Editorial extraído da edição de julho de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
Depois de um tempo, o assinante do RelevO acaba descobrindo um segredo. Demora um pouco, mas acontece: não gostamos de confirmar expectativas. Dia desses, Edson Aran, jornalista, escritor e um dos principais editores de revistas do país, alegou que uma publicação precisa entregar ao leitor não só aquilo que ele espera encontrar, mas também o que ele jamais esperava encontrar. Parece simples. Não é.
Certamente, quem assina um jornal de literatura espera bons textos, autores interessantes, algum humor, talvez uma provocação. Isso é o combinado. Contudo, se uma edição apenas confirma as expectativas, ela termina de ser lida no instante em que é fechada, como se fosse aquele hábito de tomar o mesmo drink no mesmo estabelecimento há anos — o que não é de todo ruim.
Esse talvez seja o maior privilégio do papel. Diferentemente das plataformas digitais, que trabalham para devolver ao leitor versões cada vez mais rasas de seus próprios interesses, um jornal pode colocar lado a lado um clássico e um estreante, um poema e um ensaio, uma crônica e uma piada de gosto discutível. Não porque um algoritmo concluiu que aquilo combina, mas porque um editor resolveu apostar na convivência entre eles, ou até mesmo (involuntariamente talvez) selecionou uma série de textos que, impressos, parecem contar uma narrativa conjunta.
Há outra vantagem, talvez menos confortável. Um jornal não precisa funcionar como um espelho. A literatura não precisa sempre concordar conosco. Às vezes irrita, às vezes desafia, às vezes faz o leitor pensar: “quem foi o irresponsável que resolveu publicar isso?”. Esperamos que, em algumas ocasiões, a resposta seja: nós. Vivemos um tempo em que quase tudo foi organizado para reduzir atritos. As plataformas aprendem nossos gostos, escondem o que provavelmente rejeitaríamos e alimentam a agradável sensação de que estamos certos sobre tudo. É um serviço eficiente… e entediante.
O RelevO prefere correr o risco contrário. Em vez de servir apenas como um viés de confirmação impresso, tenta produzir pequenas diferenças e associações. Não por espírito de contradição, mas porque a literatura raramente cresce em terreno perfeitamente adubado pelas certezas. Um texto que desagrada também pode ampliar repertório. Um autor de quem você discorda pode escrever uma frase que ficará na sua cabeça por semanas. E uma edição da qual você gostou só 78.4% (numa métrica totalmente quantificável, portanto infalível, afinal essa é a correlação do mundo, não?) talvez tenha feito mais por você que aquela da qual gostou 100% (★★★★★ na avaliação do app).
É nesse espaço de liberdade que o RelevO existe. Cada edição tenta honrar aquilo que o leitor veio buscar, mas reserva algumas páginas para fazê-lo encontrar o que ainda não sabia que queria ler. E, de vez em quando, aquilo que ele tinha absoluta convicção de que não queria ler. Se você já percebeu isso, está tudo certo. Descobriu o nosso segredo. O restante do trabalho consiste em escondê-lo novamente no mês seguinte.
Uma boa leitura a todos.
