Editorial extraído da edição de abril de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.
Sabemos: pedir dinheiro é uma danação. Há quase 16 anos, a última semana do mês é um filme repetido na sede do RelevO, com o editor-também-responsável-pelo-financeiro espremendo planilhas e prospectando novos assinantes e anunciantes de modo mais insistente que o habitual. Acontece que, entre os dias 23 e 30, temos que pagar a Santíssima Trindade de um projeto cultural impresso: gráfica, Correios e aluguel.
De fato, ser contemporâneo de um jornal de papel e literatura é lidar com o fluxo instável da vida, já que nem sempre (ou quase nunca) a receita segue calendário fixo. Custos seguem independentemente de feriados, mas um ponto permanece em aberto: e o dia em que os recursos suficientes não aparecerem? O projeto RelevO continua dependendo de três pagamentos com data definida para permanecer em circulação. A operação não pausa. O impresso exige fechamento, produção e distribuição. E a pergunta subsequente não é nova, apenas costuma ser adiada: o que sustenta o projeto quando a entrada falha?
A série da Globoplay Andar na Pedra — A História do Raimundos, que, segundo a Globoplay, narra “A história da banda contada pelos próprios envolvidos, lembrando toda a carreira e escolhas pessoais ao longo de mais de 30 anos. Uma história de reconexão, vitória e aprendizado”, traz um interessante depoimento de um dos integrantes da equipe de produção: “duas coisas acabam com uma banda: não ter nenhum dinheiro ou ter muito dinheiro”.
Não precisamos nem dizer em qual categoria estamos da dicotomia, nem que aprendemos pouco em pouco mais de década e meia. Há tempos, o RelevO procura um investidor. Melhor, um mecenas, que entenda o modelo peculiar que aplicamos e aceite a lógica identitária do nosso impresso. Confessamos que gostaríamos de passar pelo problema de ter de lidar com as agruras do dinheiro excedente. E o que nos impede de ter dinheiro, além da ausência de sobrenome de herdeiro, de ter um produto fora das lógicas lucrativas atuais, de não conhecer mecenas algum ou do nosso espírito um tanto turrão?
Ainda sobre confessionários, sabemos que temos um potencial repelente fortíssimo: não vendemos espaços editoriais em troca de favores ou recompensas — uma prática recorrente no meio —, não aceitamos ingerência no conteúdo que publicamos, não captamos o ouro de tolo das bets e jogamos o jogo das redes sociais ao nosso modo, o que significa, por exemplo, não impulsionar conteúdo para fomentar bilionários insuportáveis nem produzir conteúdos caça-cliques que aumentam engajamento. Também não sensualizamos. Digamos que não nos ajudamos.
Por outro lado, garantimos ao leitor uma experiência livre de amarras e que representa o nosso espírito dentro das circunstâncias em que estamos inseridos: fazemos um jornal do jeito que queremos, conscientes do papel que os veículos têm como propulsores de carreiras. Por isso, sempre ficamos felizes quando surgem novos periódicos e tristes quando acabam, porque chega a ser até ingênuo olhar tal dinâmica por um viés da concorrência.
Um impresso reúne um grupo de pessoas que movimentam ideias. Se essas ideias param de circular, as pessoas continuam com suas ideias, mas com uma tendência à dispersão ou em um lugar que pode-vir-a-ser. Entendemos que manter um impresso é um exercício contínuo. Não apenas de recursos, mas de tempo, de prioridades e de insistência. Existe uma rotina que não aparece para quem lê: fechar edição, negociar prazos e dívidas, lidar com fornecedores, distribuir exemplares, acompanhar retornos. Tudo isso acontece enquanto a vida segue em paralelo.
Manter um impresso é também sustentar um espaço de encontro. Ainda que silencioso, ele conecta pessoas que talvez nunca se encontrem. Um texto publicado atravessa cidades, chega em mãos diferentes, provoca leituras distintas. Esse movimento, mesmo quando discreto, constrói alguma permanência. Por isso, quando um periódico deixa de existir, não se perde apenas um produto. Perde-se um ponto de contato, um lugar onde ideias encontravam forma e circulação. E quando ele permanece, mesmo com limitações, o que se sustenta não é só o papel impresso, e sim a possível continuidade de um pensamento coletivo apoiado por quem se incomoda com a tendência de as coisas simplesmente acabarem.
Na edição de março, a ombudsman Priscila Branco questionou a ausência de bios nos textos publicados pelo RelevO. De fato, por uma escolha editorial antiga, não publicamos bios, inclusive desestimulamos os autores a enviá-las. No nosso sistema de blind review, o Conselho Editorial lê os materiais enviados sem o conhecimento do nome à frente do texto. Nunca tivemos uma preocupação com representatividade geográfica por entender que o texto precisa se sustentar, a partir dos nossos critérios, independentemente da origem do autor. Sabemos que tal raciocínio tem seus pontos cegos, já que, por exemplo, consideramos gênero, tentando, assim, equiparar a publicação de homens e mulheres. A ombudsman retorna à discussão na coluna de abril enquanto debatemos internamente a questão.
Assim, entre apelos de auxílio em nossa subsistência e questões editoriais que podem modificar comportamentos repetidos e talvez cansados de nosso modus operandi, seguimos no tabuleiro: fechar mais uma edição, sustentar um gesto. Uma boa leitura a todos.
