16 anos: continuar também é chegar

Editorial extraído da edição de agosto de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Em 2 de setembro de 2010, o RelevO começou a circular. Fomos até a gráfica da Tribuna do Paraná, em Curitiba, buscar mil exemplares de um jornal de oito páginas, impresso em preto e branco porque era o que cabia no orçamento. Havia erros, improviso, certa ingenuidade e uma ideia bastante simples: fazer aquela edição existir para, no mês seguinte, tentar fazer outra.

Dezesseis anos depois, talvez seja curioso admitir que o princípio continua praticamente o mesmo. Mudaram as proporções. O jornal cresceu, chegou a outros lugares, reuniu colaboradores, leitores, assinantes, amigos e pessoas que aparecem durante algum tempo e depois seguem seus rumos. Somos uma espécie de armazém no caminho. Houve edições especiais, projetos que deram certo, outros que deram muito prejuízo, períodos de algum conforto e meses em que colocar o jornal na rua pareceu uma tarefa desproporcionalmente difícil.

Manter uma (1) publicação (2) impressa (3) dedicada à literatura em circulação durante 16 anos não é exatamente uma história de sucesso no sentido em que aprendemos a reconhecer o sucesso. Não houve uma linha ascendente. Alguns “dramas”, inclusive, são repetidos. Talvez seja justamente a ausência de uma história de sucesso que um aniversário como este obrigue a perceber.

Às vezes, olhamos para o RelevO e pensamos no que ainda falta. Aumentar a distribuição. Conseguir mais assinantes. Encontrar parceiros que compreendam o projeto sem querer transformá-lo em outra coisa. Pagar melhor quem trabalha conosco. Fazer com que o jornal tenha um pouco mais de tranquilidade para existir. Há sempre um próximo degrau e, quando chegamos a ele, descobrimos outro. Mas 16 anos também permitem olhar na direção contrária.

São quase 200 vezes em que alguém fechou um arquivo, uma gráfica imprimiu algumas milhares de folhas, malotes foram montados e um jornal voltou a circular em cafés, livrarias, bibliotecas, universidades, casas e caixas de correio. Parece pouco quando visto de perto. Visto em conjunto, talvez seja o bastante.

Nesse percurso, o RelevO também começou a perceber que não precisava permanecer exatamente dentro das fronteiras que imaginamos para ele em 2010. A literatura continua sendo nossa desculpa, o papel continua sendo nosso objeto preferido e o jornal permanece no centro de tudo. Mas, de algum modo, começamos a abrir algumas portas.

Uma delas nos levou ao cinema. No primeiro semestre, fizemos Colaboradores. Mais importante que anunciar datas, sessões ou qualquer outra notícia sobre o filme é registrar o que ele representa neste momento: a possibilidade de o RelevO experimentar outra linguagem sem precisar abandonar aquilo que é. Fazer um filme trouxe uma sensação estranhamente parecida com a de fazer aquele primeiro jornal. Não sabíamos exatamente o tamanho daquilo em que estávamos nos metendo. Houve aprendizado, dúvida, ansiedade, trabalho demais para gerar alguns minutos de tela e a participação de muita gente para transformar uma ideia em algo concreto. “A gente trabalha o ano inteiro / por um momento de sonho / pra fazer a fantasia (…)”.

Talvez por isso Colaboradores tenha se tornado importante para nós, independentemente do caminho que o filme venha a percorrer. Ele abriu uma possibilidade. Depois de tanto tempo publicando textos de outras pessoas, experimentamos construir uma obra coletivamente em outra linguagem. Há uma dificuldade particular em fazer projetos independentes durarem. A comemoração quase nunca chega sozinha. Ela costuma trazer junto uma planilha, uma conta, uma incerteza, alguma coisa atrasada e a pergunta inevitável sobre como continuar. Talvez por isso os 16 anos do RelevO não nos condicionem a uma celebração grandiosa.

Em 2010, queríamos imprimir novamente no mês seguinte.

Em 2026, continuamos querendo.

Mas agora queremos também descobrir até onde um jornal pode chegar sem deixar de ser um jornal. Um filme talvez não seja parte dessa resposta. Outros projetos poderão ser novas formas de errarmos. Algumas experiências funcionarão, outras provavelmente não. Faz parte.

De tempos em tempos, voltamos a uma frase de Walt Whitman: “Quer dizer que eu me contradigo? Pois bem, então me contradigo. Eu sou vasto, eu abrigo multidões”. Um jornal também pode carregar suas contradições.

Seguiremos com os nossos erros. No mês seguinte, tentaremos de novo.

Uma boa leitura a todos.