Hipertexto: paga que dá tempo

Extraído da edição 66 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.

O RelevO começará a pagar seus escritores e escritoras a partir da edição de setembro. 135 edições depois, mais de 2000 pessoas publicadas, a uma edição de completar dez anos de existência, circulando mensalmente e de modo ininterrupto, finalmente começaremos a pagar os autores e autoras que publicarem no RelevO.

Não é uma remuneração de porte: R$ 60 por publicação, o equivalente a um ano de assinatura do jornal ou a uma boa oferta no Ifood. Contudo, esse é um passo importante na direção de valorizarmos mais a produção intelectual e fugirmos do regime de gratuidade, colaboracionismo e desvalorização da categoria. Passamos quase dez anos tendo o escritor, aquele que dá sentido ao nosso trabalho, como um colaborador, mandando muitos e-mails de negativas de publicação sem sequer oferecermos algo quando publicamos.

Agora vamos pagar quem publica conosco. Não vamos ter qualquer direito sobre o material do autor – vamos apenas pagar pelo direito de usá-lo – e não vamos aceitamos mais chamar quem publica conosco de colaborador.

Nossos passos sempre foram lentos e medidos. Acredito que a nossa estrutura conseguirá absorver os novos custos, em torno de 600 reais a mais por edição, principalmente por conhecermos tão bem quem nos financia e acredita em nosso projeto editorial. É um risco em tempos de crise sanitária e do setor cultural? Certamente. Mas tenha certeza de que para mim sempre foi difícil dormir sob um negócio que vem crescendo aos poucos e que sempre dependeu de quem escreve. É impossível não pensar no absurdo que é o negócio de escrever no Brasil. A lógica compulsória da gratuidade é terrível.

(E, bem, há projetos e projetos. O RelevO não remunerava antes porque realmente não conseguia: temos contas públicas na página 2 a comprovar isso, mas sei que tá cheio de tubarão do meio cultural que se especializa em precarizar o capital intelectual e constrói patrimônio assim, arregimentando colaboradores que trabalham de graça. Lembrando que não somos bancados por ninguém além de nossos próprios assinantes.)

Entramos, portanto, para a categoria das instituições que remuneram mal todo o seu capital intelectual envolvido. De acordo com nosso crescimento, vamos melhorar as remunerações. Obrigado a todos que nos proporcionaram isso tudo. Não teremos festa de comemoração, mas sou imensamente grato por estarmos aqui, vivos e contemporâneos. Considero este o passo mais importante da nossa trajetória de dez anos. Estou muito feliz mesmo.

Em tempo: quem quiser publicar conosco ou nos assinar pode entrar em contato respondendo a este e-mail. Mesmo com o site fora do ar, ainda temos acesso aos mais variados meios de pagamento.

por Daniel Zanella