Uma proposta logística e editorial ou descentralizar ≠ fragmentar

Editorial extraído da edição de maio de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


  1. Ampliação do acesso à leitura e à produção literária;
  2. Maior profusão de vozes, narrativas e repertórios;
  3. Fortalecimento de circuitos locais;
  4. Criação de novos leitores a partir da proximidade e identificação.

Tudo isso faz parte das ambições de um jornal impresso de literatura como o RelevO. Entendemos que existe uma geografia invisível que define o que circula, o que ganha corpo e o que é renegado à margem. No campo editorial, o jogo de forças costuma apontar para poucos polos, que concentram não apenas editoras, mas também livrarias, imprensa, crítica e legitimidade.

Enquanto periódico independente (e aqui dizemos de certas amarras, não de outras), estamos situados em um cenário que se apresentava antes de nós, com aspectos negativos históricos — não somos o país dos não-leitores, de acordo com o Retratos da Leitura (2024), por acaso. Nunca quisemos nos rebelar contra circuitos estabelecidos, inclusive, queremos circular por eles porque entendemos que todos temos ambições semelhantes: chegar em mais leitores e propor maior circulação de ideias. Mas entendemos que precisamos olhar e chegar em outras paragens.

E o que está ao nosso alcance? Descentralizar a logística. Quando um periódico como o RelevO se espalha por cidades médias, periferias e regiões pouco atendidas, estamos chegando a novos pontos de leitura. Queremos alterar a lógica de quem pode ler, escrever, publicar e ser reconhecido. A distribuição deixa de ser um fim logístico e passa a ser uma proposta editorial.

Acreditamos que essa escolha impacta diretamente o tipo de texto que recebemos. Um veículo que circula apenas em centros consolidados tende a dialogar com um repertório mais homogêneo de ideias e registros, mesmo que da abundância exista maior possibilidade de se peneirar a originalidade. Quando a circulação se expande, o Jornal passa a lidar com outras realidades, outros ritmos, outras urgências. A linguagem se desloca junto. O desconhecido deixa de ser uma abstração e passa a ter endereço, sotaque e contexto.

Existe também um efeito interessante que não pode ser ignorado. Ao ocupar novos territórios, um jornal de literatura pode criar demandas por circulação, estimular parcerias locais, integrar-se com ecossistemas culturais novos. Pequenas livrarias, cafés, centros culturais e coletivos podem integrar esse circuito. Mas talvez o ponto mais importante seja outro. A descentralização cria pertencimento. Quando alguém encontra um jornal de papel e de literatura em sua cidade, quebramos barreiras em relação à literatura, que, de algo distante ou reservado aos grandes centros, se torna próxima, cotidiana. E, em muitos casos, esse encontro é o início de uma trajetória como leitor ou mesmo como autor.

O desafio é econômico, de conseguirmos sustentar os envios regulares com o aporte da nossa comunidade. O segundo desafio, de ordem editorial, está em sustentar esse movimento sem cair na tentação de reproduzir os mesmos filtros de sempre, com textos que explicam a explicação, e não vamos nos estender muito nisso e em uma certa tendência da literatura contemporânea. Assim, a decisão de passar a publicar bios, inclusive, nasce desse movimento de descentralização. Em um cenário onde muitos autores ainda circulam sem mediação ou reconhecimento fora de seus territórios, a bio pode funcionar, em certa escala, como ponto de ancoragem. Se o RelevO vai chegar onde nunca chegou, talvez passemos a revelar pelas bios os nossos deslocamentos.

De fato, as bios podem ampliar a leitura, embora não deixaremos de publicar aqueles que usam pseudônimos e não querem revelar seus IPs. Toda escrita parte de um lugar. Ao explicitar esse lugar ou ignorá-lo, o Jornal não restringe o texto, ao contrário, abre novas camadas de interpretação. Para um projeto que busca ampliar circulação e diversificar vozes, assumir essas identidades é uma nova escolha editorial. Descentralizar, no fim, não é fragmentar.

Ao espalhar pontos de leitura, ampliar vozes e assumir origens, imaginamos que o Jornal não se disperse. Cada cidade, cada autor, cada leitor passa a integrar uma mesma trama, feita de contrastes, tensões e encontros. Não ignoramos o papel histórico e a potência dos grandes centros culturais, apenas reconhecemos uma relação entre a logística e a edição.

Uma boa leitura a todos.