Autofricção

Editorial extraído da edição de fevereiro de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Temos pensado cada vez mais no conceito de fricção de conteúdo.

Não é preciso grande sofisticação intelectual para perceber que as plataformas digitais são desenhadas para reduzir ao máximo qualquer esforço do usuário. O consumo se torna automático, contínuo e difícil de interromper. Essa fluidez não é neutra. Ao eliminar pausas, escolhas e obstáculos, as redes sociais — principalmente — deslocam o leitor de uma posição ativa para uma condição de resposta quase reflexa. O que se perde nesse processo não é apenas atenção, mas a possibilidade de decisão consciente e de descoberta não mediada.

Ao priorizar recompensas rápidas e repetitivas, as redes sociais empurram o usuário para a gratificação imediata e para conteúdos previsíveis, confortáveis e ajustados a preferências já mapeadas. A agência individual é substituída por sugestões constantes em uma roda de hamster de conteúdo capaz de enlouquecer até o mais lúcido dos mortais. O esforço deixa de ser parte da experiência e, com ele, desaparece também uma dimensão fundamental da leitura: a de confronto, desacordo e risco. E o que isso tem a ver com o RelevO?

Pois bem, a experiência do impresso surge como um contraponto deliberado a essa lógica. A escolha pelo analógico, pela leitura sem notificações, pela curadoria humana e pelo tempo mais lento recoloca a fricção como parte do processo. Não se trata de criar dificuldades artificiais, como se praticássemos uma espécie de autofricção, nem de defender um purismo estéril no sentido de que passamos incólumes pelo trânsito da vida — até porque temos anúncios também —, mas de recusar a ideia de que a experiência precisa ser lisa, eficiente e imediatamente agradável. Também não buscamos produzir edições neutras, higienizadas ou pensadas para cumprir uma função pedagógica genérica, ainda que saibamos que leitores jovens, muitas vezes fora do radar das boas intenções adultas, acabam encontrando o jornal por conta própria.

Essa fricção editorial, no entanto, não se confunde com barreira de acesso. Se o conteúdo exige tempo, escolha e disposição, a circulação precisa ir no sentido oposto. Desde a primeira edição, em setembro de 2010, a distribuição é uma preocupação central do nosso projeto. Atualmente, chegamos, sem custo para os pontos culturais, em mais de 350 locais.

À primeira vista, enviar jornais gratuitamente para pontos de leitura pode parecer contraditório em relação ao modelo de assinaturas. Na prática, ocorre o inverso. São justamente os assinantes que viabilizam que o RelevO chegue a cidades distantes dos grandes centros, circule em livrarias independentes, cafés e sebos, e seja encontrado por leitores que talvez não o buscassem ativamente. Um jornal que se pretende vivo precisa se descentralizar, isto é, existir tanto na leitura individual como na experiência coletiva, no encontro fortuito e na recomendação informal.

Hoje, essa rede começa a ultrapassar fronteiras. A partir de fevereiro, o Jornal passa a circular também em dois pontos internacionais, ambos localizados em regiões de fronteira com o Brasil. Não se trata de expansão como fetiche — é o que o editor jura —, mas de coerência com a ideia de acesso. Se o conteúdo resiste à lógica da fluidez fácil, a circulação precisa resistir à concentração. O RelevO exige que o leitor pare, folheie, escolha, atravesse páginas, goste e rejeite textos. Não há algoritmo decidindo o que vem a seguir nem promessa de conforto contínuo. Essa fricção não busca afastar leitores nem comprometer a sustentabilidade do projeto. Partimos do entendimento de que ler é uma experiência que envolve provocação, contradição e alguma resistência à passividade imposta pelo ambiente digital.

Em um mundo desenhado para reduzir o atrito e preservar a anestesia, o RelevO pode, de fato, causar incômodo. Já perdemos assinantes por conta de um estilo menos polido e menos conciliador. Ainda assim, partimos do pressuposto de que existam leitores interessados em uma experiência que se organiza não só para agradar, mas também para tensionar, gerar algum tipo de impacto. Buscamos leitores dispostos a aceitar a dificuldade inerente de existir, ler e pensar. Leitores convictos de que esse esforço vale a pena.

Uma boa leitura a todos.