Hipertexto: O Banho Turco

Extraído da edição 41 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Banho Turco, do pintor francês Jean-Auguste-Dominique Ingres, é um perfeito exemplo da corrente Orientalista, popular no século 19 na Europa após a invasão do Egito por Napoleão. Era muito comum nessa época o interesse de artistas pela estética do oriente-médio, até então uma região exótica e pouco conhecida pela alta classe europeia. Essas representações não deixam de ser romantizações paternalistas, tratando o oriente como um mundo subdesenvolvido e estático, mas nos ateremos aqui ao seu valor artístico.

Pintada quando Ingres já tinha seus 82 anos de idade, em 1862, a tela mostra um harém segundo a descrição de Lady Mary Montagu de uma viagem ao império otomano: “acredito que ali havia duzentas mulheres. Mulheres lindas e nuas em várias poses. Algumas conversando, outras tomando café ou tomando sorvete, e muitas espreguiçando-se despreocupadamente, enquanto suas escravas (geralmente lindas garotas de 18 anos) arrumavam seus cabelos em formas fantásticas“. A produção da Enclave contou apenas 23 moças na figura, mas o efeito que se tem é de muito mais corpos. Provavelmente pelas voluptuosas curvas das musas, que se confundem e se repetem  no espaço, inclusive no formato do quadro (que originalmente era retangular, mas foi cortado pelo artista após sua execução).

A obra é também repleta de autorreferências, já que Ingres frequentemente pintava cenas desse tipo. A Grande Odalisca e A Banhista de Valpinçon são dois exemplos de pinturas citadas no processo criativo do Banho Turco.

A figura em primeiro plano no Banho Turco é praticamente uma releitura da Banhista de Valpinçon (esq). A Grande Odalisca (dir) é a obra mais infuente de Ingres e o inspirou a seguir a estética oriental

Baú: Henry David Thoreau

Extraído da edição 40 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

Não é obrigação de um homem, evidentemente, dedicar-se à erradicação de um mal qualquer, nem mesmo do maior que exista; ele pode muito bem ter outras preocupações que o absorvam. Mas é seu dever, pelo menos, manter as mãos limpas e, mesmo sem pensar no assunto, recusar o apoio prático ao que é errado. Se eu me dedico a outros planos e atividades, devo antes de mais nada garantir, no mínimo, que para realizá-los não estarei pisando nos ombros de outro homem. Devo sair de cima dele para que também ele possa perseguir seus objetivos.

Henry David Thoreau, 1849, A Desobediência Civil (ed. Penguin & Companhia das Letras, 2016).