Priscila Branco: Um pequeno tratado contra a morte do autor

Editorial extraído da edição de abril de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Como quem não quer nada, fiz um breve apelo ao editorial deste Jornal na minha coluna do mês passado: sugeri a inclusão de minibiografia das pessoas publicadas no RelevO. Volto ao tema agora, pois ele merece ser tratado com mais seriedade. Apesar de parecer um mero detalhe, essa escolha pode gerar diferentes impactos a curto e longo prazo, e é sobre isso que vamos debater hoje neste ombudsmandato (foi pra isso que me colocaram aqui, não é mesmo? Prepara a defesa aí, editor!).
Incluir o estado de onde a pessoa é e/ou vive, sua idade e seu contato (vejam que não estou pedindo para narrarmos grandes trajetórias dos escritores, mas apenas o básico, para termos pontos de rastreio ou dados e estatísticas) pode contribuir para gerar arquivo para futuras pesquisas e para uma reflexão sobre como fazer uma curadoria mais diversa e plural.

Há alguns anos, enquanto estudava antologias organizadas por mulheres nos anos 1970 e 80, encontrei uma poeta chamada Alsina Alves de Lima. Como nunca havia ouvido falar dela e me encantei com os seus poemas publicados em Palavra de mulher (antologia organizada por Maria de Lourdes Hortas, em 1979), fiquei obcecada em rastrear o seu livro, que foi citado na pequena biografia da antologia. Por meio dessa minibio, consegui adquirir outras coletâneas com alguns de seus poemas, uma organizada pelo Diretório Estadual de Estudantes do Rio Grande do Sul, estado de onde também era a autora. A partir daí, escrevi um artigo sobre Alsina. Se não fossem as informações compartilhadas nas biografias, jamais teria conseguido seguir as pistas da memória dessa escritora. Nunca encontrei o seu livro, mas tenho certeza de que ele está em algum lugar do Brasil, na biblioteca de alguém.

Esse é apenas o primeiro ponto, o de fornecer um arquivo circular, que lutará talvez por centenas de anos para sobreviver e preservar a memória de múltiplos escritores que passaram pelo jornal. A segunda razão é termos um mapa de diversidade regional dos autores publicados. Apesar de o RelevO ser um periódico sediado em Curitiba, no Paraná, ele não pretende ser uma publicação apenas dessa cidade. Ao contrário, já falamos aqui sobre a importância de a distribuição alcançar todas as regiões do Brasil, e como isso é incrível. Portanto, justamente quando observamos de forma explícita de onde vêm as pessoas que são publicadas, conseguimos avaliar numericamente se há desigualdades na curadoria e na quantidade de textos recebidos para serem analisados pelo editorial. Se há, ainda, uma maioria de trabalhos advindos do Paraná ou do Sudeste, por exemplo, talvez seja a hora de buscar uma curadoria mais ativa. Nem me refiro a fazer necessariamente convites a escritores, mas a abrir chamadas voltadas para regiões ou estados específicos que são menos contemplados por múltiplas razões. Enfim, são muitas as táticas que podem ser usadas para mudar tal cenário, mas para isso precisamos de dados para análise, inclusive para que os próprios leitores possam perceber as desigualdades e ter a possibilidade de diálogo sobre os problemas observados com o Jornal.

Sei que Barthes falou muito sobre a morte do autor, e fomos severamente influenciados por isso. Mas a literatura não é algo que flutua no mundo, ao contrário: ela tem raízes profundas na terra, e cada poema, conto ou crônica é feito por corpos vivíssimos no momento da escrita. Há muitos elementos que devem ser levados em consideração quando decidimos publicar um texto num periódico literário que hoje ocupa um lugar fundamental de difusão da literatura em nosso país. Por isso, acredito que uma breve biografia de cada pessoa publicada neste periódico contribuiria muito para uma história literária mais democrática.