Hipertexto: Shibumi!

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Shibumi (1979), de Trevanian (Rod Whitaker), é um livro esquisito. Não necessariamente pela forma atípica ou por um conteúdo extravagante, mas existe algo inerentemente curioso nesse romance de espionagem.

A começar por seu autor. “Mas quem diabos é ‘Tre-va-nian’? ‘Tre-va-ni-an‘?” foi minha reação ao deparar de algum modo – não lembro qual – com a recomendação de Shibumi pela internet. Quem confiaria em um escritor de um nome só?

Rod Whitaker (1931-2005), a despeito de uma carreira acadêmica regular nos Estados Unidos, não só vendeu, mas também vendeu bastante assinando como Trevanian, um pseudônimo/heterônimo/alterego misterioso que só viria a ser desvendado alguns anos antes da morte da pessoa física.

Whitaker publicou seu primeiro romance – já sob o heterônimo Trevanian, uma homenagem ao historiador G. M. Trevelyan (1876-1962) – em 1972. The Eiger Sanction (Escalada Mortal) logo viria a ser adaptado (e estrelado) por Clint Eastwood, em 1975, para desaprovação do escritor, incomodado com a miopia interpretativa de quem não identificou os tons satíricos da obra.

  • Escalada Mortal acompanha um professor de arte-alpinista-assassino-mercenário (não dá para desconfiar de imediato? Professor de arte não completa uma volta no Parque Barigui, oras).

Mas é aí que as coisas começam a ficar mais interessantes. Porque, considerando o que lemos em Shibumi – e Escalada Mortal (ed. Landscape, 2007) já foi devidamente comprado para a biblioteca Enclave –, Trevanian produz muito mais que apenas paródia.

Afinal, Shibumi é sim um livro esquisito. Também é um baita romance. A narrativa acompanha Nicholaï Hel, nascido de uma aristocrata russa com um alemão e crescido em uma Xangai ocupada pelos japoneses – sem conhecer o pai, praticamente sem a mãe –, depois no próprio Japão (Heru), por fim no Japão ocupado por americanos, após o fim da Segunda Guerra.

Apaixonadamente multicultural e com um explícito viés antiamericano, o universo de Shibumi se estende ao País Basco, onde mora Hel (e onde morou Whitaker), agora um assassino aposentado, embora ainda temido. Também se passa em Londres e em Washington, de onde a CIA alinha suas operações com a Matriz, uma corporação gigantesca e sem rosto controlando o planeta a partir do petróleo e de suas calculadas motivações políticas.

Já em seus cinquenta anos, Hel mora num castelo sem energia elétrica, explora cavernas, joga Go, pratica jardinagem japonesa, é capaz de matar qualquer um com qualquer instrumento (“a fucking pencil…”) e conseguiria entregar prazer a qualquer mulher por uma eternidade. Hel fala quase dez línguas e desenvolveu um senso de proximidade com o qual detecta não só aproximações físicas, mas seu aspecto anímico.

Um James Bond cavaleiro do zodíaco. Hel é o homem, uma máquina, uma besta enjaulada com ódio – apenas à procura de viver com shibumi, uma perfeição espontânea. E, claro, algo o fará voltar ao jogo.

Se os elementos são nitidamente exagerados, para não dizer escrachados, acontece que Trevanian consegue trafegar entre a paródia pornográfica de 007 (um dos personagens se chama D.I.L.D.O!) e o romance de desenvolvimento lento, disposto de enorme caracterização, com maestria – a maestria de quem domina a técnica e se vê forçado a brincar.

Ademais, o livro antecipa diversos tópicos em voga hoje, como inteligência artificial, ecologia, interferências de política externa e a ubiquidade de instituições dúbias. Trevanian aproveita para espalhar seu veneno em vários (vários!) tópicos, da CIA à pop art, todos com a rabugentice fundamentada de que gostamos. Há um senso de humor preciso.

Com a imagem do herói silencioso multicultural de origem misteriosa lutando contra organizações onipresentes, Shibumi inspirou a divertidíssima franquia John Wick – no primeiro filme, até vemos um personagem segurando o livro. Inclusive, Chad Stahelski, o diretor, adaptará o romance para o cinema em algum momento.

Como esta é uma newsletter, grosso modo, de adaptações e intertextualidade, pensemos em alguns pontos aqui.

