Hipertexto: polvos

Extraído da edição 75 da Enclave, a newsletter do Jornal RelevO. A Enclave, cujo arquivo inteiro está aqui, pode ser assinada gratuitamente. O RelevO pode ser assinado aqui.


I’d like to be under the sea
In an octopus’ garden in the shade

Quando alguém recomenda um documentário da Netflix, torcemos o nariz. Não é preconceito, é heurística defensiva. A Enclave abriu uma exceção para Professor Polvo (2020) por gostar muito de polvos, embora nunca tenha encostado em um (muito menos comido).

Polvos são animais absolutamente fantásticos. Adaptam-se de maneira inacreditável, pois mudam de forma e de cor; regeneram-se; produzem e soltam tinta; movem-se com elegância (nadando ou caminhando); são discretos e mortais como um espião em plena guerra e dispõem de uma capacidade assustadora de aprendizado.

Em razão de todos esses atributos, nossos cefalópodes favoritos protagonizam fugas extraordinárias: basta fuçar o Youtube. Como o polvo Houdini; o que vai do balde à água; o que sai da garrafa de cerveja e o que surpreendeu os pesquisadores (olha só, existe uma Octolab TV…). Também podemos ver um polvo – a princípio – sonhando.

Tragicamente, polvos vivem muito pouco: machos sobrevivem poucos meses após o acasalamento; fêmeas morrem após os ovos chocarem – são dezenas de milhares, em um processo que leva meses, durante o qual ela se concentra em protegê-los e não se alimenta. Se o conhecimento passasse entre gerações, quem sabe hoje a humanidade louvasse apenas Cthulhu.

Enfim, o documentário. Chegamos atrasados a ele, mas isso não nos incomoda. Professor Polvo, afinal, acompanha um sujeito que ganha a confiança de um polvo, um ser notavelmente antissocial. Melancólico – e, agora, motivado –, Craig Foster passa a mergulhar diariamente na Baía Falsa, próximo à Cidade do Cabo, África do Sul, para visitar a nova amiga.

Uma resenha positiva com a qual compactuamos pode ser lida no Plano Crítico (e uma de espantosa má vontade, no Papo de Cinema). Da primeira, extrairemos este parágrafo:

A impressão que temos ao assistir Professor Polvo é a de que estamos mergulhando junto com ele. Sem cair no sensacionalismo típico das produções documentais voltadas ao desvendar da vida marinha e suas espécies, o documentário é pura poesia e se aproxima muito do trabalho realizado em Oceanos. Não há momentos frenéticos, tampouco ferrões musicais para acompanhar a passagem dos tubarões que ocasionalmente aparecem para os seus rituais de caça. Aqui, a beleza está na observação do polvo, suas estratégias de caça, numa narrativa que busca acompanhar o seu processo ainda ‘minúsculo’ até a fase adulta, com o desfecho de sua vida por causas naturais. Há momentos de tensão, principalmente quando uma espécie de tubarão decide escolher o tentacular animal como parte de sua dieta, mas não é preciso dizer que o nosso ‘protagonista’ sai vivo da situação e se permite ser parte da encenação desta produção audiovisual que é um primor em seus requisitos estéticos.

Entre uma ou outra pieguice (nada abusivo), contemplamos um documentário de imagens belíssimas e cenas tão impactantes que, não tivessem sido capturadas, poderiam soar como história de pescador (e não mergulhador). Além disso, o protagonista é bastante sóbrio. Isto é, o humano. Não posso falar pelo polvo.

O fato de Foster ser diretor de cinema (antes mesmo deste documentário, cuja direção nem é dele, mas de Pippa Ehrlich e James Reed) certamente o ajudou a manejar a câmera em contextos extraordinários. Aliás, ele começou a mergulhar na região em 2010: Professor Polvo levou dez anos para ficar pronto.

Eis um filme, enfim, capaz de aquecer corações machucados e despertar cabeças cansadas.

Aliás, a criatura esplêndida na imagem de abertura deste texto (alta resolução aqui) é um polvo-lençol. Neste vídeo podemos ver um em movimento: apesar da ausência de trilha sonora, ele parece dançar uma valsa de Strauss.