Hipertexto: Era Uma Vez na América

Extraído da edição 99 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Noodles, I slipped!

Não se pode chamar de subestimado, afinal se trata de um filme de Sergio Leone, mas Era Uma Vez na América (1984) decerto é menos lembrado que outras grandes obras do diretor italiano – e menos lembrado do que merece.

  • Talvez porque o filme não seja um western, gênero ao qual Leone ficou tão associado.
  • Talvez porque seja seu último longa-metragem, com grande distância em relação ao anterior (13 anos para Giù la testa/Duck, You Sucker!).
  • Talvez por conta de seu lançamento confuso, com uma versão reduzida nos Estados Unidos, capaz de prejudicar a recepção imediata da película (e sua arrecadação).
  • Talvez porque sua versão consagrada tenha 229 minutos (3 horas e 49 minutos), o que intimida um tanto – mas vale cada segundo.

Era Uma Vez na América é um pináculo do cinema, sem mais nem menos. Ao longo de suas quase quatro horas, acompanhamos a trajetória de Noodles (Roberto De Niro) e Max (James Woods) representada de forma hipnotizante. A dupla lidera uma gangue juvenil cujo contexto tem a Lei Seca dos Estados Unidos (1920-1933) como ponto central.

A partir disso, assistimos a uma narrativa que desenvolve esses personagens por décadas, de 1918 até o fim da década de 1960, fragmentando a história de forma não linear e pincelando-a por cenas de um capricho etéreo.

Testemunhamos a ação do tempo, a degradação e a amargura através de cenários oníricos e transições de cenas coreografadas por um gênio, pois tamanha clarividência e tamanha técnica pertencem apenas ao gênio. Era Uma Vez na América redimensiona o que essa arte é capaz de proporcionar.

O filme é brutal e delicado; singelo e complexo; claro e ambíguo. Muitos adjetivos (que nada dizem), infelizmente, mas Sergio Leone criou algo digno de tal êxtase – com mais uma trilha sonora primorosa de Ennio Morricone e cinematografia de Tonino Delli Colli.

Há cenas que espectador algum esquece – quem viu sabe exatamente quais –, mas tratar delas pode atrapalhar a experiência de curiosos. Nosso maior intuito é incentivar o contato com essa obra-prima de densidade narrativa, psicológica, visual e sonora. Por hoje é só: reassistindo, seguimos pasmos.


  • Ao fechamento desta edição, Era Uma Vez na América está disponível no Prime Video, que não financiou este texto.
  • Uma possibilidade é dividir o filme em dois, assistindo à primeira parte, até 2h40min; depois disso, até o fim (cerca de 1h10min). Outra é serializá-la em seis partes. Segue sugestão: 1 (até 38 min); 2 (até 1h29min); 3 (até 2h03min); 4 (até 2h40min); 5 (até 3h12min) e 6 (até o fim).

Baú: Giovanni Falcone

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No geral, considera-se que a máfia privilegia certas técnicas de homicídio em relação a outras. É um erro. Ela sempre escolhe a forma mais rápida e menos arriscada. Esta é a sua única regra. Não há nenhuma preferência ou feticha por uma técnica ou por outra.

O melhor método continua sendo a lupara bianca, a morte pura e simples da vítima escolhida, sem deixar traços do cadáver e nenhum sangue. É uma realidade que deixa estupefato qualquer um que tenha visto um filme sobre a máfia, no qual não economizam rios de sangue. Repito, quando pode, a máfia prefere as operações discretas, que não chamam a atenção. Eis a razão pela qual o estrangulamento se afirmou como a principal técnica de homicídio da Cosa Nostra. Nada de tiros, nada de barulho. Depois de estrangulada, a vítima é dissolvida em um barril de ácido, em seguida esvaziado num poço, num canal de escoamento, ou num lixo qualquer.

