayhem, enquanto Euronymous colaborava com as gravações do Burzum. Aparentemente, ambos competiam para ver quem era o mais cabuloso.

Em 1993, Vikernes conseguiu exponenciar a atenção dada ao black metal: ao conseguir uma entrevista com o jornal BT, ele assumiu responsabilidade pelas igrejas queimadas, bem como anunciou que, enquanto adorador do diabo, o mau estava apenas começando. A entrevista ocupou a primeira página do periódico em 20 de janeiro. O músico, que manteve o intuito de meramente tocar terror, foi preso logo em seguida. “[A prisão] é completamente ridícula. Eu pedi para a polícia me jogar em um calabouço de verdade e também os encorajei a usar violência”. Por falta de evidência, foi solto ainda em março.

Essa não seria a única passagem de Varg Vikernes pela prisão, o que nos leva ao desfecho dessas narrativas ramificadas. Após a repercussão da entrevista, Euronymous fechou sua loja de discos. Enquanto isso, cresciam as tensões entre a dupla, a ponto de, em agosto, Vikernes visitar Euronymous e, bom, assassiná-lo com 23 facadas (duas no rosto, cinco no pescoço e 16 nas costas). Nesta entrevista, ele se justifica. O documentário Until the Light Takes us (2008), aliás, acompanha todo esse período de exposição do black metal norueguês.

Ao todo, foram 15 anos de encarceramento, entre 1994 a 2009. Com seu projeto Burzum, Vikernes lançou dois discos na prisão, Dauði Baldrs (1997) e Hliðskjálf (1999). Apenas sintetizadores foram utilizados: ele não tinha acesso a guitarras, baixos ou baterias. Varg Vikernes ainda compõe músicas e tece comentários políticos. Ele vive com esposa e filhos em uma fazenda e, tecnicamente, pode ser considerado um youtuber.

Hipertexto: narcocorridos

Extraído da edição 39 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

O envolvimento da música com a criminalidade não é de maneira alguma uma novidade, muito menos uma surpresa. Movimentos como o hip-hop (difundido dos EUA a todos os cantos do mundo) e o funk proibidão das favelas cariocas são exemplos desta ligação, e nomes como 50 Cent, Snoop Dogg e dos conterrâneos Mc Cidinho e Doca são facilmente relembrados quando o tema entra em questão. No entanto, dentre os diversos gêneros que abraçam o crime e a violência como matéria-prima para sua arte, os narcocorridos, apesar de pouco populares no Brasil, têm uma relação estranha com um dos mais famosos gêneros literários – e uma cronologia pra lá de curiosa.

Originado do tradicional norteño-corrido, o qual por muito tempo se apropriou da temática da revolução mexicana para homenagear heróis revolucionários e que, por sua vez, foi inspirado pelo romance espanhol (vide Dom Quixote, herói um tanto peculiar), os narcocorridos também buscam mimosear “heróis” muito subversivos: os narcotraficantes. Tendo como casa o México, o gênero musical se espalhou por toda a América, e por isso nomes como o do colombiano Pablo Escobar (ouça El Patrón) ou do maior narco da atualidade, Chapo Guzmán (veja esta lista), são frequentes nas líricas proibidas dos narcocorridos, que sempre se utilizam de acontecimentos reais para dar corpo às suas letras.

Acontece que nem só de ídolos e figurões do submundo vivem os corridos. O documentário Narco Cultura mostra como traficantes “menores” buscam cantores do gênero para encomendar canções que falem de si mesmos e de suas pequenas vitórias – nada mais justo do que um gênero musical criminal se vender por mucha plata. Os narcocorridos são apenas um aspecto da abrangente cultura narcotraficante, que há muito tempo já se vê como uma forma e aspiração de vida para muitos – e é contextualizado um pouquinho melhor aqui.

 

[por Mateus Senna]