Priscila Branco: Um jornal para o futuro

Editorial extraído da edição de fevereiro de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Impossível começar esta coluna sem comentar as interessantíssimas colagens de Bobby Baq, que ornaram a capa e as páginas da edição de janeiro. Ao mesclar partes do corpo humano com animais, pedras ou plantas, o artista nos convida a olhar a natureza e o ser humano como uma coisa só, reflexão muito importante em tempos de aquecimento global, barbárie capitalista e desastres climáticos. A literatura e a arte podem não conseguir salvar o mundo do cataclisma ou de um iminente apocalipse zumbi, mas certamente conseguem nos incitar a ter responsabilidades individuais e coletivas perante a situação mundial. Os bichos, as flores e as rochas, em suas colagens, também participam do beijo, da meditação e do trabalho, elementos da vida em sociedade. Nesse sentido, a natureza se insere no que chamamos de racionalidade ou construção meramente humana, mesmo que arrogantemente achemos que não.

Aproveitando a deixa desse olhar crítico para o mundo ao nosso redor, a curadoria do RelevO reuniu alguns textos que pensam a criação da memória em suas múltiplas formas, temática importante para a literatura oral e escrita. No conto “Entusiasmo”, de Bruno Greggio, termo que etimologicamente significa a existência de um deus dentro de si, uma entidade estranha (ora considerada um parasita, ora uma divindade) se apossa do corpo humano e vai, aos poucos, eliminando os rastros da História. No outro conto, “Sossego da vovó”, uma tal de Sra. Minerva (eu ia reclamar do uso do pseudônimo; depois fiquei pensando que seria hipócrita, porque eu mesma já publiquei usando uma identidade inventada) apresenta a ideia de memória como uma decisão. E o poema de Hélio Ferreira, “rio guarauninha”, nos provoca a pensar a transformação de um rio que nos atravessa desde a infância, quando começamos a reconhecer os arredores, registrar e memoriar.

A memória é um tema fundamental da literatura porque, no fundo, fala sobre a experiência vivida ao mesmo tempo em que fala sobre uma vida inventada, gerando uma confusão muito doida em quem decide escutar essas histórias. Lembrar é já narrar. Isso quer dizer que não existem fatos? De forma alguma, senão cairíamos numa relatividade pós-moderna sem sentido, numa anti-história. Mas a interpretação desses fatos, ou o que se decide lembrar e guardar, é fruto de escolhas.

Seguindo o fio da meada sobre memória, e saindo dos textos para o real, achei intrigante a pergunta de um leitor ao editor do RelevO no Instagram: “após o término da leitura, qual o melhor destino para um jornal?”. Poderíamos listar diversas possibilidades: forrar o chão para um cachorrinho fazer suas necessidades, amassar em forma de bola para fazer embaixadinhas ou até mesmo queimar para defumar a casa contra espíritos agourentos. Fico com outra saída, mais política e pungente: gerar arquivo.

Um jornal como o RelevO, para além de comunicar, dar visibilidade e abrir espaços para variadas vozes, faz parte da construção de uma memória coletiva. Como já diria Derrida, em seu livro Mal de arquivo, existe uma pulsão de morte tentando fazer com que as memórias se dissipem (ou como já diria eu mesma interpretando Derrida, tá? Pode ser que não tenha sido bem assim que o homem quis dizer). Quando você, querido leitor, decide guardar e preservar o jornal, está contribuindo para a memória de nosso país, que sabemos ter sofrido sucessivos apagões ao longo da história. Imagina só, daqui a centenas de anos, alguém pode encontrar uma edição do RelevO nos escombros da sua casa, inundada pelo aumento do nível do mar. Um robô, chamado Lulu, amassará o jornal e o engolirá, inspirado pela Semana de Arte Moderna de 1922. Infelizmente, a ideia dele não é deglutir a memória, mas picotar o papel com as lâminas da sua garganta. Uma pena, mas acho que precisamos tentar, não é mesmo?