(…)

Além da crueldade gratuita da Cosa Nostra, eu gostaria de esclarecer outro lugar-comum, muito divulgado e até mesmo exaltado por certo tipo de literatura. Trata-se dos chamados rituais de morte. É comum pensar que existe uma espécie de hierarquia das punições com base na gravidade das faltas cometidas, e uma classificação da violência segundo o nível de periculosidade que a futura vítima apresenta. É um erro.

Não há dúvida, por exemplo, de que um mafioso, quando quer intimidar uma construtora, começa fazendo ir pelos ares uma escavadeira. Sendo uma empresa de limpeza urbana, tocará fogo num caminhão. Mas, se depois de discutido com o capo di famiglia for preciso eliminar alguém – um inimigo, um rival, um concorrente – o mafioso terá diante de si somente uma possibilidade. Se tiver condições de se aproximar da vítima – amigo ou conhecido –, o golpeará de surpresa, fazendo o cadáver desaparecer em seguida (a melhor solução, porque deixará dúvida sobre o autor do assassinato e o destino da vítima). Se, ao contrário, não tiver como se aproximar da vítima, caberá a ele encontrar a melhor maneira para eliminá-la, expondo-se ao menor risco possível. O camicase não é um modelo em voga entre membros da Cosa Nostra. Um homem de honra deve fazer seu trabalho sem se arriscar ou colocar em risco a sua famiglia; o fascínio mórbido pelo suicídio ou pelo próprio sacrifício não faz parte da sua bagagem cultural.

Como eu disse, o principal problema para quem recebe ordem para matar ou sinal verde, em certo sentido, é colocar-se em contato, aproximar-se da vítima. Não é fácil: nos sicilianos, e ainda mais os mafiosos, o perigo sempre iminente aguça sua percepção; são desconfiados por natureza.

(…)

Outros homicídios famosos demonstram o extraordinário pragmatismo e a capacidade de adaptação da Cosa Nostra, e confirmam, mais uma vez, que não existem categorias predeterminadas de reação aos diversos tipos de crime. Nem para os consumados internamente, nem para os externos.

Salvatore Inzerillo, valoroso capo della famiglia palermitana de Uditore, foi morto por uma rajada de Kalashnikov, em 1981, enquanto entrava no seu carro blindado. O comissário Ninni Cassarà, em 1985, foi cortado por uma rajada de metralhadoras enquanto subia os degraus que separavam seu carro blindado do portão de sua casa. Em 1983, o juiz Rocco Chinnici foi pelos ares com a explosão de um carro recheado de dinamite, estacionado em frente a sua casa. Em 1985, o comissário Beppe Montana morreu com um único tiro de pistola, disparado quando voltava de um passeio de barco. Estava desarmado.

Cada um foi atingido num momento do dia e num local em que pareciam mais vulneráveis. Somente considerações estratégicas e técnicas determinam o tipo de homicídio e de arma a serem empregados. Com uma pessoa que se locomove usando carro blindado, como Rocco Chinnici, é comum se recorrer a métodos espetaculares.

Sobre esse escrito foi escrito: “Eles o eliminaram à libanesa para aterrorizar Palermo.” Na realidade, eles o mataram da única forma possível, causando cinco mortes e destruindo uma dezena de automóveis, porque Chinnici era muito prudente e atento quando se tratava da sua segurança pessoal. Aprendemos a refletir de modo sereno e laico sobre os métodos da Cosa Nostra: antes de atacar, a organização sempre realiza um estudo sério e aprofundado. Por isso, é muito difícil pegar um mafioso com a mão na massa. Contam-se nos dedos de uma das mãos os que foram presos em flagrante delito: Agostino Badalamenti, por exemplo, surpreendido com uma pistola nas mãos, por algum tempo conseguiu fazer-se passar por pouco, antes de ser condenado, já que sua mente era perfeitamente sã.

Giovanni Falcone* (com Marcelle Padovani), Coisas da Cosa Nostra, 1991 (ed. Rocco, 2012).

* Morto pela Cosa Nostra por meio de explosivos detonados na estrada. Com ele, a esposa e três policiais que faziam a escolta.