Hipertexto: Gang of Four e a morte discreta de Andy Gill

Extraído da edição 71 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

(Photo by Ebet Roberts/Redferns)

Semana passada, tratamos da música brasileira na primeira metade dos anos 1970 (na verdade, nos primeiros seis anos, antes que alguém nos corrija…). Hoje, lembramos um personagem da geração diretamente influenciada por aquele período musical brasileiro.

Andy Gill (1956-2020) foi guitarrista do Gang of Four, banda ícone do pós-punk, gênero/movimento em que jovens universitários descobriram sons de origem latina e/ou africana. Basta ouvir meio disco dos Talking Heads para compreender o que estou apontando (e melhor do que a minha explicação atenciosa possibilitaria).

Não à toa, David Byrne (Talking Heads) foi responsável direto pela propagação de músicos brasileiros (e não só) para grandes centros – Tom Zé talvez como o caso mais emblemático. A história pormenorizada do pós-punk foi costurada por Simon Reynolds no livro Rip it up and start again.

Mas voltando ao Gang of Four. A banda de Leeds (Inglaterra) lançou Entertainment!, seu álbum de estreia, em 1979. Esse debut é tranquilamente um dos discos mais influentes da história, ou então entre pessoas que usam guitarras, ou no mínimo entre indivíduos que compram e discutem a perenidade de discos.

Lembro perfeitamente meu primeiro contato com Gang of Four. Foi por meio de um CD gravado por um tio (e espécie de farol estético). Portanto, ainda quando se gravavam CDs. Eu tinha 14, 15 anos. Naquele CD-R havia uma espécie de guia do que eu deveria escutar ou já deveria ter escutado.

Da banda, constavam “Natural’s not in it” e “At home he’s a tourist”, e ambas me marcaram. O Gang of Four dispunha de verve, angústia política e originalidade estética. Em Entertainment!, tudo é conscientemente rústico e encaixado: trata-se de um trabalho tão próximo do disco como da poesia – isso apenas com a formação tradicional de quarteto (voz, guitarra, baixo, bateria).

Entertainment! é, acima de qualquer letra crítica ao capital, dançante; o protagonismo do baixo na estrutura de suas músicas – uma refrescante marca do pós-punk – atestava isso. E Andy Gill, de quem ainda falaremos, conseguiu desdobrar sua guitarra brilhantemente a partir disso.

A magia se repetiu – com menos efeito, mas ainda inegável qualidade (e talvez alguma inflação por parte da crítica) – em Solid Gold (1981), segundo álbum.

Conforme o tempo passava, no entanto, a banda perdia a capacidade de unir forma e conteúdo. Por fim, os discos posteriores aos dois primeiros passaram a soar cada vez mais datados, esquecíveis – e não há lista de Pitchfork que redima o mediano Songs of the free (1982), terceiro do catálogo. Seus membros pouco a pouco se dispersavam.

Com o julgamento distante, o Gang of Four parece um atacante que, depois de uma temporada extraordinária em time médio, nunca conseguiu se impor em palcos maiores (nesse caso, literalmente; que tal essa metáfora dentro de uma analogia?).

Em que pese o letramento dos integrantes, sua angústia política – a começar pelo nome, alusão à Camarilha dos Quatro da Revolução Cultural Chinesa – não se sobressaiu para além de uma revolta no mínimo mal aproveitada. (Essa é a interpretação bondosa; a maldosa veria a banda como críticos de DCE cuja fachada escondia um notável vazio.)

Então chegamos em Andy Gill. Ele chegou a produzir o primeiro álbum do Red Hot Chili Peppers ainda em 1984, e longe de mim agradecê-lo(s) por isso. Entre outras produções, reuniu-se com Jon King, vocalista original do Gang of Four, para uma retomada no início da última década.

Em 2011, lançaram um disco; em 2015, já sozinho novamente, Gill lançou outro. Finalmente, 2019 marcou seu último álbum. São todos discos decentes, e não há por que não reconhecer o mérito banhado em alívio daquilo que poderia ter sido muito pior (e, novamente, talvez tenha havido certa inflação por parte da crítica, provavelmente por gratidão, visto que o crítico musical padrão cresceu tarado por Gang of Four).

Em maio, escrevemos sobre as mortes de Aldir Blanc, Tony Allen e Florian Schneider. E simplesmente não sabíamos, àquela altura, que Andy Gill havia morrido. Com ele, o Gang of Four – em definitivo.

Oficialmente, Gill, 64, morreu de pneumonia e falência múltipla dos órgãos. O problema: ele esteve na China em novembro e começou a apresentar sintomas hoje associados à Covid-19 em dezembro. Sua esposa, a jornalista Catherine Mayer, escreveu um relato detalhado a respeito da situação. Também é possível escutá-la falar sobre o doloroso desfecho à BBC.

Os sintomas acompanharam o círculo imediato do casal e da banda – a ponto de o gerente de turnê ser internado com crise respiratória logo após retornar à Inglaterra –, porém antes de a Europa identificar esses problemas como algo novo. “É possível que nunca saibamos se a Covid-19 matou Andy, mas eu sempre saberei, em detalhes indeléveis, como ele morreu”, registrou Meyer.

Tardiamente, registramos nossa homenagem ao responsável direto por no mínimo um dos melhores discos de um período interessantíssimo da música no século 20. Muita coisa aconteceu e ainda acontece a partir do Gang of Four, cuja verve inicial transforma qualquer cínico no adolescente que abre um CD gravável pela primeira vez e, sem saber o que lhe espera, reage estupefato.

Baú: Kenneth Clark

Extraído da edição 71 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

O que é civilização? Não sei. Por enquanto, não consigo defini-la em termos abstratos. Mas acho que, vendo-a, posso reconhecê-la, e olho para ela neste momento. Ruskin disse: “As grandes nações escrevam sua autobiografia em três livros: o de seus feitos, o de suas palavras e o de sua arte. Para entender um é preciso ler os outros; contudo, o mais autêntico é o terceiro”. Acho que ele tem razão! Escritores e políticos podem expressar vários sentimentos nobres, mas estes não passam do que podemos chamar de declarações de intenções. Se eu tivesse que escolher o que expressa melhor a verdade da sociedade, se o discurso de um Ministro da Habitação ou as construções reais da época, diria que são as construções.

Isso não significa que a história da civilização seja a história da arte. Longe disso. As sociedades primitivas também podem produzir grandes obras de arte; de fato, a grande limitação da sociedade primitiva confere à sua arte ornamental uma concentração e uma vitalidade peculiares. Lá pelo século IX, podia-se ver, olhando o Sena, a proa de uma embarcação viking subindo o rio. Hoje, no Museu Britânico, ninguém lhe pode negar o vigor de uma obra de arte, mas deve ter sido bem menos atraente para a mãe de família que tentava acomodar os filhos em sua cabana; aliás, deve ter sido tão ameaçadora para a sua civilização quanto o periscópio de um submarino atômico.

Kenneth Clark (Civilização, ed. Martins Fontes, 1995).