  • Pela natureza longeva da narrativa, que abrange muitas décadas, será uma tarefa difícil.
  • O antiamericanismo em Shibumi, obra de um americano que adora o Japão, certamente será diluído.
  • Torço para manterem a pluralidade linguística – do russo ao basco –, agora que esse povo finalmente descobriu as legendas.

John Wick, por ora, sobrevive bem à superexposição (já são três filmes, rumo ao quarto), provando que filmes de ações não precisam ser estúpidos. Ou melhor, que podem até ser simplistas, desde que a ação em si seja vistosa, coreografada, bonita.

Afinal, ninguém se importa com explosões sequenciais e cortes indecifráveis, mas é possível aproximar uma luta armada de um balé – e incrementá-la com luzes, trajes e objetos cativantes. John Wick sabe fazer isso (como o primeiro Kingsman também fez).

Mais do que isso – e é aqui que a franquia realmente captura parte do apelo de Shibumi (como o primeiro Kingsman também capturou) –, essas narrativas temperam nossas vidas entediantes com um “e se?” lúdico, constante na infância, mas adormecido na rotina amorfa da vida.

“E se esse vendedor fosse um espião procurando informações?”; “e se essa porta trancada levasse a um porão da máfia?”; “e se esse prédio fosse um centro de comunicação de uma agência secreta?”; “e se esse corredor…”. O universo pelo qual transita o interminável Keanu Reeves carrega todo o ethos do romance – quem o ler logo identificará.

Por fim, ecos de Shibumi atravessam mídias: no videogame, a saga de Metal Gear parece ensopada de Trevanian, ao passo que desbravadores de Mass Effect reconhecerão Thane Krios como um Nicholai Hel alienígena.

Excelente para um livro esquisito: quem duvidaria de um escritor de um nome só?

Baú: Anthony Bourdain

Extraído da edição 107 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

Meu primeiro indício de que comida era algo mais que uma substância para se enfiar na boca quando batia fome – como que enchendo o tanque do carro – veio no final do quarto ano primário. Foi durante as férias em que viajamos para a Europa a bordo do Queen Mary e aconteceu no salão refeitório da classe econômica. Há uma foto dessa viagem: minha mão de óculos escuros à la Jackie O., meu irmão caçula e eu terrivelmente chiques para o cruzeiro, alvoroçadíssimos com nossa primeira visita à terra natal dos ancestrais de meu pai, a França.Foi a sopa.

Estava fria.

Uma descoberta e tanto para um menino curioso cuja experiência em sopas até aquele momento ia de creme de tomate Campbell’s a canja de galinha. Eu já havia comido em restaurantes, claro, mas essa foi a primeira comida em que realmente prestei atenção. Foi a primeira comida de que gostei e, mais importante, de que me lembro de ter gostado. Perguntei ao nosso paciente garçom britânico o que vinha a ser aquele líquido deliciosamente fresco e saboroso.

“Vichyssoise”, foi a resposta, palavra que até hoje – mesmo agora, uma veterana cansada de guerra de tantos cardápios, preparada mais de mil vezes por mim – ainda guarda um tom de magia. Lembro-me de tudo sobre essa experiência: a forma como nosso garçom tirou-a de uma terrina de prata com a concha, o frescor das cebolinhas verdes francesas que ele colocou por cima para guarnecer, o gosto cremoso e forte do alho-poró com batata, o choque agradável, a surpresa de saboreá-la fria.

Não me lembro de muita coisa mais a respeito da travessia do Atlântico. Assisti a Boeing Boeing com Jerry Lewis e Tony Curtis no cinema do navio e a um filme com Bardot. O velho transatlântico tremeu, roncou e vibrou que foi um horror a viagem inteira – cracas no casco era a explicação oficial – e de Nova York a Cherbourg foi como cavalgar um cortador de grama gigante. Meu irmão e eu não demorados a nos sentir entediados e passamos grande parte do tempo no “salão jovem”, ouvindo “House of the Rising Sun” na vitrola eletrônica ou vendo a água se mexer para lá e para cá feito um vagalhão contido entre quatro paredes na piscina de água salgada do convés inferior.

Mas aquela sopa fria nunca mais me deixou. Ela ressoou, me acordou, me deixou consciente da língua e, de alguma forma, me preparou para os acontecimentos futuros.

Anthony Bourdain, Cozinha Confidencial, 2000 (Companhia de Mesa, 2016).