Hipertexto: Marco Pierre White

Extraído da edição 63 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

A Enclave de hoje trata – inédita e indiretamente – de gastronomia. A newsletter nunca comeu num restaurante com estrela Michelin, tampouco ingeriu alguma estrela, nem mesmo assistiu (a) algum Masterchef. Portanto, vamos nos limitar a aspectos mais simbólicos (poéticos?) da temática.

O nome do chef Marco Pierre White não apenas parece resumir uma aliança da Primeira Guerra Mundial. Também singulariza um indivíduo inglês notável na cozinha – e notabilizado além dela.

Aos 32 anos, White foi o mais jovem a receber três estrelas Michelin. Isso equivale a ganhar três Copas do Mundo (mas é bem menos interessante). Também é tido como o primeiro chef celebridade, e aparentemente já fez Gordon Ramsay chorar. Nada disso nos interessa muito.

O que realmente cativa na figura de Marco Pierre White é, primeiro, o simbolismo de sua trajetória; segundo, ouvi-lo falar.

Porque este inglês alto, cabeludo e revoltadinho abandonou suas três estrelas Michelin e se aposentou. Cansado de “ser avaliado por pessoas que entendem menos que eu” e indisposto a manter um restaurante apenas com seu nome – isto é, sem participar ativamente das tarefas diárias –, White, até então um rockstar de dólmã, decidiu largar a maratona de trabalho intenso que o levara ao topo. Ele se aposentou em 1999, aos 39 anos.

De origem operária em Leeds, Marco Pierre White se mudou para Londres aos 16 anos – sem dinheiro nem projeção. Lá, trabalhou sob a tutela de Pierre Koffman, Raymond Blanc e Nico Ladenis (a honestidade intelectual nos obriga a apontar que esses nomes não nos indicam absolutamente nada).

Seis anos depois, já tinha o próprio restaurante – e a primeira estrela Michelin. Com o tempo, minado por cigarro, álcool e falta de sono, o jovem chef construiu sua imagem de intenso, explosivo e errático – um enfant terrible –, traços ocultos hoje.

Por exemplo, aqui, emburrado com uma jornalista, White ainda não domina seus poderes comunicativos. Fica evidente como – hoje – ele contornaria a situação desconfortável com a elegância assertiva pela qual é reconhecido atualmente.

Uma síntese de seu magnetismo pode ser verificada quando ele cortou cebolas sem abandonar o contato visual com os participantes do Masterchef Austrália. Precisão técnica milimétrica, olhar intenso sobre os óculos, oratória impecável, lição clara. Outra, nessa vulnerável entrevista em um talk show irlandês.

Afinal, Marco Pierre White intimida. O sujeito é alto e dispõe de compleição robusta e de voz firme. Suas frases intervaladas (e, pelo contexto, muitas vezes acompanhadas de uma faca…) o transformam numa mistura de Hannibal Lecter com um cobrador de dívidas eslavo.

É interessantíssimo, praticamente viciante, vê-lo falar. Talvez nada deixe isso mais evidente do que seu Q&A na Oxford Union: White narra a própria vida com um raciocínio claríssimo, uma capacidade assustadora de articulação. Ele soa como se lesse um livro pronto. Essas sim, características que admiramos em qualquer um.

Cozinhar deve ser prazeroso; se for um trabalho, peça comida”. Depois de fechar um contrato milionário com a Knorr, Marco Pierre White administra restaurantes e pubs em seu nome. Sua autobiografia, O Diabo na Cozinha, foi traduzida em Portugal.

Baú: Iris Murdoch

Extraído da edição 63 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente.

A escrita literária é uma arte, um aspecto de uma forma de arte. Pode ser modesta ou grandiosa, mas, se é literatura, tem uma intenção artística – sua linguagem é usada de uma maneira particularmente elaborada em relação ao “trabalho”, longo ou curto, do qual compõe uma parte. Então não há somente um estilo literário ou o estilo literário ideal, embora, claro, haja escrita boa e ruim. (…) Modos literários são bastante naturais a nós, bem próximos da vida ordinária e da maneira com que vivemos como seres reflexivos. Nem toda literatura é ficção, mas a maior parte dela é ou envolve ficção, invenção, máscaras, papéis, faz de conta, imaginação e contação de história. Quando voltamos para casa e “contamos nosso dia”, estamos moldando um material artisticamente no formato de uma história. (Essas histórias costumam ser engraçadas, por sinal.) De certo modo, nós, como usuários da palavra, existimos em uma atmosfera literária; vivemos e respiramos literatura; somos todos artistas literários; estamos constantemente empregando linguagem para formatar de modo interessante nossa experiência – que talvez originalmente fosse maçante ou incoerente. Quão longe essa formatação envolve ofensas à verdade é um problema que qualquer artista deve enfrentar. Um motivo profundo para fazer literatura ou arte de qualquer tipo é o desejo de enfrentar a falta de forma do mundo e animar-se por construir formas a partir do que seria apenas uma massa de pedregulho sem sentido.

Iris Murdoch, 1977 [extraído da newsletter semanal do BrainPickings].