Hipertexto: Publius Enigma

Extraído da edição 43 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

The Division Bell, o décimo-quinto disco do Pink Floyd, é mundialmente apontado como um dos três melhores álbuns na discografia da banda (carece de fontes)O álbum tem músicas incríveis e um conceito tão difuso quanto interessante, a “comunicação”. As letras versam sobre a humanidade, suas relações e as falhas de entendimento entre as pessoas. Mas o famigerado Disco das Cabeça, além ser uma das obras mais subestimadas da história do rock, esconde um mistério maior: o Publius Enigma.

O ano era 1994. A internet ainda engatinhava e oferecia várias plataformas de comunicação digital que, descobriríamos depois, morreriam na casca. Uma delas, a Usenet, teve uma boa popularidade por algum tempo – há inclusive quem afirme que foi o local onde surgiram ou se tornaram comuns coisas como emoticons e os acrônimos do tipo LOL, mas isso é papo para outra Enclave. O que nos interessa aqui é que a Usenet funcionava basicamente como uma espécie de superfórum, onde vários grupos se formaram a partir de interesses comuns. Um deles, o Pink Floyd.

No dia 11 de junho daquele ano, um post tão críptico quanto intrigante apareceu na comunidade Usenet do Pink Floyd. Assinado por um indivíduo denominado Publius, o conteúdo se tratava do seguinte:

Publius Enigma
Primeira postagem assinada por Publius.

Na sequência, após receber algum ceticismo, Publius resolveu esclarecer um pouco melhor. Disse que The Division Bell não era como os discos que o antecederam porque, além das múltiplas interpretações que toda grande obra de arte carrega, continha um “propósito central e uma solução planejada”. Afirmou que o pessoal precisava se comunicar, ouvir, ler e absorver tudo que o álbum trazia, para começar a entender o que havia por trás da coisa toda. E fez referência a um “prêmio especial” a ser recebido pela alma elevada que chegasse ao resultado final.

Alguns se interessaram porque a mensagem parecia vir de um “cúmplice” da banda e do conceito, mas outros não deram a mínima e Publius seguia recebendo resistência. Em uma nova postagem, entretanto, o misterioso mensageiro deu data, local e horário para comprovar a sua veracidade – exatamente as coordenadas para um show do Pink Floyd. Os que conheciam esse papo e puderam acompanhar a performance ficaram um tanto surpresos, por causa disso aqui:

Eita.

Rapaz… E agora? Naquele palcão maravilhoso, em meio a milhares de detalhes cuidadosamente planejados, foram projetadas as palavras “Publius” e “Enigma”. Aí foi aquele fuzuê: já que o Publius era de fato alguém do staff da banda, isso significava, antes de tudo, que o quebra-cabeça existia. Sucedeu-se, então, uma exaustiva caçada por pistas, tanto em letras quanto em detalhes da capa, artes promocionais e detalhes nos palcos da The Division Bell Tour. Há relatos até de gente cavando ao redor da Ely Cathedral, a catedral anglicana que aparece entre as duas estátuas da foto – aparentemente, nada foi encontrado. Na apresentação de 20 de outubro do mesmo ano, durante a execução de ‘Another Brick in the Wall’, a palavra “enigma” apareceu novamente. Outros materiais, posteriores, também trouxeram referências ao enigma. Como exemplo, este detalhe do encarte na versão mini-disc do álbum A Momentary Lapse of Reason.

Publius publicou ainda outras várias mensagens, dando supostas pistas e respondendo a perguntas, mas sempre de forma vaga e solta. O último texto data de 2 de agosto de 1995 e, desde então, o “personagem” não deu mais sinal de vida.

O Pink Floyd, em si, nega envolvimento. Em 1995, David Gilmour afirmou, em entrevista a uma revista de guitarra, não saber nada sobre o Enigma. Durante um Q&A online em 2002, o discurso do guitarrista/vocalista/gênio mudou um pouco: chamou a empreitada de “Uma coisa boba da gravadora, que eles criaram para desafiar as pessoas”. Mas a afirmação mais interessante veio do baterista, Nick Mason, em um livro biográfico sobre o Pink Floyd. Ele corroborou a fala de Gilmour, sobre ser invenção da gravadora, mas terminou dizendo que “…o prêmio nunca foi dado. Até hoje, [o Enigma] continua sem resposta”. Essas declarações provam que o enigma não é uma farsa – se tem dedo da banda ou não, é outro papo.

A questão é: será que existe uma resposta para o Publius Enigma, ou a iniciativa foi abandonada antes de todas as pistas para a resolução serem dadas? Há quem diga que a ideia do quebra-cabeça é justamente não possuir um final: continuando as buscas, os participantes dessa “caça ao tesouro” vão seguir em contato e, por consequência, continuarão se comunicando. Pensa numa parada decepcionante.

Uma outra teoria doida crava que o mistério já foi solucionado. Segundo alguns, o “prêmio especial” é uma surpresa maior, para ser compartilhada por todos: um pessoal colocou o The Division Bell para tocar junto com o filme O Mundo Fantástico de Oz (a sequência ruim e não-oficial do clássico O Mágico de Oz) e jura que a relação é ainda mais assustadora do que no famoso “The Dark Side of the Rainbow”. Segundo essas mentes fervilhantes, o Pink Floyd, motivado pela notoriedade que ganhou a sincronia acidental de anos antes, teria composto o álbum de 1994 de forma a – agora propositalmente – encaixar perfeitamente com a sequência.Será? O único link que achamos para isso foi infelizmente removido pela Disney. Se você achar por aí, envia pra nós!