Priscila Branco: Chacoalhando a bússola do Brasil

Editorial extraído da edição de março de 2026 do Jornal RelevO, periódico mensal impresso. O RelevO pode ser assinado aqui. Nosso arquivo – com todas as edições – está disponível neste link. Para conferir todas as colunas de nossos editoriais, clique aqui.


Sabe a História da Literatura Brasileira? Aquela que costuma ser canonizada e considerada o único caminho possível de leitura de nosso país? Pois é, essa mesma. Ela é apenas uma entre múltiplas histórias, mas ocupa a maior parte dos compêndios literários usados em escolas e universidades. Nasce de um lugar específico (o Sudeste) e carrega traços masculinos, brancos e heterossexuais.

Enquanto isso, à margem desse centro inventado por quem detém algum tipo de poder, sempre houve movimentos e pessoas criando outras narrativas, resistindo ao senso comum e ao próprio fluxo do capitalismo. Nos anos 1970 e 1980, quando pensamos na literatura produzida no período, lembramos da Geração Mimeógrafo, uma galera que escrevia principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nada contra esses poetas, viu? Sou fã de carteirinha de Ana Cristina Cesar e acho a antologia 26 poetas hoje, organizada pela Heloisa Teixeira em 1976, interessantíssima. Porém, pouco se fala sobre o movimento editorial e cultural Edições Pirata, que abalou o circuito independente do país no final dos anos 1970 e início dos 1980, partindo de Pernambuco. Com o desejo de publicar de forma independente, sobretudo autores do Nordeste, a Pirata colocou no mundo por volta de 300 livros, por meio de vaquinhas (e a gente achando que o financiamento coletivo foi inventado pela internet) e lançamentos coletivos (já sabemos de onde a Flip tirou algumas ideias).

Outros exemplos são a antologia Palavra de mulher, organizada por Maria de Lourdes Hortas, em 1979, com 45 poetas mulheres do país todo, principalmente nordestinas, ou o movimento Poetas na Praça, que reunia, no final dos anos 1970, muitos poetas em torno da Praça da Piedade, em Salvador. Além desses, existem muitos movimentos, coletivos e organizações literárias que vão criando múltiplas Histórias da Literatura Brasileira.

Ainda hoje é fundamental que escrevamos outras histórias. E é impressionante o fato de o RelevO ter distribuição em todas as regiões do país, sendo um jornal independente, e alcançar quase todos os estados brasileiros, quando pensamos na profunda desigualdade de oportunidades que existe entre o Norte e o Sudeste. Sim, os Correios têm, indubitavelmente, atrapalhado e atrasado a chegada do jornal a muitos leitores, como temos visto em algumas cartas e reclamações. Enquanto escrevo este texto, meu jornal físico de fevereiro ainda não chegou aqui em casa; fiz a leitura pela versão digital. Mas, afinal, por que a pressa? Não estamos falando de um jornal pronto para o consumo de notícias, e sim de circulação de literatura viva, de oportunidade para autores contemporâneos, de construção de memória, de independência política e de afeto entre escritores, editores e leitores. O tempo da literatura e da leitura não deve ser o mesmo do capital!

É emocionante ler os relatos sobre pontos de distribuição de todo o país. Por exemplo, na edição de janeiro, tivemos a carta do Nostalgia Sebo e Livraria, de Rondônia, ou leitores encontrando o jornal em bibliotecas públicas e livrarias de forma gratuita. Também é bonito demais quando descobrimos novos autores ao acompanhar a curadoria de textos de cada edição. Falando nisso, fica como sugestão pro editor: que tal incluir uma minibio de cada autor publicado, com algumas informações básicas? Estado ou cidade de origem, ano de nascimento, rede social. Vamos facilitar a vida dos pesquisadores futuros, editorial? Essa sugestão não trata apenas de um detalhe, mas de rastros fundamentais para a construção de arquivo (como comentei na coluna da edição passada).

Termino este texto convocando você, leitor, a espalhar ainda mais o RelevO por aí: fale dele em rodas de amigos, compartilhe as publicações no seu Instagram, dê o jornal para alguém legal. Fazer as iniciativas literárias independentes circularem pelo país depende um pouco de todos nós, ainda mais quando pensamos em formas de ler e escrever coletivas e muito, muito humanas.